segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ruivas, morenas, escadas, salas, burocracia e berros sertânicos

Debaixo da bandeira da cidade, centenas de estudantes aglomerados com cartazes, punhos fechados, vozes firmes: foi aqui. O povo marchando na Avenida XV de Novembro, entrando pela noite escura, exigindo mais educação, mais saúde, gritando “não é só pelos 15%!”, caramba, há quanto tempo foi isso mesmo, um, dois anos? Tudo isso?

“Lembra?” 

Aqueles protestos organizados pela internet e combinados concomitantemente em diversas cidades, exigindo troca-troca de presidente, cancelamento da Copa do Mundo, extradição de duplas sertanejas, entre outras exigências que o esquecimento soterrou no quintal da memória. Flashes. Selfies. Camisetas de partidos políticos e bandas de rock. A moça com garrafa de vinho.

“Lembra?”

Foi aqui, debaixo da bandeira da cidade, pouco antes de alguém quebrar a vidraça da prefeitura, causando um estardalhaço estridente, todos nós nos afastamos, tentando identificar o autor, mas, naquela altura, o grito de protesto já era outro, e quando eu seguia para a praça, longe do núcleo da gritaria, você, então, cruzava a minha frente, um perfume cítrico, boquinha vermelha, olhinhos roucos das palavras de desordem.

“Lembra?”

Como esquecer uma ruivinha na multidão? Bem que pode ser a mesma, sim, aquela mesma ruiva engajada, uma das musas da “Água agitada”, do Klimt, reflito, enquanto acompanho, com o olhar, a ruivinha saindo da Prefeitura e passando lá longe – quase cinquenta metros? –, apressada, cabisbaixa, cheia de papéis, até entrar num carro de vidros escuros e frear o peito aflito.

“Lembra ou não? Você está com a cara engraçada.”

Grande José Luiz de Araújo. Um dos tantos bons professores que tive na UEM, no curso de Letras.

“E sempre de chapéu!”

“No chapéu cabem todas as minhas mentiras”, respondo, ainda sob o forte impacto da ruivinha – dentes gaguejantes de frio ou emoção? Devo estar um bocado estranho porque o Zé Luiz, que me parou para falar qualquer coisa sobre Pulinópolis, já se despede, diz que vai na outra esquina, rapidinho, mas que, daqui a pouco, a gente se encontra lá dentro da prefeitura, e vou respondendo que sim, claro, seguindo meu caminho sozinho.

Mulheres fatais

As ruivas, vou pensando, não são por acaso. Os pré-rafaelitas ingleses, com suas pinturas simbolistas, e acumulando seguidores na Áustria, Alemanha e Bélgica, foram os responsáveis pela popularização da imagem da mulher ruiva. Gosto da “Água agitada”, com as musas do Klimt retratando a perversidade feminina e a mulher fatal. Como não gostar? No térreo da prefeitura, interrompo o fluxo – ruivas para que te quero.

Culpa de duas caminhonetes com som alto, delas ecoam dois arrochas universitários, com letras grosseiras e infelizes. O gabinete do prefeito fica no primeiro andar. Será o prefeito capaz de ouvir os arrochas sertânicos que emanam dos carros maringaenses agora mesmo, às quatro da tarde desta terça-feira?

Em meio à ruivinha e ao arrocha, tento me concentrar. Paredes cinzentas, um lugar ainda mais melancólico e triste com o tempo nublado lá fora. Calado e avesso à conversa, um velho de roupa acinzentada e olhar lúgubre vaga pelo corredor do térreo, empunhando um sacolão transparente com latas amassadas de refrigerante – se visse vivo, o grande Iberê Camargo faria nova pintura.

Crianças entediadas morrem de silêncio num dos quatro aparelhos, igualmente silenciosos, da ATI (Academia da Terceira Idade). O maior boceja no simulador de caminhada. Não há risos na prefeitura. Quase todo mundo só está aqui porque tem mil e um problemas. Ninguém vem pra cá à toa, para dar uma caminhada aprazível entre papéis, burocracia e processos, determinado a apreciar ambientes diferenciados. Na praça de atendimento, a essa hora sem fila, tem gente com todo o tipo de missão.

Recém-contratada, a ajudante de limpeza Mayara Fernandes, 23, perambulando à caça de vale-transporte. Ela mora em Sarandi e trabalha num colégio da Vila Operária. São quatro ônibus, diariamente, para ir e voltar do trabalho. “Tô com um probleminha. Como eu não tenho conta de luz, água, telefone, não consigo o vale-transporte. Daí, tenho que tirar da boca pra pagar o ônibus e conseguir chegar no trabalho”, comenta.

Recém-formado em Jornalismo, um jovem maringaense tirou carteira de funcionário autônomo - exigência do promissor primeiro emprego - e trabalhou por dois meses numa empresa. Demitido e desiludido com a profissão, resolveu cursar História. Um ano depois, ele se deu conta de que não tinha solicitado o cancelamento da carteira de funcionário autônomo. O resultado? Uma dívida de quase R$ 700 com a prefeitura. “Agora, tenho que cancelar isso o mais rápido possível e parcelar a dívida”, lamenta.

“É um problema atrás do outro, né?”, observa a empresária Bruna Staub, 29. Visivelmente cansada, ela equilibra nos braços a pilha de papéis. “É a sexta vez que venho aqui hoje!”, contabiliza. As idas e vindas são culpa do processo burocrático, iniciado em março deste ano, para que ela possa construir, finalmente, uma casa na Vila Santa Isabel. “A obra ficou embargada porque a prefeitura, há muitos anos, ocupou 50 centímetros do terreno. Entre outras coisas, hoje tive que doar esses centímetros pra Prefeitura, pra que minha casa seja liberada”, conta.

Banheiro de Judas

Sisudo, empunhando pasta e papéis, o engenheiro Jacir Cardoso chega para pegar um de seus projetos, que está, no momento, em avaliação. “Se pudesse, mudaria algumas coisas desse prédio da prefeitura. Veja o banheiro: antigos e sujos. Não parecem aqueles banheiros de rodoviária dos cafundós do Judas?” Desconheço os banheiros dos cafundós do Judas. Mas, realmente, a coisa está feia. Um cheiro desagradável emana dos banheiros masculino e feminino. Acostumada com as tantas fragrâncias, trabalhando estrategicamente de frente para os tronos públicos, a senhorinha da portaria, com seus 65 anos, nem parece se importar tanto com o odor.

Solícita e sorridente – eis o bendito sorriso! –, tenta ajudar todo o tipo de gente perdida, desde outubro passado. Antes, ela dava aulas de artesanato, em escolas integrais, para alunos do Ensino Médio. “O problema é que minhas cordas vocais secaram. Como dar aulas com a voz enroscada? Passei por uma adaptação funcional e me trouxeram pra cá”, resume.

Com fácil adaptabilidade, ela, hoje, já está acostumada aos milhares de setores da prefeitura e diz que gosta do que faz. Lidar com pessoas, um trabalhão danado, não é das missões impossíveis para ela. “Sabe qual é o segredo? Atender da mesma forma como eu gostaria de ser atendida”, revela. “Às vezes, cavo um buracão pro pessoal, pego de um lado, mando pro outro, tento ajudar de toda forma possível.”

Vou penetrando o ventre do prédio, encarando as rampas centrais que levam ao primeiro piso, passando pela Secretaria de Comunicação Social e Secretaria da Fazenda. Os corredores folgam desertos. Dentro das saletas transparentes, homens e mulheres redigem textos, preenchem processos, imprimem arquivos.
Dos corredores você não ouve a risada do japonês gorducho nem o espirro da morena. Sigo. Gabinete do prefeito, portas fechadas. Ninguém à espera. Da rua, nada escuto. Protegido pelas espessas paredes, o prefeito deve trabalhar em paz, a salvo dos berros sertânicos.

Milagres e curas na vila

“O que eu estava te dizendo”, retoma o grande Zé Luiz, já me alcançando no segundo andar, “é que você mostra uma Maringá diferente. Chega a cumprir um papel memorialista. Minha mulher adora os seus textos.”
Estendo um sorriso. Mando um beijo à digníssima esposa. De que valem as tantas tortas linhas sem uma leitora fiel?

“Eu mesmo, que passo com alguma frequência pelo Centro Comercial, nunca tinha notado aqueles detalhes. Suicidas românticos, escritórios misteriosos, cada coisa. Você está preservando essas histórias, perdidas no esquecimento e na morte. Os personagens, o estilo, os temas vibrantes, as suspensões que nutrem a expectativa, diálogos com réplicas breves! Ah, não fosse Gustave Planche, no decênio de 1820, na França, não teríamos esse nosso romance de folhetim aos domingos!”


Agradeço, acumulando elogios debaixo do chapéu. E já no terceiro andar, cruzando a Procuradoria, a Direção de Licitação e os Recursos Humanos, disparo duas frases, de “As Cidades Invisíveis”, do Italo Calvino:

“Nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a escreve. No entanto, há uma relação entre ambos.”

Zé Luiz abre um sorriso.

“Gostaria que você escrevesse uma história... É fantástica. Você sabia que ali em Pulinópolis, distrito de Mandaguaçu, houve o desaparecimento de uma vila de quase mil pessoas, nos anos setenta? Você teria que ir para lá, claro, passar um dia inteiro, mas renderia um bom material. Em 1975, talvez um pouco antes, a vila Allan Kardec recebia pessoas de diversos lugares do País, do Mato Grosso, São Paulo, Minas. Muita gente acreditava que o médico de lá, um médium muito respeitado, era capaz de realizar milagres, curas e salvações. E ele dava aqueles passes, bênção, fazia de tudo.

Os meus pais, que eram de Iguaraçu, vieram para cá. Esse médico construiu até um hospital, dedicado a pessoas com problemas mentais, e a vila chegou a ter pousadas, restaurantes, bares...”

“E como tudo desapareceu?”

“Esse médico, que já morreu há muitos anos, acabou mudando para Sarandi, com a família. E as pessoas que viviam na vila, pouco a pouco foram parar em outras cidades. Como ninguém permaneceu no local, a vila simplesmente desapareceu do mapa. Virou tudo pasto.”

Vou anotando, no bloco de notas, os detalhes da história. O contista não é, como disse Baudelaire, “o pintor da vida moderna?” Ali mesmo, pincelo o futuro quadro. Cheio de pastas e de olho no relógio, o Zé Luiz se despede. Entretido com ruivas e com o sumiço da vila Allan Kardec, até esqueci de perguntar o que ele foi fazer ali. Devia ser outro desses problemões.

No último andar, nada diferente. O mesmo chão calado. As mesmas saletas envidraçadas. Triste, não esbarrar em outra ruiva. Secretaria de Obras. Secretaria de Planejamento. Secretaria do Meio Ambiente. Funcionários concentradíssimos à espera dos próximos problemas, filas livrinhas e banquetas vazias – não há melhor dia para ir à prefeitura.

Ali, encontro uma morena de 28 anos. Advogada, nascida em Maringá, há dois anos morando em São Paulo. Em passagem-relâmpago pela cidade, aproveitou para cumprimentar uma velha amiga na prefeitura. Vamos descendo, juntos, pelo ventre do prédio.

De barco em Bertioga

“No escritório, somos só em três: eu, minha chefe e a secretária. Quer dizer, agora tudo mudou.”
Olhinhos castanhos. Blusinha branca. Saltinho preto. Frases aceleradas, dessas que escancaram o armário a desconhecidos. Meu tipo favorito.

“Na sexta-feira passada, minha chefe disse que era pra eu ensinar um monte de coisas pra secretária, porque ela estava com tempo ocioso demais e seria bom que fizesse umas atividades mais simples.”

“...”

“Ou seja: basicamente, qualquer coisa que não precise de OAB.”

Tão bom encontrar moça que se abre.

“Na segunda-feira de manhã, saí pra pegar uns processos na Justiça do Trabalho e disse à secretária que à tarde ensinaria alguns negócios diferentes. Quarenta minutos depois, eu volto e a minha chefe tinha demitido a secretária. Sabe qual justificativa? Disse que precisava ‘diminuir o escritório’. Pô, o escritório só tinha três pessoas!”

Seu riso, a última camada de açúcar da filhó quentinha e cheia de canela.

Além da crise decepando os colegas de trabalho, a advogada ainda tem que lidar com um problema ainda mais delicado e inusitado, entre rimas de ventos e velas, vidas que vem e que vai.

“Nosso escritório praticamente trabalha para um único grande cliente. Empresário cinquentão, solteiro, até que bonito pra idade. Agora, por meio da minha chefe, ele vem me sondando pra passar um final de semana ao seu lado, viajando de barco, em Bertioga. Já imaginou? Sai sexta e volta domingo?”

Qual amor não é louca viagem? Quem nunca navegou nas ondas turbulentas da paixão? O azul da cor do mar não te remete à inocência perdida? Despacho malícias cheias de clichês.

“Me parece romântico...”

“Esse é o problema! Tenho namorado sério, moramos juntos há dois anos, somos praticamente casados. Se eu entro nesse barco, meu relacionamento naufraga em alto-mar. Se não entro, corro o risco de ser despedida. Que rolo, viu?”

Qual grande amor não parece outro neurótico enredo do Woody Allen? Quando me dou conta, já estamos no térreo. A voz acelerada agradece a conversa.

“Melhor que a minha terapia.”

Ligeira, deserta pela prefeitura e encara o toró, com o inseparável guarda-chuva preto. A chuva encharca a gripe da criança, inunda o tédio da tarde e agride a velha imóvel na esquina – outro maldito motorista explodindo poças d’água.

Publicado no Diário (19/7/2015)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Crimes, corpo, chifres e outras histórias

Roberto Silva entra na Redação de O Diário às dez para as duas. O homem que já resolveu casos antes mesmo da polícia, chegando a arrancar confissões de experientes criminosos, tudo em primeira mão, mede um metro e setenta e pouco.

Magrelo, usa tons sóbrios: calça jeans azul escura e camisa jeans da mesma cor. Nos pés, botinas pretas feito a morte – talvez, dessas impermeáveis. O mito do jornalismo policial maringaense tem sua mesa num canto da Redação, debaixo do ar-condicionado e a três passos da cruz boiando na parede. Acessa os e-mails e vasculha, ligeiro, um e outro site. Basta. Pega um café.

Conversa com três jornalistas, exibe no celular hipermoderno as fotos de um corpo banhado em sangue, arrancando um “Deus me livre, que horror!”, de uma delicada editora japonesa, e repete a piada que vem disparando, diariamente, há 32 anos nos corredores do Diário, perguntando se alguém, por ali, “tem um furo pra dar”. E, como sempre, por incrível que pareça, a velha piada minimalista funciona: não há riso que resista ao trocadilho sacana. Pense errado, não. Furo, caro leitor, é só um jargão jornalístico para uma notícia exclusiva.


“Tô indo pra delega. Quer mandar notícia pra algum preso?”


A moçoila responde com uma boa risada – a cabeça negando até a alma.


“Então, vamos nessa, Gaioto.”


Não é qualquer um que tem o aval de Roberto Silva para mergulhar, ao seu lado, no submundo do crime. Avesso a exposições midiáticas, o jornalista de 55 anos tem um lado meio recluso. “Meu sonho era fazer uma matéria na TV com esse cara. Mas ele nunca aceita. Não gosta de aparecer”, comentaria, horas mais tarde, o repórter de TV Jota Junior.


Entramos num Palio do jornal. Saindo da empresa, ele berra ao porteiro:


“Quer mandar recado pro Tião Coca-Litro?”


O porteiro cai na risada, o dedo indicando jamais. Nunca que ele quer envolvimento com o tal Tião, famigerado protagonista do universo piadístico de Roberto Silva. “Faz trinta anos que o Tião tá lá trancado, sem sexo, na solitária. Quer passar a noitada com ele, Gaioto?!”


De tudo vai rolar


Bem casado há vinte anos, Roberto Silva gosta de Bob Dylan, Rolling Stones, Pink Floyd. Não suporta Beatles nem João Gilberto. Cervejas, cachaças e uísques também não fazem sua praia. Enquanto acelera nas ruas maringaenses, rumo à 9ª SDP (Subdivisão de Polícia), vai adiantando o que poderemos esbarrar pela frente.


“É sempre uma incógnita. Pode ter muita coisa, e também pode não ter nada. E prepare-se: você vai ver muita bobagem. Gente que registra boletim de ocorrência porque foi xingada no Facebook e um monte de outras ocorrências à toa, de roubinho besta e trecos amalucados. Aliás, 70% dos crimes não existiriam se a população fosse mais cuidadosa com seu próprio patrimônio.

Por exemplo: o cara viaja pra praia e gasta R$ 300, todo o dia, bebendo cerveja e comendo camarão de frente pro mar. Mas deixa a casa dele, que não tem grade nas janelas nem câmera nem muro alto, toda abandonada. Daí alguém rouba a casa, e o sujeito ainda bota a culpa na polícia”, comenta, antes de frear bruscamente, numa esquina próxima da Avenida Colombo, para uma senhora serelepe cruzar a faixa de pedestres.

“Gosto dos velhinhos. Da molecada, não: moleque eu passo por cima”, brinca.
 
Chegamos à delegacia em inacreditáveis nove minutos. Rostos tristes em pé, sentados, famílias inteiras debaixo da árvore fugindo da fúria solar. E já estamos entrando na delegacia, quando toca o celular dele. Durante a ligação, Roberto Silva assume as mesmas características que o grande Stefan Zweig notou na estátua que Rodin fez de Balzac: a surpresa de alguém arrancado bruscamente do céu para cair numa realidade que já havia esquecido.

O olhar de uma grandiosidade aterradora que se assemelha a um grito. Aquela expressão fisionômica de quem é sacudido em pleno sono. Aquele aspecto de sonâmbulo, junto ao qual se pronuncia brutalmente o nome. O mito do jornalismo policial dá meia volta. E, correndo em direção ao carro, começa a dizer que uma de suas fontes passou os detalhes de um corpo, encontrado, nesse exato momento, às margens do Ribeirão Morangueiro, entre os Jardins Alvorada e Oásis, na zona norte. Aperto o cinto, tranco a porta. Roberto Silva volta a pisar fundo nas ruas maringaenses.

Córrego mortífero


O grito estridente da mulher atravessa a Avenida Alexandre Rasgulaeff, aguça a curiosidade do marido e das pessoas em volta, quem estava em dúvida vai se aproximando: “Tá morto, tá morto, vem ver!”. Adolescentes, tiazonas, velhos, pedreiros sujos de tinta e moçoilas com roupinhas de ginástica se engalfinham na grade que separa a calçada do início do matagal, caçando com olhares lá em baixo, no córrego, vestígios do corpo, abraçado a um tronco de árvore, na margem do rio. Um bebê de um ano, no colo do pai, e o cachorro nos braços da velha são os únicos desinteressados no morto.


“Quero ver tudo bem de perto: daqui só saio depois do IML.”


“Deve ser outro craquento.”


“Não, parece boneco de Judas?”


“Vão ter que abrir uma clareira, ó.”


Quem tem celular aproveita para enquadrar o corpo em diferentes ângulos. “Vou passar um filtro e já vou postar no Facebook”, comenta, alegrinha, a dona de casa Marisa Fenaco, 40. “Isso não é meio tétrico?”, pergunto.


Ela abre um sorrisão: “Claro que não. Todo mundo faz!”


Na cena do crime, Roberto Silva é saudado por repórteres, cinegrafistas e bombeiros: “Grande Roberto!”, “Chegou o cara!”, “Roberto Silva, o mito!”. Gente boa, retribui os tantos cumprimentos. Ouve moradores, entrevista bombeiros e policiais: quase trinta minutos. Na calçada, concede rápida entrevista sobre o descobrimento do corpo para um locutor de voz empostada, que estende o celular e pede detalhes, ao vivo, para alguma rádio da cidade.


“Uma mão lava a outra. Nesse meio, você tem que ser amigo de todo mundo.”


A analogia não é só recurso metafórico. No meio da confusão de gente e polícia e curiosos e bombeiros, o próprio Roberto Silva surge, fora do enfoque da câmera, empunhando o microfone de uma TV local e entrevistando o velho que achou o corpo no córrego: cinco perguntas, rapidinho. “Esse câmera, aí, é meu filho. Você já conhecia ele?”


Com 30 anos nas costas e onze de jornalismo, Robertinho, o cinegrafista, é igualmente gente fina – bom humor é, entre os Silvas, um atavismo. Engraçado. O filho parece mais velho que o próprio pai. Vampiro que se alimenta do sangue no submundo maringaense, Roberto Silva assim mantém sua jovialidade? Tá explicado.


“Segundo a polícia, esse cadáver está aqui há, no máximo, 72 horas. Ainda não há informações se há marcas de violência ou perfurações de faca ou tiro. O sujeito usava blusa. Isso pode indicar que ele morreu à noite, já que, nas últimas 72 horas, as manhãs e as tardes estavam quentes; e as noites, geladas.”

Roberto Silva termina de passar as informações por telefone para a repórter de odiario.com. Última olhada no corpo, ao longe, e arrisca a conclusão: “Aqui perto, há uns mil metros, tem um conhecido ponto de drogas, bem num córrego, relativamente fundo. Esse corpo está abraçado ao galho, parece que o cara tentou se salvar. Acho que veio de lá. Até porque o córrego, no ponto onde estamos, é rasinho: ninguém, por mais chapado que esteja, conseguiria se afogar. Pode ser assassinato. Vamos ver o que o pessoal da polícia vai dizer.”


Entramos no carro. Hora de voltar à delegacia de polícia. No meio do caminho, próximo ao Hospital Universitário, Roberto Silva aponta: bem ali, há alguns anos, morava uma família riquíssima. Muita briga, ódio, até que um adulto morreu sozinho. “Ninguém reclamou o corpo. Só acharam meses depois. O cheiro era insuportável e restava pouca coisa: os ratos tinham devorado o corpo inteiro. Uma cena horrível.”


Acesso ao proibido


Na delegacia, Roberto Silva é de casa. Vai entrando em salas, salinhas e saletas – para ele não valem as centenas de avisos em letras garrafais: PROIBIDO: SOMENTE POLICIAIS. Cumprimenta delegados, moçoilas, investigadores, distribui dois exemplares do Diário para alguém, dá tapinhas nas costas do famoso sargento e conta suas tantas piadas. A passos céleres, é até difícil acompanhá-lo, disparado lá na frente. Nos corredores labirínticos, surge a carceragem. Epa, não foi aqui que, mês passado, decapitaram um detento? O perfume de cafezinho e papelada, esquecido nas saletas lá atrás, dá lugar a um forte cheiro de merda e mijo. No setor de triagem, apenas três das cinco celas têm banheiros.


Lamentos do cárcere


“Cadeia é desumano. Não tô conseguindo nem comer, cara, porque tem um cocozão aqui na cela”, reclama o preso lá de dentro. Roberto Silva chega junto. Ouve a história do garoto: 23 anos, vendendo crack na quebrada, arrependidíssmo. “Não faz mais isso, pô, cê tá acabando com a sua vida”, aconselha o jornalista.

Da carceragem encardida tocamos para outro canto. Abrindo e fechando portas, perambulando em corredores e bebedouros – ai, que saudades das minhas musas maringaenses! -, Roberto Silva entra e sai de salas que abrem espaço para outras salas menores, e de repente é como estar perambulando nos corredores claustrofóbicos e infinitos do “Processo”, do Kafka.


“Tem alguma coisa interessante por aí?”, ele vai perguntando, em cada sala, insaciável colecionador de nãos.


Empunhando o monte de BOs, Roberto Silva vasculha possíveis matérias. Estelionatos, ameaças, golpe de falso prêmio, gente que se lasca vendendo moto e não faz a transferência do veículo, alguém reclama do carro riscado nalguma rua da cidade e outro assume não pagar pensão e vai até a delegacia registrar a ameaça jurada pela sogra.

Depois de meter seu carro numa estrada rural, num canto da zona norte, e encontrar um lamaçal à beça pela frente, o revoltado motorista maringaense registrou um BO porque tinha muito barro - quem diria?! - na estrada rural. Depois da noitada regada a cachaça e outros pileques, um bêbado surgiu na polícia para registrar o grandessíssimo roubo de R$ 2. Segundo o depoimento da vítima, um desconhecido lhe afanou a dinheirança, pegando-o desprevenido em sua boemia.


“O bêbado, que teve seus R$ 2 roubados, gastou R$ 6 para se locomover de ônibus até a 9ª SDP, acredita?! Tá vendo que loucura é isso? Olha esse, ó. A mulher agrediu o marido verbal e fisicamente e ainda quebrou o para-brisa do carro dele. Quer outro? Uma mulher diz estar sendo caluniada e jura que as fotos nuas circulando no WhatsApp não são dela, diferentemente do que tão comentando. Agora, a polícia vai acionar escrivão, cartorário, promotor e mais um monte de gente pra investigar essa besteira do celular, ver quem postou, primeiro, a tal foto e quem tá caluniando a moça. Esses casinhos, aí, besteiras de internet, custam cada um, cerca de R$ 3 mil para o contribuinte”, diz.


Nessa hora, Roberto Silva recebe de alguém um bolo de páginas: penca de BO’s de desaparecimentos. Num banco da delegacia, ele vai separando os perfis que se aproximam do morto encontrado no córrego e passa a ligar para as famílias. Sozinho, correndo contra o tempo, à caça da identificação do corpo.


“Tenho uma história boa pra você”, avisa um policial, chegando junto, dando risada.“Dia desses, veio uma japonesinha de uns sessenta e poucos anos, já velhinha, acima de qualquer suspeita, sabe? Registrou um BO. Ela chifrava o marido com um garotão de vinte e poucos anos, e o marido descobriu. Com a traição, o marido nem se importou. O problema é que ele descobriu, também, que a velha tinha dado R$ 20 mil pro Ricardão. Revoltado, o marido desceu a mão na esposa e, agora, vai responder pelo crime, enquadrado na Lei Maria da Penha”, relata o policial, aos risos.


Depois de três ou quatro ligações, ele ainda não conseguiu identificar o sujeito. Embora pareça alheio à conversa, absorto na investigação, Roberto Silva dá uma boa risada e emenda: “Se você for um corno, então, que seja um corno manso!”. Fica a lição.
 
Abandonando os BO’s, corremos por outros departamentos. “Tem algum furo pra dar?”, pergunta Roberto Silva. Mais risadas de figurões – não é aquele sargento famoso do YouTube? Passamos pelas saletas de interrogatório. Olhares vigilantes, armas à vista, molecões ainda imberbes, com pés e mãos algemados, respondendo por assassinatos, tráfico de drogas e o diabo.

No corredor, encontramos Jota Junior, repórter de TV, de voz empostada e cabelo penteadinho. “O Roberto tem um jeito especial: ele conversa com o criminoso como se conhecesse o sujeito há uns 300 anos. E, claro, tem sua malandragem. Ele chega assim: ‘Ô, fulano, sei que você acariciou a criança, passou a mão nela, estuprou mesmo, e só depois foi estuprar a mãe’. Daí o suspeito responde, como se conversasse com um amigo: ‘Peraí, a criança não! Só estuprei a velha!’”, comenta.


“O Roberto é do tempo em que não tinha celular nem internet. Então, o jornalista tinha a informação, um dia antes, por exemplo, que um grupo de Sem Terra iria invadir, no dia seguinte, no horário tal, alguma fazenda. O Roberto tinha que ir pra essa fazenda e fazer a matéria. E se não tivesse a tal invasão? E se fosse trote? Ele tinha que arranjar outra pauta, em cima da hora, para não voltar de mãos vazias pro Diário. Sabe o que ele é? Um gênio”, avalia.


Gente fina, o repórter é mais um dos tantos alunos de Roberto Silva. “Ele é uma escola. Agora há pouco, no caso do corpo no córrego. Não é só o corpo que importa. O velho que achou o corpo, sabe? Quando bati o olho, vi que o velho estava com algumas folhas na cabeça e a calça suja de barro. Então, perguntei pro velho se ele desceu até o córrego pra ver o corpo de perto. E o velho comentou que viu, sim, mas por acaso. Todo o dia, não lembro há quantos anos, esse velho vai pra beira do córrego regar a plantinha que ele tem ali na margem. Mesmo com a chuvarada que deu ontem, olha só!, ele estava lá, para regar a tal plantinha. Com esses detalhes, consegui humanizar uma história que, inicialmente, era só mais um corpo descoberto. No final das contas, mostrei um pouco daquela região e do cotidiano de seus moradores. Quem me ensinou tudo isso foi ele .”


Quando me dou conta, Roberto Silva já está em outra sala, tomando notas de um caso de estelionato e de uma vistoria que será feita não sei por quem, na carceragem. Sigo seus passos, vamos saindo. Muitas armas, risadas, alguém notifica o roubo de um vídeo game. Na frente da delegacia, quase cinco da tarde, os primeiros minutos em que Roberto Silva está, finalmente, um pouco menos acelerado. “Viu que correria? Tô o dia inteiro querendo mijar, e nem tive tempo”, revela, rindo.


E o banheiro espera mais um pouco. O trabalho ainda não acabou. A escrita, aliás, nem começou. Cinco e quinze da tarde, chegamos ao jornal. Roberto Silva invade a Redação e vai comentando, em voz alta, no léxico da juventude, todo os detalhes do morto, até o momento sem indícios de assassinato, além do caso do estelionatário e umas outras ideias que, se mexer bem, podem virar tantas matérias. O papo com o editor-chefe, no meio da Redação, dura menos de cinco minutos. Antes de seguir para o computador, Roberto Silva dá um berro: “E vocês não conversem comigo nos próximos trinta minutos, hein!”
Furiosos, seus dedos arquitetam histórias, personagens, detalhes, com uma rapidez impressionante. Quieto e compenetrado, desafiando o tempo. Encaro Roberto Silva, novamente, pela última vez. Ele sabe que tenho um livro de 223 páginas sobre suas histórias. Amanhã de manhã, quantos leitores não vão ler e tresler as linhas do seu corpo?


Ainda na Redação, me dou conta de que talvez - assim como aconteceu com o Machadinho -, só depois de quatro décadas de sua morte a posteridade consiga traçar, de maneira consideravelmente satisfatória, o perfil humano desse sujeito cheio de piadas minimalistas e dedos ágeis, obcecado pelo processo de investigação e pela escrita: o gênio multiplicado que é o mito Roberto Silva.

Publicado no Diário (5/7/2015)
 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Salas, sonhos, hippies, letras, superação, amores e viagens

Não gosto de perambular por lugares tristes, embora tenha total consciência de que a boa arte é, essencialmente, uma só tristeza. Você encara “MacBeth”, “Rei Lear” ou “Hamlet” gargalhando? Escuta o Quarteto nº 2, do Buhuslav Martinu, rindo à beça? Difícil imaginar alguém com ataques de risos num filme do Bergman. O sorrisão do pagodeiro, os coraçõezinhos felizardos de Romero Britto, as gargalhadas desses comediantes de stand-up – a felicidade, eterna inimiga da arte maior. Vou pensando nisso no meio do bar-lanchonete. Quase quatro da tarde. A loirinha da TV dá os detalhes do enterro de algum cantor sertanejo. Cristino Araújo, Cristiano Ronaldo, qualquer treco assim.

“Ele lançou os grandes sucessos ‘Efeitos’ e ‘Mente pra Mim’. É ídolo de Goiânia”, ensina a moça da TV. Tento lembrar algum refrão dessas músicas. Não lembro nenhum. Devo ser o único a ignorar a obra poética e musical do tal Cristino Araújo. Porque logo atrás da repórter surgem milhares de mulheres chorando, enfileiradas, esperando a vez de se aproximar do túmulo.

 “Que pena, né? Tão jovem...”

O sujeito quarentão, camisa verde e bermuda, chega puxando assunto.

“... morreu ele e a namorada, cê viu?”

“Não, não vi”, respondo, de olho na TV.

E começo a pensar em Shakespeare, Bergman e Buhuslav Martinu no momento em que a telinha exibe cenas do tal cantor sertanejo, todo sorridente, balançando as mãos e batendo palmas, em cima do palco, entoando outro desses arrochas universitários.

“Bem agora que ele tava começando a ganhar dinheiro, que coisa.”

“Você era fã? Quais suas três músicas favoritas dele?”, questiono.

O sujeito perde a resposta na goela.

“Rapaz, agora cê me pegou. Não conheço, não. Na verdade, minha filha é que gosta. Ele tem aquela música lá, sabe?”

“...”

“Aquela lá, que fala não sei o quê do amor?”

“...”

“Olha, pra falar a verdade, eu nem gosto dele, não.”

 “?!”

“Não é porque esse moleque morreu que eu vou ficar gostando dele.”

“?!”

“O que eu gosto, mesmo, é de sertanejo raiz”, confessa o sujeito.

Outro cara, agora de dentro do balcão, pergunta se quero alguma coisa. Cafezinho, cerveja, esfihas, suco, chips, pão de queijo a R$ 1. É tentador, mas ainda não. Única porta, abre durante a semana, das 7h às 23h, servindo um pouco de tudo. “90% da clientela é por causa do colégio”, comenta o proprietário do bar-lanchonete Pasárgada. Voltarei depois, eu digo, e saio do bar-lanchonete. Engraçado. No famoso poemeto, o velho Bandeira diz que, quando estiver triste, triste de não ter jeito, vai-se embora pra Pasárgada. Bandeira também não era chegado na tristeza. Coincidentemente, Pasárgada fica a meia dúzia de passos do Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos), na Rua Paranaguá, 430.

Quem me mandou pra cá foi o Emanuel Lopes. Num e-mail muito gentil, ele disse ser um “leitor assíduo” dessas mal traçadas linhas e garantiu que o local renderia boas histórias. Sei não. Como eu disse, não gosto de perambular por lugares tristes -quem cruza esse portão não escorrega num barranco de melancolia?

Caminho a passos céleres. Roleta. Coordenação. Secretaria. Bebedouros. Banheiros. Pátio deserto. Portas escancaradas de saletas vazias. TVs alaranjadas. Pego o corredor. Centenas de apostilas coloridas empilhadas num canto. Deve ser nessa porta escancarada. Entro. Um grande galpão - quadra de esportes? -, com salas improvisadas e delimitadas por divisórias de um metro de altura. Várias salas. Inglês. Sociologia. Física. Química. Filosofia. Matemática. O nome de cada matéria pregado no alto da parede. Um silêncio generalizado: é dia de prova. Tiozinhos sessentões e jovens de 18 a 30 anos se debruçam sobre as questões. Todo mundo realmente concentrado. Epa, quase todo mundo. Observe com calma: ali, ó, na última fileira de Inglês, empunhando um celular hipermoderno, a senhorinha sessentona confere as últimas atualizações do Facebook e, escondendo-se de professores e alunos – ó assassino que envenena o próprio pai, toma o trono e casa-se com a rainha! -, hesita por um instante em trocar mensagens pelo WhatsApp. Responder ou não responder, eis a questão? Dedinhos enrugados e serelepes fazem cócegas na tela – ela responde.

Unidos na exclusão

“Todo mundo que está aqui passou por um processo de exclusão. Ou teve que trabalhar no lugar de estudar, ou repetiu de ano, ou teve algum problema pessoal”, comenta uma professora que pede para não ser identificada. “Tem muita gente que aprende, já adulto, a ler e escrever aqui. Tem o caso de uma senhora, de 50 anos, que nasceu no Nordeste, passou fome e sede, numa vida miserável, e só agora, há alguns anos, veio se alfabetizar com a gente. Hoje, como ela consegue se explicar e falar com alguma desenvoltura, diz pra todo mundo que se acha uma madame”, relata outra professora.

O maior desafio da escola, ela conta, é fazer com que os alunos não desistam no meio do processo de aprendizado. “Muitos abandonam porque não conseguem conciliar com o trabalho. E tem o lado negativo: antes, os alunos poderiam vir no horário que quisessem. Hoje, os horários são definidos. Essa organização é prejudicial pro aluno”, observa.

Na saleta de inglês, uma garota se levanta. Caminha até a professora, entrega a prova e, discreta, sai do galpão de aulas coletivas. Crislaine Felipe, 26, estuda geografia, inglês e educação física, todos os dias, de manhã e de tarde. Pretende concluir os estudos de 5ª a 8ª série até o final do ano. Mora perto do colégio, junto com um irmão, e vem a pé: quinze minutos de caminhada. Paranaense nascida em Mariluz, a cerca de 138 quilômetros de Maringá, ela começou a trabalhar desde muito cedo com o corte de cana e, depois, virou auxiliar de cozinha num restaurante oriental. “Eu já tinha reprovado quatro vezes a 4ª série. Estava parada, sem fazer nada, e foi aí que comecei a trabalhar. Eu tinha desistido do estudo”, diz. A rotina, na casa dela, era de muito suor. Mais dois irmãos trabalhavam na roça e ajudavam nas despesas. O pai, caminhoneiro, abandonou a família e nunca mais deu as caras. “Minha mãe, que era espancada todo o dia pelo novo marido, foi uma heroína: conseguiu colocar comida dentro de casa pra todos nós.”

Hoje, Crislaine não abre mão da sala de aula. E sonha longe. “Quero seguir o exemplo do meu irmão e conseguir ser uma boa professora. Um dia ainda vou me formar na UEM”, diz. Com 40 anos, o irmão dela, que hoje dá aulas em Campo Mourão, fez das tripas coração para virar professor de História. Deslocava-se diariamente de Mariluz a Umuarama, onde estudava, e contava com a ajuda dos professores, que vez ou outra lhe ofereciam lanches e bolachas. “Ele pegava o ônibus às cinco da manhã e chegava em casa a uma hora da manhã do dia seguinte. Passava o dia inteiro estudando, muitas vezes passando fome. Se ele venceu, eu também posso vencer na vida”, comenta.

Desejo boa sorte à Crislaine. É sempre bom trombar com pessoas determinadas. Volto a vagar pelo Ceebja. Numa saleta de artes, um grupo de vinte e poucas pessoas tem seus dotes artísticos avaliados. Concentrados, alunos capricham nos traços e cores. Saio. Três senhoras passam por mim. Comentam, alegrinhas, o desempenho na prova.

“Fui um horror. E você?”

“Mais ou menos. Sorte que eles não podem reprovar a gente.”

Amor x sala de aula

Com roupas de academia, Amanda Amancio, 18, cruza a roleta rumo à rua. Parece um bocado cansada depois da prova – os pés na calçada sustentam a alminha exausta. Novata na área, ela encara o supletivo de dia e à noite, há duas semanas. Recém-casada, Amanda ficou um ano sem estudar. O amor, já dizia Diógenes, não é mesmo “a desocupação dos desocupados”? Sempre certeiro, o nosso Cínico. “O casamento modifica toda a sua vida. Vida a dois, dar mais atenção ao marido, esse tipo de coisa. Como estamos emocionalmente e economicamente mais estáveis, quero voltar a estudar e sonho cursar Psicologia, na UEM”, comenta. Enquanto a faculdade não chega, ela continua a se deslocar, diariamente, de Paiçandu, onde mora, a Maringá. “Em Paiçandu, o Ceebja é só de noite. Minhas noites, eu divido com meu marido”, diz.

Já estou há quase uma hora vagando pelo Ceebja. Bate forte a fome no peito. Lembro do pão de quejo a R$ 1. Chega de tristeza. Vou-me embora pra Pasárgada. Lá, peço o tal acepipe a preços módicos. O sujeito que falava sobre o sertanejo sumiu de cena. O Pasárgada estaria deserto, se não fosse a garota com os dreads cheios de cabelos. De vestidinho colorido, chinelinho rosa e blusinha preta, a curitibana Ellen Patricio guarda uma porção de viagens e mil e uma aventuras em seus 18 aninhos. Numa das poucas mesas do Pasárgada, ela toma um cafezinho e se regala com pão de queijo, enquanto segue a leitura do livro “Maestros, Obras-Primas e Loucura”, do Norma Lebrecht. Olhinhos intensos e voz maviosa, diz que parou de estudar aos 15 aninhos.

“Só não me pergunte o motivo. Porque eu nunca te direi”, responde, desafiadora. Certo, certo. Mudemos o rumo da conversa. Sobre qualquer outro tema, porém, ela topa falar numa boa. Da paixão por caiaques, ioga, cachoeiras e muita natureza. De sua admiração por Van Gogh, Modigliani, Picasso. De seu bom gosto musical, que vai de Caetano Veloso e Chico Buarque a Chopin e Bach, passando por Louis Armstrong e John Coltrane. “Acho que tô em fase de transição: nem gosto mais tanto de reggae”, reconhece. Dos mochilões por Sergipe, Mato Grosso do Sul, Bahia, Alagoas, Minas Gerais, conversando com nativos, buscando inspiração, vivendo a vida intensamente – quem sorri, ela ou você? Das oito telas já pintadas e a vontade danada de cursar Artes Visuais, talvez em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, em qualquer canto do País.

Curioso, você, pelos quadros da nossa jovem pintora on the road? De nada adianta fuçar na internet, vasculhando as plataformas sociais da moçoila. “Pintar é algo muito íntimo: não mostro para qualquer um. Tô até planejando uma exposição, mais pra frente. Mas, se isso acontecer, terei que estudar como fazer as réplicas desses meus quadros. Ciumenta que sou, me recuso a exibir os originais ao público”, diz, já de olho no relógio e debandando de Pasárgada. “Tô atrasada pra aula de ioga, fica aqui perto. Tchau, bom falar contigo.”

Seis e pouco da tarde, mais alunos vão tomando a frente do Ceebja. Futuros pintores, psicólogos, professores – quantos sonhos cabem numa só pessoa? -, quase todos com passados lúgubres ou arrependidos. Na mesa do bar-lanchonete Pasárgada, ouço Bandeira sussurrar os famosos versinhos de seu poemeto: “E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar / — Lá sou amigo do rei — / Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada”. Colado ao Ceebja, o paraíso de Bandeira está localizado a menos de meia dúzia de passos. Para toda essa gente, à espera do início da aula, o paraíso fica um pouquinho mais distante, a duas quadras, precisamente, nalguma sala da UEM.

Publicado no Diário (29/6/15)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Cabelo, barba, lobisomens e muitas outras histórias

Os planos eram mirabolantes e cheios de luxo, no início dos anos setenta. Erguido na Avenida Brasil, num edifício imponente, com quatro andares e influências arquitetônicas do Modernismo, o atual Centro Comercial deveria ser uma espécie de Galeria Lafayette, reunindo lojas de roupas caras, perfumes europeus, joias, relógios e outros milhares de acessórios de gala.

Difícil imaginá-lo, assim, esquecido ao lado da Praça Raposo Tavares, com as paredes pichadas e surradas – restos resistentes da Maringá d'antanho. No lugar das lojas afrancesadas, os quatro andares foram tomados por advogados, contadores, cabeleireiros, dentistas, vendedores de auditórios para igrejas e até uns sujeitos desconfiados, silenciosos em escritórios sem fachadas, trabalhando sabe-se lá com o quê.

Passo pela farmácia na esquina, desviando de treze pombas obesas e de quinze barrigonas se fartando com cachorro quente – a salsicha na chapa é a perdição do gorducho. Vou entrando pela porta que dá para a Brasil. Quase todas as lojas têm portas de vidro: olhar e ser visto, nas ruas ou nos corredores. Óculos nas prateleiras, máquinas fotográficas antigas, dezenas de celulares. Aparelhões cinzas, vermelhos, azuis, modernetes, com câmera de vídeo e fotos em alta resolução – sonho de consumo de todo tarado, recebendo e enviando mil e uma obscenidades.

Barbeiro das estrelas
No térreo, reencontro Nelson Ide, 71. Um barbeiro finíssimo, bom de prosa e, sobretudo, privilegiado. Proprietário do Ide Cabeleireiro, há 27 anos no Centro Comercial, Nelson aparou a cabeleira de todo o tipo de gente: gloriosas atrizes globais, ícones da UDR, baluartes do MST, três ditadores, quatro ex-BBBs depravadas e sete santíssimos cardeais. No início dos anos noventa, Bob Dylan era figurinha fácil: entabulava longas conversas com os clientes, quase sempre falando de Deus e das maravilhas provindas do Senhor. João Gilberto, Caetano Veloso e Elomar, ocupando num sábado de manhã as três confortáveis cadeiras do salão, chegaram a fazer planos para uma turnê, juntos, dividindo o mesmo palco e entoando somente canções de Dorival Caymmi. Desde que aderiu à reclusão, David Bowie dá as caras pelo menos cinco vezes por semestre, pede o corte de sempre e até dá uma palhinha, geralmente no final da tarde - prova irrefutável, o violão com a dedicatória carinhosa na parede do salão: "To Nelson, with love, Bowie".

Pintores, filósofos e fazendeiros abastados convivem em harmonia no salão do Nelson, que ainda conta, na labuta diária, com a ajuda de sua esposa, Nilda Ide, e da funcionária Cleuza Ferreira. Além dos cortes caprichados, o salão tem outro atrativo: um café de receita sigilosa, preparado com blends especiais. "Ninguém faz um café como o meu: é bebericando que a gente põe o papo em dia", conta Nilda. À base da cafeína, numa tarde de outono, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca saíram no braço, entre tapas e pontapés, após uma divergência sobre o processo de escrita do conto. Sebastião Salgado enxotou Romero Britto do salão, acusando-o de "louco", "incompetente" e "picareta". O cantor Otto soube, ali, que sua esposa, Alessandra Negrini, o traía descaradamente nas ruas do Leblon. Geraldo Vandré e Jards Macalé revelaram-se grandes piadistas. "Deveriam largar a música e fazer stand-up. Nunca ri tanto na minha vida", comenta um cliente que pediu para não ser identificado.

Fosse um desses barbeiros qualquer, Nelson teria ostentado no Facebook suas selfies com todos os figurões que passaram pelas suas mãos. Certamente, exibiria na parede do salão os retratos de todos eles – antes e depois de sua tesoura. Reservado e discreto, como todo bom oriental, limitou-se a exibição do violão. Quando questionado sobre os detalhes, porém, chega a negar que tantos encontros realmente aconteceram, inventando justificativas aleatórias para o instrumento autografado, exposto no salão. Tudo para preservar a intimidade dos clientes e evitar que seu pacato local de trabalho se transforme em parada obrigatória de fãs e paparazzis. "O que eu posso te dizer é que nossos clientes preferem o corte tradicional, não gostam de ficar inventando moda. Esse pessoal que gosta de cortes modernos fica mudando de salão para salão, dependendo da onda do momento. Aqui, trabalhamos com a tradição. Acredita que já estamos na terceira geração de clientes? Tem vez que vêm todos juntos: avô, pai e neto", comenta.

Nelson recusa falar da clientela estelar, mas topa abrir o bico sobre o Centro Comercial. "O prédio tem umas histórias engraçadas. Teve o caso do romântico suicida, há uns três anos. O sujeito levou fora da namorada, subiu aí pra cima e ameaçou se jogar. Só que desistiu e foi salvo pelos bombeiros", lembra, rindo. "Depois de uns dias, o sujeito voltou: ameaçou de novo, juntou um monte de gente, e ele não se jogou. Hoje em dia, ninguém mais faz isso em nome do amor, né?", comenta. Voltarei mais tarde, com tempo, cortar meu cabelo com Nelson. Peço um café, cortesia da casa: é mesmo o melhor café da cidade.

Algumas pessoas circulam de um lado para o outro, a caminho dos cabeleireiros, da cantina ou das vitrines de celular. Cumprimento o porteiro, que não desgruda os olhos do monitor, esperto às várias câmeras de segurança, e subo para o primeiro andar.

Sebo fino
Outra loja de celular. Venda de aparelhos zeros e usados. Disposto a me livrar do mal do século, pergunto ao vendedor quanto vale a velharia que tenho em mãos. Surrado, retrô, dispara mensagens e – incrível! – até faz ligações: nada de internet nem de coisas modernetes. "Você me diz quanto quer, e eu te digo se quero comprar", avisa o vendedor. Peço R$ 500. Ele se espanta. "Nem a pau." Diminuo para R$ 250. "E tem documento?", ele pergunta, olhando o velho aparelho. Digo que sim. "Aguentaí, vou levar pro meu chefe." Pega o meu celular e some pela porta lateral. Quarenta segundos, o vendedor volta. "Hoje não, amigo. Fica pra próxima."

Azarado nos negócios, toco para o Musical Box, sebo de LP's e CD's do Aquiles. Entrar ali e sair de mãos vazias? Missão impossível. Já comprei, em outros tempos, discos do Assis Valente, Neil Young, Sá & Guarabyra, tudo em boas condições e preço justo. O sebo do Aquiles, pequeno e aconchegante, completou a maioridade neste mês: há 18 anos resistindo, no mesmo Centro Comercial, com o som puríssimo. Nadando contra a corrente, ele abriu o sebo com 300 discos quando o CD começava a dominar o mercado. Outras duas lojas de discos, na época, também funcionavam naqueles andares. Só restou o Aquiles.

Hoje, ele oferece maravilhas da MPB (Vicente Celestino, Chico Buarque, Luiz Gonzaga) e do rock, nacional ou internacional, além de duplas sertanejas. Há, também, umas coisas inusitadas, como o LP "Vibrações", de Alexandre Frota, autografado pelo artista. "Passo esse treco pra frente por qualquer cinco reais", sinaliza Aquiles. Enquanto conversamos, um sujeito se aproxima. Nas mãos, CD's com MP3 de Amilton Lelo e Moreno & Moreninho. Pedreiro alagoano de um metro e meio, negro, simpático e de fala acelerada – às vezes, com longos trechos incompreensíveis -, o sujeito pede que Aquiles copie aqueles dois CD's. E, no balcão, vai falando um pouco de sua busca e seus gostos.

"Ouvir música boa faz bem pra alma. E eu tô procurando também, rapaz, aquele filme, 'Na Trilha da Justiça', de 1975, o filme com o Teixeirinha, porque (trecho incompreensível). Lembro de ver esse filme na roça, no dia que morava, adolescente, na região lá de Goioerê. Já fui em loja de computador, gente com conhecimento profundo, e não consegue (trecho incompreensível) puxou tudinho, mas não era o que eu quero. Você me ajuda?"

Aquiles confessa que nunca ouviu falar do filme. Vou explicando que, infelizmente, também não faço ideia. O alagoano pega os CD's copiados e toma seu rumo. Eu também saio pela galeria - um compacto do Geraldo Vandré debaixo do braço.

Cantos sem fachada
Com exceção dos fregueses que entram no sebo do Aquiles, não há pessoas nos corredores do primeiro andar. Passo por escritórios de advogados e de contabilidade - alguns, fechados. O velho e desgastado letreiro informa que, à minha frente, fica a Centro América Imobiliária. Na entrada, o antigo balcão de madeira e a cadeira de couro desbotado. O escritório acumula pilhas de carimbos, montes de listas telefônicas, papéis e anotações nas mesas de madeiras.

Dois simpáticos senhores setentões, sentados em suas respectivas mesas, vão logo contando os causos da imobiliária. "Estou aqui há 42 anos", comenta o proprietário Benedito Luiz, o Bene, 73. Curioso, pergunto a ele se alguma coisa mudou nesses anos todos. Ele responde sorrindo. "Que nada. Basicamente, tudo continua a mesma coisa." Há nesses anos todos, uma coisa que poucas pessoas sabem, adianta o Bene. "A cruz que hoje tá lá na Catedral, sabe? Ela é de um artista plástico que tinha um atelier lá na Colombo. E antes de ir para a igreja, a Cruz ficava aqui no Centro Comercial", comenta. Isso eu não sabia, digo. "Teve até um rapaz que se desequilibrou, pelo que parece, e caiu do primeiro ou segundo andar. Como ele não se machucou, ficou todo mundo dizendo que era milagre de Deus, porque foi tudo pertinho da cruz", recorda, rindo. Com o surgimento da Catedral, Jesus, então, foi levado para dentro da igreja. "E ninguém nunca reclamou a falta da cruz", diz.

O barulho diminui no segundo andar. Único som, carros se esgoelam na Brasil. No consultório de um dentista, impossível identificar o número do telefone – a escrita não resiste ao tempo. Letras garrafais, que provavelmente eram vermelhas, hoje amareladas anunciam o principal serviço: IMPLANTES DENTÁRIOS. Na portinha do consultório, uma imagem santificada sorri acima da frase: "Jesus vive e é o Senhor". Entro na antessala vazia do consultório e o alarme estridente dispara. Quatro antigas cadeiras de madeira aguardam os muitos clientes. O chão está sujo de terra e poeira. Na parede, oito quadrinhos e um certificado de honra ao mérito, todos tortos, decoram a espera de ninguém. O alarme soa cinco minutos, nenhum dentista aparece. Vou embora.

Mistérios da meia-noite
"Bom mesmo era quando tinha o Clube do Lobisomen", lembra, saudoso, um empresário setentão. Aberto apenas para convidados seletos, o bar funcionava no terceiro andar do prédio, com juízes, advogados e políticos se refestelando com cerveja geladinha e um e outro acepipe. Na trilha, bolachões de Ray Coniff e Casino de Sevilha. Às sextas, o clube abria das seis da tarde à meia-noite. "Fechávamos precisamente nesse horário. Depois da meia-noite, cada um saía pra se aventurar nas ruas maringaenses. Se alguma esposa reclamasse do horário, era só dizer que passou a noite com a gente, no Clube do Lobisomem", lembra, com um sorriso sacana.

Sigo para o terceiro andar. O Clube do Lobisomem faz falta por aqui. O silêncio dominando os corredores – qual o barulho do abandono? Passo por uma sala vazia, empoeirada, com pastas e papeis no chão. Não há qualquer nome na fachada. Outro escritório de advogado solitário? Mais um de contabilidade? Um sujeito gordo e de camisa verde anota um monte de coisas em agendas, sentado à única mesa, no pouco que resta da sala. À sua frente, dois anosos sofás de couro.

"Tudo bem? Aqui é o quê?", pergunto.

"Aqui? Uma sala."

Uma confusão de agendas pretas e marrons, pilhas de papeis rasurados, pastas, anotações. Longas contas aritméticas ou um extenso poemeto épico? – que azar, a maldita miopia.

"Escritório de advocacia?"

"Não, não. Uma sala que alugo. É minha."

"É uma empresa?", questiono.

"Empresa? Não, não", responde o sujeito, com alguma relutância.

"Então aqui é o quê?", insisto.

"Aqui não é nada", resume o sujeito, encerrando a nossa conversa.

Dou a última olhada: o sujeito gordo e de camisa verde volta a anotar uma porção de coisas nas agendas espalhadas pela mesa. Redigiria, ele, um grande poema existencialista sobre o nada? Vá saber.

Ainda no terceiro andar, passo por outro escritório de contabilidade – na parede da antessala, um quadrinho de violino azulão, pintado ao lado de uma partitura. A alguns metros dali, um dentista trancou o consultório com cadeado e deixou aviso de "volto já" pregado na porta, informando o número do celular. No consultório abandonado, outro quadrinho decorando a antessala: uma rua no centro da tela, sobrados à esquerda, um dia ensolarado. Seriam obras de um mesmo manco artista?

Deus é mais!

Vejo um aviso numa das salas: "Tudo para a sua igreja: valorize seu templo com auditório". Como não entrar? Diferentemente de algumas salas, esta tem porta de madeira. Bato e logo sou atendido.

"Boa tarde, você quer o quê?", pergunta um jovem atendente, o mesmo sorrisão nos grandes lábios.

Na pequena saleta, dezenas de cremes e outros produtos de beleza se espremem nas tantas prateleiras.

"Aqui é o quê?"

"Depende. O que você quer?", pergunta, ligeiro, o rapaz.

"O aviso na porta diz que vocês vendem auditório para igrejas, mas, pelo jeito, também oferecem produtos de beleza, né?"

"É. Desde que a crise começou, há um ano, nosso movimento caiu 90%. Estamos começando agora com os cremes", conta.

"E vocês fazem auditórios para qualquer igreja?"

"Exato: para todas elas, sem preconceitos."

No quarto piso, nada de cabeleireiros nem auditórios ecumênicos sob encomenda. A primeira sala comercial traz, em vez de malfadados quadrinhos capengas, um grande painel exibindo o azul do mar, dezenas de palmeiras, coqueiros e ondas quebrando debaixo do sol infernal. Deve ser revigorante trabalhar nesse escritório, debruçando-se sobre as leis, a poucos centímetros da praia paradisíaca. Sigo. Tropeço em mais escritórios de advogados e contadores, esbarrando na infinidade de saletas vazias. No Sindicato Nacional dos Aposentados, um silêncio comovente - nem entro. Onde foi parar todo mundo? Onde a nobre clientela da Lafayette maringaense? Como seria bom tomar a saideira no Clube do Lobisomem, com a vitrola tocando "El Sítio de Zaragoza" e "Granada" – saudosismo não é a negação do presente doloroso? Sou arrebatado pelo vazio. Quieto, desando a escrever versinhos existencialistas. Daqui de cima, a Avenida Brasil é um filme mudo de carros coloridos.

Publicado no Diário (21/6/2015)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Valsa, tomates, jilós, limão e Rita no café

Num canto da rodovia PR-317, a alguns quilômetros do aeroporto, a Ceasa (Centrais Estaduais de Abastecimento) é um universo à parte de Maringá, com suas rotinas, cidadãos e meios de locomoção específicos. Disposto a vasculhar almas entre frutas, verduras e legumes, chego à Ceasa às quinze para as sete de uma terça-feira - os últimos boêmios, no Bar do Jô, ainda longe de encarar a eterna odisseia de volta para casa. Da entrada - há quantos metros? -, você já escuta o desafinado coral de gritos, assovios, ronco de caminhões, risadas graves e estridentes escapulindo das tantas goelas. "Vai começar o piseiro", definiria o nobre vereador Negrão Sorriso.

Vou me aproximando, lentamente, tentando amenizar o choque com a manhã preguiçosa. Subo a rampa, ramela ainda brotando nos olhos, rumo às primeiras lojas. Nos poucos passos, tropeço em batatas, tomates, vendedores, jacas, muitos compradores, berinjelas, legumes e frutas não-identificados. No lixo, laranjas e tomates azedos vão impregnando o ar puríssimo, alguém pergunta "e a cebola, quanto tá?", mas não ouço resposta do vendedor, só a réplica do sujeito, "vou levar quatro caixas", e é tudo muito rápido, surgem mais jacas, laranjas e gente passando de um lado para o outro, difícil acompanhar direito a transação, impossível identificar um rosto na multidão que talvez me soe familiar. Por sorte, não sei como, é um milagre, Deus é mais!, não sou atropelado, atrofiado, pinchado no chão por dois compridos carrinhos de madeira, carregados com dezenas de caixas e puxados por figurões que raspam minhas canelas canhestras. Num canto seguro, menos movimentado, repenso a estratégia: atenção redobrada em cada passo.Um mínimo deslize te deixa manco, coxo, perneta.

Nos corredores, negros, bombadões, magrelos, branquelos, japoneses, produtores rurais tingidos de terra, vão circulando e conversando e vendendo e comprando num ambiente extremamente masculinizado. Onde se refugiaram as nossas musas maringaenses? Uma pena se afastar, logo cedinho, de todas elas.

Atento aos carrinhos furiosos e às caixas de madeira no chão, noto a penca de troféus na parede de uma das lojas. Seis deles, prateados e dourados, frutos das disputas futebolísticas. Ali, uma baita muralha de zagueiro? Anônimo lateral impiedoso? "Não vou mentir, não, viu? Nosso timinho jogava mais ou menos nos campeonatos do Ceasa", comenta, coberto de modéstia, o empresário e atacante Delson Bulla, 50. Noto a preferência de Delson: "o Ceasa", não "a Ceasa". Há 32 anos no ramo, ele - tal como tantos outros - prefere o tratamento masculinizado: nome mais robusto para um trabalho que é uma pauleira. Ao talentoso atacante, pergunto sobre as ninfas. Ele me dá um tapinha nas costas, num tom de lamento. "É toda hora encarando caixas de 20 quilos, num serviço bruto, pesado. Raras mulheres aguentam o tranco", adianta.

De chapelão na cabeça, debando do box. Quinze caçambas escancaradas, recebendo caixas de tudo que é tipo. Um cheiro azedo queima a narina – limões bagaçados debaixo do caminhão. Sigo adiante, rumo ao outro pavilhão de lojas. Tento acompanhar, em vão, o carrinho puxado por Adriano Gomes da Silva. É incrível como ele desafia o espaço geográfico. Há um mês na cidade, vindo de Paraíso do Norte, Adriano teve que aprender rápido a perambular entre pernas e trecos e caixas de frutas e legumes. "Eu já trabalhava com lajota, não achei difícil carregar isso aqui", comenta, antes de sair em alta velocidade, guiando seu carrinho.

No Ceasa, ninguém marca bobeira. "Se você atrasar, perde os melhores produtos", comenta o empresário Alexandre Braga. Filho de comerciantes, ele cresceu com o Ceasa. Há uns anos, debandou para o Mercadão Municipal, onde abriu uma frutaria. Acostumado às madrugadas do Ceasa, ele teve que chegar, nesta terça, às cinco em ponto. "Nesse tempo todo que passei aqui, muita coisa mudou. O preço, principalmente: as coisas, cada vez mais caras."

Abóbora cabotiá. Milho verde. Maçã Gala. Couve-flor. Alguém revira as caixas de tomates, conferindo a qualidade da mercadoria – ou procura LP's raros num sebo bagunçado? Passo por um Camaro vermelho, estacionado ao lado do Caminhão do Miltinho, emparelhado com o caminhão da Galera do Repolho, e são caminhões amarelos, azuis, vermelhos, brancos, pretos, num arco-íris psicodélico de caminhões antigões.

Rotina viciante
Os dias mais corridos são segunda, terça, quinta e sexta. "Quarta e sábado a gente vem só pra conversar", diz Elizeu de Souza, 27. Ele trabalhou por três anos no Ceasa de Cascavel. Logo nos primeiros dias, viu que, controlando a venda de uva, caqui, mamão e abacaxi, havia encontrado, finalmente, um trabalho com o qual se identificava. "O ritmo é muito diferente. Tem que levantar às três da madrugada, mas meu expediente vai até as dez da manhã. Não tem que trabalhar à tarde, como num emprego comum. É melhor assim", comenta.

Flanando no Ceasa, estranho não encontrar com os amigos de outras crônicas. Onde os índios kaingangs com balaios coloridos? Onde os pastores de sorrisões nos grandes lábios? Onde a famosa onipresença do Todo-Poderoso? Enquanto me dedico a pequenos pensamentos hereges – não é que as palavras têm mesmo força? -, eis que surge um soldado do Senhor. Uma muralha com a camiseta escrita "Orai com Fé" - possível orar sem? "Minha vida daria um filme", diz o sujeito, grandalhão e gente fina. "Trabalhei como segurança e agora tô aqui: cinco meses puxando carrinho. Muito prazer, viu? Todo mundo me chama de Montanha", diz, estendendo a mão. Digo ao Montanha que deve ser um trabalhão e tanto. "Você se acostuma. É como escrever: você, de repente, não pega um jeito?" Enquanto fala sobre sua vida, vai cumprimentando quem cruza a nossa frente. "Esse é o cara da alface, esse o da cachaça, esse o da jaca", e vai emendando piada com um e outro. Engana-se, porém, que matando o serviço e enrolando o horário. "Conversar é essencial. É assim que os grandes negócios são feitos: você tá conversando e também tá vendendo."

Japonesa ameaçadora
Ofegante com a caminhada - esse Ceasa não acaba nunca? -, encontro o bendito fruto. A primeira mulher. Uma japonesa atenciosa. "O povo daqui sofre muito e ganha pouco", reclama a vendedora, que vai logo me oferecendo um molho de pimenta artesanal (R$ 5). Já viu gorducho recusar acepipes? Aceito, claro, e passo o molho picante no chips – qual boa pimenta não remete ao êxtase com a primeira mulher nua, no escurinho do quarto desconhecido, olhos lacrimejando emoção? É de lamber os dedos, a pimenta oriental. "Agora, prove isso aqui, ó: doce de Jiló." Epa! Jiló? Jamais. Tem limite, a epopeia maringaense. Onde o adicional por insalubridade gastronômica? "O bom jornalista tem que provar de tudo", desafia a japonesinha, rindo para dentro, ameaçadora com seus docinhos cristalizados. Estendo a mão ao menor dos jilós – ou balanço a mão do velho leproso? Arremesso goela abaixo, de uma só vez, o tal docinho. Quem escorrega na sua garganta – o minúsculo jiló ou três treminhões arrancando ladeira abaixo? Abro os olhos, aliviado: não é de todo ruim.

Chega de fortes emoções. Uns metros à frente - ou pra trás?, pro lado?, caramba, onde estou mesmo? -, encontro outra funcionária. Mais uma mulher resistindo no ambiente masculinizado. "É até melhor, sabia? Não tem fofoca nem briga boba. Trabalhar com mulher é só confusão", diz Carla Rebelato, 38.

Cafeína literária
Num dos blocos do Ceasa, acho um café. Rostos cansados se engalfinham no balcão. Ninguém fala com ninguém. Sento num dos bancos, peço um café. Do meu lado, uma senhora serelepe se aproxima: um presente embrulhado, olhos curiosos de azuis.

"Então, você é o Gaioto?"

"Depende", respondo ligeiro – jamais revele seu nome de guerra no campo de batalha.

Voz trêmula - a mesma entonação de minha vó? -, rapidinho estende a mão e senta no banco ao lado.

"Meu nome é Rita Andrade de Paula. Tenho 76 anos, sou mãe de quatro filhos, moro sozinha, e há muito tempo quero me encontrar com você."

"Como você me achou aqui?", pergunto, surpreso.

"É possível esbarrar no Alexandre Gaioto em cada esquina dessa cidade."

"E você confirmou isso mesmo!"

Nós dois rimos, embriagados de preguiça e manhã.

"É sempre bom encontrar uma leitora", digo, sorrindo, enquanto peço um cafezinho para Rita.

Leitora fiel, ela revela que não perde os textos dominicais. Passa a semana inteira esperando as próximas aventuras. Entre meus tantos obrigados - qual voz mais trêmula, a dela ou a minha? -, Rita diz que sempre quis ser escritora. No balcão, estende o embrulho colorido com lacinho vermelho. Toda minha, uma garrafa de vinho francês Hâteauneuf du Pape:

"Presente para o meu recluso boêmio querido. Agora que finalmente te conheci, posso te fazer algumas perguntas?"

Tão gentil, você negaria?

"Pra quê esses olhos tão grandes?"

"Jamais perder um mínimo detalhe."

"E esses dedos, por que tantos calos?"

"Marcas das tantas escritas."

"Por que insiste em usar chapéu?"

"Nele moram todas as minhas mentiras."

Os olhos trêmulos, a voz sussurrada.

"E tudo o que você escreve, Gaioto, é mesmo verdade?"

"Tudo é real no universo da ficção."

Ela abre um sorriso.

"Quais conselhos aos jovens escritores?"

"Escrever bem é pensar bem."

"E uma segunda dica?"

"Evite reticências... maldito recurso covarde."

"Último pedido: dança uma valsa comigo?"

Penso duas vezes. Quem não? Em meio a cenouras e milhos, eu e Rita encarnamos uma valsa de Strauss: dois pra lá, dois pra cá. No caos das compras e carrinhos do Ceasa, ninguém se importa com os nossos passos vienenses, guiados pelos violinos e cellos soando ao longe. Quase nove da manhã. A orquestra, de repente, silencia. À Rita, ergo minha taça de vinho. O Ceasa continua barulhento e vibrante, como deve ser.

Publicado no Diário (14/6/15)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sacolejo, musas, traição, ETs, bíblia e perseguição

Terminal rodoviário, véspera de feriado de Corpus Christi: às cinco e pouco da tarde, num silêncio coletivo, você acompanha jovens estudantes voltando para casa, índios kaingangs com balaios coloridos, doze velhos à espera dos próximos ônibus e a senhorinha serelepe desfilando com uma bolsa amarela, onde se lê - em letras garrafais! - o imponente nome de Victor Hugo: homenagem ao grande autor de "Os Miseráveis"? Vá saber.

Relinchando em voz alta, um ônibus para na minha frente. Rostos exaustos se levantam, entediados e enfileirados diante do 6417. Entro ou não entro? Tive aulas de latim, há alguns anos, na UEM. Confesso, não me dei muito bem com a língua morta – prefiro, sim, as línguas bem vivinhas e danadas. Talvez melhor esperar o próximo ônibus. Mesmo mau aluno, em doze meses decorei uma e outra frase do Horácio, como "ira furor brevis est" ("o ódio é um surto de insanidade") e fiquei por dentro de algumas curiosidades etimológicas. Sei, por exemplo, que a origem do nosso substantivo "ônibus" veio do latim, "omnibus" ("para todos"), porque "omnis" significa "tudo", "todos". Um nome, portanto, ideal para o meio de transporte coletivo. "Moço, você vai pegar esse pro Laranjeiras?", questiona-me a loirinha L. S. D., de 18 aninhos. Eu entro, eu entro, eu entro!

Um alô para o motorista, vamos passando a roleta, sentamos lado ao lado. De calça jeans amarelinha, blusa de oncinha e boquinha pintada de vermelho - como é bom moça pintada de vermelho! -, L. S. D. tem a ansiedade cheia de olhos. Dedinhos tamborilando pela bolsa, seus pés marcam, rapidinho, alguma música imaginária – certamente outro sertanejão. O que se passa pela cabeça de uma jovem de 18 aninhos? "Tudo o que eu mais quero na vida é casar com homem decente", desabafa a nossa loirinha. Sobem quinze ou dezessete passageiros. O ônibus fecha as portas e começa a jornada. Boa de prosa, L. S. D. vai abrindo o coração: desde cedo, perdida no amor. Não apenas num só grande e avassalador, mas em três: Francisco, Ricardo, Guilherme. Atraída, até quando, por homens trissílabos? Um deles, conheceu quando criança. Juntos e felizes para sempre por sete meses – não é o bendito número sagrado? Outra grande paixão acabou quando o sujeito conheceu uma falsa loira – antes disso, a traição no banheiro do Dionísio. "Até que era bonita, viu?" O resultado? Em três meses, já casados. "Mesmo assim, todo mundo sabe que ele gosta de mim."

Por fim, o terceiro: estudante de mesma idade, magrelo e miúdo. "Olha a foto dele aqui, ó", exibe a moçoila, estendendo o celular hipermoderno. Se estalasse os dedinhos vermelhos, não moveria o Monte Sinai e o Monte Sião? A escuridão não encobriria o Sol por três dias ao seu único pedido? A nuvem de gafanhotos não dominaria a cidade, se ela ordenasse, cochichando no ouvidinho? Claro que sim: moscas atacariam homens e animais!, rãs cobririam a terra!, as águas do Nilo tingir-se-iam de puro sangue! Se quisesse, os três correndo rapidinho aos seus pés. "Qual deles escolho? Ai, sou tão azarada."

Juntos, vamos sacolejando pelas avenidas Colombo e Paraná, cruzamos o Colégio Ipiranga, penetramos na Mandacaru. Penso no velho Diógenes, o Cínico, refletindo sobre as coisas do coração: "o amor é uma desocupação dos desocupados". Mas isso eu só penso, não digo à nossa loirinha cheia de enredos rocambolescos. Tudo o que ela quer é rapaz longe de balada e boteco. Alguém que goste de coisas simples: cinema, comidinha caseira, passeio no parque aos domingos. Muito lençol, travesseiro e colchão. "Tudo pra ter a família que não tive", avalia.

Desde muito cedo, L. S. D. sabe das aventuras paternas. Casado com duas mulheres, o paizão administra, ao mesmo tempo, duas famílias na mesma Maringá. Nas casas, estrategicamente construídas em lados opostos da cidade, tudo bem com o relacionamento múltiplo. "Minha mãe diz que assim é até melhor. Num final de semana, ele passa com a gente. No outro, com a outra mulher e os outros filhos. Sabia que eu nunca tive curiosidade de ver a outra esposa? Só os filhos. Uma vez vi todos eles, juntinhos. Nada demais", comenta, e já vai se despedindo. "Foi bom desabafar com você. Valeu, viu? Vou descer por aqui. Até!"

Cinco paras as seis – o pôr-do-sol lambendo o ônibus. Abandonado no 6417, coração tremelicante saracoteando em cada quebra-mola, esbarro em Graziela Morais. Com 22 anos, ela não marca bobeira. Quando encerra a labuta numa rede de fast-food no Centro, só sai às ruas maringaenses sob proteção de dois poderosos fones de ouvido. Graziela sabe que uma inofensiva caminhadinha até o terminal é fatal à boa audição: soterrado, você, pela enxurrada de músicas sertanejas, do caubói com som alto no carro à loja de roupas em promoção. "Assim, posso ouvir meu Guns N' Roses em paz", justifica.

Discordando do otimismo de Voltaire, de que estamos vivendo sempre o melhor dos tempos, ela comenta que sua adolescência foi, sim, pelo menos musicalmente, muito melhor do que esses dias sertânicos. "Minha época tinha boas bandas covers. Show de rock com qualidade. Hoje só dá esse lixo aí", reclama, com razão, esperta a qualquer sinal sonoro da turma do Camaro Amarelo. "Preciso descer aqui. Moro no Laranjeiras. Tchau, até a próxima."

Revólver e perseguição
Vou me embrenhando numa Maringá sinistra. De ruas apertadas e terrenos abandonados. Da Capela Papa João 23. Dos rostos desconfiados no açougue-boteco. Da Igreja Pentecostal Diante do Trono, com gente de terno e sorrisão nos grandes lábios – o portão sagrado escancara os berros da louvação. Pó, poeira, cheiro verde. Já é noite. Quilômetros e quilômetros mal iluminados apressam o passo da moça, aumentam os batimentos cardíacos do velho, matam de susto o tiozinho na bicicleta. Desses becos Moisés avistou a Terra Prometida? Daqui o Senhor mostrou-lhe toda a terra, de Gileade até Dã? Essa cidade que viajo nem de longe lembra a Maringá dos cartões postais. "Esse horário é tranquilo. Dá pra fazer nuns quarenta minutos. Problema é a última viagem, às oito. Tem que dar uma acelerada, o trânsito cada vez mais complicado", diz o motorista. Estamos sozinhos no ônibus. Onde se escondeu o Sol? Guiando das 11h às 13h30 e das 16h às 21h, o sujeito diz que é uma aventura constante enfrentar os talentosíssimos motoristas maringaenses. "A culpa é dos instrutores ruins que temos na cidade", observa. O motorista debandou de São Paulo, onde dirigiu ônibus por quinze anos, e voltou há dois meses para sua cidade natal. "Aqui, ninguém respeita a sinalização. Pra piorar, a cidade é descuidada.Por que não colocam um semáforo na Mandacaru, na frente do HU?"

Num dos tantos becos escuros, o ônibus para e outro motorista sobe. Somos três, puxo conversa. Muita reclamação sobre falta de segurança e várias aventuras nas linhas do Cidade Alta, o bairro mais temido entre os motoristas de ônibus. "Lá é um horror. Você tá sempre correndo perigo. Um dia, rapaz, fui seguido por um motoqueiro, lá numa rua do Cidade Alta, que apontava o revólver e mandava eu encostar", comenta o maringaense, motorista há 15 anos. Às sete da noite, com oito passageiros, ele teve que pisar fundo e improvisar uma rota alternativa. "Saí por umas ruas diferentes e consegui me livrar dele, mas foi um sufoco. A polícia chegou depois, deu escolta. No mesmo dia pedi pra me tirarem daquela linha."

Aleluia!
Aos poucos, outros passageiros vão tomando assento. No breu, poucos leitores. Uma quarentona acompanha as letras miúdas de algum contrato de emprego. À sua frente, um negro de terno preto alimenta a alma de letras miúdas. "Na bíblia, você encontra todas as lições pra vida", garante, apontando para o nome de Jeremias grafado na página. Da janela lateral, agora sim, me dou conta de onde estamos, vejo que voltamos à Mandacaru: um gorducho de chinelos toma goladas desesperadas de sua cerveja Litrão – a grande sede de viver.

Na frente do Mercadão, trânsito infernal. Culpa da feira de quarta. Não é a nossa Julie Manet, caminhando na calçada? Os mesmos olhos tristes, aquela boquinha vermelha?! De sainha rosa, blusinha preta, meia rosa erguidinha e cabelinho preso num rabinho de cavalo - ó hexâmetros órficos da Grécia heroica!, ó margens do rio Hebro!, ó azeite de oliveira puríssimo! De pé, eu me ergo: levanto ligeiro, embasbacado pela mirra mais preciosa, arremessando flores e versinhos líricos.

Nocauteado pela musa anônima, desço do ônibus num terminal barulhento, às sete e pouco. Duas horas sacolejando histórias no 6417.

"Ela conheceu um árabe e foi lá pra aquele país..."

"Por favor, dois passes pra Maringá."

"Estudei bruxaria, misticismo e gnose. Tô te dizendo: aqui tem muito ET. Eles existem."

"... caramba, como é mesmo o nome daquele país?"

"E o fiador?"

"Turquia?"

"Tava tudo errado: o nome de um com CPF de outro!"

"Equador?"

"Essa cidade tá um horror."

"Tem o caso famoso, dos dois irmãos, daqui de Maringá, que até fizeram sexo com ET, dentro da nave, lá no Jardim Alvorada. Acho que nos anos oitenta. Tá na internet."

"Sabe se esse vai pro Laranjeiras?!"

Fim da linha de todo boêmio, única dúvida ribombando forte no peito: onde beber a véspera do santíssimo feriado?

Publicado no Diário (7/6/2015)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Bares, cervejas, poetas, pontapés é muita fé

Voltei de meu autoexílio parisiense no domingo passado. Desembarquei no aeroporto de Maringá, na calada da noite, e fui surpreendido por centenas de leitores, todos muito amáveis, empunhando faixas e buquês de flores, saudando meu regresso com selfies, beijos e abraços. Estavam lá Madalena Stocco, Graciele Gallé, Cristiano Martinez – rouco de tanto berrar "Gaioto, o nosso Hunter Thompson paranaense!" -, um tal de Ricardo e até mesmo o recluso milionário maringaense Juarez Arantes, que me ofereceu carona em seu confortável Del Rey preto. Os outros tantos nomes, infelizmente, não deu para guardar. Se retorno às tortas linhas, hoje no braços do povo, é só por causa de vocês.

Decidido a levar adiante o plano megalomaníaco de mitificação literária dos cantos maringaenses, resolvi inverter um pouco as coisas e dar um pulo em Sarandi, perambulando pela Avenida Maringá. Curioso: há uma homenagem a Maringá em Sarandi, mas não há Rua Sarandi nem Avenida Sarandi por aqui. Com suas vinte e poucas quadras, é a principal avenida de Sarandi. Impávida e colossal. Tão importante que, além dos comércios, casas e 367 bares, numa extremidade fica a Câmara dos Vereadores - à noite elegantemente iluminada por luzes azuis, verdes e amarelas - e, na outra, o Fórum Estadual. Mal chego na famigerada avenida, às cinco da tarde, corro logo para o primeiro bar - você me conhece bem, dentro deste peito afoito despertam mil e uma revoadas de pássaros bêbados. Entro no botecão: sertanejão de raiz berrando alto nas caixas de som, outra história de algum manso. Doze clientes, espalhados pelas mesas da calçada. Sento num canto, sozinho. Do meu lado, um sujeito gorducho e barbudo, metido numa camisa cavada e numa bermuda macilenta, refestela-se com cerveja geladinha – nos pés agigantados, o chinelinho não dá conta de tantos dedos. Ao seu lado, uma senhora magrela de quarenta e poucos anos, vestidão azul, sorriso banguelão e decotão para afogar as mágoas de um batalhão, berra suas desilusões amorosas.

"Aquele desgraçado arruinou minha vida."

"Bebe, amor, bebe."

"Com o João foi assim. Quase me picou inteirinha com facão desse tamanho..."

"Santo Deus."

"... só porque dei bafão no bailão. Daí foi em cana. Mais que merecido. Agora, livrinho, saiu para a vida e deu pra ficar me seguindo. Onde eu vou ele aparece, cheio de ódio."

"Bafão de cachaça, droga, sabe lá Deus o que mais."

"Sorte minha você aqui comigo."

Uma pampa branca, toda despedaçada, dá uma bruta freada na porta do boteco - não cheira à morte o fedor dos pneus? A mulher se assusta, olhão arregalado. O gorducho, ligeiro, mete a mão na cintura - caçando o velho canivete de guerra? Já de pé, no canto do bar, vou saindo de cena. Outro mau motorista, por sorte não o ex-presidiário maluco.

Na Avenida Maringá, nada de marcar bobeira. Ando vinte e poucos passos, entro noutro boteco – tão parecido, da nobre clientela à bendita trilha sonora, não seria o mesmo? Vou ancorando numa mesa da calçada. No cemitério de vasilhames, um cara diferente. Bebendo sozinho e rabiscando poemetos em guardanapos. Dalton (nome fictício) é bacharel em Letras, tem 27 anos, mora em Maringá e namora uma estudante de Sarandi. "Ela já tá chegando. Como não tenho chave da casa, dei um tempo aqui. Vai uma cerveja?", convida Dalton.

Já no primeiro gole, o bacharel em Letras revela-se um exímio contador de histórias. Baixinho e gorducho, narra tudo com mínimos detalhes. Conduz as cenas e os microcosmos controlando o suspense e a tensão, apropriando-se de verbos certeiros, sem tropeçar na adjetivação afetada. Escrever bem não é pensar bem? Eis o nosso bacharel-escritor, ligeiramente alcoolizado, contando suas aventuras em Sarandi.

Tiro, porrada e bomba
"A mãe da minha namorada berrava alto lá embaixo, na garagem da sobreloja, aqui na Avenida Maringá. Achei que era uma brincadeira, sei lá. Eu e minha namorada estávamos no topo da escada, levando um monte de compras. Às sete da noite, numa sexta-feira, tinha um monte de gente na rua, caminhão de lixo, ciclista, motorista, vi que não era brincadeira: quando me dei conta, tinha um negão, alto e forte, segurando a mãe da minha namorada contra a parede, prestes a esganá-la. E o portão continuava escancarado. Até hoje não sei como fiz aquilo. Eu tinha tomado uma e outra cerveja, é verdade. Daí soltei as compras e corri escada abaixo. Chegando numa altura boa, dei um pulo e carimbei meu All Star na boca do pelego. Foi uma bruta porrada. No chão, depois, tive certeza que eu tava lascado: porque o negão era bombadão e certamente ia me dar uma surra. Por sorte, ele levantou meio tonto. E passei a meter socos e pontapés, na bunda e nas costas e na cabeça e na boca do ladrão", vai contando Dalton, o nosso boêmio heroico. Olhos esbugalhados - já viu bom escritor sem? -, toma uma cerveja e continua a epopeia.

"Foi tudo muito rápido. Peguei o sujeito pela gola da camisa e, do nada, já tava jogando e chutando ele para fora da garagem. Bicho, você não acredita: cheguei na calçada e notei mais quatro negões do bando, prestes a invadir a casa", comenta, tomando outra golada de cerveja. "Como tava todo mundo surpreso e o sujeito tava todo arrebentado, fugiram correndo até entrar num carro vermelho. Espantei cinco bandidos de uma vez só", gaba-se, com razão, o nosso Dalton. Já estamos na segunda garrafa, e ele vai dizendo que, depois disso, fez questão de comprar um revólver. "Da próxima vez, não vai ser só o meu All Star marcando a cara do vagabundo", prevê, com uma boa risada.

Gostei do Dalton e parece que ele também foi com a minha cara. Exigimos outra cerveja de Litrão – a grande sede de viver. À vontade, Dalton conta que, antes de seu namoro, nunca havia perambulado por Sarandi. "Nem sabia que tinha uma Avenida Maringá, nessa cidade." Em três anos de convivência - com a cidade e sua digníssima -, o bacharel em Letras e metido a poeta se meteu em outra confusão. O local? A mesma Avenida Maringá, em frente a casa da amada.

"A gente tinha acabado de voltar do lançamento de livro de um amigo meu, em Maringá. Estávamos meio bêbados. Quando estacionei o carro, notei dois ciclistas se aproximando. Dois branquelos de boné. Um deles, é Gaioto, né?, o seu nome? Então, um deles, Gaioto, me encarou de uma forma muito estranha. Como traduzir? Dois olhos vermelhos sedentos pela morte. Daí os ciclistas pararam a uns cinquenta metros, no meio da Avenida Maringá, e nos encararam novamente. A rua tava vazia. Não tinha carro passando, nem gente nas calçadas. E minha namorada já estava do lado de fora do carro, abrindo o portão da garagem. Notei, então, que um deles se aproximava: magrelo e alto. Saí do carro, acionei o alarme, e minha namorada começou a dizer 'não deixe o carro aí, estacione aqui dentro na garagem', claro que não dava tempo para nada. Puxei ela com força para dentro da garagem, gritei que trancasse o portão, uma duas, três vezes, até que ela fechou. Por sorte, Gaioto, o portão fechou no mesmo momento em que o cara imbicava a bicicleta: foi o que nos salvou", relata, bebericando outro copão.

"Subimos na casa dela e, de lá, ouvimos os gritos de socorro. Voz de mulher. Minha namorada queria descer e abrir o portão e ver o que diabos acontecia na avenida. Claro que eu não deixei. E se são os dois sacanas? Como da janela a gente não via nada, ligamos para a polícia. Os gritos só pararam quando os dois ciclistas saíram pedalando tranquilamente pela rua. Uns poucos carros foram estacionando, os motoristas ligando para a ambulância. A polícia, lá debaixo, fez duas ou três perguntas. Depois, vi na TV, o serial killer de bicicleta esfaqueou uma mulher aleatoriamente no meio da rua. Não quis carteira, dinheiro, nada: o simples prazer de esfaquear alguém. A mulher morreu dias depois. Deixou família e filhos? Vai saber. Quando me dou conta de que poderia ter sido eu, Gaioto, é uma sensação bem assustadora", revela Dalton.

Já estamos ligeiramente alcoolizados. A noite vai chegando. Divido as cervejas com Dalton e sigo pela Avenida Maringá. Na Praça Ipiranga, uma morena de uns 14 anos, no máximo, passa por mim com shortinho jeans apertado, cabelo liso, blusinha curtinha exibindo barriga e decote, e grita para um grupo de amigos, reunidos num banco perto da igreja, "cadê o meu baseado, pô?!".

"Aqui na Praça da igreja, no meio da quadra de esportes, sempre tem uns índios. Tipo uma vez por ano. Mas é muito índio mesmo, uns quatrocentos. Fica todo mundo dormindo em rede, cabana, esquentando panela e cuidando das crianças", diz um empresário.

Da praça da igreja e dos índios sazonais, sigo para a Praça dos Três Poderes, bem iluminada e bonita a seu modo. "Essa praça tem muita história", dedura a empresária Irene Rinaldi. "Você sabia que, bem aqui, antigamente era um cemitério? Como a cidade cresceu e chegou até esse ponto, tiraram todos os mortos, um por um, e foram levando para outro canto. Por isso que a gente se acostumou a tropeçar em esqueleto de morto e pisar no cabelo de defunto", comenta, com uma boa gargalhada. É na praça dos Três Poderes que os naturebas mais dispostos se arriscam em esportes radicais, como a caminhada e a corrida diária. Quem não aguenta o tranco, tipo a diarista Ivanilda Sousa, 40, refocila-se num banquinho. "Só consegui uma volta, muita dor na coluna." Vinda de São Paulo, Ivanilda mora há duas décadas em Sarandi.

Pergunto, a quem passa, como seria a Avenida Maringá dos sonhos. "Cheia de boas padarias", sugere um empresário quarentão. "Com um shopping bem grande, com boliche e cinema", exige o jovem Natanael Eduardo, 12. "Repleta de bons bares", clama a estudante Mariene. Mas, rapidamente, todos nós caímos na realidade. E a realidade, vista assim, parece, para alguns, um tanto injusta. "Se em Sarandi tem a Avenida Maringá, porque em Maringá não tem uma Avenida Sarandi? Isso tá errado", reclama Carolina de Andrey, 20. "Seria bonito se Maringá desse pra gente essa homenagem, né?", sugere a diarista Ivanilda Sousa, 40.

Na esquina da praça, uma esfiharia ajeitadinha. Mesinhas de madeira e acepipes caprichados: Big Esfihas. Com torre de chope, porções, pizzas e, claro, sertanejo na trilha. "Confesso que não esperava um público tão grande. Apostei no diferencial e abri um bar ajeitadinho. Coloquei tudo o que aprendi, em 7 anos, numa esfiharia", comenta o empresário Jean Oliveira, 22. "Os moradores de Sarandi, por falta de opção, acabam gastando parte do salário em Maringá. Há muito espaço para investir aqui", avalia.

Saio da esfiharia. Passo por um igreja com fiéis bem à vontade, vestindo calça jeans e camiseta. Quarenta passos à frente surge outra igreja, com religiosos em trajes elegantes: todo mundo usando ternos sóbrios e vestidões longos, sem decote nem outras gracinhas. Calmo demais, vou em frente. Autoelétrica. Pizzaria. Cheiro da calabresa frita. Lanche do Baixinho. Loja de veículos. Farmácias. Casa do Norte. Quiosque de cachorrão. Borracheiro. Rações e aquários. Empório mineiro. Pássaros. Padaria. Dentista. De longe, escuto o barulho. Show de dupla sertaneja? Revival de Milionário & José Rico? Que nada. Outra igreja. Agitadona, essa, sim, eu me regalo. Na fachada, a foto agigantada de um pastor com chapéu de cowboy – como não entrar ali?

No meio do palco, um sujeito branquelo e careca parece possuído pelo sertanejo "universitário". Gorducho e suando um bocado, ele berra seu louvor no ritmo do arrocha. A letra da canção fala qualquer coisa sobre satanás e diabo, mandando as duas entidades demoníacas "para lá, para lá, para lá", ordena o pastor, enquanto bate pernas desengonçadamente de um lado para outro do palco, frenético, fazendo uma coreografia destrambelhada com as mãos, o eterno sorrisão escancarado nos grandes lábios. A igreja está lotada. Duzentos a trezentos fiéis. Velhos, crianças, moças, adultos, muitos chegaram e ainda chegam de bicicleta – dezenas acumuladas num canto. "Gente, quem entrou aqui chateado com a vida e agora tá mais feliz?", pergunta o pastor, enquanto os fiéis vão tomando lugar em cadeiras de plástico. "Olha, a gente tem que dançar mesmo. Porque o céu vai ser uma festa eterna. Isso aqui, minha gente, isso aqui é só o aquecimento. No céu vai ter muito mais", promete o sujeito, aos berros, iniciando outro arrocho celestial. Nessas horas, dou graças a Deus por ser ateu convicto e condenado, ai de mim, ao mais pérfido dos infernos do velho Dante.

Publicado no Diário (31/5/2015)