segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Padre, beatas, musa, água benta e chips

Não rezo há muitos anos. Venho equilibrando pecados nesses ombros canhestros, sinto um calafrio dos diabos ao passar perto de cultos, igrejas e megaeventos ecumênicos, com pessoas berrando e gritando e louvando - o eterno sorrisão nos grandes lábios! -, tudo em nome de Cristo, Alá, Jeová, Javé. Sei que estou condenado, ai de mim, ao último dos infernos do velho Dante. Desde muito tempo, encaro qualquer tipo de religião com seis pés atrás – sete não, que é número sagrado. O mundo, afinal, não seria menos caótico sem a Conspiração da Pólvora, sem as Cruzadas, sem a partição na Índia, sem a confusão de palestinos e israelenses, sem o Estado Islâmico derrubando estátuas, sem judeus ultraortodoxos esfaqueando homossexuais no meio da rua? Não há dúvidas. Mesmo assim, encaro numa terça-feira a "suspensão da descrença", de que falava o grande Coleridge, e abandono todo esse preconceito, ainda que a situação se oponha aos meus sentimentos, para testemunhar, pela primeira vez, o lançamento de um livro do padre-cantor Marcelo Rossi.

Badalados romancistas brasileiros, como, por exemplo, Milton Hatoum e Cristovão Tezza, chegam a passar até duas horas em concorridos eventos literários, posando para fotos e autografando livros - uma maratona louvável. Mas nada disso se compara à assombrosa maratona protagonizada pelo padre Marcelo Rossi, aqui em Maringá: o lançamento de seu livro tem oito horas de duração, das 14h às 22h – com direito a pausas estratégicas para as refeições –, e o público esperado, isso antes do evento, era de 5 mil leitores fiéis, segundo os organizadores.

Mal chego no shopping Catuaí, sou surpreendido pela multidão enfileirada no estacionamento descoberto. Camisas de Jesus, torós de lágrimas, crucifixos e litros de água – benta? Velhas, muitas velhas. Velhas rezando terço. Velhas enfrentando filas de até cinco horas. Velhas desafinando o punhado de canções religiosas. Velhas com tubo de oxigênio. Velhas zanzando em cadeiras de rodas. Velhas exigindo filas prioritárias – com qual fim, se todas são velhas? Nem Peppino di Capri e Toto Cutugno, juntos num bailão com entrada grátis, atrairiam tantas velhas.

Padre falante

Para ganhar autógrafos, fotos e bênção do padre-cantor, os maringaenses Antonio de Souza, 57, e Jade de Souza, 63, chegaram às oito horas da manhã no Catuaí. Prevendo a multidão, trouxeram uma cadeira de plástico e outra de madeira – aguarda melhor quem espera sentado. Por nada no mundo perderiam a chance de conhecer o padre- cantor. "Há quinze anos, ele me revelou Deus pelo rádio", lembra Jade. "Eu tava passando roupa e ouvindo o programa de rádio. Era meio de semana, bem de manhã. De repente, o padre começou a comentar o caso de uma pessoa deprimida e deu conselhos pra que melhorasse a vida. Naquela mesma hora, meu corpo ficou todo arrepiado: senti que ele falava comigo", comenta, emocionada.

Tomara que ela não chore. É estranho vampirizar desconhecidos aos prantos. Após sentir o padre dialogando com ela, Jade, que era "católica ausente", passou a bater cartão numa igreja maringaense. "O padre salvou a minha vida", comenta. Visivelmente felizes e cansados, eles passaram 9 horas na fila. Às três e pouco da tarde, estão prontos para ir embora. "Pena que é tudo muito rápido. Gostaria de dizer o quanto ele é importante pra gente."

Vagando pelo Catuaí, encontro seis senhoras serelepes. Todas voltando do encontro com o padre-cantor. Aos 90 anos, Eponina Leme é a única do grupo que não está cansada. Confortavelmente sentada em sua cadeira de rodas, ela deve causar certa inveja às amigas, todas em pé, carregando bolsas pesadas, chapéus, bonés e garrafas de água. Em vez de levantar cedinho, Eponina chegou à uma da tarde e já foi se metendo na fila – o lugar guardadinho pelas fiéis amigas madrugadoras. "Como fui uma das mais idosas do evento, até ganhei uma lembrancinha do padre, ó", diz a senhorinha, chacoalhando o bracinho esquerdo, ostentando o terço em forma de pulseira.

Com o sol queimando a espera da fé, você escuta mil e um diálogos celestiais. "Deus é tão bom que hoje não choveu, nem tá abafado! Até o sol, olha que beleza!, não tá tão quente", esgoela-se uma tiazinha no meio da fila. Um sujeito grandalhão e barbudo, ao meu lado, não esconde o mau humor.

"Minha sogra não é católica nem evangélica, não tem religião, daí de repente ela encasquetou que queria ver esse padre. Ontem foi um inferno. Fazer o quê? Tive que trazer a velha. Olha aí, ó. Setenta e cinco anos nas costas. Sogra é um horror."

Piquenique do Senhor

Bolo de chocolate. Bolo de milho. Suco de laranja. Vômito de criança? – alguém caminha com um pacote de Fandangos aberto. No estacionamento do shopping, um piquenique de espera. Vou ouvindo uma e outra senhora. Todo mundo comentando que o padre, com sua gloriosa intuição divina, fala diretamente com os ouvintes, por meio de seu monológico programa de rádio. "Ele é iluminado por Deus. Um dia até me descreveu, dizendo bem assim: você, senhora que está aí, de blusinha vermelha, sentada na cozinha e ouvindo o rádio, eu sei dos seus problemas... E não é que ele disse todos os meus problemas e como melhorar de vida?", diz.

Impossível, por aqui, é encontrar gente jovem. Onde as musas maringaenses de decotinhos e shortinhos? Onde a ruivinha de olhinhos lancinantes? Onde as tais suecas feéricas? De longe, bem longe, avisto uma moçoila. Desconfio do Todo-Poderoso. Não será dessas miragens? Troça celestial para zanzar à toa na multidão? Loirinha, um metro e sessenta de pura louvação? Obrigado, Senhor. Afoito, vou abrindo caminho no mar de gente – Moisés, cruzando o mar vermelho, o impávido cajado nas mãos. Depois da longa caminhada, chego finalmente perto dela. Sorte minha, de carne e osso - aleluia! O nome do milagre? Fernanda Félix, 19, aluna de Psicologia da UEM. Boa de prosa, discorre sobre Deus, totens da psicologia, tempestades, Curitiba. Como é bom mulher que se abre.

"Nos dias de hoje é difícil não se apegar em nada. Muitas pessoas superam problemas gigantescos com a fé. O próprio padre Marcelo, que se livrou de uma profunda depressão, é prova disso", vai dizendo. Blusinha laranja, Jesus Cristinho no pescoço e olhinhos verdes – ou seriam azuis? Ai, que dúvida deliciosa.

Na sala de Psicologia, ela diz que quase ninguém acredita em Deus. "A fé está fora de moda", lamenta. Resumo a ela os relatos que andei ouvindo. De que o padre Marcelo Rossi consegue, sabe-se lá como, estabelecer comunicações surpreendentes, detalhando roupas e problemas pessoais dos seus ouvintes. Fiel e fã do padre, ela escancara o sorriso da desconfiança . "Olha, sinceramente eu não acredito nisso. É um blefe dele. Uma estratégia de comunicação", admite. Gostei da Fernanda. Verbos escancarando janelas a desconhecidos – meu tipo favorito. Da ala menos conservadora, não é contra o casamento gay. Tem vários amigos ateus e detesta os berros sertânicos do sertanejo maringaense. "Gosto mesmo é de rock", revela, sorridente.

Pertinho da Fernanda, encontro a estudante Maria Laura, 17. Outra representante da jovem guarda dos fãs do padre Marcelo Rossi. "Deus me ajudou a superar muita coisa. Olho para meu priminho, que tem deficiência e que não andava nem se comunicava com ninguém... Agora, tudo mudou pra melhor. Ele está ótimo! Para Deus, tudo é possível", comenta a jovem. De repente - ai não! -, ela começa a chorar. Não gosto de ver mulher chorando. Ainda mais assim, de 17 aninhos. Recuperada, Maria Laura conta que uma grande amiga sua recebeu uma mensagem especial, por meio do programa de rádio do padre-cantor. Agoniada com as tantas brigas dos pais, que se esgoelavam no quarto do casal, a garota se afogava em prantos na cozinha. "Daí, no rádio, o padre começou a falar assim: 'você, adolescente que está aí na cozinha, não fique triste nem desesperada com a briga dos seus pais, fique tranquila e reze. Você acredita? Deus fala com a gente, por meio do padre Marcelo Rossi."

Depois de longa caminhada, ouvindo coisas como "coloque aí no Diário, pelo amor de Deus, que sou contra o casamento gay!", por pelo menos três dezenas de vozes enrugadas, chego finalmente ao começo da fila, que dá para uma porta lateral do shopping. Seguranças de terno e moçoilas controlam quem entra."A crença é a pretensão de ver em plena treva", já dizia Augusto de Lima. E vou lembrando essas palavras, enquanto entro pelo tão cobiçado portão do shopping.

Em vez do padre-cantor, mais filas. Um andar inteiro de escada é tomado por mais idosas, acampadas nos gelados degraus. Sorte estar de blusa. O vento frio, na escada, caminha com dificuldade. Perfumes mancomunados de suor adiam a espera. Senhorinhas gripadas espirram para lá e para cá, distribuindo gripe e tosses em lenços bordados. Poucas conversam. O tédio degola a prosa. Pior ainda, com a iluminação capenga. Todo mundo jogado nos degraus da penumbra - só chega à luz quem vence a escuridão? Isso aqui mais parece um bunker nazista, sussurro,atordoado com a cena. Mesmo em tons quase inaudíveis, uma velha se intromete na minha constatação. "Que bunker, o quê! Não é o que diz a Bíblia? Onde duas pessoas estiverem reunidas em seu nome, Deus estará nesse local. Tá vendo? Ele está aqui", garante, aos berros, olhão alucinado de glória.

"Olhe o meu caso, moço", diz uma mulher, invadindo a conversa. "Tive rompimento nas trompas, útero retrovertido e endometriose. Me disseram que eu nunca poderia ser mãe", comenta a dona de casa de 43 anos. "Sabe o que eu fiz? Rezei muito pro padre Marcelo me ajudar. E, por meio dele, recebi um milagre de Deus. Você quer ver um milagre de Deus?" Desacreditando e já um tanto cansado de tantos papos milagrosos, respondo um sim desanimadão. "Você vai poder ver e tocar o milagre", adianta. Eu me animo. "Quer ver ou não quer?" Respondo que sim, claro, claro, quem não? "Olha aqui, ó: meu filho João Gabriel, de 14 anos. Ele é o milagre." Vejo o garoto. Desses magrelos e altos. Essa molecada de hoje é sempre alta. "Viu só? Como Deus existe?" Mais tarde, eu descobriria que não era bem assim. Entrei em contato com um competente médico maringaense, amigo meu, a fim de tirar o milagre a limpo. "Isso não é um milagre. Rompimento nas trompas, útero retrovertido e endometriose dificultam, sim, a gestação, mas não é impossível engravidar. Basta um bom obstetra", explica o médico."Todo o santo dia aparece alguém dizendo que é fruto de milagre. A Medicina é uma ciência de mais de dois mil anos e o povo ainda insiste em colocar a culpa em Deus. Se há alguém que precisa ser parabenizado é a ciência", observa, com razão, o médico maringaense.

Das escadas mal iluminadas, sigo para outro setor. Um corredor, agora, sim, branquinho, boas luzes, ar condicionado, acho até que chão encarpetado. E, claro, mais fila. Essa, a última. Velhas aflitas, equilibradas na pontinha do pé, tentam espiar lá na frente. Sigo, cruzando a lateral de aflição. "Meu Deus, o padre tá parecendo uma vara", fofoca uma velha.

Santa disposição

O padre-cantor veste a sobriedade. Camisa, calça e tênis esportivo, tudo preto. A camisa, aliás, está folgadona. O padre que era magrelo e virou gordo, agora volta à boa forma. Quer dizer, está tão magrelo que não parece dos mais saudáveis. Mas ele parece feliz. Sorri para as fotos, assina os livros, estende a mão sobre o fiel e despeja uma bênção ligeira. Tropeçando nos próprios passos, vacilante no cai-não-cai, um velho sai do encontro banhado em lágrimas. Roupas surradas, um empoeirado boné preto, ombros exaustos de cansaço. As mãos tremelicantes equilibram, com cuidado redobrado, o grande tesouro: oito exemplares, todos autografados, do novo livro do padre-cantor. Tenho umas boas perguntas na manga. Com a funcionária da Editora Globo, peço para entrevistar o padre. Coisa rápida. Três perguntas bastam. Ela adianta que será difícil. "Inicialmente, o padre só daria entrevista pra Globo. Mas, agora, topou atender o SBT. Vou ver com a assessora dele e te dou uma resposta", avisa. Minutos mais tarde, ela recebe a resposta da assessora. "O padre não vai falar com mais ninguém."

Não fico decepcionado. Acho até bom. Colecionador de pecados, meu corpo não pegaria fogo diante de um santo homem? Vou refazendo o trajeto, cruzando fiéis pacientes. "Conseguiu falar com o padre?" "Ele vai atender todo mundo?"

São seis horas da tarde. A fila no estacionamento parece aumentar. Duas mil senhorinhas em pé? Santa disposição. Gritando, a menina da livraria explica que o padre não vai mais autografar, só posar para fotos e dar bênção. Deixo Jesus, padre-cantor e mil milagres para trás. A fé não é mesmo uma coisa louca?

Publicado no Diário (2/8/2015)

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