quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Um chope com Rubem Fonseca

Debaixo de um sol escaldante, num Leblon a quase 40 graus, o porteiro pergunta qual o meu nome e já vai ligando para o apartamento indicado. Após um breve interfone, indaga qual o motivo da nossa presença. Estamos, eu e minha namorada, às 13h de uma sexta-feira, na porta do luxuoso prédio de Rubem Fonseca, a poucos metros do mar. Resolvo abrir o jogo: somos leitores do Rubem, queremos pagar um chope para ele. O porteiro fica sem reação. Olha novamente o casal com mochilas nas costas e um isopor nas mãos, e dá um sorriso. Depois de explicar a situação por telefone a alguém do apartamento, ele libera o portão e nos acompanha até o elevador.
“Estão esperando vocês”, diz o porteiro.
A recepção surpreende uma carioca cinquentona que entra no elevador no mesmo instante em que a gente.
“Nossa, vocês estão com sorte, viu? A livraria aqui do Leblon está cansada de
oferecer coquetel para os lançamentos do Rubem Fonseca, e ele nem responde os convites”, comenta, antes de descer num dos andares do prédio.
Para a decepção geral, quem está na porta do apartamento de Rubem Fonseca não é ele, mas a funcionária Dalva, uma negra simpática e atenciosa, de uns sessenta anos. Descalça, trajando um vestido azul, ela abre um sorriso e parece um pouco confusa.
“Vocês trouxeram uma encomenda, é isso?”
Não, viemos pagar um chope para o Rubem Fonseca, queremos beber com ele, vou dizendo, enquanto espio lá dentro a pilha de livros que ocupa uma parede inteira na espaçosa sala do apartamento.
 “Ah, ele não está aqui no momento. Mas deixe um nome e um telefone. Quem sabe ele não liga?”, aconselha.
Agradeço a cordialidade e vou saindo, ao lado de minha namorada. Deixo com Dalva o meu nome e o número do celular, com o DDD do Paraná. Ela escreve tudo num bilhete. Já que a ideia amalucada de beber com Rubem Fonseca não deu certo, o jeito é pegar uma praia no Leblon, logo ali na frente. Por desencargo de consciência, coloco créditos no celular. E acho engraçado aquilo tudo: até parece que o Rubem Fonseca vai ligar.

Então, ele liga  
Frio para danar, o mar do Leblon congelava qualquer mortal naquela tarde. Por sorte, tínhamos uma garrafa de Mojito, que matamos na areia, rapidamente, em goles desesperados. Meu celular tocou às 14h, interrompendo as doses de Mojito. Mergulhamos num silêncio tenso. Um olhando para o outro, sem reação. Peguei o celular na mochila. Vi, na tela do aparelho, que era o número de um amigo do Paraná. Para assustar a namorada, gritei é ele, é ele, o Rubem está ligando. Atendi eufórico.
“Alô, Rubem?!”
 Minha namorada arregalou uns olhos espantados.
“Rubem, é o Alexandre, sim. Tudo bem contigo, bicho?! Estou na praia, vamos encher a cara num bar aqui perto?”
Caímos na risada: a cena era improvável demais. Uma hora mais tarde, seria a vez do meu pai ligar. Atendi novamente, fingindo conversar com Rubem Fonseca. No diálogo com meu pai, que improvisou surpreendentemente bem o papel do escritor recluso, combinei que deixaríamos nossas respectivas mulheres em casa e, lá pelas 23h, partiríamos para uma noitada de esbórnia na Centaurus, a digníssima boate em Ipanema, famosa por suas acompanhantes de alto nível. Minha namorada já não deu bola para a piada nem para o itinerário noturno.
A bebida e os acepipes guardados na bolsa já tinham ido goela abaixo quando o celular tocou, novamente, às 16h. Desta vez, com um DDD do Rio de Janeiro. Não podia ser. Não mesmo. Devia ser o efeito alcoólico do Mojito. Conferi o número no painel.
“É ele, amor, é ele.”
Fui solenemente ignorado.
“Alô, é o Alexandre?”, indagou a voz rouca.
Rubem Fonseca tem uma voz rasgada. Entraria fácil numa banda de rock, blues ou num quarteto de jazz tocando Chet Baker. Também seria legal ouvir Rubem Fonseca cantando Bob Dylan.
“Olha, Alexandre, estou muito ocupado hoje. Mas se você passar aqui agora, eu posso te receber. Você consegue vir já?”
Mal tinha desligado o celular, já estava jogando o Mojito e a caixa de isopor no lixo, juntando a bolsa, gritando “é ele, é ele”, e minha namorada só acreditou que era mesmo o Rubem Fonseca quando me viu, atabalhoado, correndo pela areia, pagando pelas cadeiras e pelo guarda-sol alugados na barraca da praia. Deu para tirar a areia do corpo, trocar o chinelão pelo tênis e pegar na bolsa uma edição de “Amálgama”, o último livro de Rubem Fonseca. Por sorte, estávamos a uma quadra de distância.

Conselhos de mestre
Não sabia que Rubem Fonseca recebia os leitores em seu apartamento. Sei, por experiência própria, que ele conversa com todo mundo em suas caminhadas diárias.
Foi assim, numa dessas caminhadas, que abordei Rubem Fonseca nas ruas do Leblon, há cinco anos. Passei alguns minutos em frente ao seu prédio e, quando ele saiu, ficamos por quase meia hora conversando sobre literatura, reclusão, as perseguições na ditadura e o processo criativo. Aproveitei que o clima estava bacana e mostrei alguns continhos meus ao Rubem Fonseca. Pedi que ele lesse depois, se poderia me dar um retorno por e-mail. Tudo o que eu queria era saber se eu deveria ou não insistir naquele papo de ser escritor. Sei que escritores odeiam esse tipo de coisa, mas, como eu disse, o clima estava bacana. Sentado ao meu lado num banco da avenida Ataulfo de Paiva, Rubem Fonseca fez questão de ler os quatro continhos ali mesmo. Apontou erros que, só ao seu lado, pude ver claramente. Num dos contos, havia a mistura de algumas gírias, inseridas na fala dos personagens, e a gramática normativa dominava o resto da narrativa.
“O seu texto está todo escrito na norma culta, pode tirar essas gírias aqui. O seu texto não precisa disso”, criticou, rasurando os termos no papel. Aconselhou-me, ainda, a estender as narrativas, todas excessivamente curtas. “Você tem que abrir gavetas no texto. É assim que funciona com o romance”, disse.
Com os continhos em mãos, incentivou-me a escrever com dedicação, diariamente. “Seus contos são concisos, enxugados. Você tem voz própria, porra! Você não vai ser jornalista. Você vai ser escritor, porra!”, estimulou-me.
Qual outro grande autor perde tempo lendo coisas inéditas, no meio da rua, redigidas por escritores desconhecidos? E, encorajador, ainda faz apontamentos, dá dicas valiosas, manda seguir em frente? Rubem Fonseca, além de gênio, é um cara generoso.
Além da dedicação diária e da necessidade de reescrever os textos, quem quiser escrever bem deve, também, ter sua proposta literária definida. “O escritor tem de escrever para provocar. Para escrever o que todos querem ler, existem os jornalistas”, ironiza Rubem Fonseca. Essa é a fórmula do sucesso. Depois disso, é abrir os braços e correr para o reconhecimento, para a fama – ou, no caso dele, de se esconder de tudo isso, quieto no Rio de Janeiro.
A reclusão, no caso de Rubem Fonseca, não é garantia de anonimato. Enquanto estávamos sentados, ele foi reconhecido por uma moradora do Leblon. Era uma carioca muito branca, de uns sessenta anos. Fogosa, convidou o escritor para um jantar à noite, e ele recusou cordialmente. “Ela é muito velha para mim”, justificou, depois que a leitora saiu de cena.
 Cinco anos depois daquele encontro, Rubem Fonseca está prestes a me receber, agora ao lado de minha namorada, em sua residência. Não pretendo pentelhá-lo, novamente, com um punhado de textos. O que eu quero mesmo é encher a cara com ele.   

Fugitivo
“Vamos entrando, vamos entrando”, convida Rubem Fonseca, com um sorriso amigável, abrindo a porta de seu apartamento.
Ele não é alto, deve ter pouco mais de 1,60 metros. Veste camiseta, calça jeans e, nos pés, sapatos. Caminha devagar, quase mancando, até um dos sofás impecavelmente brancos da sala, repleta de livros. Tudo é bem organizado, privilegiando o espaço dos cômodos. Na sala ao lado, outra penca de livros surge em fartas estantes.   
“Hoje, o meu dia está uma correria. Acabei de voltar de um encontro com meu filho, à noite vou jantar com a minha filha e ainda tenho que encontrar uns documentos e enviá-los para o meu advogado. Ele já está me cobrando”, comenta, em tom de desabafo. 
A gente queria te pagar um chope no bar mais próximo, eu explico. Ele dá uma boa risada. Rubem Fonseca é gente fina à beça.
“Ah, eu parei de beber há muito tempo. E vocês sabem: eu vivo fugindo das pessoas”, diz, rindo.
“É mais difícil escrever hoje em dia?”, pergunto ao escritor, estendendo o exemplar de “Amálgama” para ele autografar.
“Ah, sim. Toda essa correria de advogado e documentos atrapalha a rotina. Não sobra tempo para escrever”, reclama.
No livro, Rubem Fonseca faz uma dedicatória amigável. E minha namorada diz o quanto gostou do brutalismo e do humor negro do primeiro conto, “O Filho”, uma das melhores histórias do “Amálgama”. No conto, escrito ao seu melhor estilo, Rubem Fonseca aborda o nascimento de uma criança que nasce aleijada, sem um braço.
“Que dó do bebê, que dó. Coitadinho dele”, responde Rubem Fonseca. O criador, para a nossa surpresa, tem, sim, piedade de suas próprias criaturas. “Mas você tem mais de 18 anos, não tem?”, pergunta Rubem Fonseca à minha namorada. “Este livro é só para maiores de idade”, avisa, rindo, enquanto estende o exemplar autografado.
Ele se levanta do sofá com um pouco de dificuldade. Justificável, afinal, para um senhor de 88 anos. Mas há uma dor no corpo, ele explica, culpa de um tombo recente.
“Só posso andar nas ruas com isso aqui”, comenta o escritor, seguindo para a outra sala. No canto da estante, ele pega uma bengala e exibe o seu novo acessório das caminhadas. “Sem ela, posso perder o equilíbrio”, justifica.
“E você continua charmoso”, elogia minha namorada. Eu engrosso o coro, também digo que ele está charmosão. Ele dá outra risada, abre um sorriso.
“E quando vem o próximo livro, Rubem?”, indago.
“Agora, estou trabalhando em um romance. A editora quer soltar só no próximo ano. Por enquanto, tenho só um working title, que pode mudar a qualquer momento”, diz.
“Quando você começa a escrever, sempre sabe como irá terminar a história?”, questiono.
“Não, nunca sei como vou terminar. As histórias mudam durante a escrita”, revela.
Já na porta do apartamento, agradeço a recepção e a rápida conversa. Ele está visivelmente feliz. “Da próxima vez, avisem antes que vocês virão e aí teremos mais tempo para conversar. E, se vocês forem à praia, tomem cuidado. Vão pela manhã, não fiquem lá à tarde. Olha a pele da sua namorada, Alexandre, é tão branquinha. Esse sol é perigoso. Cuide bem dela, viu? Porque ela é muito bonita; e você, muito feio”, aconselha Rubem Fonseca, arrancando uma boa gargalhada nossa.
Evitamos a praia, seguindo o conselho do escritor, e corremos pelas ruas do Leblon à caça da bodega mais próxima. Na mesa do Jobi, acalmamos os ânimos e tomamos um porre para celebrar o encontro com deus.   

Publicado no site da revista Cult (fevereiro de 2014)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Candido, o pugilista

Antonio Cândido não foi apenas um professor, foi um pugilista. Deu ganchos certeiros em Clarice Lispector, mandou cruzados que atordoaram Oswald de Andrade, emendou jabs desconcertantes em outros figurões literários. E fez tudo isso com técnica e elegância, justificando, de uma forma extremamente convincente, as necessidades de seus golpes.

As bordoadas eram no calor da hora, com as obras recém-lançadas, e ele sempre esteve consciente dos riscos que corria — um crítico que não compreende uma obra é ignorante por desconhecer as inovações ou alguém com uma leitura tão poderosa, capaz de notar erros que autores e editores ignoram?


Essa postura combativa, que ele assumiu tão bem, com coragem, independência e pulso firme, é o que mais faz falta no cenário literário atual, com pseudos-críticos frequentemente assumindo uma postura covarde e submissa diante de obras de qualidade questionável, arremessando elogios aleatórios em busca de coleguismo e algum espaço no meio literário. A cada golpe desferido nos erros de uma obra, Antonio Candido sabia que cumpria um dever cívico: provocava uma reflexão — dolorosa, para alguns leitores e autores — sobre a qualidade da escrita produzida no Brasil.

Quando visitei Antonio Cândido, há dois anos, me surpreendi com seus passos ágeis, com suas mãos que pareciam pesar mil quilos, com os olhos enérgicos e tão temidos — olhos que enxergam mais do que nós —, com sua memória capaz de armazenar mínimas lembranças e de retomá-las, sem esforço, a qualquer momento.

Lembrava, de imediato, os detalhes e o ano longínquo de uma palestra concedida em minha cidade, Maringá (PR), e também recordou, rapidamente, o momento em que foi apresentado ao Vampiro de Curitiba.

Era ali, em meio a porteiros e vizinhos, que Antonio Candido recebia seus leitores e alunos de todo o país. Bastava interfonar. Aos 96 anos, ele não parecia um professor aposentado da USP, mas, sim, um atleta em plena forma. “Eu era, sim, um crítico severo. Se achava o romance ruim, escrevia uma crítica negativa. Um dia, depois que critiquei um autor, me avisaram que ele havia comprado uma bengala para me dar uma sova. Fiquei um bom tempo com medo”, comentou, com uma boa gargalhada, antes de acrescentar: “Mas isso é essencial: o crítico literário tem, sim, que falar mal”.

Antonio Cândido publicou ensaios antológicos:  Dialética da malandragem, O poeta itinerante  e A educação pela noite são apenas alguns deles. Ensinou sobre a necessidade de estabelecer diálogos multidisciplinares, defendeu as proezas das transgressões — foi o primeiro acadêmico a reconhecer as maravilhas das letras modernistas — e ainda nos deu preciosas lições de boxe. Mais do que nunca, Antonio Candido faz falta nos ringues literários. Agonizando na lona, quem perde a luta é a literatura brasileira.

Publicado no Correio Braziliense (13/5/17)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Um açougueiro na prefeitura

No mercadinho Camarada, a área destinada ao açougue, com suas paredes brancas e facas dispostas em cima das mesas, tinha 30 metros. Dentro daquele espaço, um espaço generoso para apenas um açougueiro desossar carnes durante três horas por dia, era possível contemplar os clientes e as estantes de produtos de limpeza, caixas de leite, sabão em pó, as geladeiras abarrotadas de refrigerantes, os freezers com comidas congeladas. A primeira parte da jornada era ali, trajando galochas, avental, roupas brancas. A segunda, com as carnes já desossadas, era mais prazerosa: no balcão, lidando diretamente com as pessoas, estendendo pacotes de carnes, ouvindo críticas e elogios, conversando sobre as aspirações e frustrações da clientela. Dos 13 aos 18 anos, Rogério Aparecido Bernardo encarnou o açougueiro do mercadinho com paixão. Descobriu, atrás do balcão, que 60% dos moradores de Ângulo gostam de bisteca e 20%, de linguiça. E que mulheres são incumbidas de comprar as carnes de segunda a quinta, enquanto os homens, religiosamente às sextas, vão pessoalmente ao mercado para adquirir as carnes do fim de semana. Mas não eram as estatísticas privilegiadas dos hábitos gastronômicos dos conterrâneos que o fascinavam. Gostava do contato com o público, de ajudar os clientes, de ouvir seus desabafos. Decidiu, no meio do mercado, virar político.

Concomitantemente à jornada no açougue, Rogério graduou-se em Administração e, em seguida, disputou uma cadeira na Câmara dos Vereadores. "Fui o mais votado da história da cidade, com 187 votos, e depois cheguei à vice-prefeito", diz, sentado em um banco na praça da Prefeitura de Ângulo, enquanto acena para o motorista de um Gol branco em resposta à buzinada e ao grito de "Ôôô Rogééério!".

Aos 34 anos, o prefeito Rogério Aparecido Bernardo conhece todos os 2.969 moradores de Ângulo. A cada três minutos na praça, alguém berra seu nome e, carinhosamente, acena de carros e caminhonetes. É abordado, ainda, por dois sujeitos cheios de papéis que analisam os buracos de algumas ruas do município, e pede que a dupla encaminhe o relatório para seu e-mail, e por uma simpática senhora que o interpela para reclamar de uma árvore no quintal de casa. "Me ajuda, Rogério. Se dá um pé de vento, essa árvore cai pra cima de mim e derruba meu barraco." Cordial e atencioso, ele promete ajudar a moradora. "Vou mandar alguém lá na sua casa, Dona Terezinha. Não se preocupe." E a senhora segue rumo aliviada, não sem antes agradecer a atenção do prefeito que dá expediente no meio da praça, numa quarta-feira à tarde, enquanto posa para o fotógrafo do Diário. "Eu amo essa cidade. Minha vida política pode ir adiante, mas eu nunca sairei daqui. Em cidades grandes, como Maringá, é muito difícil um político ficar em plena praça e conversar com as pessoas", comenta.

Ângulo deixou de ser distrito para virar cidade em 1990. A maioria dos moradores trabalha em Maringá, em supermercados, açougues, escritórios, lojas de roupas e sapatos. E há quem trabalhe, também, em um parque aquático em Iguaraçu, onde cerca de 10% dos 87 funcionários são de Ângulo, sem contabilizar as contratações temporárias nos finais de semana. São poucos os que trabalham e vivem em Ângulo que, com seus 106,21 km, pode até parecer pequena para os motoristas que cruzam a PR-317 e não avistam arranha-céus nem qualquer construção imponente, mas, para orgulho dos moradores, é uma cidade maior, inclusive, do que alguns países, como Nauru (21 km²) e Tuvalu (24 km²), na Oceania, e San Marino (60 km²), na Europa.

Os atrativos da vida noturna de Ângulo são o Espetos Bar, que serve torre de chope, a Lanchonete do Julião, com pizzas e porções, e a Sorveteria da Viviane, com opções de picolés. À noite, moradores de todas as idades se unem na praça da igreja São João Batista. Ali, quando garoto, aproveitando as locuções que o dono de uma lanchonete fazia entre uma canção e outra, Rogério mandava, por escrito, declarações românticas às moçoilas, dedicando-lhes canções de Chitãozinho & Xororó, e esperava, ansioso, a vinda triunfal do carro da "Explosão do Amor", anunciando no microfone suas intenções amorosas. "Eu fui um romântico, né?", lembra, com a risada que só os grandes apaixonados sabem dar.

Romantismo, hoje, só com a esposa, a farmacêutica Terezinha, 30, com quem teve o filho Matheus, 2. Residindo com a família em um sobrado a 150 metros da prefeitura, Rogério vai trabalhar todos os dias com o veículo oficial. Raramente faz o percurso a pé, seguindo o exemplo da maioria de seus conterrâneos, que, em Ângulo, preferem passear em seus próprios meios de transporte. Metade dos moradores, de acordo com o IBGE de 2015, tem veículos próprios: 48% preferem os automóveis; 19%, as motocicletas; 13%, as caminhonetes; e 0,85%, os caminhões trator.

Filho de um mestre de obras e de uma trabalhadora rural, Rogério ainda hoje volta com frequência ao endereço onde atuou como açougueiro. Há três anos, sua família adquiriu o mercadinho e fez uma série de modificações estruturais para que o local se transformasse no mercado Paladar, sob a administração de sua mãe e com o irmão assumindo a desossa das carnes. É de lá que saem os bifes dos churrascos que unem a família e os amigos nos finais de semana. É uma rotina simples e de alegrias genuínas, completada por uma e outra ida à praça da igreja, onde jovens sonham com os dias em que Ângulo terá McDonald's e dezenas de casas noturnas - inclusive de rock. Os mais velhos, na mesma praça, almejam um dia receber ali o show do rei Roberto Carlos, e se isso não acontecer – o rei, realmente, é um tanto complicado –, eles já vão ficar satisfeitos com bailes de gala intermináveis e jantares italianos em trattorias que terão fachadas brilhantes, com detalhes verdes e vermelhos, iluminando a pacata Avenida Brasil.

Publicado no Diário (5/2/17)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lições de Adalberto

A Real Fábrica de Tabacos, em Sevilha, é um lugar charmoso e trágico. O edifício neoclássico está imortalizado no romance de "Carmen", de Prosper Mérimée, e na ópera homônima composta por Georges Bizet. No mesmo cenário em que Don Juan esfaqueia e assassina Carmen, Adalberto de Oliveira Souza assistia a simpósios de literatura, com trabalhos sobre Proust, Joyce, Cervantes e outros gigantes.

Debaixo do calor insuportável de julho, Adalberto sentiu o corpo entrar em corrosão. Ele ministraria, a convite da Universidade de Sevilha - localizada no mesmo prédio da Real Fábrica -, uma palestra sobre Ronald de Carvalho, que nunca chegou a acontecer. O estômago estava inchado e queimava: era como se o próprio Don Juan enfiasse a faca lentamente em sua barriga, e não em Carmen.

Atendido no pronto-socorro da instituição, Adalberto foi imediatamente conduzido ao hospital Virgem do Rocio, onde foi operado do apêndice. A cirurgia, que em geral leva sessenta minutos, demorou oito horas para ser finalizada. "Ele pode morrer: é bom que você saiba", disse o médico a uma colega que o acompanhava.

Deitado no hospital, Adalberto passava a vida a limpo. Gostava de lembrar os seis anos que morou na França, entre o Mestrado ao Doutorado, especialmente a temporada de um ano num apartamento na Rue Mignet, no oeste de Paris. Para quem gosta de literatura, pintura e música, não há lugar melhor no mundo do que Paris.

E Adalberto aproveitou como pôde: batia cartão pelo menos uma vez por semana no Centro Georges Pompideu, acompanhando mostras temporárias e revendo Picasso, Van Gogh, Monet e Pollock, seu favorito. Entrou e saiu dezenas de vezes do Louvre - compreensivelmente, perdeu as contas. Levava tela e pincel para as ruas do Quartier Latin, pincelando a arquitetura grandiosa de Paris que, a todo momento, parece lembrar aos homens a sua real insignificância.

Na Radio France, assistia com frequência a orquestras de câmara retomando as estranhezas de Stockhausen e as inovações de Schonberg e Stravinsky, quase sempre nos auditórios menores, porém sempre lotados da emissora, ao lado de outras cinquenta pessoas.

Nos 21 dias em que ficou internado, Adalberto lembrou, também, de São Paulo. Foi bom concluir a graduação em Letras Português-Francês pela USP, onde teve aulas com o mitológico Antonio Candido. "Eram maravilhosas e ele, muito bem-humorado. Só havia uma coisa que Candido não tolerava: qualquer piada ou manifestação racista", refletia.

Algumas cenas da época universitária, em plena ditadura militar, se repetiam. O sujeito moreno, de 1,75 metro, nem gordo e nem magro, que frequentava as aulas de russo. Era um aluno estranho, sem interesse em Tolstói e Dostoiévski, e os rumores o apontavam como sargento infiltrado na sala de aula. "Era mesmo um espião." E achava graça no fato do governo acreditar que, nas turmas de russo, a porcentagem de comunistas era maior do que em outros cursos. Na realidade, quase todos os calouros cursavam Português-Russo porque era mais fácil do que Português-Inglês: não tinha nada a ver com ideologia.

E as cenas de seu encontro com João Cabral de Melo Neto, no apartamento do bibliófilo José Mindlin, na companhia de uma colega da graduação e do dramaturgo Plínio Marcos, também surgiam à tona. Dois jovens universitários entrevistando um dos maiores poetas brasileiros. "Eu sou um sujeito sem nenhum interesse como pessoa", definiu-se João Cabral, encarando firmemente Adalberto, e a voz do poeta invadia, agora, o leito do hospital espanhol, como se alguém soprasse poesia a seus ouvidos.

"Uns reagem, outros não", disparou o médico, conferindo os exames na frente de Adalberto. Recebida a alta, ele voltou para Maringá. Nunca esqueceu a quase morte há exatamente uma década, e reagiu. Publicou seu terceiro livro de poesia, o ótimo "Corrosão", aposentou-se há alguns anos da universidade e hoje divide seu tempo entre dois espaçosos apartamentos que tomam um andar inteiro de um edifício na XV de Novembro.

Mora sozinho, na companhia da biblioteca que chegou a três mil obras - hoje ele não tem um número exato -, que tomam as salas do 401, e entre 31 de seus quadros figurativos e abstratos, emoldurados no 402.

"Eu me sentia muito perdido quando vim para Maringá. Não havia muito o que fazer por aqui. Hoje, tudo mudou. Há eventos importantes, como a Festa Literária Internacional de Maringá, há vida cultural", diz, sentado à mesa, cercado por quadros.

Aos 65 anos, Adalberto quer expor suas pinturas, escrever poemas, pincelar a vida. Fala tudo com muita calma e serenidade. Relembra a mãe, professora do primário, e o pai, boiadeiro que não conheceu, morto quando ele completava um mês. O pai, 36, comunista e alcoólatra, levou um tiro numa briga de bar em Palestina, no interior de São Paulo, a uma quadra de casa. O disparo foi feito por um soldado que, anos depois, dizem, também foi assassinado. Adalberto nunca soube o nome do homem que matou seu pai e o crime nunca foi solucionado. Hoje, depois de tantos anos, não parece ter rancor do assassino que o privou, para sempre, da convivência paterna.

Num apartamento calado - os únicos sons vem dos pedreiros gritando na construção ao lado -, ele só se recusa a falar dos amores passados e presentes. "Como nunca deram certo, prefiro o silêncio", responde, pela primeira vez um tanto melancólico, remexendo uma cristaleira para lá e para cá, chacoalhando segredos invisíveis.

Publicado no Diário (15/1/16)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Rebite em branco e preto

A cidade toda parava na quarta-feira. As famílias se reuniam em casa, das 20h à 0h, para ouvir o programa "Noite e Festa", apresentado pelo vozeirão grave de Brasil Filho, semanalmente, na Rádio Cultura. Muitas moças e senhoras e até alguns rapazes não se contentavam com o áudio do programa. E faziam questão de enfrentar a fila para pegar um dos 250 lugares disponíveis no auditório da rádio, localizada na Avenida Herval com a 15 de Novembro. Em 1968, aquele era um dos endereços musicais mais cobiçados pelos instrumentistas da região. Ninguém menos que Erasmo Carlos e os Incríveis chegaram a dar o ar da graça no "Noite e Festa", concedendo entrevistas e entoando seus sucessos. Por isso mesmo, o garoto que acabava de chegar ao centro do palco, escoltado pelo talentoso Geraldinho do Cavaco, estava tão nervoso. As mãos tremiam, o peito batia forte. Sabia que era uma oportunidade única, que deveria fazer bonito. Um erro o condenaria às piadas e à humilhação. Um acerto, talvez, o empurraria para dentro daquele universo misterioso, em que alguns nomes viram estrelas, e outros, de tão grandes, chegam a formar verdadeiras constelações. O garoto abriu o peito e cantou sua própria história: "Eu sou o negro gato de arrepiar /

E essa minha vida é mesmo de amargar / Só mesmo de um telhado aos outros desacato / Eu sou o negro gato."

Presente
Entoando os versos atrás do balcão da Sapataria, não é difícil imaginar Rebite no palco. A voz ainda está firme, ligeiramente rouca, e mantém algo do grave que o consagrou em 1968, no programa "Noite e Festa", garantindo seu ingresso em três bandas maringaenses: S.O.S (de 69 a 73), Os Cometas (73 a 81) e Escala Company (86 a 96). Mesclando o rock sessentista da Jovem Guarda com veneirão, xote e muito samba de raiz, o garoto finalmente havia entrado no mundo da música. O ápice da carreira foi abrir os shows de Fafá de Belém, Martinho da Vila, Luiz Ayrão, Sandra de Sá e João Bosco no Country Club e na Apoteose. Como crooner, foi responsável pelas canções nas matinadas do Colégio Vital Brasil e nos palcos do Barril (o primeiro bar em Maringá a ter música ao vivo), no Hermácia (onde hoje é o CIQ HM), no Boliche, na Passarela e no Kanequinho (todos os três no mesmo ponto da Paraná) e nos bailes do Vale Azul (hoje abandonado e depredado). "É uma pena: a cidade se transformou, mas não há nada para preservar esses lugares", lamenta Rebite, interrompendo o concerto da sandália marrom para atender o telefone fixo, que acaba de tocar. "Sim, tá falando com ele: Rebite em branco e preto", comenta, rindo, vestindo uma camiseta branca e calça jeans azul.

A Sapataria tem um longo balcão branco que dá para a Avenida Joubert de Carvalho, 1008. Atrás do balcão, cinco estantes de ferro acumulam sacolas com sapatos e tênis, entre encomendas que já estão prontas e as que ainda serão consertadas. Quatro máquinas de costura, dezenas de cadarços coloridos e cintos em diversas cores, organizados em seus próprios cantos, completam o local de trabalho. Com os olhos no trabalho e os ouvidos na rua, Rebite acompanha a conversa de uma mãe exigindo que o filho termine com a namorada, ouve um homem sussurar pelo celular o horário de um encontro com outro homem, observa o pedinte com um espesso ferro de oitenta centímetros na mão clamando por trocados. Há 45 anos, observa a cidade desse ângulo. Escuta tudo e todos, e frequentemente é cumprimentado pelos amigos, tal como fazem um cego ("Ô, negão!"), um empresário ("Ô, urubu!") e um velho ("Ô, pau de fumo!"), que passam ligeiros demais para uma conversa, estendendo gestos e sorrisos afetuosos. A todos, Rebite responde com acenos e sorrisos. "Eles me tratam com muito carinho: trabalhar assim, sempre conhecido, é uma farra."

Mala de histórias

Um sujeito grandalhão, acompanhado pela filha e outras duas mulheres, se aproxima do balcão.

"Ô, Rebite! Quanto tempo!", diz, estendendo uma mala marrom.

"Ô, rapaz! Mas que beleza de mala, hein?!"

Numa rápida avaliação, Rebiote nota que é preciso trocar o tecido revestindo o interior. Quando notou que a mala apodrecia no armário, o advogado Adalberto de Souza, 43, se recusou a mandá-la para alguém consertá-la em São Paulo, onde reside. É uma bela mala, adquirida há quatro anos em Florença. Serviu para trazer parte das roupas usadas na viagem e algumas peças novas, adquiridas na Itália. Esperou chegar o final de ano para vir a Maringá, onde os familiares se reúnem anualmente.

"Meu pai é cliente do Rebite a vida toda. O trabalho é de muita qualidade", garante o advogado cliente.

"Vamos jogar couro nela, que tal?", sugere Rebite.

"Vai ficar caro demais. Vamos de brim mesmo", decide o cliente. "Sabe o que é bacana? Voltar aqui e lembrar de tudo. Ver como a cidade vai mudando aos poucos. O tráfego, que hoje é bem mais intenso. As calçadas, agora cheias de gente para todos os lados. Acho que gostava mais de Maringá quando ela era deserta", diz o cliente, em tom saudosista, olhando para a Joubert de Carvalho.

O orçamento ficará pronto dali a cinco dias. Rebite anota o número do celular. Não há dúvidas que o cliente autorizará o conserto da sua mala italiana.

Pertinho de Pelé
O futebol era a casa de Rebite. O pai trabalhava como roupeiro do Grêmio e a mãe lavava as roupas dos jogadores. Ainda garoto, começou a engraxar as chuteiras dos jogadores nos vestiários. Mais tarde, em 1969 e entre 1974 a 76, assumiria o posto de goleiro do Grêmio. No Willie Davids, participou de momentos históricos, como a antológica vitória de 11 a 1 do Santos. Ainda adolescente, Rebite, à beira do gramado, estava a poucos palmos de distância de seus ídolos futebolísticos. Como gandula, lançava, por trás do gol, as bolas direto nas mãos de Gilmar. A mesma bola que segundos depois, estava nos pés de Pelé, Pepe e Coutinho. A gloriosa proximidade, que resultou na humilhante derrota em casa, não incomodava os 20 mil torcedores que berravam o nome de Pelé pelas arquibancadas. Com Rebite, não era diferente. O coração só bateria naquela mesma intensidade, ameaçando pular goela afora, alguns anos mais tarde, quando ele resolveria cantar "Negro Gato", no programa "Noite e Festa", deixando sua marca na música local. O garoto, que queria pertencer apenas ao universo das canções, hoje, aos 64, é um homem de muitos mundos: o mundo do futebol, dos flagras na Joubert de Carvalho, dos sapatos que cruzam calçadas e amam e vivem e morrem.

Publicado no Diário (8/1/2017)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Sempre de portas abertas

Rua Duvivier, Copacabana, a poucos metros do mar. Era ali, no primeiro andar de um prédio antigo, que Ferreira Gullar escancarava seu apartamento para leitores desconhecidos. Ao porteiro, bastava informar o nome e a cidade de onde você vinha. De segunda a segunda, de manhã ou à tarde, o poeta autorizava o acesso para quem quer que fosse, pedindo que a visita subisse. O próprio Gullar, magrelo, alto, sorridente, surgia à porta, cordialmente, já apontando uma longa mesa de madeira. Diante da sala, repleta de quadros, esculturas, colagens e livros, dava conselhos a jovens escritores, criticava as artes plásticas contemporâneas, maldizia meia dúzia de políticos e refletia sobre seu fazer literário, disparando metáforas e sutilezas poéticas.

“A vida é pouca”, disse-me Gullar, em um dos nossos dois encontros sem hora marcada. E, na frente dele, emendei o restante dos versos do poema No mundo há muitas armadilhas: “A vida é louca, mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade”. Até o maior poeta brasileiro estende o mais longo dos sorrisos quando vê seus versos ganharem vida na trajetória de outra pessoa.

Contato
Nesses encontros improvisados, não havia pressa. Os relógios paravam. As buzinas silenciavam. Os quarenta graus, ali, não te infernizavam. Gullar fazia dedicatórias em quantos livros fossem necessários. Posava para fotos. Até mesmo quando pedi que assinasse meu ukelele, que ele pensou ser um cavaquinho, não recusou o autógrafo. Figura cada vez mais rara em eventos literários, ele tinha consciência do distanciamento de seus leitores. Sabia, sim, de sua importância. Sabia que era preciso, de alguma forma, manter algum contato com seu público. O apartamento da Rua Duvivier era uma ponte, sem mediadores, entre autor e público — jornalistas, estudantes, professores, leitores em geral. E nas vezes em que me recebeu, em 2009 e 2013, despediu-se com o mesmo sorriso gentil, até rejuvenescido pelo encontro.

Enquanto poeta, Gullar serviu-se de revoltas e espantos, medos e cenas triviais. Qualquer tema, em suas mãos, rendia grandes versos. O osso da própria perna. O alto preço do feijão — que, ainda hoje, não cabe no poema. Um gato andando pelo apartamento. O desemprego. O número de crianças mortas no Piauí. O branco do açúcar que adoça o café. Um homem — eu?, você? —, à procura do grande amor, olhando para uma vitrine no meio da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. A poesia, ensina Gullar, é onipresente.

Quanto à morte, deixou belos poemas, como Morrer no Rio de Janeiro, Os mortos e Despedida. Este último, relido agora, arrepia a alma ao traduzir o sentimento do nosso último grande poeta:

“Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro
(…)
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique
Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.”

Gullar pode até ter sido um homem de carne e de memória, de osso e esquecimento, brasileiro, maior, casado e reservista, mas, definitivamente, não era um homem comum. Homens comuns não deixam legados líricos, nem precisam escancarar suas residências a desconhecidos íntimos. O poeta maranhense, na verdade, jamais morrerá. Uma parte de Gullar estará sempre dentro daquele apartamento, na Rua Duvivier; uma parte de mim, também.

Publicado no Correio Braziliense (5/12/16)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Raspadinha democrática

Rapazotes com o mesmo cabelo do Xororó e meninas de longos saiotes cruzam a Avenida Mauá, de olho nas Belinas e Fuscas. A sete passos do portão do colégio de madeira, outros estudantes se aglomeram em volta de uma carriola de algodão-doce. A foto, feita em 1982, hoje está pendurada na secretaria do Colégio Santo Inácio. Quase tudo mudou. A estrutura do colégio. Os pedregulhos da avenida. As roupas das moças. Mudaram os carros e os cortes de cabelo. Aparentemente, nada resistiu ao tempo. Mas basta lançar um olhar mais atento à foto para notar a única brava resistência: Alair Arengue, hoje com 66 anos, e seu carrinho de algodão-doce permanecem na mesma calçada do colégio, a exatamente sete passos da entrada.

Vestindo uma camisa branca, com três botões refrescando o calor infernal - o mesmo calor dos tempos d'outrora -, o ambulante escapa do sol debaixo do boné branco e vermelho. Há 53 anos, Alair oferece raspadinhas, algodão-doce e chicletes nesse ponto da Mauá, em frente ao Santo Inácio. "Durante 32 anos, eu ficava aqui pela manhã e, à tarde, fazia o Marista. Hoje tô velho. Só fico aqui", diz, sossegadão, encostado em seu carrinho adocicado.

De raspadinha em raspadinha, Alair foi esquentando a poupança. Comprou casa própria, há 35 anos, na Vila Operária e, desde que adquiriu um Fusca em 1973, nunca mais abriu mão de um carro próprio. Hoje, aliás, ele tem dois: um Corsa 1996 e uma Safira 2008.

Testemunha ocular dos sentimentos maringaenses, presenciou o amor tomar forma, à sua volta, com os 79.873 casais de adolescentes que, cheios de paixão, engataram namoros bebericando a mais doce das raspadinhas. Também viu o amor morrer, com os 79.871 casais de adolescentes que, tempos depois, empunhando a mais amarga das raspadinhas, terminaram seus relacionamentos. Ao lado do carrinho, Alair ouviu brigas de mães com seus filhos, brigas de pais com suas esposas e sustentou conversas com 76.324 crianças esquecidas pelos pais à frente do colégio, após o término das aulas. Culpa dos tantos atrasos paternos? Alguma reunião importante? Algum amado secreto? Alguma irrecusável amante?

Político, eu?!

Fonte ignorada por historiadores, conhece detalhes que ninguém mais recorda. "Bem aí onde tá a igreja tem um grande poço de água que atende tranquilamente toda a cidade. Os maringaenses, isso lá no passado, formavam filas pra pegar água nesse poço. Depois de um tempão, a igreja ficou com o terreno. E os padres fizeram questão de arrumar o tal poço. O tanto de água que os padres daí têm acesso, viu? É coisa de louco", diz, sentadão na banqueta na calçada, com a mesma tranquilidade de quem conversa no sofá da própria casa.

Embora o ponto de Alair seja fixo, os maringaenses podem encontrá-lo, de tempos em tempos, dentro de suas próprias residências. Incontáveis candidatos a prefeito já se apropriaram de seus sorrisos e acenos em propagandas na TV – muitos, inclusive, fizeram questão de serem filmados abraçando e conversando com o Tio da Raspadinha. "Acredita que até já me convidaram pra virar vereador?! Recusei na hora."

Orgulhoso da clientela, elenca os nomes que, em tenra idade, já se regalaram com sua raspadinha. "O Silvio Iwata. O Dr. Sala. O Darlei, do Bom Dia. O Hiran, do Santa Rita. O Turkinho, do Monte Líbano. Pena que, quando crescem, já não compram raspadinhas", lamenta. Até mesmo os maiores adversários políticos encontram, nas raspadinhas de Alair, algo em comum. "O Ulisses Maia foi meu cliente dos cinco aos nove anos. O Silvio Barros também vinha direto quando era garotinho. Os dois ainda lembram de mim." A receita para agradar a gregos e troianos? "Não faço ideia. O que sei é que minha raspadinha e meu algodão-doce são os mais tradicionais da cidade."

Circular por aí com dinheiro no bolso rendeu alguns momentos tensos. Em dois fins de tarde, Alair tomou voz de assalto. Dois sujeitos trintões, mal-encarados, sempre na Mauá. "Eram grandalhões desse tamanho, ó. Mas não contavam com isso", comenta Alair, tirando de um compartimento secreto, no teto do carrinho de doces, um assustador facão de açougueiro. "É pra cortar o gelo. E também pra me proteger. Fugiram tudo em desespero ali pra frente."

Encontro fatal

"Manhêêê, me dá?", pergunta um garotinho de cinco anos, que acaba de se aproximar, estendendo os dois braços na direção das raspadinhas.

A mãe hesita um instante.

"Meu filho nunca provou uma raspadinha."

"Nunca?!", surpreende-se Alair.

"Quanto custa?"

"Tem de R$ 3, R$ 4 e R$ 5: cê que manda."

"Vê a de R$ 5."

"Seu filho nunca mais vai ser o mesmo: depois que provar, quando me ver por aqui, vai ficar louco e chamar pelo Tio da Raspadinha", avisa, entregando a bebida colorida.

As duas mãozinhas agarram, firmes, o copo de plástico. O menino arregala os olhos, surpreso com o azedinho da menta harmonizando perfeitamente com o doce da groselha. Dito e feito: quando verá, novamente, o Tio da Raspadinha?

Perfil publicado no Diário (27/11/2016)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Bafio da fera, Dylan & Raquel no protesto de professores

A cidade está mais quente que nunca. Com véspera de segundo turno beirando os 40° C, maringaenses queimam o verbo em cada esquina, vociferando a favor de seu candidato preferido. Conversas politizadas, que começam cordiais e respeitosas nas mesas de bares e cafés, costumam descambar, rapidinho, para o palavrório de baixos calões, xingamentos, chutes, pontapés, uma e outra ameaça. Até mesmo sujeitos absolutamente apolitizados passaram a desfilar longas arengas em defesa de seus ideais políticos nunca dantes revelados. E, sem um único sopro de vento geladinho, alunos engajados decidem paralisar escolas públicas, reivindicando uma série de melhorias. Unidos e organizados, professores também se lançam em protestos, combinando para bater pernas por seus direitos numa quarta-feira ensolarada. "O ser humano", já adiantava Aristóteles, "é um animal político".

O calor banha a regata do gorducho, esgota os palavrões da velha e enriquece vendedor de picolé, mas não cancela a passeata dos professores. Às duas em ponto - ai, essas professoras que nunca se atrasam! -, o batalhão de senhoras, rapazotes, moçoilas e tiozões divide-se na Avenida Carneiro Leão, em frente ao Núcleo de Educação. Num caminhão de micareta - felizmente, sem os 357 percussionistas -, duas vozes esgoelam palavras de ordem. Entre uma fala e outra, Raul Seixas canta "Tente Outra Vez". Quem chegou antes cuida do precioso lugarzinho, debaixo da marquise, na cadeirinha de praia, a salvo do sol cancerígeno. Três mil manifestantes, dirão, mais tarde, organizadores? Mil professores, calculará a Polícia? Trezentos e poucos sujeitos à sua frente? Impossível chegar a um número redondo. Passeata, assim como a literatura, não é uma arte exata.

"Não importa que esteja quente", avisa uma querida professorinha cinquentona, aplaudida pelas três colegas em volta.

"Se chovesse pedra, se desse trovão..."

"É uma santa provação!"

"...nem assim eu ficava em casa."

"É como a música, tá ouvindo? Não pode desistir fácil das coisas. Tente sempre, tente outra vez."

"Viu só? Até dá mais força, sabe?", comenta a professorinha, que pede mil vezes para não ter o nome revelado.

Todas de roupas confortáveis, guarda-sóis coloridos, tênis ideais para essa longa estrada da vida. Gentis, falam sobre o desafio de ser professor. Da necessidade de um ensino de alta qualidade. Revoltam-se contra os alunos respondões. Como ensinar sobre organelas citoplasmáticas, modelo do mosaico fluido, proteína alfa-hélice, com moleques vendo nudes? Com moçoilas mandando nudes? Em tom saudosista, relembram as noites de graduação, os amores soterrados pelo tempo, a velha canção que sumiu do rádio, e mais não é possível. Em cima do caminhão, vozes estimulam a caminhada. Senhoras levantam das cadeirinhas de praia, correm para guardá-las no carro e invadem o meio da rua.

"Olha o sonho! Olha o sonho!", oferece a ambulante Marily Barbosa, 41. Diante do batalhão de professores visionários, não é o melhor negócio?

Senhoras se aglomeram em busca do docinho mais que perfeito. "Eu mesma faço e a Benê me ajuda a vendê", comenta, realizando o sonho dos professores por apenas R$ 3.

Sair da Carneiro Leão, entrando na Joubert de Carvalho, é adentrar um novo mundo. Maringá Botões. Sajama Tecidos e Malhas. Mercadinho do Retalho. Sanvest Máquinas. Marinex. Seu Tecido Sua Moda. Marisol Tecidos. Quantos mais? Na rua que presta homenagem ao compositor, o comércio é dominado por rolos de tecidos coloridos e máquinas de costura. Nas empresas, clientes e vendedores esquecem das compras. Tentam identificar, na multidão, algum rosto conhecido. Dentro de um hotel, alguém ouve bem alto "Borbulhas de Amor". Na portela da entrada, uma moça gorducha e de cor vende amor eterno por quinze minutos. Trinta e poucos anos? Melhor chutar quarenta. Nos grandes lábios rosados, promessas de êxtases e delírios – qual louca epopeia você não viveria neste hotel? "Para em teu límpido aquário mergulhar", grita Fagner num dos quartos. Chinelinho macilento. Shortinho minúsculo verde-berrante. Celular pendurado na cinturona. Pés escamosos. Unhas vermelhonas. Blusinha verde-estridente escrita "Beautiful". Barrigona decorada de fartas veias. Profundas celulites. Teias de estrias. Duas tatuagens ilegíveis – num quarto escuro, como ler?

"Fazer silhuetas de amor à luz da luuua, saciar essa loucuuura", esgoela-se o grande Fagner.

"É da polícia, é? Greve da polícia, né?", pergunta a moça, desconfiada, soprando calientes cortinas de fumaça no teu rosto.

Do bafio da fera emanam as mil e uma fragrâncias do Rio Bostinha.

Já pensou?

"Uma noite para unir-nos até o fiiim"?

"Cara a caraaa, beijo a beijooo"?

"E viveeer para sempreee dentro de tiii"?

Ai, não. Melhor não imaginar nada.

Os grevistas já cruzando a Joubert de Carvalho com a Duque de Caxias. Aqui, nada de tecidos nem máquinas de costuras. Euvany Presentes. JV Presentes. Gnomos Presentes. Eis a Chinatown maringaense. Nas minúsculas lojinhas, o punhado de guarda-chuva, relógio, chapéu, carregador de celular, mochila esverdeada, boneca de olhão esbugalhado. Será tudo falsificado? Sem clientes - culpa da crise?, do preço?, qualidade do atendimento?, do sol sacana? -, lojistas correm à porta. Alguns sacam celulares e enquadram professores em ângulos alternativos. "Acontece alguma coisa diferente, já sai todo mundo correndo. Acidente de carro, então?! Tem que ser rápido: todo mundo querendo bater a foto primeiro e tirar a mais bonita", orgulha-se a vendedora Maria de Fátima, 40.

Três ou quatro quarteirões, e pronto. Tuas panturtilhas começam a protestar. Como essas senhoras protestantes resistem ao esforço físico? Alimentam-se da força e do sangue dos jovens alunos? Rejuvenescidas, sim, muito mais dispostas do que você. O coração dispara rapidinho, fatigado e farto – será o fatal enfarto?

Por sorte, nada de mais. Ensopado em suor, você é só lamentos. Onde as carrancas lançando nas praças a água fresquíssima? Onde a Fontana di Trevi para você banhar pulso, rosto, coração? O diabo arrota lufadas de ar quentíssimo a cada segundo. Impossível, na passeata, não maldizer mil santos.

Um professor trintão, magrelo e de cabelos desgrenhados, corre para alcançar os protestantes. Fosse narigudo e judeu, não seria a reencarnação de Bob Dylan? Uma pena, ninguém cantar Bob Dylan nesta cidadela infeliz. Por que o maringaense não entoa Bob Dylan? Por que não existem covers de Bob Dylan? A única brisa geladinha te arrepia a nuca. A resposta, meu amigo, vem soprada ao vento.

"Claro que canto!", comenta Raquel Costa, com o timbre mais arrebatador que há. "Quer ouvir?", oferece. Só ela, empunhando um violão, seria digna de homenagear Bob Dylan. Vinte e poucos anos? Prefere Dylan em folk, rock, blues? Correndo para protestar? Essas e outras respostas, você nunca saberá. Improvisado à capella, o canto de Raquel Costa domina as ruas maringaenses, diminuindo ainda mais Joubert de Carvalho, invadindo os quartos no hotel, colecionando acenos de trinta e sete motoqueiros, sendo aplaudido, em pé, por balconistas e gerentes das lojas de tecidos e presentes paraguaios. O protesto segue, organizado, enchendo a cidade de canções.

Publicado em O Diário (23/10/2016)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Famosos & desconhecidos nos corredores da 3ª Flim

Toda pessoa esconde um punhado de enredos. Há pessoas que trazem, dentro de si, romances inteiros compostos por seiscentas e poucas páginas, repletos de personagens malditos e bondosos zanzando por diversos cantos do mundo, de São Petersburgo a Manaus, de Marialva a Madagascar, em enredos dostoievskianos de crimes e castigos, humilhados e ofendidos, noites brancas, jogadores, idiotas e eternos maridos.

Há outras pessoas
que trazem
lirismo na alma
e quando abrem
o verbo
as frases parecem
versos
roubados
de
Manoel
de
Barros.

Há pessoas com relatos concisos que cabem em mínimas linhas - gente em forma de conto recorre sempre ao silêncio.

Há outras pessoas que são, essencialmente, uma novela, e nelas os microcosmos nunca se estendem demais, nem são excessivamente breves, compondo um gênero de almas que são um meio-termo literário.

Na 3ª edição da Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), as histórias não estão apenas nas obras expostas nos estandes: cada alma, aqui, é um universo literário a ser explorado. Basta observar e ouvir. Quer ver?

"A coisa tá tão difícil que até roubaram uma casa na Morangueira, cê viu?"

"E aquela morte do galã da Globo?! Jesus amado! Logo afogado!"

"A casa inteira foi roubada: porta, janela, parede, casinha de cachorro, teto, só deixaram lá o terreno baldio porque não dava pra levar."

"Ler é até mais prazeroso do queee... ai, amiga, cê sabe bem do que eu tô falando."

"Minha vida tá horrível. Inda bem que tem Tom Zé no sábado. Maior gênio não há. Tomara que ele toque a serra elétrica e folha de fícus!"

"Caco quem?! Que nada! Me recuso a ver TV. Rede Vida, Record, SBT?! Eu, hein! Vim mesmo pela Ana Maria Machado."

"Tomara que cante 'Augusta, Angélica e Consolação': pô, eu também amo o Tom Zé."

"E o Juarez, que era milionário e agora tá pobre?! Essa Maringá é uma loucura mesmo!"

"Olha ele ali, ó, pega a máquina, Fernandaaa, pega a máááquina, mulheeer! Minha Nossa Senhóóóra, o Caco Barcellos é... do meu tamanho?!"

O famoso jornalista da TV Globo cruza a multidão de leitores, escoltado por seguranças, e, em meio a pedidos de selfies, pedidos de autógrafo, pedidos de emprego, pedidos de conselhos profissionais, pedidos amorosos, consegue, enfim, chegar são e salvo, às sete e meia da noite, ao palco do auditório Flim. No caos que Caco causou, ouço ele dizer em alto e bom som, coberto de razão:

"Cada pessoa carrega uma boa história. Todo dia é dia de ir atrás das histórias que estão acontecendo".

Caçando verbos

Caneca do Mondrian. Tiozões comprando livros. Tapete do Shakespeare. Kanga do Kafka. Tapete da Clarice Lispector. Patê de berinjela. Patê de tomate seco. Escultura de algum objeto não identificado. Senhoras comprando livros. Geleia de mexerica. Gibi do Batman. Pôster do Homem-Aranha. "Chega de Saudade", do Ruy Castro. Dois volumes da autobiografia do Fernando Henrique Cardoso. Pencas de livros redigidos por jovens celebridades do YouTube. Dois garotos comprando contos. Caça-Palavras nível fácil. Caça-Palavras nível difícil. Toda sorridente, pôster de Maria. Todo sorridente, pôster de Jesus. Todo sorridente, pôster do Lucas Lucco – epa, até aqui?! Cantores sertânicos não te dão descanso nem na Flim.

"O pôster do Luan Santana já acabou: esgota sempre rapidinho. Nas capitais, o Justin Bieber é nosso carro-chefe. No interior, só dá Luan: a meninada adora ele", comemora, feliz da vida, o vendedor.

Gente fina, ele parece ter cara de novela e topa interromper as palavras-cruzadas, debruçado ao balcão, para uma breve conversa.

"Segunda vez que participo dessas feiras literárias. A empresa em que trabalho é grande, tá sempre na Bienal de São Paulo."

"Entre uma e outra venda, a descoberta da palavra certeira?"

"Rapaz, isso faz um bem pra mente que nem te conto. Descubro uma nova palavra a cada minuto que passa."

"E quanto tempo leva para esquecê-la?"

"Esqueço logo em seguida! É difícil, viu, guardar tanta palavra de uma vez."

"Algum conselho para iniciantes de palavras-cruzadas?"

"Vários. Para fazer bem essa arte, você tem que ter algumas coisas básicas: 1) Paciência; 2) Trabalhar a memória; 3) Concentração máxima; 4) Paz interior."

Chego a segurar uma edição baratinha, em dúvida se levo ou não. Deixo para lá. Não tenho nenhum requisito básico para caçar palavras – elas mesmas é que me caçam.

Mulher de mil livros

Romance do Mia Couto. Romance do Faulkner. O consumo não é ruim: ruim, sim, é o consumismo – versão desenfreada de compras alucinadas. Às cinco da tarde, uma jovem de dezoito anos, ao lado de uma pilha de livros, te aborda com o sorrisinho mais generoso.

"Conhece esse livro?", questiona.

Capa preta. Desenho de mulher. O nome não te lembra nada.

"Conhece essa autora?", insiste, apontando o nome Jessica Sanz.

Jéssica. Não venceu Jabuti. Nem Prêmio Portugal Telecom. Não foi publicada pela Patuá. Jéssica, Jéssica. Não está na Record, na Cosac Naify, na Companhia das Letras. Jéssica.... Não foi tema de resenha. Não virou matéria. Não saiu em nota. Jéssica Sanz: você força cada centímetro da memória à caça do nome, mas nada não recorda.

"Sou eu mesma, muito prazer: sou romancista", apresenta-se a moçoila, estendendo a mão.

Gentil, a jovem fala de seu livro com detalhes empolgantes – você, de volta para casa, entretendo familiares depois da longa viagem. Enredo que mistura elementos da fantasia. Amigos virtuais que conheceu num jogo chatíssimo pela internet e inspiraram personagens. Final sempre feliz, com casais unidos até que a morte os separe – as ilusões da juventude são sempre maviosas.

Vinda de Campos dos Goytacazes (RJ), Jéssica Sanz participa da segunda feira literária de sua vida. A primeira, há alguns meses, em sua cidade natal, foi um sucesso estrondoso. "Vendi todos os cem exemplares do meu livro", comenta. Na segunda edição, custeada pelo pai-mecenas, resolveu aumentar vertiginosamente a tiragem: "Imprimimos mil livros", detalha.

Mil edições, ela diz, custaram a bagatela de R$ 7 mil. Com essa grana, você não passaria uns dias em Paris, jantando no Le Procope e bebericando na Brasserie Lipp?! Mesmo em tempos de crise, com investimentos de alto risco na maldita instabilidade econômica, a jovem está confiante no negócio verbal. "Se eu vender todos os mil livros, meu lucro chega, em média, a R$ 30 mil". Com essa grana, quantos dias você não passaria em Paris?

Mundão marginal

Esbarro em outros desconhecidos autores. Simpáticos sujeitos com jeito de contos, eles me oferecem espumante em tacinhas de plástico e tentam me vender seus versos - alguns, melhor evitar. Noutro canto, quarenta e nove velhos aspirantes a Emiliano Perneta declamam poeminhas parnasianos sobre tua chatíssima igreja-cone. Basta ouvir uma única estrofe para ter noção de sua obra completa - não permita, Deus, que terminemos assim.

Moçoilas vestidas de bruxinhas e Branca de Neve fisgam fascinações de dez meninos e meninas, em meio a contações de histórias - daqui a alguns anos, desse grupo pequenino não sairá um grande escritor?

Para onde quer que você olhe nos corredores da Flim, a literatura está presente. Forçando a vista, é possível encontrar até detalhes marginais, como no caso da estudante Heloísa Gomes. Aos dezesseis anos, ela entra na sala de aula e vai logo escondendo um livro debaixo da mesa. Nas aulas de Geografia, História, Matemática, Literatura e Física, ela não resiste à tentação. E na subversão mais poética que há, esperta para jamais ser flagrada por professoras carrancudas, recorre aos clássicos de Jane Austen. "Ela é maravilhosa. Já li três romances e me identifico muito", comenta. As amigas, ela reclama, infelizmente não têm o mesmo hábito. "Mais chegadas em série de TV, joguinho de celular, bobeira de Facebook."

Conselhos premiados

Com atrações gringas, nacionais e novos autores, a Flim sobrou até para mim. Incumbido de fazer uma mediação, preparei algumas perguntinhas ao grande José Eduardo Agualusa. O premiado escritor angolano, autor dos romances "O Vendedor de Passados" e "Teoria Geral do Esquecimento", chega em cima da hora, precisamente às 19h30. Alunos de Letras, famigerados professores da UEM e leitores em geral compõem a plateia. Agualusa tinha 27 anos quando escreveu sua primeira obra, o romance histórico "A Conjura". Uma estratégia um tanto incomum para quem está iniciando a trajetória literária. Pergunto a ele sobre essas primeiras linhas incomuns, arriscadas, e, com um sorriso irônico, o grande Agualusa dispara a resposta: "Para escrever, é preciso ser um pouco irresponsável".

Bem-humorado, fala sobre: 1) o processo de escrita de suas obras ("escrevo para saber como a história vai terminar"); 2) revela a importância do sono ("chego a sonhar diálogos inteiros, com personagens e cenários"); 3) indica o caminho da bonança ("escrever não vai te fazer milionário; para ficar rico, basta entrar para a política"); 4) lembra a influência das grandes linhas ("o bom livro é aquele que te dá vontade de escrever"); 5) comenta a afinação das lagartixas ("infelizmente, as lagartixas nunca cantaram para mim, só sorriram"); 6) entre outras delicadezas poéticas. Da plateia surgem leitores angolanos e moçambicanos, todos felizes da vida em encontrar o nobre escritor africano.

Fama & glória

Ao descer do palco, Agualusa é abordado por leitores. Isso é comum nesse tipo de evento. As atrações principais atendem o público, enquanto os mediadores seguem para casa ou para o bar. Os leitores pedem fotos, autógrafos, beijos e abraços. Deve ser bom ser querido pelos leitores, imagino, também descendo do palco. Com pés no chão, já disposto a correr rumo às mesas do Divina Dose, sou abordado por um sujeito quarentão.

"Você, então, é o Gaioto?"

Sujeito de boina, alguns papéis na mão, olhar vidrado de artista.

"Gosto bastante dos seus textos. Leio todo domingo."

Quem diria?! Agradeço o elogio. Maior felicidade não há que encontrar um leitor - esse, por sua vez, é exigente.

"Acho que você deveria fazer uma crônica sobre minha vida. Fui artista de rua na Europa, imitando Chaplin e ganhando 100 euros por dia! Lá fora, sim, o artista é valorizado. Não aqui, onde tratam a gente feito bicho, marginal, mendigo."

Há pessoas que carregam longas epopeias.

"A gente poderia sentar num bar, tipo que nem aquele texto com o Demarchi, e falar sobre mim e sobre a morte, ando pesquisando muito sobre o tema. Sou judeu, amigo da família Leminski, minha vida dá uma crônica! Você, por acaso, tem um cigarro?"

"Sinto muito, não fumo."

Baixando o tom, olhando para os lados.

"E uma ervinha, tem?"

"Puxa vida, não sou chegado."

"Que tipo de intelectual é você?"

"Nenhum! Cronista frustrado, poeta medíocre, músico manco, maestro incapaz de ler partituras: esse c ara sou eu."

Arranco um sorriso do leitor e já sou abordado por um senhor com o mesmo chapeuzinho lusitano de meu avô. Setenta e poucos anos?

"Sou amigo do Rui, lá do Diário, e te leio todo domingo. To-do do-min-go! Não acredita, é?! Um dia, pedi que o Rui falasse pra você do quanto eu gosto dos seus textos, ele não falou? Vim na Flim só pra te ver."

Inacreditável. Eis a tão esperada glória?! Pergunto nome, idade, vou agradecendo os tantos elogios, embora eu não mereça nenhum deles.

"Só não gosto quando você fala de... Deus", comenta, com risadinha sacana e me dando um tapinha nas costas.

Que senhor bacana. Por essa, nunca esperava.

"Venho lendo suas crônicas todo domingo", revela uma senhora chamada Luzia, "não perdi a oportunidade de vir te ver."

Pô, melhor que Prêmio Jabuti, Portugal Telecom, Nobel de Literatura.

"Já fui em outros eventos literários em que você estava. Gosto dessas apimentadas que você dá na conversa", diz a doce senhora.

Ainda estupefato, vou cumprimentando outros leitores. Todos muito gentis, cordiais, bem-humorados: se, com estas crônicas dominicais, você consegue carregar leitores para um encontro com Agualusa - este, sim, um escritor de verdade - então tua missão está cumprida.

Publicado no Diário (18/9/2016)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Na busca de um bom boteco, em busca de Maringá perdida

Ademir Demarchi está confortavelmente sentado numa das mesas do Divina Dose. Quase não o reconheço: protegido pelo frio, refugiado sob uma dessas toquinhas bolivianas, preparadas em lã azulíssima. Observo-o de longe, concentrado em anotações: quieto, escutando anonimamente as histórias dos clientes em volta, rabiscando frases e expressões numa caderneta. Cuidado, você, ao confessar teus segredos no bar: escritores podem surrupiar todos teus detalhes. Encho o copo de Serra Malte geladíssima e já vamos engatando assunto. Milan Kundera & Mia Couto. Geraldo Vandré & Woody Allen. Michel Houellebecq & Paolo Sorrentino – essas duplas, sim, você encara sem medo. "Vir pra cá me deixa um tanto melancólico", desabafa o grande poeta e cronista do Diário, em passagem pela cidade para visitar alguns familiares.

Eu também ficaria extremamente melancólico, se estivesse na pele do Demarchi. Não deve ser fácil abandonar, ainda que por uns dias, a luxuosa cobertura em Santos, com vista de frente para o mar, e regressar às remotas ruas do passado. Para alguns autores, a cidade - ou seu distanciamento dela - é extremamente importante. Impossível ler Kafka sem refletir sobre sua relação conturbada com Praga. Ninguém fica imune a São Luís versada no "Poema Sujo", do Ferreira Gullar, nem a Combray mitificada por Proust. Em busca da Maringá perdida, pergunto ao cronista sobre suas memórias, caçando resquícios de 1975 a 1985, período em que Demarchi viveu por aqui.

"Infelizmente, algumas coisas não resistiram ao tempo. Sinto falta de uma portinha, perto da banca do Massao, que vendia uma porpeta frita muito saborosa, feita lá mesmo. Sinto falta do Cine Maringá, Cine Plaza, Cine Horizonte, Cine Pedutti. Da Biblioteca Pública. Do antigo calçadão rústico da praça da Prefeitura, que foi azulejado por um arquiteto desses aí que azulejam paisagem", lembra, saudosista, encarando o copo à frente, criando casas, casebres, casarões, ruas, avenidas e uma imensa Catedral a partir da espuma da cerveja, que ele faz questão de entornar, sedento, num só gole.

Sempre atencioso, Seu Valter pousa outra Serra Malte e vamos molhando o verbo na mesa 33. Comento com Demarchi meu sonho recente: eu estava morto, todo de branco, e bebia com vários amigos (ele, inclusive) naquele boteco. Se há um único paraíso em Maringá, esse lugar é o Divina Dose.

Crítico severo de bares, Demarchi concorda. "Não me lembro de bares que me marcaram na minha Maringá de antigamente. Havia uns pontos de encontro, os bares na Zona 7, insossos, e a Cantina da UEM até o fim das aulas. Na juventude, a diversão era improvisada nas festinhas de bairro: uma lona no quintal, muita música de toca-discos embaixo e rock alternado com música melosa pra se grudar com as moças. Bebida barata, vida simples", comenta, com um sorriso sacana.

"Como eram as belas maringaenses da sua época? Existiam tantas loiras quanto nos dias de hoje?", vou sondando.

"Não é tão diferente de hoje, está aí você casadão em plena juventude se metendo à besta. Eram todas casadoiras, aliás, como todas as mulheres, românticas incuráveis nessa Maringá, a sentimental. Muitas, muitas caipiras. Me apaixonei umas vezes por minhas fantasias, tive uma primeira namorada vestida de pétalas de rosas e me evadi em busca do Santo Graal que ressoava na distante voz de uma sereia."

"O amor é lindo", digo, tirando uma gargalhada do poeta, que acaba de publicar um livro com esse mesmo título irônico.

"No dia em que impichmaram a Dilma, acho-a uma chata, mas sua cassação foi uma encenação feita por bandidos, pois bem, o que dizer quando nesse dia marcante para a história do País abri um jornal e li duas manchetes: 'Homem ateia fogo em carro onde ex estava com namorado em Piracicaba' e 'Separação de William Bonner e Fátima Bernardes causa comoção na internet'. A notícia mais importante era a liquidação da empresa Bonner & Bernardes Ltda. O amor é lindo", sacaneia o poeta, esvaziando mais uma Serra Malte.

A Maringá de hoje tem Festa Literária Internacional. Tem festival em que músicos de outros Estados executam Shostakovich, Brahms, Chopin. Tem exibições de filmes alternativos. Tem festival de jazz com big bands. Tudo isso com entrada grátis.

"Minha Maringá não teve nada disso. Minha época exigia atitude, fazer jornais, fazer teatro e criamos um cineclube, que reunia meia dúzia, pois os cinemas não davam o que queríamos de cinema europeu, japonês, russo, italiano, onde pulsava a vida longe do cinema norte-americano."

"Difícil acesso a livros, filmes, discos... Como você sobreviveu àquela infernal Maringá?"

"O jeito era viajar atrás da cultura. Fiz muitas viagens, fui parar até num encontro de cineclubes numa cidade italiana perto de Vitória, no Espírito Santo, dias de viagem de ônibus, onde me embriaguei com vinho de jabuticaba, assistindo um gay interpretar ao piano e cantando Lisa Minelli e seu 'Life is a Cabaret'..."

"!?"

"...não me interessei pelo ator-poeta e seus olhares melífluos e conheci uma húngara que me introduziu nos mistérios gozozos diluindo refinadamente a embriaguez do vinho de jabuticaba feito pelos monges daquele monastério em que estávamos hospedados e que depois me acompanhou até São Paulo, onde nos hospedamos em um hotelzinho perto do Teatro Municipal, passeamos pelo Anhangabaú e aprendi a amar a cultura húngara e suas proximidades a um ponto em que tenho praticamente todos os autores publicados no Brasil, a começar por um 'Tradutor Cleptomaníaco' e acabar com 'Antologia da Literatura Ucraniana', de Wira Selanski, uma raridade que teve adaptação poética sabe de quem?"

"?"

"Nossa Helena Kolody."

"!"

"Como você pode ver, Maringá, essa sentimental, me fez ir longe para estar sempre de volta."

Demarchi pede umas cachaças para rebatermos a cerveja geladíssima. Dona Ione, sempre gentil, ajeita os copinhos translúcidos de onde emanam os doces perfumes dos porres homéricos.

"A frase do Dickens 'aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos' se encaixa bem na sua Maringá?"

"Perfeitamente. O lugar da juventude é esse, o melhor e o pior ao mesmo tempo. Se se consegue um blend perfeito disso, tira-se um ótimo vinho para a velhice", aconselha.

Nosso diálogo é degolado por um jovem moreno. Um metro e sessenta, bicicleta estropiada, celular hipermoderno, empilhando três metros de tapetes coloridos.

"Vamo comprá tapete hoje?", oferece, gentilmente, Johnny Tapete.

Culpa da crise, recusamos os adornos de chão – na tua casa, os dezoito tapetes vendidos noutras noites pelo mesmo Johnny Tapete, quando você estava ligeiramente alcoolizado, já não lotam teus armários? Figura folclórica da noite maringaense, ele insiste.

"Não é um tapete comum: é um tapete voador", garante, erguendo na altura do rosto uma das opções de tapetes e deixando cair, de uma vez, rumo ao chão.

Propaganda é mesmo a alma do negócio: mais três tapetes, de Johnny Tapete, para tua vasta coleção.

"Tua Maringá é muito melhor que a minha. Como pude viver, nesses 56 anos, sem conhecer Johnny Tapete?", questiona-se Demarchi.

Seu Valter traz nova rodada de cachaça e outra Serra Malte com a noitada avançando é ali que eu pergunto sobre a meretriz septuagenária Tia Maria "sou virgem disso" & a famigerada Mansão de Pedra "um mito para mim" e como foi mesmo aquele dia em que ele assistiu Lula discursar na carroceria de um caminhão em frente à Igreja São José eu estava na organização mas não me lembro das conversas que tenha tido e das relações de Kurosawa & Trotski ou de como Beckett & Peppino di Capri se encontram e se afastam não sei os motivos agora que nos levaram até o Gógol talvez sejam as descrições do "Almas Mortas" mas não posso afirmar com veemência daí Demarchi tira o celular do bolso aponto para ele rindo da touca chilena quer dizer boliviana tá muito estranho mesmo cara e dou risada quando ele lê um trecho bom à beça do começo de um conto? romance? nunca ouvi falar desse escritor caramba me envie amanhã porque eu com certeza claro que mando pode deixar vou esquecer sem falar na ressaca esse escritor é ótimo o amor Gaioto é um dos maiores FÓUM FÓUM males contemporâneos eficientemente incorporado FÓUM FÓUM como um dos mais profícuos meios de alimentação do capitalismo FÓUM FÓUM FÓUM FÓUM um caminhão de bombeiro cruza a frente do Divina Dose com luzes faiscantes será incêndio em prédio? na minha casa? gato no alto da árvore? criança engasgada com comida? e bebericamos a terceira rodada de cachaça a sociedade das formas econômicas que moldam os afetos e os transformam em objeto o casamento é uma encenação caríssima feita pra alegrar mulher e damos risada e brindamos porque é um teatro ele diz erguendo o copo é uma grande produção é uma relação de contrato empresarial e Seu Valter atende meu pedido trazendo conta e saideira quando pagamos no crédito com Demarchi declamando um dos seus novos poemas "O Amor"

ar aprisionado num vidro
com tampa de pedra
em forma de pássaro

Publicada em 4/8/2016

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tome muito cuidado ao contemplar o pôr do sol

Os dramas urbanos dão vida às cidades. Enchem as esquinas de dúvidas, refletem o passado no ponto de ônibus, planejam crimes e pecados enquanto desviam de motoqueiros imprudentes, disparando rajadas de palavrões. Nos semblantes desarmônicos, um pouco de tudo. Repare em cada pedestre. Ciúmes. Preguiça. Inveja. Desejo. Tédio. Gula. Paixão. Rancor. Frustração. Medo. Orgulho. Preconceito. Ódio. Desespero. Pânico. As calçadas são um safári sentimental. Você, quando caminha, também ouve os sussurros das ruas? Confissões, desabafos e alguns detalhes revelam, aos poucos, os enredos das tuas cidades.

"Mãezinha, a genti não pódi complá: a gente não tem dinhêlu."
"A vizinha até ligou pro síndico. Toda semana, me inferniza. Ela é sabe o quê? Uma mal..."
"Comida. Não aguento mais lanche: hoje, quero feijoada completa."
"...caráter. Que culpa eu tenho se a vizinha do andar de cima fica andando de salto?!"
"Um beijão pra senhora, Dona Olga, e um abração pro Seu Sato!"
FÓÓÓÓÓÓÓÓM – a buzinada de um caminhão esmaga a fala alheia."
"Só se fala nisso, amiga: no casamento da socialite Camila Costa, em outubro. Sonho da minha vida é participar da alta sociedade maringaense."
"Reboco, ó: igual tua casa, tá vendo?!"
"Praia?! Cê tá louca. Com que dinheiro, amor?!"
"O plano de saúde tá impossível. Tô tentando operar a mãe no plano de alguém."
"Olha só. Que bonito. Todo mundo trabalhando!"
"Vô é terminá com aquela safada. Sei que saiu ontem com o Claudinho, acredita?! O Claudinho!"

Em cinco minutos, você testemunha amores e ódios de atores anônimos no trecho interditado da BR-376. O palco é a passarela recém-construída em Sarandi, num dos principais acessos à cidade, ligando a Avenida Antonio Volpato à Ademar Bornia. No processo de construção de dois viadutos, o trânsito foi desviado pelas marginais da rodovia. Diariamente, cerca de 30 mil veículos cruzam esse trecho sarandiense, entre buzinadas e xingamentos, num louvável exercício de paciência. A caminho de casa, pedestres exaustos fazem uma pausa. Dezenas deles. Rostos calados, ardidos, sofridos e suados – não são os mesmos rostos da "Manifestação", do grande Antonio Berni? Debruçados sobre a passarela, mergulham fundo na solidão e refletem segredos em silêncio - cogitam, eles, desistir da existência?

"Nunca! Tava aqui pensando no futuro", explica o ambulante Moacir Souza, 28, assistindo as três dezenas de operários, lá embaixo, manchando botas, calças e camisetas com respingos de cimento e cal. Antes de vender água (R$ 2), suco (R$ 2) e refrigerantes (R$ 2,50) em cima de uma bicicleta, aproveitando o trânsito da BR-376, Moacir passava manhãs e tardes construindo residências alheias. "Ganhava diária de R$ 80. Chapando parede, fazendo requadro: a coisa mais difícil que tem. Fiz casas e até um prédio em Maringá, na Vila Operária. Hoje, no trânsito, chego a ganhar R$ 70. Mas quero fazer um curso técnico e arranjar trabalho decente. A rua é incerta: num dia dá grana, no outro não dá nada. Há um ano, saí de Dourados, no Mato Grosso do Sul, com mulher e filho porque lá não tinha emprego. Mas, aqui, a situação também tá difícil. Se não melhorar, o jeito é voltar pra Dourados e morar junto com a minha mãe", comenta, escavando a memória, enquanto máquinas cavocam a terra vermelha.

A rua é incerta. O trabalho é incerto. A vida é incerta. Única coisa só é certa: ao lado do Moacir, outros rostos calados dão seus saltos introspectivos e parecem encontrar, ali, melhores soluções às tantas divagações. "Ver essa trabalheira faz bem pra cabeça da gente", garante um. "Ajuda a relaxar depois do trabalho", comenta outro. "É até bonito, não é, não?", avalia o terceiro.

Suor azedo. Terra seca. Pipoca doce. Perfume picante Jequiti. São vários, os aromas da passarela. Sete tiozões embasbacados não com as moças do Leblon, não com a maré de Copacabana, não com a vista privilegiada do Pão de Açúcar numa das mesas do Porcão, mas, sim, com a construção de Sarandi.

Churrasco de um homem só

Do outro lado da passarela, sinto de longe o cheiro de espetinhos. Na calçada, ao ar livre. Churrasco de um homem só. Onde os amigões? Onde a lambada e o rala coxa? Onde a música em alto e bom som? Quase seis da tarde, a fome bate forte e atravesso em direção aos acepipes na brasa. A dois passos do churrasco, sou tomado pelo fedor de porcos obesos e fezes amargas – um caminhão de suínos despeja aromas ácidos nas ruelas de Sarandi. Guiado, possivelmente, pelo porqueiro Eumeu, o caminhão levanta a poeira vermelha que ameaça teu chapéu e espirra cinzas e poeiras sobre os espetinhos de carne e frango, protegidos por uma tampa de metal. A fome - ela também incerta - passa rapidinho.

"A crise tirou 30% do meu movimento. A construção daí da frente, 40%", lamenta o empresário José Roberto, 55. Proprietário há três anos do restaurante Cabana, que abre diariamente para almoços, José teve que virar churrasqueiro para diminuir o prejuízo. Durante a semana, das 16h às 20h, ele oferece carne e frango aos motoristas, na calçada do restaurante.

"Vendo espetinho bem baratinho, a R$ 3. Mesmo assim, o povão não tem dinheiro pra comprar", lamenta o churrasqueiro da Cabana. Engraçado, esse nome. Cabana, Cabana... Não soa familiar? "Não era aqui, a única casa noturna de Sarandi?" "Exatamente: Cabana 40 Graus. Fechou faz tempão", esclarece o sujeito. A tal Cabana: reduto infernal de funkeiros, cantores sertânicos e outras pragas sonoras. "Não mataram alguém numa dessas noites de funk dentro da Cabana?", pergunto.

"Teve isso, sim. Realmente. Mas foi fora da casa noturna, que fique claro." Com a morte, a única casa noturna da cidade fechou as portas. Desde então, a noite em Sarandi não tem mais teto.

"O pessoal compra espetinho para apreciar a vista da passarela?"

"Nem tanto. Quem compra são os motoristas. Mas o pessoal passa o dia todo aí na passarela. Olhando o trabalho, passando o tempo. Incrível, né? Virou ponto turístico da cidade."

"O que buscam, os tantos turistas?"

"Parece que é bonito ver máquina cavocando. Dizem até que relaxa."

"Tipo pescaria?"

"Nem se compara! Pescar é muito relaxante. Eu mesmo pesco uma vez por ano no Pantanal. Os amigos vão junto. A gente pega Dourado, Piapara, Pintado, um pouco de tudo. E volta sempre mais jovem, com força pra trabalhar melhor."

Ruivinha hippie

Hordas de jovens, tiazonas, tiozões e velhos cruzam o novo ponto turístico. No meio da passarela, empunhando caneta e bloco de notas, você sinaliza com três braços à ruivinha hippie de fone nos ouvidos. Claro que ela não compreende o que você diz. Simpática, vai despindo os fones, e aceita a pausa para ouvir teu verbo.

"Todo dia venho notando esse pessoal parando, mas eu mesma nunca parei pra olhar o que tem lá pra baixo", comenta a ruivinha.
Camisa de deus indiano, pulseiras hippies, colar de filtro dos sonhos.
"A gente acaba não percebendo os detalhes. Das pessoas trabalhando. Das naturezas. Esse pôr do sol..." Setenta tons vermelhos misturados ao doce perfume da ruivinha.
"...não é lindo?!"
O mestre Monet não seria mais impactante. De um lado ou de outro, nada de prédios para atrapalhar a obra-prima. Quatro velhos embasbacados no Louvre logo seguem o rumo, deixando, para você e sua ruivinha, o bendito espaço na passarela.

"Ei, moço, só não olhe demais para o sol, tá?"
"?"
A última máquina vai resfolegando: fim do expediente dos operários.
"Dizem que o sol tem poderes mágicos: se você olhar demais, acaba ficando preso no lugar dele, e ele no seu."
"Não creio nessas crendices."
É doce, o místico riso de uma ruivinha.
"O que há de bom pra fazer em Sarandi?"
"Nada...."
Olhos melancólicos da mais profunda tristeza.
"...não tem arte..." "!"
"...não tem um bar de rock..."
"!!"
"...nem balada que toque música eletrônica...."
Não seria, esse, único lado positivo?
"...Sarandi é uma cidade maravilhosa, se você quer morrer de tédio", ela diz.
"Maringá é uma cidade maravilhosa, se você quer ser esfaqueada no meio da rua", devolvo.

Ela estende sorrisos, evitando encarar o sol – qual dos dois, mais vermelhinho? O vermelho do sol soa um tanto assustador. Há algo de infernal e sedutor no pôr do sol de Sarandi. Lembro as palavras da ruiva: tome cuidado com o sol. Encaro-o bem, quase sem medo: não parece enigmático nesse fim de tarde? Fixo os olhos sem piscar. Um tanto surpreso, vejo meu rosto na passarela, enxergo os detalhes daqui do alto: o chapéu preto, a camisa florida, o bloco de notas na mão. Faz calor demais aqui em cima. Nunca senti tanta febre nem cobicei tanta água. Lá embaixo, uma velha repreende o neto, que desiste de me olhar e protege a vista com as duas mãos. Quero correr, mas sinto o corpo pesado. Tento descer de uma vez, mas é impossível. A ruivinha hippie se despede e vai embora, caminhando em direção à Avenida Londrina. Lá embaixo, o corpo que me pertencia continua me encarando. Parece dizer algo, só que é impossível ouvir de tão longe. Será uma despedida? Tento gritar, mas, que diabos!, não há qualquer voz para gritar. Ele entra no carro e acelera feito louco. Espero que faça o que eu faria. Que siga para o jornal e escreva a crônica sobre o novo ponto turístico de Sarandi, a passarela que eu, agora, ilumino nos fins de tarde.

Publicado em O Diário (16/8/2016)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Dona Idalina, papo com a Morte e quatro saltos fatais

Por que as pessoas desistem de viver? Única dúvida desperta diversas perguntas. Falta de dinheiro? Frustração amorosa? Insatisfação com o Grêmio Maringá? Desolação com a arte pós-Duchamp? Há dezenas de mistérios envolvendo suicidas, mas uma coisa é certa: na hora da morte, eles preferem a Avenida Carneiro Leão, mais especificamente dois prédios de lá. O Centro Empresarial Transamérica e Centro Comercial Europa. Ambos com 14 andares, separados um do outro por apenas 69 passos - o número mais sacana da vida! -, os prédios contabilizam quatro suicídios. "Se alguém se arremessa em um lugar, não há nada incomum. Mas se duas, três, quatro pessoas, de repente começam a procurar o mesmo canto... Bom, daí a coisa fica meio esquisita, né?", observa um empresário, prestes a entrar no Edifício Europa.

Lá dentro, um silêncio assustador emana das saletas de advogados, dentistas e escritórios de contabilidade. Pessoas se cruzam caladas e cabisbaixas, cada uma compenetrada nos próprios problemas existenciais - pensam elas, será, em desistir de vez? Desafiando os degraus quase infinitos, chego morto de cansaço num escritório do primeiro andar. A telefonista simpática me estende sorrisos e vai logo oferecendo ajuda. Pergunto sobre os tantos suicidas que se jogaram ali do prédio. "Pelo que eu sei, foram quatro suicídios. Dois aqui no Europa, com as pessoas caindo na calçada, e outros dois no Transamérica, no espaço interno do prédio", conta Mari Segatti, 49. "Parece que um rapaz pulou daqui porque tava endividado. A moça, desilusão amorosa. Tenho pena deles, viu? Eu mesma nunca pensei em me matar. Desde cedo, minha mãe, uma guerreira que admiro muito, me ensinou a encarar os problemas e seguir sempre em frente. Você não sabe o inferno que passamos. Minha única lembrança do meu pai é dele com foice na mão pra bater na minha mãe. Viemos fugidas de Paraíso do Norte. Mas, peraí, essas perguntas são para quê?" Ainda esbaforido e tonto da caminhada, nem disse nome nem expliquei nada. A revelação ofegante – ainda hoje morreremos de infarto? - causa assombro à telefonista.

"NÃO PODE SER! Minha nossa, minha mãe te ama. ELA TE AMA! Tem 72 anos e pega o jornal de domingo só pra te ler. E ela morre de dar risada! Você não imagina, Gaioto, o bem que faz pra minha mãe. Acredita que renovei a assinatura do jornal só por sua causa? Mas que coisa, hein! Ainda não tô acreditando. Você... bem aqui! A gente pode tirar uma foto? Quero mostrar pra ela que você não é um senhorzinho, mas um jovem."

Tiramos selfie sorridente. E rabisco carinhos num bilhetinho: "Dona Idalina, não perca o texto do próximo domingo. Você estará nele. Beijão, Gaioto."

No ápice da notoriedade - algo radicalmente diferente da fama, uma versão vulgar que ilude cantores sertânicos -, deixo o prédio e esbarro em mais semblantes tristes. Entre lojas de cosméticos, barbearias, colchões e empresas de crédito no Transamérica, trombo em dezenas de rostos exaustos – todos cogitando o fim de tudo? O silêncio, no hall do prédio, é ensurdecedor. O calor lá de fora, por incrível que pareça, aqui não chega. O ventinho gelado te arrepia a espinha – será o doce sussurro da morte?

"O pessoal, quando resolve se jogar, cai exatamente aqui", diz João Batista Nunes, 61, apontando para a frente dos elevadores. Há 18 anos ceifando cabelos alheios, Nunes acompanhou, de perto, os únicos dois saltos mortais. "É uma tristeza, viu? Ninguém sabe explicar a vida deles. Tanto prédio na cidade, logo esses daqui? Felizmente, pararam com isso. Pelo menos, por enquanto."

O quinto do pai

No terceiro andar, identifico um conhecido. Sessentão aposentado, ex-bancário, bochechas coradas.Volta e meia na companhia de moçoilas, sempre pondo a mão sobre o peito – ameaças do ataque fulminante?

"Veio se matar, Seu Dorival?"

"Não tô pensando mais nisso não, mas já pensei muito."

"Verdade?"

"Claro. Águas passadas, dureza total."

"Falta de dinheiro?"

"Que nada. Uma morena."

Chapéu marrom-claro na mão, ligeiro abanando o rosto – o amor deixa marcas que não dá para apagar.

"Deslumbrante, a morena?"

"E como! Coxão assim, ó. Peitão desse tamanho."

Cabeça doida, coração na mão, desejo pegando fogo...

"Ai, só de lembrar."

...esse Fagner sabe mesmo das coisas.

"A gente se conheceu num baile em Marialva. Daí em diante, não desgrudamos. Era pobrezinha e resolvi pagar a faculdade de Direito, aqui em Maringá. Ela bem sabia que eu era casado."

"!"

"Passei a bancar o apartamentinho dela. Nosso ninho de amor. Até que se enroscou com o professor, nove anos mais velho do que eu."

"!!"

"Você sabe... Hoje, o Viagra... Não que eu precise disso, graças a Deus!"

Doce gargalhada de galã, um e outro perdigoto saltando boca afora.

"Começamos a sair, nós dois, com a morena. Em dias diferentes, claro. Num sábado, ele se confundiu e foi bater no nosso ninho de amor. Levava buquê de rosa e vinho argentino, acredita? Ficou vermelho de raiva e, depois, me procurou. 'Quanto cê paga pra ela, hein?', ele perguntava. Fiz as contas: restaurante, aluguel do nosso ninho, aula de inglês e espanhol, parcela do carrinho, mensalidade da graduação: quatro mil e pouco. 'Pago o dobro pra ela. E você some, tá certo?' Respondi que sim, mas a morena continuou me procurando. Assim, por três anos. Até que nasceu o filho da morena. Um bebezão lindão. E a gente continuou saindo. Ela levando o filhinho junto nos nossos encontros no Egitu's, no Romanu's ..."

"!"

"...já se perguntou por que esses lugares têm essas fixações mesopotâmicas?"

"?!"

"Daí não suportei mais aquilo. Terminei. Há dois anos, a morena me procurou. Dizendo que o professor acusa o filho de ser meu."

"E é?"

"A prova está nas bochechas coradinhas!", comenta Dorival, orgulhoso da obra-prima.

"Hoje encaro numa boa. Mas pensei em me matar. De verdade. Eu, casado a vida toda, maior exemplo de dignidade... Fazendo filho em outra?! Minha família não ia suportar."

"Chegou a pensar no local?"

"Seria ou aqui ou no Europa. É o point dos suicidas", diz, alegrinho. "O que me salvou foi o trabalho. Também arranjei um hobby: natação. Rapidinho, esqueci os problemas. Já imaginou? Eu, agora, mortinho da Silva? Que bobagem. Hoje, se ela volta, nem me importo. Assumo a criança de vez. Já criei quatro filhos. Não me custa criar o quinto."

Diálogos fatais

No 14º andar do Transamérica, salas comerciais escancaram serviços num silêncio fúnebre. É aqui que a morte ronda, sedenta, à espera de novos saltos. No corredor vazio, tomo um baita susto com a visão: empunhando uma foice na mão direita e vestindo uma túnica negra, encobrindo toda a cabeça, encontro a Morte caminhando em minha direção.

"É você mesma?"

"Quem mais poderia ser?"

Vozinha dos diabos, aguda e estridente: a Morte tem os mesmos tons da cantora Joelma.

"Venho falando sobre você o dia todo."

"Ouvi o chamado. O que quer de mim?"

"Por que você costuma agir aqui, entre o Transamérica e o Europa?"

"É perto do Terminal Rodoviário, posso vir a pé ou de mototaxi. Além disso, há bons bares e restaurantes na região para depois do expediente."

"Como decide quem vai partir?"

"Não decido. Só cumpro meu trabalho. Presto serviço terceirizado, temos sindicato e tudo. Nosso sistema é organizadíssimo. Pego a alma aqui e despacho do outro lado da existência. Lá, outro colaborador decide se irá para o inferno, purgatório ou céu."

"Como é exatamente o outro lado da existência?"

"Quer que eu te mostre agora?"

"Acho melhor não."

"Certo. Ainda não é sua hora."

"Quando será?"

"Tá longe, pelo que ouvi dizer. Ainda tem muitos textos pela frente."

"Você, também, uma leitora fiel?"

"Vejo vez ou outra, mas, não me leve a mal, prefiro as crônicas do Demarchi e do Reginaldo."

"Muitas pessoas pedem pra morrer?"

"Toda hora. Me acionam e vou até o lugar. No começo, é tudo maravilhoso. Depois, a rotina vira uma chatice."

"Como assim?"

"Muita gente me chama e depois se arrepende no meio do caminho. Ficam de conversinha e já não querem se matar. Tô velha, sabe? Já não tenho aquela paciência do início da carreira. Dialogando, pacientemente, convencendo as pessoas. Pelo amor de Deus, hein, não vai colocar isso no teu texto!"

"Pode deixar."

"Há um bom tempo, já faço tudo maquinalmente: 'ô fulano, vai logo, se joga daí de uma vez, pô!'. Só faço uma exigência: não esqueça o bilhete, dobrado dentro da carteira, em letra legível. É mais fácil pra identificar o corpo."

"Essas são suas primeiras declarações oficiais à imprensa?"

"Creio que sim. Quando estive com Hemingway..."

"Você esteve com Hemingway?!"

"...sim. Em 2 de julho de 1960. Ou 1961, não me lembro."

"Caramba!"

"Era um gênio, né? E vou te confessar uma coisa. Foi a única vez que implorei para que alguém não cometesse suicídio."

"Você poderia ter evitado o suicídio do Hemingway?!"

"Tentei de todas as formas. Mas ele estava muito bêbado e, sobretudo, decidido. Queria passar de uma vez para o outro lado. Conversamos durante horas. Ele criticava tudo e todos e tomava um copão inteiro de Mojito. Num determinado momento, Hemingway me encarou, rindo, e disse bem assim: 'Se eu não estivesse tão decidido, publicaria nossa conversa na New Yorker, com o título 'O Velho e a Morte'. Daí pegou a espingarda e deu um tiro na cabeça."

Convido a Morte para tomar umas cervejas comigo no Divina Dose, mas ela recusa.

"Não bebo no meio do expediente. Além do mais, preciso correr. Outro roqueiro de 33 anos acaba de solicitar meus serviços urgentemente", explica, desaparecendo no corredor.

Na última olhada para o hall do Transamérica, você pensa na Nona Sinfonia de Dvorák, no "Guerra e Paz" do Tolstói, no filme do Woody Allen que ainda não estreou, nos versos do E. E. Cummings, nas obras completas de Dalton Trevisan: há motivos de sobra para suportar essa vida inautêntica.

Publicado em O Diário (8/8/2016)