segunda-feira, 21 de março de 2016

Turistando Fernando Verissimo

Depois de flanar pelo Parque Farroupilha, ainda suado de bater pernas entre árvores – algumas destroçadas pelo recente temporal -, hordas de turistas armados com celulares hipermodernos, crianças e pais entediados no vagão do “Tchezinho”, vendedores de raspadinhas berrando promoções e dezenas de ciclistas, consigo convencer minha namorada a um passeio menos romântico em Porto Alegre: conhecer Luis Fernando Verissimo.

“É muito longe daqui! E não é meio impossível? Aquela sua conhecida não disse que ele é um chato de galochas e que até negou autógrafo pra ela?”

Aquela conhecida: ex-colega de classe, louca varrida, fã de Munhoz & Mariano, Luan Santana & Michel Teló e toda a corja de berros sertânicos - eu também negaria um autógrafo pra ela.

“Disse, disse. Mas era numa feira literária”, vou lembrando, “dessas com filas gigantescas, cheia de crianças e pré-adolescentes babões, e ela, que nem livro tinha, parece que se aproximou e exigiu dedicatória numa agenda qualquer, pô! Se cada leitor chegas- se com agendas, imagina o caos que seria?!”, digo, já fazendo sinal para o ônibus parar, e empurrando minha namorada porta adentro.

Há quatro anos, Luis Fernando Verissimo passou duas semanas na UTI de um hospital e deu um baita susto em seus leitores. Quase morreu, vítima de uma infecção nos rins que ameaçava ser fatal, e, durante um tempo, manteve-se recluso dos eventos literários. Com a melhora em 2013, foi retomando a antiga rotina. Rumo aos 80 anos, comemorados no dia 26 de setembro deste ano, ele segue publicando crônicas irônicas e inteligentes nos jornais Zero Hora,O Estado de S. Paulo e O Globo. Sua obra mais recente, As mentiras que as mulheres contam saiu no ano passado e pode ser lida como uma continuação do best-seller As mentiras que os homens contam (2000), que vendeu cerca de 500 mil exemplares.

Se tudo der errado e Luis Fernando Verissimo não nos receber, recusando uma dedicatória na minha edição de Outras do analista de Bagé (1982), pelo menos estaremos na frente da casa onde morou e morreu Erico Verissimo, vou dizendo à namorada. E agora é ela quem me puxa pelo braço, porque segundo o aplicativo do celular é exatamente aqui o ponto onde temos de descer, a duas quadras de distância do destino literário.

Soldados e pardais

O bairro de Luis Fernando Verissimo parece uma zona de guerra. Soldados do exército, divididos em duplas, zanzam de um lado para o outro, batendo de porta em porta e conversando com moradores, num mutirão contra a dengue. “Podemos ir disfarçados de soldados...”, sugere minha namorada, um tanto ofegante com a subida da ladeira, “quem sabe assim ele não é obrigado a receber a gente?”

Vencida a subida, somem de cena os recrutas caçando mosquitos. Casas silenciosas. Antigas. Charmosas. Escancaro ouvidos no meio da calçada, na tentativa de escutar algum solo de clarineta, mas tudo o que ouço são os improvisos jazzísticos de um casal de pardais, se engalfinhando numa árvore de esquina. E é daqui, debaixo dos pardais, que vejo, a poucos metros, a casa de Erico e Luis Fernando Verissimo.

O carro estacionado na garagem e a porta entreaberta indicam que há gente. Azulejos coloridos. Pequeno jardim à frente – epa, não foi bem aqui que Erico tirou aquela foto, sentadão, todo sorridente?

Uma voz serelepe e gentil atende o interfone. “Então vocês querem conhecer o Luis Fernando?”, pergunta, do outro lado da linha. “Exatamente. Somos seus leitores.” “Esperem um momento. Vou abrir para vocês.” Surpreendente. Menos impossível que o esperado. Minha namorada já saca da bolsa a edição a ser autografada - nada de agendas, evidentemente.

Gente finíssima, a senhora de cabelos grisalhos surge para abrir o portão. “Muito prazer! Sou a mulher do Luis Fernando. Vocês, então, vieram do Paraná?!”

Vestidinho cinza, olhos cheios de vida e pés descalços para sentir as verdades do mundo. Sessenta e poucos anos - não aparentam só vinte e nove?! “Entrem, entrem. Só me perdoem, viu? Que isso não é traje de receber visitas. Mas vamos entrando que já vou chamá-lo.”

Antessala. Sofás para pausas rápidas. Suporte para casacos. Corredor de paredes brancas. Um quarto. Cômodos escuros. Ar condicionado refrescando a alma. “Luis Fer-naaan-dooo!”, grita a mulher, carinhosamente, convocando o marido.

No final do corredor, que dá para uma grande sala com sofás confortáveis, mesa apinhada de livros e jornais, e paredes lotadas de pinturas de artistas gaúchos, Luis Fernando Veríssimo finalmente surge em cena. Um metro e sessenta e pouco. Camisa branca por baixo da calça bege enlaçada por cinta preta. Sapatos escuros. Roupa de quem está prestes a trabalhar. “Vamos nos sentar, por favor”, convida o autor, estendendo sorrisos.

Pergunta o meu nome e o de minha namorada. Ao ouvir o nome dela, Ariádiny, lembra que já o usou em uma de suas obras.

“Foi naquele romance...”

Olhos vagueiam lembranças nas paredes de telas e aquarelas.

“...aquele...”

Sobrancelhas envergadas em busca do título perdido.

“...‘Os Espiões’”, responde, orgulhoso da própria memória.

Caminho da crônica

“O que um jovem aspirante a escritor deve ler para poder escrever bem?”, pergunto. Luis Fernando vai respondendo com calma, fazendo algumas pausas entre seus selecionados da sagrada lista.

“Eu sugiro os cronistas... Fernando Sabino... Paulo Mendes Campos... Sérgio Porto... Rubem Braga... Todos eles. E depois, é só escrever. Não precisa saber como vai terminar a história... É só pensar no início e, em seguida, desenvolver a ideia... Eu mesmo nunca sei como vou terminar uma crônica ou um conto”, revela.

“E por que essa reclusão do público e dos eventos literários?”

“Um pouco dessa minha reclusão é porque, como você sabe, sou muito tímido... Esses eventos são muito difíceis pra mim. Mesmo assim, quando sou convidado para ser patrono de festa literária ou coisa do tipo, faço um esforço para ir.” “E o próximo livro, quando vem?” “Já está com a editora. Será uma compilação de crônicas já publicadas. Ainda não tem nenhum título definido”, adianta.

“Vô, vô, vô!”, grita uma menininha, de uns cinquenta centímetros, invadindo nossa conversa. “A gente já pode ver a experiência?”

Luis Fernando abre um sorriso carinhoso.

“Claro, já vamos ver. Será que deu tempo? Gelou tudinho?”

“Eu tava vendo ali e já deu sim, ó...”

O dedinho, firme, apontando o relógio de parede.

“...passaram trinta minutos, tá vendo? A gente pode abrir o freezer?”, indaga a menina, cheia de ansiedade.

“Só mais um segundinho e o vovô já vai ver a experiência com você, tá?”

“Tá bom. Brigada, vô!”

A menina sai em disparada pelo corredor. Não queremos atrapalhar a experiência em família do autor e de sua netinha.

“Gostaríamos que você assinasse nosso livro, pode ser?”

“É claro que sim.”

Iberê particular

Depois da dedicatória, com letra miúda, típica dos tímidos, ele se levanta, pergunta se gostei dos quadros.

“São fabulosos. Você tem um verdadeiro museu. Não pensa em abrir sua casa ao público?”

“Jamais.”

“Só falta um Iberê Camargo”, digo.

“Ah, vocês gostam do Iberê?”, devolve o autor.

“Iberê é nosso maior pintor. Maior que Portinari. Que Tarsila. Que todos eles juntos. Injustamente esquecido”, respondo.

“Querem ver o Iberê que tenho aqui em casa?”, ele pergunta.

Um Iberê para chamar de seu. Luis Fernando não se surpreende com nossa cara de espanto.

“Meu pai ganhou de presente dele.Vamos até lá, na outra sala, que vou mostrar para vocês.”

Eu e minha namorada nos damos as mãos. A passos lentos, vamos seguindo o escritor. No meio do corredor, esbarramos com Capitão Rodrigo, as Cobras, Ana Terra, Analista de Bagé, Quitéria Campolargo, Ed Mort, Barcelona, Velhinha de Taubaté, Erotildes e num punhado de homens mentirosos.

A ficha agora cai: um Iberê sem faixas no chão exigindo distância da pintura. Sem seguranças
uniformizados e entediados te rondando. Quatro palmos de largura e mais duas e pouco de altura? Vermelho. Preto. Cinza. Branco. Pinceladas em relevo exibindo os traços do nosso pintor mais genial, a poucos metros do nosso cronista vivo mais genial. Além de outros quadros, as paredes surgem cheias de livros e CD’s, misturando a história de pai e filho nas estantes. “Aqui ficam as traduções dos livros do meu pai”, comenta Luis Fernando, apontando a longa fileira de livros incompreensíveis. Puxo das estantes uma edição indecifrável, com hieróglifos orientais. “Essa é de O senhor embaixador", avisa.

Fecho O senhor embaixador e pergunto a Luis Fernando se ele sentiu orgulho da bela crítica que Wilson Martins publicou sobre O Popular, seu livro de estreia, no início dos anos setenta. “Como era mesmo essa crítica?”, ele pergunta.

“‘O Popular’  não é um livro importante, mas Luis Fernando Verissimo é, ou será, um escritor importante”, decretava, em tom profético. Destacando a qualidade do autor gaúcho, enquanto jornalista e literato, o severo Wilson Martins ainda rechaçava, nas páginas de O Estado de S. Paulo, quem o tomasse apenas por “simples humorista”, o que seria “não apenas injusto, mas indesculpável erro de julgamento”.

Recepção gentil

Luis Fernando abre outro sorriso, em meio aos CD’s de Mozart, Beethoven e outros compositores clássicos, ao lado de uma vitrola que não funciona mais. “Ah, sim. Eu me lembro bem desse texto... Essa crítica do Wilson Martins me fez muito bem, na época”, admite o autor.

A criança na cozinha volta a gritar pelo avô, curiosa pela tal experiência na geladeira. Eu e minha namorada aproveitamos para agradecer a recepção gentil e carinhosa. E, acompanhados pelo autor e sua neta, vamos deixando os cômodos silenciosos, abandonando Iberê Camargo, cruzando salas de livros e arte.

Na saída, a mulher de Luis Fernando conversa com um sujeito meio gorducho e uma quarentona. Explica aos convidados que viemos do Paraná e reclama do calor infernal que abafa Porto Alegre naquele sábado. Já estamos nos despedindo do autor e de sua família quando um forte estrondo, de um objeto que acerta o chão e se arrasta até a parede, interrompe bruscamente nossos últimos diálogos.

“Meu Deus, já é a segunda vez!”, assusta-se a quarentona.

“Aqui é sempre assim”, desabafa a esposa de Luis Fernando.

Rindo do susto, todos olhamos um tanto surpresos para o jornal que acaba de ser disparado pelo entregador anônimo.

“Outro dia me acertaram a cabeça, acredita?”, lembra a quarentona, pegando o jornal do chão.

“Já entendi tudo”, diz o gorducho, olhando para Luis Fernando. “Esse cara é um leitor que te detesta. E toda vez que passa por aqui, faz questão de arremessar o jornal com raiva e rancor, pensando: ‘Toma aí, seu escritor de merda!’”.

Todos caímos na risada. O episódio certamente renderia boa crônica e, quem sabe, até algum personagem secundário num romancete. Desconfio que era exatamente nisso que o autor pensava, contemplando, num riso silencioso, o susto e a indignação da família, a fuga do arremessador de notícias, o semblante embasbacado de seus dois leitores paranaenses e a ansiedade da neta pela misteriosa experiência no freezer. Mesmo sem sair de casa, Luis Fernando Verissimo tem todas as histórias e todos os personagens que precisa.

PUBLICADO NO CORREIO BRAZILIENSE (19/3/2016)

Strikes, rancor, musas e conselhos amorosos


Em Maringá, você conta nos dedos os prazeres da terceira idade: a cervejinha carérrima no Nara's Bar, as tardes de dama e dominó na praça da Pernambucanas, o bailão vespertino no Clube do Vovô e os jogos de malha na Vila Operária. Mas não só desses êxtases vivem os teus velhos. Exímios jogadores de bocha, possivelmente a mais entediante das modalidades esportivas - superando o golfe e o rugby -, os velhos maringaenses também se regozijam com manhãs de boliche.

Em plena quarta-feira, às oito da manhã, risinhos e palminhas ecoam entre pinos derrubados na 9ª edição do Campeonato de Boliche das ATI's (Academia da Terceira Idade). Todas as pistas tomadas. Os mais preparados, de roupas leves. A cada jogada, tênis esportivos arranham solas antiderrapantes. Desconfiados do sistema de contagem eletrônica, alguns velhos fazem questão de registrar num papelzinho o resultado da pontuação. A cada strike, berros e comemorações exaltadas.

Única não-velha sentadinha com os bolicheiros, a menina de doze anos quase não se contém.

"Vim pra acompanhar minha vizinha. Será que vão me deixar jogar?", pergunta Micaela Spagnoli, torcendo mãozinhas e enroscando dedos, acompanhando pinos que descem e sobem - jamais para ela. Sabe, você, o que é passar sede diante do mar?

"Nem um pouquinho?", insiste, preocupada.

Difícil responder. Olhe em volta. A dedicação. A curvatura em cada jogada - não é perigoso depois dos setenta e pouco? Velhos levam a sério o tal campeonato.

"Isso aqui é muito melhor que malha e bocha!", garante um setentão.

Chapéu branco, camiseta regata, peito em mil batimentos cardíacos.

"Esses esportes antigos dão muito trabalho. Tem que ir de um lado pro outro, depois ajeitar as coisas, fica cansativo. Aqui é tudo diferente. Posso fazer muitos pontos..."

Dedão apontando o papelzinho rasurado de jogadas - pontuação: 78.

"...e ficar sentadão, ó, tranquilinho. Que os pinos sobem sozinhos."

Um olho fala contigo, o outro amaldiçoa as jogadas do adversário.

Bendito Piauí

Fora da pista, jovens monitores prestam auxílio, cedem conselhos e estímulos aos derrotados.

Sou atraído por uma voz feminina. Sotaque exótico, com tons ainda mais graves e agudos.

"Vim dí Terésina, nu Píauí."

Como é bom mulher bem acentuada.

"Gostando de Maringá?"

"Adoréi, víu? Mas é túdu díferêntí."

"?"

"Nas festînhás, é tudu múndu convérsándu. I não dánçam cum ninguém!"

Ai, essas dançarinas de Teresina. Olhos castanhos, boquinha vermelha, um metro e sessenta de altura.

"Na minha cidádí, a génti dánça mésmu: Wésléy Safádão, Falamansá e Aviões do Fôrró."

Já pensou? Você, cara, dançando essas coisas? Melhor: nem pense.

"E os homens maringaenses?"

Risão descontrolado. O dedinho de lá para cá indicando jamais. Não saberás. Insisto.

Grandes lábios escancaram sorrisos sacanas.

"Tu tém cértêêêza?!"

Pensando melhor...

"Tu já sábe a réspóóósta, né?"

Lula lá

Deixo a moçoila do forró, saio coletando resmungos rancorosos.

"Aquele Lula é um safado."

"Que nada. Safado é você. Lula mudou nosso País..."

"Mudou mesmo: pra pior. Olha essa crise."

"...e ainda vai salvar a gente. Não é José?"

"Sei não."

"Ele, Cunha, Dilma: tudo ladrão. Pensa que não roubaram? Cadeia neles. Moral neles. Moro neles."

"Mesmo votando no Lula, acho que ele deve ser investigado pelo Moro. Isso eu concordo. E você, José?"

Semblante sem mínimas reações.

"Meu Deus, José, não tem opinião?"
"Sei não. Ó, Benedito, sua vez de jogar."

A vida segue no meio da crise. Sento num canto. Hora de acompanhar o aquecimento de velhos aglomerados numa sala envidraçada. Alguém chega com um bambolê azul e anuncia o próximo exercício.

"Tem que pegar e passar o corpo inteiro por dentro dele, tão vendo?", explica uma moçoila, enfiando-se e contorcendo-se diante do círculo de plástico.

Séria e sisuda, a velha encara duas vezes o brinquedo em mãos. Não é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha? E se travar tudo?

Estimulada pelos colegas não menos jovens, ela respira fundo, cochicha qualquer coisa - benção ou palavrão? - e começa a suar frio. Em dez segundos, o fim da aventura. As palmas febris do coração encorajam o velho ao lado, que, igualmente apavorado, também recebe o bambolê e parece ter certeza de seu fim: entrar ali e jamais sair.

Musa do bambolê


"Aquele outro senhor é muito competitivo", cochicha uma voz levemente apimentada.

Loirinha, vinte e dois aninhos, tênis esportivo de cores berrantes. Você resistiria? Rápido e ligeiro, eu me levanto. É duro, cara, testemunhar tantas musas maringaenses. Em pé, vou salivando cada detalhe, um mais delicioso que o outro. Quer ver, nobre voyeur?

Nome: Débora Padilha.
Calça: cinza e coladíssima.
Cabelo: preso num rabo de cavalo.
Altura: 1,70 m.
Olhos: melancólicos.
Pescoços: à Modigliani.
Ombros: altos.
Pintinhas: não.
Coxas: elegantes.
Risos: autênticos.
Joelhos: adocicados.
Braços: branquíssimos.
Pés: no chão.
Unhas: cordiais.
Lábios: tenros.
Perfume: mescla de azaleias, lírios, begônias.
Apelido: Dedé.
Piercing: no nariz.
Hobby: vôlei.
Tatuagem: frase negra no pulso direito.
O quê: "Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei".
Fonte: Salmo 91, Bíblia.

"Aqui, a gente fica com eles durante o tempo ocioso", explica Débora

"Nessa idade, faz bem ser competitivo?", questiono.

Lá no meio, mais um velho é desafiado - o bambolê tremelicando pavor ou espasmos musculares?

"Qualquer coisa que estimule a prática de exercícios já é ótimo."

E mais não dá para arrancar da nossa loirinha. Que ela, ligeira, corre em direção ao bambolê, é hora de guardá-lo, ajeitar uma cadeira ali e aqui e iniciar nova atividade, desencarrilhando suspense e interrogações - nessa altura da vida, todo aquecimento é um esporte radical.

Exercícios casamenteiros

Sentadona à mesa, ao lado de um japonês quieto e calado, a senhora de 69 anos ignora o aquecimento. Quer mesmo é se jogar na pista.

"Não vim pra perder", anuncia, toda serepele.

Chego distribuindo gentilezas. Milagre do Santíssimo? Miragem destes olhos traiçoeiros? Nunca aparentando quase sete décadas de vida.

A velha se delicia com a risadinha mais graciosa.

"Pensa que é fácil manter essa forma?"

Braços, cotovelos, canelas e pescoço enrugando passados.

"Três vezes por semana, faço exercícios no salão da igreja. E sem falar na hidroginástica. Isso me mantém viva. Meus seis irmãos, que nunca praticaram esporte nem caminhada, já morreram tudo."

"Solteiríssima?", vou sondando.

"Que nada. Casada há 52 anos."

O velho japonês, agora, escancara ouvidos à conversa.

"Qual receita do casamento perfeito?", questiono.

"Muita paciência. Porque vou te contar, viu? Não é fácil viver uma vida assim", aconselha.

Quase em cochichos, o japonês resolve polemizar o diálogo.

"Sabe qual é o verdadeiro segredo do casamento?"

A risadinha escapando no canto da boquinha carcomida pelo tempo - dele e dela.

"O segredo do casamento é ser pobre."

Aplaudindo a resposta do japonês, mãos eufóricas e rosto coradinho, a velha vai ao delírio - a mesma empolgação de assistir, na primeira fileira, os mágicos e malabaristas do circo Tihany.

"Vê o meu caso: sou pobre, trabalhei a vida inteira e não tive tempo de ficar brigando."

"Comigo, minha nossa, a mesma coisa!"

"Com rico é diferente: com tempo livre, termina o casamento e junta com outra, sempre mais nova."

"Pra eles, quanto mais nova melhor."

"Por isso, tô casado há 54 anos."

"Ainda há romantismo?", pergunto ao japonês.

A velha escancara risadona estridente - desespero das noites de horror? O japonês lança um olhar distante, cansado e vencido.

"Olha, tá bem mais ou menos."

"?"

"Pra falar a verdade, não tem mais romantismo, não."

A velha completa os lamentos conformados do último romântico.

"Nessa nossa idade, é mais a companhia que importa, né?"

"Exato: um cuidando do outro..."

"Sei bem como é."

"...até o fim da vida."

Lições preciosas

"Como eu pego nas bolas?", questiona-me uma senhora oitentona, cutucando minhas costas com o indicador.

Reflito um pouco em como ajudá-la. Levanto o indicador, o dedo médio e o pai de todos. E digo que é para colocar nos buracos.

"E cabem?"

"Quase inteiros."

Olhos curiosos desejando novas lições: nunca é tarde para aprender.

"Só enfiar tudo?"

"Sem medo."

"E não machuca?"

"Dor e prazer muitas vezes se completam..."

Risinhos descontrolados e frenéticos.

"...mas não é o caso."

Bochechas corando interrogações, pelinhos morenos eriçados no braço direito.

"Alguma outra dica?"

"Concentre-se nas setas."

"Que setas?"

"No chão, ali, enfileiradas."

"Ah, sim. Agora tô vendo."

"Mire no centro: você está feita."

"E pode com qualquer mão?"

"Prefira a mais firme."

"Olhos fechados ou bem abertos?"

"Bem abertos: jamais perder o mínimo detalhe."

"Do jeito que eu gosto."

E lá vai ela. Na pista, lá longe, alegrinha, desajeitada, inexperiente de quase tudo, não parece sessenta e cinco anos mais nova? Com cuidado, segura a bola de boliche com as duas mãos. Concentrada na própria jogada, posiciona-se diante das setas.

A longa espera da bola espancando a pista causa aflição nos adversários – velhos lançando maldições em silêncio, torcendo pelo pior.

As canaletas eretas, alívio das amadoras, são apenas decorativas para a minha aluna.

Nove pinos derrubados de uma única vez, numa jogada certeira e sem desvios: não é para qualquer um.

Ela comemora, nós comemoramos. Tivesse champagne, ostras, vinho francês, ali nos serviríamos. Justo e merecido. Velhos batem palmas e distribuem parabéns à minha estreante - por dentro, disparam mais maldições e torcem pelo pior.

PUBLICADO NO DIÁRIO (20/3/2016)

terça-feira, 8 de março de 2016

Rumo ao sul, ao sol... 'Recuerdos' das férias

Escrever a redação das férias era tarefa desesperadora para todos nós, alunos do Colégio Santo Inácio. Vejo essas mochilas carregando alunos, no retorno às aulas, e tenho piedade deles todos.

Quantas inúmeras vezes você não saía da sala para ir ao banheiro, mesmo sem vontade de esvaziar a bexiga, na tentativa de esbarrar em histórias entre pias e privadas do colégio? Como passar a limpo o que ninguém em sala, nem alunos nem professora, sabe exatamente o que você fez?

Clamando a Deus e todos os santos, no bendito colégio católico, fui atendido, certa vez, por um sussurro anônimo, soturno e sereno, porém um bocado aterrorizante – é a mesma voz, noto agora, depois de tantos anos, que ecoa na versão dublada de "Marcelino Pão e Vinho": "Gaioto, lembre-se disso: no início, era o verbo".

Foi aí, com esse aviso do além, possivelmente Dele, do tradutor da Herbert Richers, que me dei conta do verbo.

Na escola, obrigado a preencher de 27 a 35 linhas com histórias sobre minhas férias entediantes em Maringá, aprendi a ser um mentiroso.

Não desses mentirosos que derrubam senadores ou desmoronam casamentos de longa data. Um mentiroso mais leve, suave, lírico.

Nas minhas redações, eu namorava todas as garotas do edifício Serra da Cantareira – inclusive as dulcíssimas irmãs de vinte e poucos anos, do décimo primeiro andar.

Pescava tilápias agigantadas no Pesqueiro do Pacu.

Encarava jacarés, onças e rinocerontes no Parque do Ingá.

À noite, pegava baladas na Kalahari, sempre no setor VIP, evidentemente, sendo muitíssimo bem-sucedido com as musas da alta sociedade.

Essas e outras mentiras costumavam causar inveja e rancor nos outros alunos – e foi aí que eu descobri, logo cedo, que, ao escrever, você deve estar sempre disposto a expandir sua lista de inimigos.

Se não for para criar inimigos, então é melhor nem escrever: há outras artes, como o canto gregoriano ou o balé clássico, mais indicados para quem quer engatar novas amizades. Mesmo assim, como ninguém tinha férias tão rocambolescas como as minhas – nem as mocinhas de vozes estridentes que abraçavam o Pateta na Disney –, a coisa ficava por isso mesmo. Eu, feliz à beça e de sorriso no rosto, redigindo minhas histórias amalucadas, e o resto dos alunos tristonhos e altamente depressivos, conscientes do quão entediante, tosca e mesquinha é a existência de um ser humano.

Se você é desses alunos - pelo que me parece, há escolas exigindo esse tipo de redação até dos coitados do Ensino Médio -, aqui vão cinco dicas certeiras:

1) Capriche nos detalhes: cores, nomes simples e compostos, perfumes e maus cheiros. Nenhuma verdade é mais real do que sua imaginação é capaz de inventar.

2) Esqueça essa bobagem de começo, meio, fim. Comece o fim pelo meio, termine pelo começo, faça do meio o teu abre: esquemas só servem para te chicotear o lombo na escravidão.

3) Não se preocupe com os tais bloqueios criativos: durante a escrita, use todos os possíveis adjetivos. Na primeira revisão, corte metade deles. Na segunda leitura, mais uns vinte por cento. Na terceira, extirpe os que sobraram. Seu texto está pronto.

4) Explore a nudez à vontade. Da mulher, não hesite as mínimas belezas, cada pecinha de roupa, se saltinho ou sapatinho, os tamanhos de cada detalhe do corpinho, com suas curvas, cores, harmonias e relevos próprios. Do homem, bem, não sei o que dizer.

5) Ao detalhar suas férias, não espere glória nem aplausos. Allan Poe, Kafka e Lima Barreto nunca foram reconhecidos em vida. Se o reconhecimento não vier, decepe uma das orelhas.

Caminhante
Quando viajam, sujeitos entediados lutam para não morrer de tédio. Atazanadas de fúria uterina, moçoilas saciam todos seus sonhos picantes – impossível detalhá-los por aqui.
Endinheirados ostentam camarotes, restaurantes carérrimos e lanchas com DJ's e modelos de passarela.
Você, quando viaja, só quer um canto sossegado, calçadas para flanar e algumas garrafas de vinho – mesmo nas mais longas viagens, ninguém escapa de si mesmo.

Uruguai
Em Montevidéu, morro de amor por Pocitos, nossa Copacabana dos anos cinquenta. Veja os prédios: todos pequenos, limpíssimos e acinzentados decorando a orla. Num desses apartamentos, de frente para o Rio da Prata, certamente empunhando uma garrafa de uísque, Vinicius de Moraes compôs "A Felicidade". Caminhando pela orla, impossível não cantarolar os versos do Poetinha. Nada daqueles prediões depredados da Copacabana de hoje. Onde os viciados em sexo? Onde os tantos traficantes, drogados, trombadinhas e meretrizes sexagenárias de olhão esbugalhado? Em Montevidéu, a bossa nova ainda faz sentido. Tristeza não tem fim; Copacabana, sim.

Ser portenho
Loiras, muitas loiras. Loiras lisas, cacheadas, naturais, oxigenadas, loiras cheias de luzes. Ombros à mostra, grandes lábios rosados, lábios pequeninos e vermelhíssimos, bracinhos nus com ou sem
tatuagem. Loiras de chapéu, de vestidinho florido, shortinhos ofuscantes, calças coladinhas.
Gozando merecidas férias, em meio a tantas loiras na Avenida 9 de Julho, Buenos Aires não é o melhor museu do mundo?

Melhor das piores
Se você quer morrer de tédio, gaste uma tarde em Colônia do Sacramento.
De que serve seu famoso pôr-do-sol se não para deixar ainda mais melancólica aquela pocilga de cidade? Ruínas, velharias, ruas em pé-de-moleque, casarões empedernidos, restaurantes ruins num calor dos diabos. Turistas ensopados de suor lamentam o azar – qual maldito te aconselhou passar duas noites aqui?
Sem nada para fazer, você planeja os mínimos detalhes da tua vingança. De volta da viagem – danem-se os tais mandamentos sagrados! –, você, sim, sacaneará o próximo. Sabatinado pelo vizinho, pelo colega de departamento e até pelo leitor, você aconselhará não duas, mas quatro, cinco ou seis noites em Colônia do Sacramento, a melhor cidade da América do Sul.

Ah! Buenos Aires!
Poucos minutos antes do Stravinski ao ar livre, no Centro de Buenos Aires, pais vão chegando com suas crianças babonas de cinco e seis anos de idade. Atiçadas, correm de lá para cá. Crônica do desastre anunciado? Lá, não. Quando os músicos surgem no palco, elas sossegam. Crianças cordiais e educadas nem lembram as propagandas ambulantes de vasectomia que esperneiam, em Maringá, em qualquer concerto. Quer ser pai? Vá pra Argentina.

Uma vantagem
Único alívio em Colonia do Sacramento? Lá, pelo menos, você não escuta os berros estridentes das 300 duplas sertânicas que infestam tua maldita Maringá.

Oh! As gaúchas!
Em Porto Alegre, onde as gaúchinhas de olhos verdíssimos? Azarado que sou, caço à toa e não navego musa alguma. Gorduchas de varizes azulonas, velhotas leprosas, ciganas de dentes macilentos, essas, sim, te sorriem a caminho do museu do Iberê Camargo, oferecendo mil e uma noites de êxtase, em promessas que fariam corar o danado Bocage.

No coins
Na porta central, prestes a entrar numa igreja chatíssima de Porto Alegre, a mão tremelicante estendida na tua direção é do aleijado clamando dinheiro. Esperto, na saída, você escolhe uma das portas laterais. Lá, um bêbado sessentão e uma aidética cinquentona também exigem moedinhas. Dinheiro não dou nem tenho peso na consciência – benefício de zanzar somente com cartão de crédito.

Querem meu dinheiro!
Roupas rasgadas, voz chorosa, fedendo a peixe e cigarro paraguaio.
"Alguém me ajuda..."
Rosto encardido dos sessenta anos de cachaça.
"...pelo amor de Deus..."
Mão tremelicando saudades do próximo gole.
"...com dez reais?"
Mais um deles.
Em todo canto de Porto Alegre, um velho cobiça teu dinheiro.
No Mercado Municipal. Na Ladeira. Na Casa de Cultura Mario Quintana. No Centro Cultural Erico
Verissimo. Pensa, você, que o inferno é Maringá?

Ô, tchê!
Você mal sai do hotel, o gaúcho te aborda na calçada.
Carros, motos, alguém desafinando o teclado na esquina. Olhar te pedindo – o quê? Suadão, camisa cavada.
Ai, não, mais um?!
Distraído com a buzinada de algum carro cinza, você nem escuta a pergunta do desconhecido e já dispara resposta pronta:
"Não tenho dinheiro!"
Confuso e surpreso, o gaúcho te devolve meio constrangido.
"Ô, tchê, só tô perguntando as horas!"
Criminalidade
Nas areias de Pocitos, gritos de "Deus nos acuda!", "minha nossa!" e "ai, meu Deus!" compõem a trilha da correria no calçadão.
"Pega! Pega!"
Ladrão?
"Pega! Pega!"
Tarado?
"Pega! Pega!"
Até aqui?
Assutados, banhistas desembestam de um lado para o outro. Forte dispara o coração.
O magrelo branquelo vira refém de um grupo e é surrado no meio da areia por dezessete sujeitos.
Com a sova bem-sucedida, abandonam o corpo e se misturam aos turistas no calçadão, apressando passos da polícia. Fugir das rodas de pancadaria nas areias de Pocitos libera mais endorfinas que duas horas de pacíficas caminhadas.

Cultura
A brasileira magrela, de ossos minúsculos e rosto chupadão, contempla os débeis traços do "Abaporu". Exposto no museu argentino, o maior quadrinho da pobre Tarsila.
"Gente, que vergonha..."
Voz grave, mãos masculinazadas, vasta cabeleira nas axilas.
"...nossa maior obra-prima..."
Da blusinha regata, os tantos pelos não te sorriem?
"...tão longe do nosso povo, e não nas paredes do Masp de São Paulo."
Pergunto nome, idade e profissão da moça.
"Micaele, 25 anos, estudante."
"Então, Micaele, o Masp, por outro lado, tem seis Modiglianis, e os argentinos só têm dois."
Caçando de perto, onde os resquícios da beleza feminina?
"Pouco importa a pintura europeia..."
"!"
"...o que vale a pena é valorizar o que é nosso!"
Sabe ela, realmente, o que é um Modigliani?
Não dá tempo para perguntar. E a moça desembesta a bater pernas entre outros quadros – todos, evidentemente, melhores que a Tarsilinha.
Na parede argentina, você encara bem, novamente, o pobre "Abaporu": primitivo, infantiloide, cru, malfeito, amador, rudimentar. Melhor ficar aqui mesmo.

Por último, o sol!
Em Porto Alegre, a gorducha loirona contempla o sol se espreguiçando às margens do Rio Guaíba: "Tchê, é o pôr-do-sol mais lindo do mundo!", garante, deslumbrada.
Dois dias depois, na chatíssima Colônia do Sacramento, duas gordas morenonas se espremem diante do celular, na tentativa do selfie perfeito, diante do Rio da Prata – mais fácil enquadrar treze luas juntas que aquelas duas gorduchas: "Esse é o pôr-do-sol mais lindo do mundo!", garantem, deslumbradas.
Em qualquer lugar do mundo, o sol deita catarses de gordas.

Publicado no Diário (6/3/2016)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Número 2, banho no posto, ranho na parede e muita raiva

Os últimos dias transformaram radicalmente o humor da cidade. Saiu, você, para sentir o climão das ruas sem banho? O trânsito na Avenida Brasil surgia intensificado por palavrões – xingamentos muito além dos clichês cotidianos, mesclando elementos da umbanda com quiromancia, magia negra e maçonaria, alusões a Opus Dei e ao satanismo de Anton Szandor LaVey, tudo bem berrado em cada boca.
Motoristas enfezados recusavam ceder passagem diante da faixa de pedestre - não importa se feia ou bonita, moças eternamente à espera. As buzinas - você não ouviu? - soaram ainda mais estridentes. Rostos transbordavam raiva em cada ciclista – todo mundo pedalando bem devagar, suficiente para não suar demais. 
De repente, na cidade, sumiram todos os sabiás. Nada de jam session com pássaros trompetistas. O vinho azedou. Crianças envelheceram. Amores amargaram. A água, enfim, acabou.
Ironicamente causada pela inundação da chuva nos últimos dias, a escassez de água em Maringá parecia enredo de algum conto fantástico do Cortázar. 
Há quem diga que moradores de cidades vizinhas chegaram a escancarar as portas de casa, oferecendo banho e banheiro a suadões desconhecidos - sete minutos por R$ 10.
O desespero da velha, correndo no megamercado, não era de perder o capítulo da novela, mas agarrar o último galão de água cristalina.
Na Igreja Jerusalém de Deus, o Todo-Poderoso não fez milagres e, para a tristeza dos fiéis, as torneiras permaneceram sequinhas.
Nos cantos da cidade, filas quilométricas de distribuição não de comida aos refugiados sírios, mas de água aos maringaenses idôneos - muitos deles, com as contas todas em dia. Climão de quase calamidade e revolta infinita.

Filas

“Olha só que desgraça, moço: catando água na bica! Quando pensei que fosse fazer isso na vida? Eu, hein?!”, berra a mulher espalhafatosa, mirando o galão vazio diante de uma das duas torneiras jorrantes, no meio da Vila Olímpica.
A água geladinha batuca paredes internas do galão e transborda um pouquinho, arrancando riso rejuvenescido da velha – aqui, é permitido ostentar.
Na fila d’água, pobres, ricos, velhos e jovens vão surgindo entre garrafas e galões.
Desculpa da louça suja. Da ducha sagrada. Chegam acanhados, rostos trancados, e saem aliviados.
O casal traz dois galões de cinco litros vazios em cada mão. Sem água em casa na noite passada, os dois apelaram para um posto de gasolina. E ainda levaram a família inteira.
“Foi o pior banho da minha vida. Durou dez minutos. Tinha ranho e catarro nas paredes, cabelo entupindo o ralo e forte cheiro de mijo. Mesmo assim, melhor que ficar sem. Acredita que ainda tive que pagar cincão?!”, recorda Tatiane Soares, 24.
O maridão, agachado na coleta aquífera, ri do relato dos horrores e diz que não achou tão ruim assim.
“Claro que não era como tomar em casa, com conforto e tal, mas o banheiro masculino até que tava limpinho. Você deu azar e usou o banheiro das mulheres podres”, diz, rindo.

Cidade horrível

Melhor lugar para coletar histórias, na fila da coleta d’água você nem precisa fazer nada. Teu bloco de anotações atrai todo o tipo de detalhe. Padre no confessionário, voyeur dos causos maringaenses, você escuta de tudo.
“Também tá faltando água lá no Diário?”
“Vou te falar, viu? Ruim é ter que tomar banho na casa da sogra!”   
“Agora é que a gente aprende a dar valor, né?”   
“Cê também passou por isso? Cê esquece que acabou. Daí cê vai no banheiro, liga a luz e abre a torneira, mas não sai nada...”
“...”
“... não dá um nó no coração?”
Os detalhes duram o tempo do abastecimento. Cada pessoa leva dois minutos para encher dois galões de água. Com o reabastecimento, é só levar para o carro. E correr para casa.
“Vocês da mídia...”
O dedão em riste, de olho na tua caligrafia tremida e na foto sorridente do crachá.
“...só ficam do lado do poder! Quero que você escreva aí: que isso tudo é uma irresponsabilidade ab-su-rda!”, critica, com razão, a publicitária Suely Vasconcelos, 54.
Olhos ardendo ódio, raiva e gastrite – minha ou dela? Ouça a dor de Suely: duas pedras rasgando tua vesícula. Tanta fúria, causa da falta d’água?
“Como é que uma empresa desse tipo não tem um plano B? Se eu não pago a conta, eles cortam a minha água. Se eu pago, eles não me mandam. E agora, como é que fica?!”
Na fila, a cólera diminui quando os galões vão enchendo. Suadões trocam sorrisos camaradas entre si. “Os que se parecem juntam-se”, escreveu Homero, em algum lugar.
“Vou te dizer uma coisa: sou de Curitiba e já tô indo embora desta sua cidade. Um calorão desses, e sem água? Que cidade horrível!”, desabafa a publicitária.
“Na firma, tá um clima bem constrangedor. Tá todo mundo com vontade de ir no banheiro, mas ninguém pode”, comenta, rindo, o vendedor Reinold Stein, 24. “Daí sobrou pra mim, né? Como sou recém-contratado, tive que buscar água pra empresa”, completa o sujeito, equilibrando três grandes galões de quantidade indecifrável. “Ele só querem a nossa desgraça!”, grita uma mulher, degolando a nossa conversa.

Musa fitness nº 2

A fila d’água não é só desgosto e desabafo. Por ali, esbarro em Maria Marta, professora de inglês.
Moreninha de luzes loiras. Vinte e três aninhos, blusinha laranja e calça preta coladinha. Nos pés, tênis laranjado fosforescente. Ombros altos e braços brancos, adornos de uma estrutura óssea inigualável.
Gentilmente, ofereço toda e qualquer ajuda, seja com os baldes, abrindo e fechando torneiras, abandando leques japoneses ou protagonizando massagens tailandesas, a seu dispor, com todo prazer. Ela é só sorrisos. Narra os tantos perrengues. Mostra a revolta na ponta da língua. Detalha a situação dos familiares, fala da crise em si.
“Como faço natação, já aproveitei pra tomar banho na academia. Em casa, sem chance pra qualquer coisa. O xixi fica na patente. E...”
“?”
“...bom...”
“...”
“...você sabe...”
Sei? Sabemos?
De voz firme e respostas diretas, Maria Marta discorre sobre qualquer assunto com sorrisinhos de verão. Sorte a sua, outra mulher que se abre.
“...o número dois, né, só pode se for no saquinho!”
Tendo dispensado leques japoneses e massagens tailandesas, e levando em conta o atual teor da nossa conversa arenosa, permito que Maria Marta encerre a entrevista.
E a professorinha sai de cena, sai ostentando seu galão d’água cheinho, diante da fila cada vez maior.
“Ela não vale mais que ouro?”, sussurra um aposentado.
Lábios rachados pelo tempo, salivando miseráveis emoções, contemplando o galão cheio d’água.

Consciência

“Hoje em dia, água vale mais do que ouro!”, observa, emocionado, o aposentado Luis de Carvalho. “É só nessas horas que o povo dá valor. Quando sente falta. Mas, comigo, sempre fui econômico. Tomo banho sempre rapidinho. Lavo tudo o que tenho direito. Pensando, toda hora, no dia de amanhã”, diz o consciente aposentado.
Ouro e água, número dois no saquinho, ranho e catarro na parede: é mesmo um louco conto do Cortázar.
Repare nos rostos de derrota. O velho que não vai cantarolar “E Lucevan le Stelle” debaixo do chuveiro, com a água escorrendo geladinha, ininterruptamente, por três minutos e meio. A tristeza da quarentona pela escolha da vida errada - tivesse fugido com o malabarista do circo Maximus, não estaria aqui, sozinha, empunhando três baldes vazios, debaixo de um sol dos diabos, numa maldita cidade sem água.

Publicada no Diário (17/1/2016)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crianças, Juarez e Deus e o Diabo na Terra do Sol

Os negros dentes tortos da quarentona arregaçam promessas de prazer.
"Entra, amor, entra."
Sentadona na banquetinha capenga, na portela do boteco sem fachada. Perfume azedão. Caatinga de porco. Mescla de cachaça, mofo, cerveja, cigarro paraguaio – ali, é permitido fumar dentro do estabelecimento. O tapete do bar, desista: surrado demais, impossível ler.
"Me paga uma cervejinha, amor", suplica a quarentona.
Em tempos de crise, resisto ao canto da sereia. A cerveja geladinha, por lá, custa inacreditáveis R$ 15. Às sete horas, num sol das seis, o bar estaria vazio, não fosse um cover de Francisco Cuoco. Bom de prosa, nosso ator narra aventuras para as quatro donzelas da bodega. Além da negra quarentona, uma gorducha estrábica, uma oxigenada magrela e outra gorducha morena disputam a atenção do aposentado falante – você, daqui a alguns anos?

***

"Mas hoje é só isso mesmo, viu?", avisa o velho.
Em uníssono, o quarteto de vozes implorando que fique.
"Não, não, hoje é só a cervejinha mesmo. Tó aqui, ó", avisa, arremessando duas notinhas no balcão.
"Vai trocá a gente pela casa de massagem, é?", diz, tristonha, uma das moças.
O velho sai sem respostas. Na bodega, ele é amado por todas.

***

No cômodo do bar - sem janelas, ainda mais quente e encardido de suor, bueiro, cigarro, peixe morto -, Amado Batista berra as coisas do coração. Mesas desertas, único casal. Magrelinho de quarenta anos, macetado na cadeirinha de plástico, nosso herói equilibra no colo a gorducha negra e de cabelos vermelhos. Nos pés agigantados da moçoila, o chinelinho não dá conta de tantos dedos.
Concentrado na própria trama, ele fisga a atenção dela com detalhes banhados na cervejinha carérrima. Arranca suspiros, palminhas empolgadas. Gritinhos estridentes de surpresa, terror e alívio.
Narra detalhes de alguma aventura rocambolesca, com a mão sinalizando armas de grosso calibre, volantes de caminhonetes, aviões, corda pendurada no pescoço. Naquela orelhona, ele não sussurra ser o misterioso milionário maringaense, em carne e osso, aproveitando anonimamente as coisas boas da vida, depois dos tantos dias de horror? Cheio de grana, à espera da vida e do grande e verdadeiro amor? Rapidinho, ela escancara a bocona para um beijo legítimo – das entranhas da gorda ecoam as mil e uma fragrâncias do Rio Bostinha.

***

A morena cinquentona, de saiona rosa e decotão, exibe sorrisinho banguelão: no canto esquerdo do lábio, a verruga escura com mil pelinhos dourados. Quantos digníssimos pais de família não se perderam no caminho de casa, numa pausinha casual ali no boteco?

***

Uma velha acena, com cuidado, para alguém: o braço estendido, fixo, movimenta únicos quatro dedinhos. Um aceno tradicional, efusivo, balangando o braço veementemente, não denunciaria as gordas pelancas acumuladas do último reparo plástico?

***

"Tudo que faço, ofereço pra Ele..."
Outro desses - ai, não! - louvadores da aleluia.
"...quem me guia e me rege..."
Santa paciência: prepara-te para três horas ininterruptas de conversão religiosa.
"...quem me socorre e me protege..."
Por que tão onipresente, pô?!
"...meu Santo Satanás..."
"!!!"
"...meu Pai da magia..."
"?!?"
"...quem sempre tudo dá."
Pergunto ao jovem músico sobre o Diabo. Jair, que interrompe o show na calçada da Avenida Brasil, responde tudo baixinho - jamais ser descoberto pelos cristãos maringaenses, ainda mais em climão natalino.
"Nossa seita, em Sarandi, conta com vários fiéis, mas eu não posso te dar detalhes. É tudo secreto", adianta.
"Não tem filial em Maringá?"
"Infelizmente, não."
Disso, já suspeitava. Nem o Diabo suporta esta cidade infernal, celeiro das trezentas duplas sertânicas.
"Muitas oferendas em Sarandi?", questiono.
"Dia desses sacrificamos um bode. Acho que Ele gostou. Mas o comum é oferecer galinha preta e coelho."
"Alegres, as celebrações?"
"Com muita música, viola, pacto de sangue e bruxaria: tudo com muito respeito e bom gosto."
"Quais princípios da turma satânica?"
"Liberdade, amor, vida e luta."
"Paga pra entrar?"
"Tem o cofrinho do dízimo. Quem pode, vai colaborando."
"!"
"Alguém tem que bancar as velas e o sal grosso."
Balaio do dízimo. Musiquinha fervorosa. Fiéis clamando milagres. Orações e sacrifícios. Deus & o Diabo não são tão diferentes na terra do sol.

***

Ventos assustadores derrubam o chapéu do velho e arrepiam os braços nus da moçoila. "Jesus amado, meu filho, vai despencar o mundo!", berra a mãe aflita. Nuvens negras, cinzas, soturnas e lúgubres escurecem a noite. O menino gorducho, assustado e babão, finca as duas mãozinhas num portão de ferro – jamais ser levado pelo vento, muito menos pela mãe. Crianças excitadas batem palmas – finalmente, o Bom Velhinho vai descer dos céus, em seu imponente trenó de renas voadoras.

***

Como pousarão as renas voadoras, descendo das nuvens e rasgando estrelas? Qual altura média e idioma dos duendes? Quantos quilos de presentes cabem no trenó? Será que Papai Noel desconfia, ai, não!, das tantas artes acumuladas no ano inteiro? Essas e outras questões ensopam de saliva a roupinha dos minúsculos filósofos babões – crianças pensando jamais tiram dedos da boca.

***

Nove conselhos aos pais: 1) Cuidado ao recolher as roupas sujas: crianças guardam o tempo no bolso da camisa. 2) Nunca proíba a criança de cantar pela casa: é no canto que a criança desenha a própria existência. 3) Repare na melodia: cada canto de criança é composto por notas quentes e azuis. 4) Desbravadores experientes nunca vão explorar tantos mundos quanto canelas de criança – a viagem de uma criança só termina quando o sono pede pra descer. 5) Distribua canetas coloridas e libere as paredes da casa (ou parte das paredes do apartamento): rabiscos de criança degolam o tédio em família. 6) Com cuidado, espie seus diálogos: crianças contam e recontam verdades de mentiras. 7) Nunca proíba quintal nem sol nem terra nem chuva: criança compreende o mundo no relevo da mão. 8) Choro de criança tem 14 mil caracteres (incluindo espaços). 9) Velho, você foi a mesma criança de amanhã – não é rejuvenescedor?

***

No bebedouro, mãos tremelicantes estendem o copo. Ao som da água que escorre geladinha, o velho lambe os beiços rachados pelo tempo. Mata tudo numa só golada, olhão escancarado, fio de baba escorrendo pelo queixo - essa grande sede de viver.

***

Cinco perguntas ao milionáriomaringaense Juarez Arantes: 1) Por que um sujeito como ele, com verba de sobra para morar em qualquer lugar do planeta (Leblon, Cuba, Hong Kong), faz tanta questão de permanecer, sozinho e recluso, numa suíte de 28,20 metros quadrados do Deville, com vista para a Avenida Tiradentes? 2) É fato ou lenda esse papo de que ele mesmo dirige o próprio carro, um Del Rey preto – já que não faltariam economias para contratar um talentoso motorista ou adquirir um carrinho mais moderno? 3) Quais os detalhes da queda do seu avião, quando, em tenra idade – e pilotando a aeronave! –, teria feito um pouso forçado, no meio da Amazônia, evitando o desastre aéreo e saindo de lá vivinho da silva? 4) Qual bebida negra e misteriosa ele carrega na garrafinha de guaraná Caçulinha, de 237 ml? 5) E, afinal de contas, como ele conseguiu acumular tanta grana – teria um e outro conselho para o resto do povão, malditos diabos afaimados que sonham com os dias de fortuna, epifanias e levitações?

***

Durante a ligação, o repórter policial Roberto Silva assume as mesmas características que o grande Stefan Zweig notou na estátua que Rodin fez de Balzac: a surpresa de alguém arrancado bruscamente do céu para cair numa realidade que já havia esquecido. O olhar de uma grandiosidade aterradora que se assemelha a um grito. Aquela expressão fisionômica de quem é sacudido em pleno sono. Aquele aspecto de sonâmbulo, junto ao qual se pronuncia brutalmente o nome. Aperto o cinto, tranco a porta. Roberto Silva volta a pisar fundo, em busca do próximo corpo.

***

Se não estivesse tão quente, Meursault não assassinaria aquele árabe e você não invejaria os trabalhos forçados do grande Dostoiévski na Sibéria. Batesse única rajada de vento, você não sequestraria tua irmã nem ameaçaria teu próprio pai. Se estivesse um pouquinho menos quente, Juarez Arantes não guiaria seu Del Rey pelas ruas maringaenses com os vidros escancarados, exposto a trombadinhas, ladrões ou algum parente querido.

***

Poças de água inundam axilas, encharcam a palma da mão, transbordam de palavrões o velho abanando a camisa – é verão.

***

Parque Alfredo Nyffeler: sol mergulhando na nascente do Ribeirão Morangueiro. Setenta tons de verde, dependendo da inclinação dos raios e das tantas sombras. Verde oliva. Musgo. Esmeralda. Samambaia. Verde mar, amarelado, lima. O mesmo verde dos lábios de Eva Green. Aqui, o velho Monet não pintaria novo ciclo de suas ninféias? Você não é menos elegante que Woody Allen zanzando no Central Park ou Milan Kundera flanando pelo Jardim de Luxemburgo.

***

Andar pelo Parque do Ingá é esbarrar num punhado de macaquinhos - a glória da criançada. Um deles persegue uma borboleta dourada, sem ser notado pelo grupo de turistas, todos armados com celulares hipermodernos. Com desenvoltura, pula os troncos de árvores caídos na mata, desvia da pedra, tenta em novo pulo abraçar a borboletinha – brincam, os dois, ou é a fome batendo forte?

***

Quinze anos de espinhas e canelas finas. Bonés disfarçando semblantes salivantes. Debaixo da escada rolante do shopping, gordo e magro assistem a digníssima mãe trintona subindo em vestidíssimo florido: panturrilhas torneadas, coxas lisinhas, a polpinha acenando no alto da escada. Mulher em escada rolante não é melhor que goiabada com queijo?! Videogame e Coca-cola!? A última camada de açúcar na filhó quentinha!? O que seriam dos hormônios sem os adolescentes?

***

O vento lambe o vestidinho da morena, derruba o chapéu do velho e empurra a abelha para dentro da tua latinha de Coca-Cola – é verão.

***

A sortuda gotícula de suor escorre pela testa da moçoila, raspa na sobrancelha, percorre o narizinho,contorna lentamente os grandes lábios, mergulha na profunda covinha de sorrisos e, logo na beirada do queixo, depois de lamber cada centímetro daquele rostinho, encerra a jornada com um salto mortal em direção à esteira negra - viver mais pra quê?!-, onde jaz bravamente, no êxtase da paixão, aplaudida por Goethe e outros poetinhas fatais.

***

Já leu as linhas de umbiguinho tão poético? Dois quartetos e dois tercetos. Decassílabos platônicos. Dicção severa. Sussurros de Shakespeare & Camões. A boquinha vermelha acelera teus batimentos cardíacos – uma escola de samba inteirinha com repiques, surdos, chocalhos, cuícas e tamborins batucando teu próprio peito.

***

No Sebo Cultura, diante da morena de dezoito aninhos, me perco naqueles contornos. Dela ecoam as seis suítes de violoncelo do Bach, executadas pelo grande Mstislav Rostropovich. A "Marcha Turca", do Mozart, surge em cada covinha dela. Se provasse aquele riso, Bruckner teria composto mais quarenta motetos. De passagem pelo sebo, competentes críticos musicais falhariam vergonhosamente se tentassem desvendar cada surpresa harmônica daqueles lábios, perdidos entre oitavas neutras, tercinas arpejadas, linhas ondulantes e vigorosas oitavas no final. Ouça: a tensão dramática dela não é aliviada pelo amável tema do rondó? Ai, que rondó!

***

Molhadinha de suor, shortinho rosa coladinho, blusinha preta, cabelo preso num rabinho de cavalo. Nas panturrilhas à mostra, duas maçãs vermelhíssimas – só para você morder?

***

Seu riso, a última camada de açúcar da filhó quentinha, cheia de canela.

***

No adeus daquela boquinha vermelha, você não dá todas as razões ao maldito Humbert Humbert?

***

Pouco importam as loiras de Renoir, a ruiva do Klimt, os peitos de Delacroix: há mais obras-primas circulando pelas calçadas maringaenses do que expostas nas paredes do Louvre.

RETROSPECTIVA Publicada no Diário (3/1/2016)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Anão, pastel, musas, suor, cães e Deus

No terminal rodoviário, você reflete a tua Maringá. Não a Maringá dos pontos turísticos, da chatíssima igreja-cone e das infinitas fragrâncias do Rio Bostinha. Não a Maringá dos 547 trovadores, dos vendedores de sorte ou azar e dos incontáveis berros sertânicos – em cada bar dessa cidade você é refém de alguma dupla sertaneja. Única maravilha? Suas calçadas cheias de moças, banhando as delícias debaixo do bendito sol.

***

Alguns apartamentos do Edifício Maurício Schulman têm cozinhas e banheiros virados para os corredores. Na porta de um deles, o aviso à Saramago extermina todas as vírgulas: "Deus está no controle não entre aqui com raiva mau humor pessimismo intrigas inveja porque acreditamos na vida que fazemos e principalmente temos fé". Por que exibir sua fé aos vizinhos? "Ponhando a palavra do Senhor aqui no vidro, quero impactar um pouco. Muita gente do prédio precisa de Deus", justifica o sujeito.

***

Latidos graves e potentes ecoam de um dos apartamentos do Edifício Maurício Schulman. Quem responde, noutra janela, é um latido menos encorpado, mas também grave. Dá para ouvir tudo bem nítido: dois barítonos no primeiro ato da opereta canina. Interrompendo o dueto masculinizado, um terceiro latido, agudo e estridente - eis a nossa Maria Callas! -, assume o posto de soprano. Nem o severo Karajan seria capaz de encerrar a performance do trio.

***

Encostadinha no muro, uma loirinha transcendental refestela-se com pastel de queijo e sodinha bem gelada. Shortinho jeans, blusinha branca, boquinha pintadinha de vermelho – ai, essas moças de lábios vermelhos. Não tem ela os ombros altos de Liv Ullmann? As coxas portentosas de Anita Björk? Nos olhos, a mesma melancolia de Ingrid Thulin? Quem não daria tudo para ouvir os pensamentos da nossa sueca bergmaniana?

***

A sexagenária mancando, apoiada numa bengala, carrega duas sacolas cheias de milhos e verduras. Ela está suando e parece fazer um esforço tremendo para caminhar – a feira não é sua via crucis?

***

Na banca de rosas, com flores vermelhas, amarelas e brancas, a japonesa lamenta a queda nas vendas. "Ninguém quer ser romântico com a crise. O pessoal quer é comer, né?"

***

O amor é o grito suicida na goela do gago .

***
O cemitério parece quieto, mas não é. Prestando atenção, você escuta os diálogos dos mortos:
"O mausoléu mais bonito, aqui de Maringá, é do João. Parece obra de arte."
"Se esse treco é uma obra de arte, o que dizer do 'Último Adeus', do Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo?"
"Cala boca, quero dormir!"
"Quem consegue dormir nesse calor?"
"Fosse vivo beberia todos os vasilhames do Divina Dose."
"Venderia fácil minha alma por uma última noitada no Skolzinho."
"Alguém aí sabe dizer que horas são?"
"Mãezinha! As minhocas tão fazendo cosquinha de novo!"

***

Às cinco da tarde, a praça Raposo Tavares é melancolicamente erótica. A anã, negra, oferece as perninhas magricelas e as mãozinhas miúdas. Sentada no banquinho, lançando olhares maliciosos, uma prostituta sexagenária veste blusona vermelha, chinelão de dedo e saiona jeans. No sorrisão da doce senhora, o que seduz mais? O dentão amarelo e a verrugona na bochecha esquerda, ou as pernonas infestadas de longas varizes azuis? O amor, na praça Raposo Tavares, tem todos os motivos do mundo.

***

À mostra, as perninhas macilentas e cheias de varizes azulonas, que se cruzam e formam cidades com pontes, igrejas, pracinhas, penitenciárias e estádios de futebol, não são as iscas mais eficientes?

***

Vinte e poucos anos, loirinha, olhos castanhos, sorrisinho de sexta-feira: com a professora Polyanna Bavia Capdeboscq, você não tomaria todas as lições prazerosas da vida? Mão posta à palmatória - bate!, bate!, bate! - você erra de propósito a tabuada e o bê-à-bá. Sabatinado em plena saleta, diante da cruz de mármore, você confunde briófitas com pteridófitas, troca Machadinho por Zé de Alencar, e, espada em riste!, declara guerra a Oliver Cromwell ou qualquer outro grande nome que desperte admiração da professorinha, oferecendo o corpo inteiro aos tapas e beliscões, ansioso pela punição mais dolorosa - o amor.

***

Tomasse aulas com essas novas professoras do Santo Inácio, sua vida seria radicalmente diferente. Você não odiaria Deus, não teria tanto ranço de duplas sertânicas, não compraria brigas com dramaturgos medíocres, não seria adepto fervoroso do sedentarismo, e, talvez, em alguns momentos - além da prosa do Proust, das sonatas do surdo Beethoven, de dois ou três filmes do Bergman -, você, enfim, apreciasse viver.

***

Novos acordes sertânicos dão o tom do baile da melhor idade. Quem não dança, aguarda. Sapatinho brilhante, dedões pintados de vermelho, bafão de dezessete maços de cigarro. O olhinho meio torto? Deve ser felicidade.

***

Clima de azaração. Troca de olhares. Coxas roçando canelas e sorrisos na melhor idade. Velhos conversam alegrinhos, mãos danadas abanando coxas e pescoços. Línguas rugosas encharcam lábios rachados pelo tempo – a sedução.

***

Em quarenta e seis anos de prisão, carcereiro e detenta dividindo a mesma cama de casal.
"E quantos filhos?", vou sondando.
"Tive doze filhos!"
"?!"
"Daí você me pergunta, né? Imagina, então, se o casamento fosse bom, hein?!"
Mais risadas serelepes.
"Naquele tempo, meu filho, se a mulher não queria, tinha que querer..."
"!"
"... sem berro, sem reclamar: na marra."
Uma velha afobada, de olho no verbo alheio, invade a conversa.
"A gente era estuprada! Es-tu-pra-da!", denuncia, aos berros, a voz esganiçada.
"Isso mesmo. Ai de você, se não quisesse..."
"E sempre bêbado, né, Maria?"
"Ca-cha-cei-ro! A mesma desgraça toda santa noite."
Doce gargalhada das duas velhas, alívio das mil e uma noites de horror.

***

Única entediada, uma velha tolera o show e, esvaindo-se em suor, encharca o guardanapo de quarenta graus. Sentadinha à mesa, dedinhos batucam versos sertânicos. Desânimo da música ruim, do calor castigando ou da garrafa de água?
"Bom mesmo seria uma cervejinha, né?", pergunto.
Ela escancara dentes branquíssimos – quinze mãos lhe fazendo cócegas, o mesmo êxtase dos dezessete aninhos.
"Ai, sim! Cervejinha bem geladinha", responde, remexendo de um lado para o outro a dentadura vacilante.
"Em busca do grande amor?", vou sondando.
Inquietos, pré-molares e incisivos requebram na boquinha carcomida.
"Deus me livre..."
Cai ou não cai?
"... nunca mais..."
Cai ou não cai?
"... disso tô vacinada."
Correndinha, a mão protege a bocona banguela, inteirinha nua - não para você, mas para pouquíssimos privilegiados. Último ato erótico, arremessado ao lado da cama, nessa longa estrada da vida.

***

Latidos de bem-te-vi, cantos de cachorros das casas vizinhas. O solo de nove notas de um pássaro desconhecido te arrebata no Parque Alfredo Nyffeler – você decide, de uma vez por todas, também aprender trompete.

***

Nas paredes da cadeia, o preso aproveita o tédio da prisão para compor versinhos delicados, em homenagem a um tal Lincon. Valsinha dois por dois? Pagodinho romântico? Cante como quiser: "Lincon do universo / só bala pra você / seu frango / desse (sic) na vilinha que vc vai morrer / seu safado /Vilinha!!!" Fosse o Lincon, evitaria me embrenhar nalguma Vilinha. Vila Operária. Vila Morangueira. Vila Esperança. Num show do Martinho da Vila. Toda e qualquer vila - nunca, jamais.

***

No meio de milhares de velhos enfileirados à espera do autógrafo do padre Marcelo Rossi, avisto, ao longe, uma moçoila. Desconfio do Todo-Poderoso. Não será dessas miragens? Troça celestial para zanzar à toa na multidão? Loirinha, metro e sessenta de pura louvação? Obrigado, Senhor! Afoito, vou abrindo caminho no mar de gente – Moisés, cruzando o mar vermelho, o impávido cajado nas mãos. Depois da longa caminhada, chego finalmente perto dela. Sorte minha, de carne e osso - aleluia! O nome do milagre? Fernanda Félix, 19, aluna de Psicologia da UEM. Simpática, discorre sobre Deus, totens da psicologia, tempestades, Curitiba. Como é bom mulher que se abre.

***

A chuva encharca a gripe da criança, inunda o tédio da tarde e agride a velha imóvel na esquina – outro
maldito motorista explodindo poças d'água.

***

Se ela estalasse os dedinhos vermelhos, não moveria o Monte Sinai e o Monte Sião? A escuridão não encobriria o Sol por três dias ao seu único pedido? A nuvem de gafanhotos não dominaria a cidade, se ela ordenasse, cochichando no ouvidinho? Claro que sim: moscas atacariam homens e animais!, rãs cobririam a terra!, as águas do Nilo tingir-se-iam de puro sangue!

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O pôr-do-sol lambendo o ônibus - quase seis da tarde.

***

Vou me embrenhando numa Maringá sinistra. De ruas apertadas, terrenos abandonados. Da Capela Papa João 23. Dos rostos desconfiados no açougue-boteco. Da Igreja Pentecostal Diante do Trono, com gente de terno e sorrisão nos grandes lábios – o portão sagrado escancara berros da louvação. Pó, poeira, cheiro verde. É noite. Quilômetros e quilômetros mal iluminados apressam o passo da moça, aumentam os batimentos cardíacos do velho, matam de susto o tiozinho na bicicleta. Desses becos Moisés avistou a Terra Prometida? Daqui o Senhor mostrou-lhe toda a terra, de Gileade até Dã? Essa cidade nem de longe lembra a Maringá dos cartões postais.

***

Na frente do Mercadão, trânsito infernal. Não é a nossa Julie Manet, caminhando na calçada? Os mesmos olhos tristes, aquela boquinha vermelha?! De sainha rosa, blusinha preta, meia rosa erguidinha e cabelinho preso num rabinho de cavalo - ó hexâmetros órficos da Grécia heroica!, ó margens do rio Hebro!, ó azeite de oliveira puríssimo! De pé, eu me ergo: levanto ligeiro, embasbacado pela mirra mais preciosa, arremessando flores e versinhos líricos.

***

As bochechas de um Buldogue, no Parque do Ingá, escorrem do rosto canino – inspiram-se nos relógios
molengões de Dalí ou nas flácidas bochechas do dono amado?

***

Na janelinha do Facebook, a morena de vinte aninhos insiste que o empresário sessentão envie selfies eróticos. Seguindo as orientações, ele foi compartilhando tudinho - não era a maior provinha de amor? Orgulhoso de sua torre de Davi!, seu cume de Hermon!, tirou três selfies, sem aumentar nem diminuir nadinha. "E a minha vida, agora, como é que fica?"

***

Naquela orelhinha, você não sussurra os versinhos proibidos do danado Bocage? Não entoa, suave, a "Tristesse", do Chopin? Feche os olhos: veja as grinaldas de Hera!, os ramos de videira!, as margens do rio Hebro! Saciadas, as duas loiras da barraca do pastel encerram suas respectivas contas e, cada uma para um lado, partem para o cortejo báquico, ao som dos tamborins dos coribantes. Quem, ali, não ofereceria bodes, coelhos e pássaros corvídeos à passagem das duas deusas?

***

Bonfim começou a perder a visão aos 11 anos e ficou completamente cego aos 23. Às quartas de feira, canta quatro horas seguidas.Durante o concerto, volta e meia passa a mão na cumbuca à sua frente – esperto aos larápios sacanas. "Nunca vi alguém me roubando", garante.

***

A resposta da moçoila causa cócegas em violinos – já ouviu, assim, tão pertinho, três bailarinas sorrindo?

***

Debaixo da mesa, na biblioteca Bento Munhoz da Rocha Netto, a ruivinha vai despindo, lentamente, o All Star colorido. Meinha por meinha, primeiro o pezinho esquerdo e depois o direito, até a brisa geladinha do ar-condicionado refrescar cada dedinho nu. Embasbacado, você testemunha o silencioso strip-tease dos pezinhos da estudante.

***

No Ceasa, encontro Rita Andrade de Paula, 76. Leitora fiel. Me presenteia com vinho francês e puxa assunto.
"Pra quê esses olhos tão grandes?"
"Jamais perder o mínimo detalhe."
"E esses dedos, por que tantos calos?"
"Marcas das tantas escritas."
"Por que insiste em usar chapéu?"
"Nele cabem todas as minhas mentiras."
Olhos trêmulos, voz tremelicante.
"E tudo o que você escreve, Gaioto, é mesmo verdade?"
"Tudo é real no universo da ficção."
"Quais conselhos aos jovens escritores?"
"Desista enquanto é tempo."
"E uma segunda dica?"
"Evite reticências... maldito recurso covarde."

RETROSPECTIVA Publicada no Diário (29/12/2015)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Raul Seixas, top model, choro, paraíbas e trenzinho de tédio

"Eu não sou besta pra tirar onda de herói. Sou vacinado, eu sou cowboy. Cowboy fora da leeeei!", esgoela-se o rapaz magricelo, empunhando um velho violão, na frente de uma loja. São oito horas da noite e o comércio surge escancarado. Vai e vem de gente, famílias inteiras, uma e outra pessoa com sacola de presente nas mãos. Quinze loiras cruzam a calçada em um minuto e meio de canção – ninguém arremessa moedinhas, nem ao menos acenos e afagos ao jovem cantor. As capengas luzes coloridas, agarradas aos troncos das árvores, deveriam distribuir alegria aos cantos da cidade – as ruas não ficam, no final das contas, mais tristes e melancólicas? No caos da São Paulo, o cantor insiste nos versos ignorados. "Durango Kid só existe no gibiiii." A criança babona tapa com as mãozinhas as duas únicas orelhas, irritadiça de Raul. "E quem quiser, que fique aquiiii." Tivesse outra orelha, não taparia também a terceira? Dois gordos riem deboches do artista – a voz do povo não é a voz de Deus? Uma velha se benze, fazendo sinal da cruz – rock nunca foi coisa do Senhor. "Entrar pra história é com vocêêêês", finaliza o sujeito, berrando ainda mais alto, diante do descaso público.

Sem única palma, encosta o violão na parede. A pausa do cantor popular não tem pedidos de selfies nem disputa por autógrafos. Onde as tantas groupies insaciáveis? Calça jeans, camiseta preta, chapéu de vaqueiro. O cansaço evidente de quantos concertos?

"Tô desdas duas. Canto uma hora, uma e pouco. Daí, intervalo. Senão, diretão, ninguém guenta", comenta Jair Moreira, 20, sem estrelismos nem petulantes assessores de imprensa.

A capa da viola, dormindo no chão, não recebeu notas nem moedas. Mas o público nem sempre é tão muquirana.

"Já teve dia que tirei R$ 120", gaba-se o cantor, que mora em Sarandi e toca para cá quase diariamente, há seis meses, onde assume a trilha da calçada. De repertório minimalista, dedica-se a retomar canções de apenas três artistas: Raul Seixas, Zé Ramalho e Ventania. Sua Santíssima Trindade. Vez ou outra, sem aviso prévio, chega a executar uma de suas únicas doze músicas próprias.

"Tudo que faço, ofereço pra Ele..."

Outro desses - ai, não! - louvadores da aleluia.

"...quem me guia e me rege..."

Santa paciência: prepara-te para três horas ininterruptas de conversão religiosa.

"...quem me socorre e me protege..."

Por que tão onipresente, pô?!

"...meu Santo Satanás..."

"!!!"

"...meu Pai da magia..."

"?!?"

"...quem sempre tudo dá."

Pergunto sobre o Diabo. Jair responde tudo baixinho - jamais ser descoberto pelos cristãos maringaenses, ainda mais em climão natalino.

"Nossa seita, em Sarandi, conta com vários fiéis, mas eu não posso te dar detalhes. É tudo secreto", adianta.

"Não tem filial em Maringá?"

"Infelizmente, não."

Disso, já suspeitava. Nem o Diabo suporta esta cidade infernal, terra das trezentas duplas sertânicas.

"Muitas oferendas em Sarandi?", questiono.

"Claro. Dia desses sacrificamos um bode. Acho que Ele gostou. Mas o comum é oferecer galinha preta e coelho."

"São alegres as celebrações?"

"Com muita música, viola, pacto de sangue e bruxaria: tudo com muito respeito e bom gosto."

"Quais princípios da turma satânica?"
"Liberdade, amor, vida e luta."

"Paga pra entrar?"

"Tem o cofrinho do dízimo. Quem pode, vai colaborando."

"!"

"Alguém tem que bancar as velas, o sal grosso... São várias despesas."

Balaio do dízimo. Musiquinha fervorosa. Fiéis clamando milagres. Orações e sacrifícios. Deus & Diabo não são tão diferentes assim na terra do sol.

Agruras do coração

Longe dos seguidores diabólicos, vou flanando pela Brasil anoitecida. Papai Noel sorridente. Árvores enfeitando vitrines. "PROMOÇÃO." "TUDO POR R$ 10,99." "PRESENTE DE NATAL E AMIGO SECRETO É AQUI." Entro. Chinelo verde. Cadeira de praia. Bomba de chimarrão. Boia de jacaré. Copo vermelho. Boia de pato. Puff rosado. Todo mundo espia, mas poucos abrem carteiras. No bocejo da vendedora, o tédio de nada fazer. Animadinha, a senhora serelepe é a única empolgada nas compras.

"Venha cá, Camila, ponha isso por cima!"

A garota de cinco aninhos obedece e vai vestindo o vestido branquelo.

"A Camila é oito, né?"

"Isso, mãe."

Decotadíssima e curtíssima, a tal peça infantil.

"Sei não, hein. Isso aí tá curto demais."

"Que nada, filha, tá cada vez mais quente!"

A menina tira o vestido, a vó já enfia outro pela cabeça.

"Um mais lindo que o outro!"

Debando da loja. O trenzinho cheio de crianças cruza a Brasil, tocando musiquinha estridente e revelando rostos entediados.

Planalto bombástico

"Ólhaaa rédi!", anuncia o paraibano na calçada.

"Quanto, amigo?", indaga o pai de família, já prevendo a sesta serena, apreciando a qualidade dos panos na ponta dos dedos.

"Quarentinha!"

"Credo, que horror!", diz, imediatamente afastando a mão – o mesmo pavor de tocar num velho leproso.

As pencas de pano não emplacam. Culpa de quem?

"Da Dílma. Ela meréce sábi u quê?"

"?"

"Qui um cábra ponha dinamíti e exploda túdo áquilo lá."

"!"

"Tém que explodí a Dílma!"

Anti-cristos, crise econômica e paraibanos explosivos. Tem quase de tudo. Menos travestis e garotas de programa. Ninguém quer se exibir com tanta gente zanzando de lá para cá, nas mesmas calçadas natalinas.

Agruras do coração II

Passos adiante, uma pausa. Não para contemplar as chatíssimas árvores de luzinhas tortas. Mas, sim, para aplaudir um vestidíssimo branco. Tatuagem indecifrável no punho. Às nove e pouco, esperando familiares consumistas. Sobrancelhas perdidas na Getúlio Vargas, rosto ensopado de lágrimas.

"Por que choras, meu bem?"

Deve ser essa época do ano. Todos, cada vez mais melancólicos.

"Não, nada disso. Adoro Natal. O problema não é a festa..."

No cantinho da bochecha, uma lágrima salta ao suicídio.

"...meu problema é ele."

Namorado? Ex? Noivo? Maridão louco de amor?

"Um amigo... meu vizinho. Resolveu infernizar minha vida e fica 'fazendo fusquinha'!"

"?"

"Virar a cara, fingir que nem sabe o motivo do choro: isso é 'fazer fusquinha'."

Entre os grandes lábios, trinta e dois dentes respondem a cócegas imaginárias da gíria automobilística – finalmente, um sorriso.

"Não admito que pensem isso de mim, sabe?"

"..."

"Sou tra-ba-lha-do-ra. Estudo à noite, trampo o dia in-tei-ro, de do-min-go a do-min-go. E agora vem esse i-di-o-ta..."

Mãos que se coçam não querem esganar o vizinho?

"...dizer pra toda a minha família que eu sou..."

"?"


"...ga-ro-ta de pro-gra-ma?!"

Um rapaz moreno invade nosso diálogo. Meio constrangimento de. Teria ele? Achando que ela? Ai, não.

"Aceitam cone trufado?", questiona o vendedor, fingindo nada ouvir.

Essa época do ano, todo mundo tem algo a oferecer.

Educadamente, a moça responde que não. Também dispenso acepipes adocicados.

"Me desculpe, viu? Sou assim, toda derramada..."

Braços morenos arrepiadinhos pela lambida do vento.

"...qualquer coisa, eu choro."

Quer dizer, chorava. Agora, seu rosto surge livre da tristeza. A mãe, gorducha cheia de compras, surge por trás e diz que é hora de ir embora. Menos tristonha, a moça agradece o dedo de prosa. Você, anônimo psicólogo das ruas maringaenses.

Top model

Quando me dou conta, estou sentado num ponto de ônibus da Joubert de Carvalho. Há umas três horas, quando o Sol ainda dava os últimos acenos, foi exatamente aqui. Ainda, no ar, os mesmos tons de begônias e camélias. De início, desconfiei de minha miopia. Forcei a vista. Ombros altos, olhos castanhos, lábios vermelhíssimos. Séria sisuda. Mulheres assim não existem só na ficção? Sainha jeans, um palmo e meio acima dos joelhos - ai, que joelhos. A literatura não surpreende tanto quanto a misteriosa moçoila maringaense. O nó na blusinha jeans exibia o mais lírico dos umbigos – ali se encontram o Bem, a Beleza e a Verdade. Já leu as linhas de umbiguinho tão poético? Dois quartetos e dois tercetos. Decassílabos platônicos. Dicção severa. Sussurros de Shakespeare & Camões. Naquele umbiguinho, razão e emoção te confundem. Catatônico, fui puxando assunto.

"Aposto que..."

Um metro e setenta e nove de curvas morenas te encarando sem curiosidade.

"...modelo?"

Sinta cada perfume: mescla de lírio do vale, begônias,camélias, gardênias, jasmim-manga e canela.

"Como adivinhou?", surpreendeu-se Mariana.

A boquinha vermelha acelera teus batimentos cardíacos – uma escola de samba inteirinha com repiques, surdos, chocalhos, cuícas e tamborins batucando teu próprio peito.

"Sou modelo formada há muitos anos. Fiz fotos, desfilei em São Paulo, Curitiba, Londrina, Cianorte e até posei para a Vogue brasileira."

"!"

"Mas a foto só saiu da cintura pra baixo..."

"!"

"...era matéria sobre calça jeans."

Ai, o tão esperado sorrisinho natalino. Geralmente, essas modelos são todas secas e antipáticas. Tudo diferente com nossa top model. Nas marés de Mariana, você navega o Pacífico, o Atlântico Índico, o Glacial Ártico e o Antártico – cuidado, Gaioto, para nela não se afogar.

"Tô pensando seriamente em ir embora desta cidade."

Ai, não. Nunca!

"Aqui, modelos magrinhas, como eu, não têm muito mercado. Só querem essas do tipo paniquetes, bombadas e tal."

Maringá, túmulo da beleza feminina.

"E o tal do book rosa... você já..."

"Nunca nem ouvi dizer dessas coisas por aqui."

"E o namorado? Aposto que..."

"Larguei domingo. Em dúvida se gostava ou não."

Solteiríssima, ela estende o braço nu de pelinhos dourados. É o ônibus dela. Tua despedida tem gosto amargo - não poderia ser diferente.

"Última pergunta: qual idade?"

"Dezesseis anos. Acredita?"

"!!!"

"Vou terminar o Ensino Médio e ir embora dessa cidade."

E me pego salivando detalhes do encontro, ainda em plena Joubert de Carvalho. No adeus daquela boquinha vermelha, você não dá todas as razões ao maldito Humbert Humbert?

Publicado no Diário (13/12/15)