segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Defuntos, lanches, preces e jam session no cemitério

Não há como ignorar a morte. Ainda mais aqui, contornando o cemitério. Batendo pernas, você escolhe o seu epitáfio. “Glad did I live and gladly die”, do grande Robert Louis Stevenson, ou “para quem pediu sempre tão pouco, o nada é positivamente um exagero”, do mestre Zé Paulo Paes? Na última despedida, quem virá? Meia dúzia de parentes e três centenas de duplas sertanejas – celebrando, felizes da vida, o teu fim? O cemitério parece quieto, mas não é. Prestando bastante atenção, você escuta os diálogos dos mortos:

“O mausoléu mais bonito, aqui de Maringá, é do João. Parece obra de arte.”


“Do João? Tá brincando, né?”


“Se esse treco é uma obra de arte, o que dizer do ‘Último Adeus’, do Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo?”


Silêncio entre os mortos.

“E a escultura do Francisco Leopoldo e Silva, ‘Interrogação’, no Cemitério da Consolação?”


Mais silêncio entre os mortos.

“Eu, aqui, debaixo da terra sem um túmulo decente... Bom mesmo seria um nu feminino, em cima da minha lápide, tão sensual
quanto à moça de ‘Solitudo’, do Francisco e Leopoldo e Silva, lá na Consolação.”


Os mortos voltam a discutir. Alguns berram de raiva, outros dão risadas. 


“Cala boca, quero dormir!”


“Quem consegue dormir nesse calor?”


“Parece que chegaram mais dois novatos hoje.”


“Fosse viva tomaria mil sorvetes.”


“Novatos, quem são vocês?! Nome completo e causa da morte!”


“Fosse vivo beberia todos os vasilhames do Divina Dose.”


A escalada do dólar, o impeachment petista, o escândalo de lordes ingleses - assuntos importantíssimos não interessam aos mortos maringaenses.


“Sejam bem-vindos ao cemitério, novatos.”


“Venderia fácil minha alma por uma última noitada no Skolzinho.”


“Compraria um revólver e mataria algum cantor sertanejo.”


“Alguém aí sabe dizer que horas são?”


“Mãezinha! As minhocas tão fazendo cosquinha de novo!”


Cemitério de automóveis

Os carros na frente do Prever denunciam as tantas mortes do dia. Uno. Gol. Palio. Ecosport. Corola. Pampa. Parati. Monza. Hordas de velhas, famílias, crianças. Policiais uniformizados saúdam senhoras serelepes e vão entrando no cemitério. Mais policiais zanzam no meio da rua, distribuindo tapinhas nas costas, escancarando sorrisos macilentos. Parentes que não se viam - há quê de anos? - emendam abraços e conversas. A mesma morte que separa, também une. Sentadinha na frente do Prever, abanando o suor com a mesma mão que esbofeteia o mosquito, uma velha morre de calor. Quase quarenta graus para acompanhar a morte alheia – você, suando bicas, também morre aos poucos.

Das sete salas de homenagens, duas estão abertas. Seis velhos velam o corpo de um homem numa delas. Mais concorrida, a despedida da mulher ao lado atrai nove pessoas. Ninguém chora nas salas. Não nessa segunda-feira, às seis da tarde. De frente para os dois corpos, é forte o cheiro de presunto – um menino se regala com sanduíche recheado. As outras salas estão vazias. Entro. Raspas de flores. Cadeiras tortas. Vazio suporte de defuntos. A morte passou por aqui. A fome atacou pacotes de bolachas e pães. Uma Bíblia aberta em algum versículo de Marcos refresca a leitura do crente: “apenas o trigo amadurece, logo se mete a foice, pois é a época da ceifa”. Única lembrança da homenagem, o nome da mulher continua pregado na parede: Terezinha Elias Batista. Ceifada pela vida.


No bebedouro, mãos tremelicantes estendem o copo. Ao som da água que escorre geladinha, o velho lambe os beiços rachados pelo tempo. Mata tudo numa só golada, olhão escancarado, fio de baba escorrendo pelo queixo - essa grande sede de viver.


“Tô aqui pro enterro do meu irmão”, diz o velho. “Morreu novo, só tinha 78 anos. Foi câncer de próstata, não fez direito os exames. A próstata dele ficou desse tamanho, ó. Você, quando chegar aos 40, e se chegar lá, vá logo fazendo os exames, viu?”, aconselha, num tom quase ameaçador.


O movimento parece paradão, mas o dia foi um agito só. “Hoje de manhã tinha mais cinco mortos. Às vezes, tem tanto morto que nem tem onde deixar. Daí a família tem que esperar. Ou ir noutra capela. Tem vez que morre doze, quinze, tudo de uma vez”, comenta uma faxineira. 


A passos firmes, um sujeito entra no Prever carregando um caixote de acepipes. Coca-Cola. Queijos. Pães. Margarina. Chocolates. Bate forte, a fome, rangendo teu estômago. E até penso em me regalar no velório alheio. Mudo o destino com os passos da menina. Correndinha, passa de cabeça baixa, cruzando velhas e velhos enlutados, alheia aos dois corpos mortos, rumo à máquina de refrigerantes. Ligeira, mete moedas na máquina e seleciona salgado, bombom e Guaraná. “Cresci com a morte: isso faz parte da minha vida”, comenta a jovem Keisla Amabile, 15. Neta da proprietária da floricultura ao lado, Keisla dá uma mão nos dias mais movimentados. “Venho desde pequena: entrego as coroas de flores e vou embora”, diz. Encarando a morte diariamente, ela discorre sobre o tema com desenvoltura e inteligência. “Se pudesse escolher, gostaria de morrer dormindo, sem sentir dor.” O primo dela de 18 anos, que invade a conversa, diz que a morte já deu mais trabalho. “Faz tempo que não morre um monte de gente de uma vez”, lamenta o garoto. “Parece que até a morte tá em crise”, comenta, rindo. 

Volto para a frente do Prever. Na saída de um enterro, dezenas de pessoas vão saindo do cemitério em direção aos carros. Crianças tossem desenfreadamente. Beijos, abraços, promessas para uma próxima visita. 

“A gente só se vê nessas horas tristes. Passa lá em casa, pôxa.”


“Olha que eu vô, hein”, ameaça a velha.


“Ai, vai sim. Ficamos amigas por causa dela. Agora, tem que continuar a amizade.”


No meio de tanta gente – até aqui?! -, uma moçoila cruza o Prever. Olhos castanhos, longos cabelos negros, shortinho, blusinha e tênis, tudo preto feito a morte. Vinte e um aninhos de pura louvação. Nas mãos, um skate minúsculo. De criança e anão?

“É um mini long. Adoro andar perto do cemitério”, comenta a voz melíflua e maviosa.

“Os mortos não te incomodam?”, pergunto, arrancando faíscas da boquinha mais vermelha. 


“Claro que não! Super de boa. Não é um lugar triste. Tiro o meu rolê e me sinto confortável”, diz.


Estudante de Psicologia, a moçoila implora, mais de uma vez, que não divulguem seu nome. Das musas maringaenses você não aceita os pedidos mais sórdidos?


Velório ostentação

Familiares bocejantes morrem de tédio. As salas vazias te dão um frio na espinha – não é você o próximo da fila? No meio dos bocejos, um sujeito varre preguiças. Silencioso, atento a cada palavra alheia. Taciturno, lúgubre, soturno. Calado, recolhe lixos. O faxineiro mudo, perturbador em seu silêncio, é um bocado assustador. Dele não ecoam sorrisos. Olhares vazios. Empunhando o rodão de limpeza, não é a morte com sua foice fatal? Ele se aproxima - fugir ou encarar a morte? 


“Bom mesmo foi o enterro do Pinga Fogo. Aquilo deu uma multidão de gente. Nem eu, que trabalho aqui, consegui ver o Pinga. De tão grande, a fila chegava lá no Teatro, no meio da Cerro Azul. Dois agentes funerários acompanhavam a entrada e a saída do público”, lembra o zelador, forçando o esfregão no piso.


Passos pequenos, cabeça inclinada, ombros curvados para dentro. Alma penada vagando pelos corredores desertos.
“Tem vez que dá dó: não vem ninguém velar o defunto. Geralmente, porque a família mora muito longe. Tem caso até que mora em outro país. Daí vem algum amigo da família e vela o corpo. Sem choro”, comenta, olhão esbugalhado de detalhes. “Trabalhando aqui, você aprende a respeitar a tristeza alheia, a se importar com quem tá sendo velado, ainda que seja um desconhecido. Entro, faço uma oração. Mesmo pra quem não conheço.”

Repostas firmes. Amigo dos defuntos abandonados. Único aceno, o dele, antes da lápide pesada tampar o grito do cataléptico. 

“A morte é repentina. Pode ser brutal ou serena, mas quase sempre é repentina.”

As pesadas palavras do faxineiro ecoam no corredor. O mesmo peso de ameaças. Ele, porta-voz da morte. 


“Quando eu morrer, só tenho uma certeza. O Senhor Deus estará presente no meu enterro”, garante, olhão pregado na saleta vazia, imaginando seu último dia. De terno, gravata e dedinhos entrelaçados. 


Carona fúnebre

Terça-feira, seis e pouco de tarde. Poucos carros no estacionamento. Do alto das árvores do cemitério, anu-branco, andorinha-de-casa e sabiá-do-campo solam sax e trompetes numa jam session frenética. Duas risonhas velhinhas forçam a vista, rangendo testas e sobrancelhas, tentando, em vão, observar algum dos pássaros jazzistas. Sentadas no banquinho, de frente para o cemitério, mal enxergam as nervuras azulonas e as crateras de frieiras nos próprios pés, que se esfregam violentos, banhando em sangue o dedão carcomido.


“Uma pena, ter morrido. O Mané era jovem e tinha problemas respiratórios. Lutou muito, mas a morte veio”, lamenta uma das velhas.


Casais, velhos, famílias e crianças ramelentas vão brotando, aos poucos, dos muros do cemitério. Uma chupeta vermelha escorrega e vai ao chão – não é de luto o berro do bebê. 


Pessoas abrem espaço para a passagem de um veículo motorizado. Em vez de jogadores e tacos de golfe, o carrinho motorizado carrega uma velha centenária. Serelepe e sorridente. Quieto e soturno, o motorista de terno preto guia o carrinho em câmera lenta – não matar a centenária de susto? O carro fúnebre leva uma eternidade para cruzar os poucos passos de distância, do cemitério ao Prever. Satisfeita, a velha agradece a carona. “Tchau, viu. Muito obrigada.” O motorista retribui o sorriso, sussurrando palavras quase inaudíveis. Mais dia menos dia, velha e motorista não se encontrarão, por aqui, no mesmo carrinho fúnebre, encarando o mesmo percurso? Do outro lado da rua, um glorioso grupo de mulheres deixa o cemitério. Algumas, como pede o calor de quarenta graus: vestidinho florido, saltinho alto, decotinho fatal - a morte não assassina a vaidade. Com mil e uma musas,a despedida digna de todo grande herói. Assim, o meu, o teu, o nosso fim.


Publicada no Diário (27/9/2015)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Crimes, fedor, fugas e versos do cárcere

Magrelinho, voz baixa, passinhos curtos. Minúsculo em seu um metro e sessenta - cravados! - de altura. O carcereiro mais temido de todos os tempos do minipresídio de Maringá tem um nome nada grandioso, ironicamente no diminutivo: Paulinho. Nunca levantou a voz - nem um ai, qualquer ameaça que seja, mínimo xingamento no ápice das tantas tensões. No lugar dos fortes músculos - onde foram se meter, num corpinho tão miúdo? -, o carcereiro de apenas 57 quilos tinha seus contornos assustadores em outros hemisférios. No olhão esbugalhado revistando cada cela. No silêncio intimidante desafiando os presos. No ruído estridente, quase desumano, que ecoava dos seus dedos ao arranhar, de leve, o revólver de calibre 38 pendurado à cintura. Não foi fácil se transformar na figura mais temida e mais respeitada desses 32 anos do minipresídio maringaense. O momento decisivo foi em 1988: a forma destemida - e suicida - como encarou a morte.

Os boatos de cadeia, ao contrário da maioria dos presidiários, nunca passam muito tempo dentro das celas. Compartilhados com um único vizinho de cárcere, rápido ganham as ruas e a liberdade, passando, antes, pelos ouvidos dos próprios agentes penitenciários. Qual seria a sua reação diante de uma ameaça de morte? Pior: uma ameça de morte de um sujeito de alta periculosidade, com seus quase dois metros de altura, um sujeito que já está encarcerado e permanece, ali, o dia inteiro, sorrindo cinicamente para você atrás das grades? Paulinho deve ter pensado duas vezes. Mas, se pensou, foi tudo muito rápido. Que não deu tempo de ninguém aconselhar nem evitar o que viria pela frente. Tranquilamente, ele deixou a arma em cima da mesa e abriu a porta do minipresídio, caminhando em direção à cela onde estava o preso. No submundo da carceragem, passou rente aos 350 presidiários. Ninguém, inicialmente, esboçou reação – estupefato, você não demora a crer em seus próprios olhos? Em frente à cela, no meio do corredor, o presidiário das ameaças aguardava o carcereiro com um porrete de aço afiadíssimo. Um só golpe daquilo lava a alma de sangue. Ninguém disse única palavra. Quando a pancadaria começou, outros presos partiram para cima de Paulinho, armados com bugigangas caçadas no meio do caminho. Outros, preferiram assistir. Quem viu a cena, nunca mais esquecerá os mínimos detalhes. "Sem ajuda de ninguém, de ninguém!, ele arrebentou o sujeito grandalhão que fazia as ameaças e ainda se defendeu dos presidiários que tentaram fazê-lo de refém. No final, isso parece coisa de cinema, todos os presos abriram caminho para o Paulinho. E da mesma forma como ele entrou, quieto e sozinho, sem qualquer arranhão, debandou da carceragem, fechou a porta e calou a ameaça. A partir dali, todos os presos passaram a chamá-lo de Doutor Paulinho. Essa história já é uma das grandes lendas do minipresídio", detalha o mitológico repórter policial Roberto Silva que, embora não tenha testemunhado a tal batalha, há mais de trinta décadas vem acompanhando, de perto, os bastidores do universo policialesco maringaense.

Exigência do próprio Roberto Silva, eu telefonaria mais tarde ao Doutor Paulinho. "Cada lenda tem mil e uma lacunas de ficção. Vá atrás da verdade", ordenou. Do outro lado da linha, a voz aguda do Doutor Paulinho me receberia com gentileza e outros detalhes. "Não teve isso aí de porretes, não. Entrei sem arma no inferninho e os dois sujeitos que me ameaçaram, dois homicidas, também estavam desarmados. O problema é que eles tinham me ameaçado, num dia de visita, e me chamaram pra porrada. Eram grandes, faziam capoeira e ficaram jogando, me provocando, dizendo 'cê não é bom de porrada, é?'. Eu tinha acabado de chegar a Maringá. Não podia deixar que fizessem aquilo comigo. Então, encarei a dupla. Acertei o primeiro no pau do pescoço. O segundo ficou surpreso, e com isso ganhei vantagem. Dei um golpe no segundo, também sem problemas. Eu, que só tinha as lições do treino da polícia. Nem jogar capoeira eu jogo. Bom, desde então, nunca mais nenhum preso veio me provocar", comentaria o Doutor Paulinho, hoje aposentado do inferninho.

Às três e meia da tarde, disputando os últimos centímetros na sombra, seis repórteres policiais e cinegrafistas vão matando o tédio na frente da 9ª SDP (Subdivisão de Polícia). O vento faz cócegas na árvore, derruba o chapéu do velho, atropela o jornal do delegado. Diante do vento e do Sol impiedoso, você só agradece. Por sorte - ou milagre do tal padre-cantor? -, sem temporais nem previsão de chuva molha-bobo. Aleluia! É hoje que a polícia vai abrir a cadeia. E a imprensa poderá ver, de perto, como é acordar e dormir dentro do inferninho.

"Cêis vieram hoje cedo?", pergunta o cinegrafista João Vitor, 29, de uma emissora de TV. Eu e Ricardo Lopes, fotógrafo de O Diário escalado para a missão, respondemos que não.

"De manhã, eles já liberaram pra TV. O outro cinegrafista até passou mal. Lá dentro é muito fedorento. Vou te falar, viu? Não tenho o estômago pra essas coisas."

Tiro, porrada e bomba
Enquanto a polícia não libera o cárcere à imprensa, Roberto Silva propõe um city tour pela área externa do cadeião. Os demais repórteres e cinegrafistas também se animam. "Esse minipresídio tem uma porção de fatos macabros", adianta o mito do jornalismo maringaense, guia turístico num safári ensolarado. "Dizem que nos anos noventa, a polícia descobriu um plano de fuga dos detentos. Em vez de tapar os buracos, os agentes esperaram que os presos terminassem as escavações. E, no meio da madrugada, quando os presos finalmente conseguiram chegar do lado de fora da cadeia, deram de cara com os policiais, todos fortemente armados. Todos os presos foram fuzilados", relata, fazendo pequenas pausas precisas, controlando o tempo da ação – exímio narrador de causos.

Nesses anos todos, segundo as contas de Roberto Silva, mais de trinta túneis foram cavados. "Era tão fácil escavar o chão que os presos deram o apelido: 'presídio manteiga'", comenta, a boa risada ecoando. E muita, muita gente mesmo, conseguiu debandar, livrinha da silva. "Eu mesmo, veja só, bem aqui onde estamos, do lado de fora do minipresídio, notei que havia um buraco meio estranho. Recente. Feito há poucos dias. Eu imediatamente notifiquei a polícia. Os investigadores até aceitaram a denúncia, mas com ressalvas. Eu desconfiava que aquele buraco tinha sido escavado para que os presos, em suas escavações, encontrassem mais facilmente o ponto de saída. E não deu outra. Dias depois, vários presos fugiram por aquele buraco."

O muro acinzentado, única barreira que separa a liberdade dos presos, não é alto. Fugir por pirâmide humana, alternativa considerável. O arame farpado não é dos mais ameaçadores. Não há guarita nas vértices das paredes, com guardas armados, tal como nos filmes de ação. Nos fundos do cadeião, um campinho de futebol e carcaças de velhos carros apreendidos. É dali, do cemitério de automóveis, que os comparsas dos presos arremessam bolas de meias embolando baseados, cigarros, isqueiros, serras, brocas e outros regalos. Com uma vara de pescar improvisada, ajeitada com tiras de lençol e escovas de dentes, os presos conseguem fisgar, atrás das grades, as bolas de meia. "A única coisa que é proibido mandar pra dentro da prisão é crack: a pedra faz com que os presos surtem e fiquem fora de controle no meio dos demais", comenta.

Lá dentro dos muros cinzentos, Roberto Silva explica, há uma série de regrinhas que jamais podem ser descumpridas. 1) Caguetagem: quem dedura o crime do próximo é punido com uma mortezinha básica. 2) Talaricagem: deu uma de Don Juan para cima da esposa do colega de cela? Danou-se. Crime punido severamente – outro assassinatozinho. 3) Preso por estuprar alguém? Será recebido muito carinhosamente. Por todos os presos, um de cada vez, democraticamente. 4) Furtou o companheiro de cela? Acabou a amizade. Você é colocado numa roda e os presos podem fazer o que quiser – use a imaginação. 5) Soltou gases? Ato imperdoável no mundo do crime. Condenável com bons tapas e pontapés, embora a sova não chegue à morte.

Mais próximos do muro, vamos andando, é possível ver a rachadura, do topo ao chão, causada pelo explosivo C4, arsenal que costuma ser usado em guerra. "Foi um pedacinho desse tamanho ó, minúsculo", diz o jornalista, ilustrando com os dedos. "E mesmo assim fez esse estrago todo. Desse certo, derrubava o muro e ninguém ficava pra contar história."

Prisões bizarras

Pelo celular hipermoderno, Roberto Silva recebe uma mensagem do alto escalão da delegacia. Vão liberar o minipresídio para a imprensa. Vamos voltando. "Quando a polícia informatizou o sistema, tive acesso às fichas antigas. Documentos fabulosos. Achei uma ficha assim: com dia, hora, nome completo do preso, dia do nascimento dele e o motivo do crime: o cidadão tal foi preso porque estava na rodoviária pensando em aplicar um golpe. Pensando! O cara nem cometeu crime algum. Descobri outra ficha, registrada duas horas depois, dizendo que o mesmo sujeito havia sido liberado. E, por fim, tinha uma terceira ficha, registrada quatro horas depois da segunda, oficializando a nova prisão do sujeito, na rodoviária, porque continuava a pensar em aplicar um golpe", lembra. "Tinha tanta coisa lá... Até uma prostituta. Essa é ótima também. A prostituta foi presa, em 1972, no antigo cadeião, porque estava a trottoir nas calçadas", comenta, arrancando boas risadas de repórteres e policiais.

Agentes armados apertam o passo no corredor da delegacia. Submetralhadoras. Pistolas. Escopetas. Olhares firmes e atentos. Cruzamos salas, salinhas e saletas até chegar às grades do inferninho. Quatro e pouco da tarde. Os jornalistas vão sempre atrás. Uns comentam sobre o carcereiro assassinado não sei onde, outro sobre o jornalista, acho que do Norte, que recebeu nova ameaça de morte, e já vão mostrando imagens no celular, vídeos ensanguentados. Somos nove, contando câmeras, fotógrafos e os famosos apresentadores de TV. Vamos entrando no minipresídio, cruzando os pesados portões de ferro. Sabe você o que é estar atrás das grades? O climão, do nada, fica tenso. Abafado. Mal iluminado. Nada de ar correndo, livre – a última brisa fresca dá um nó no coração. E é só alguém dar um berro lá de dentro - epa! -, ainda não é hora. "Volta, volta, volta!", ordena um policial, com rosto surpreso. Recuamos. Primeiro da fila, o fotógrafo Ricardo Lopes desembesta a correr - mais ligeiro que Abebe Bikila! Veloz feito Paavo Nurmi! As mesmas pernadas de Emil Zatopek! Olhão vidrado, esconde o fôlego numa saleta cheia de agentes. "Tem preso escondido nas celas. Traz mais agente, traz mais!", grita o policial. Com o pedido de reforço, quatro sujeitos abandonam a saleta de controle e, afobados, atropelam o fotógrafo assustado, e se metem no meião das celas, com porretes e revólveres. A funcionária entediada, agora, sim, empolgada e atenta às dezesseis câmeras revelando quase todo o interior do cárcere. Quase. A caçada e a correria, culpa de um preso que ignorou a ordem e não seguiu para o pátio. "Imaginou o susto dele, acordar e ver toda a cadeia vazia? Fugiram todos, só eu fiquei?!", comentaria um agente, minutos mais tarde, com uma boa gargalhada. "Tava dormindo. Deve ter fumado um bagulho estragado", disse, apontando para o sujeito encarcerado.

Agora, tudo liberado. Desenhos de palhaços demoníacos, símbolo do PCC. Nomes de mulheres. Amanda. Michely. Declarações do eterno amor - para quem ver? Paredes de histórias. Teses que sugerem novas interpretações da Santíssima Palavra: "Deus não gosta do pecado mas ama o pecador. Vida loka cabuloza", escreveu alguém, enforcando a gramática normativa. Outro preso, alheio a vírgulas e distribuindo milagrosamente um e outro acento, aproveitou o tédio da prisão para compor delicados versinhos, em homenagem a um tal Lincon. Valsinha dois por dois? Pagodinho romântico? Cante como quiser: "Lincon do universo / só bala pra você / seu frango / desse (sic) na vilinha que vc vai morrer / seu safado /Vilinha!!!"

Fosse o Lincon, evitaria me embrenhar nalguma Vilinha. Vila Operária. Vila Morangueira. Vila Esperança. Num show do Martinho da Vila. Toda e qualquer vila - nunca, jamais.

Aleluia!

No minipresídio, cheiro de merda e mijo. O lamaçal e a terra molhada, culpa das tantas escavações – sorte a deles, que de manteiga. Você tropeça num pé solitário de chinelo velho. All Star. Colchões ensopados de lama e suor - talvez sangue. Muita gente já morreu aqui dentro. Enforcada. Eletrocutada. Decepada. É quente aqui dentro. Quarenta e cinco graus sem ter para onde fugir? Sorte de quem conseguiu escapar. A cela não é maior que meu banheiro. Aqui, o banheiro, sem urinol, fica de frente para a pia, onde os presos preparam a comida. Você come com o mesmo cheiro que evacua. A cela, em poucos segundos, começa a ficar mais apertada. Impossível acomodar gente nisso daqui. Teu estômago embrulha. Apertado, em vários nós. Nesses corredores labirínticos, concluo, só aceito me prender aos fios de Ariádiny. O vento lambe o teu pescoço e te recebe com beijos e abraços - não é boa a liberdade lá fora?

Publicado no Diário (15/8/15)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ruivas, morenas, escadas, salas, burocracia e berros sertânicos

Debaixo da bandeira da cidade, centenas de estudantes aglomerados com cartazes, punhos fechados, vozes firmes: foi aqui. O povo marchando na Avenida XV de Novembro, entrando pela noite escura, exigindo mais educação, mais saúde, gritando “não é só pelos 15%!”, caramba, há quanto tempo foi isso mesmo, um, dois anos? Tudo isso?

“Lembra?” 

Aqueles protestos organizados pela internet e combinados concomitantemente em diversas cidades, exigindo troca-troca de presidente, cancelamento da Copa do Mundo, extradição de duplas sertanejas, entre outras exigências que o esquecimento soterrou no quintal da memória. Flashes. Selfies. Camisetas de partidos políticos e bandas de rock. A moça com garrafa de vinho.

“Lembra?”

Foi aqui, debaixo da bandeira da cidade, pouco antes de alguém quebrar a vidraça da prefeitura, causando um estardalhaço estridente, todos nós nos afastamos, tentando identificar o autor, mas, naquela altura, o grito de protesto já era outro, e quando eu seguia para a praça, longe do núcleo da gritaria, você, então, cruzava a minha frente, um perfume cítrico, boquinha vermelha, olhinhos roucos das palavras de desordem.

“Lembra?”

Como esquecer uma ruivinha na multidão? Bem que pode ser a mesma, sim, aquela mesma ruiva engajada, uma das musas da “Água agitada”, do Klimt, reflito, enquanto acompanho, com o olhar, a ruivinha saindo da Prefeitura e passando lá longe – quase cinquenta metros? –, apressada, cabisbaixa, cheia de papéis, até entrar num carro de vidros escuros e frear o peito aflito.

“Lembra ou não? Você está com a cara engraçada.”

Grande José Luiz de Araújo. Um dos tantos bons professores que tive na UEM, no curso de Letras.

“E sempre de chapéu!”

“No chapéu cabem todas as minhas mentiras”, respondo, ainda sob o forte impacto da ruivinha – dentes gaguejantes de frio ou emoção? Devo estar um bocado estranho porque o Zé Luiz, que me parou para falar qualquer coisa sobre Pulinópolis, já se despede, diz que vai na outra esquina, rapidinho, mas que, daqui a pouco, a gente se encontra lá dentro da prefeitura, e vou respondendo que sim, claro, seguindo meu caminho sozinho.

Mulheres fatais

As ruivas, vou pensando, não são por acaso. Os pré-rafaelitas ingleses, com suas pinturas simbolistas, e acumulando seguidores na Áustria, Alemanha e Bélgica, foram os responsáveis pela popularização da imagem da mulher ruiva. Gosto da “Água agitada”, com as musas do Klimt retratando a perversidade feminina e a mulher fatal. Como não gostar? No térreo da prefeitura, interrompo o fluxo – ruivas para que te quero.

Culpa de duas caminhonetes com som alto, delas ecoam dois arrochas universitários, com letras grosseiras e infelizes. O gabinete do prefeito fica no primeiro andar. Será o prefeito capaz de ouvir os arrochas sertânicos que emanam dos carros maringaenses agora mesmo, às quatro da tarde desta terça-feira?

Em meio à ruivinha e ao arrocha, tento me concentrar. Paredes cinzentas, um lugar ainda mais melancólico e triste com o tempo nublado lá fora. Calado e avesso à conversa, um velho de roupa acinzentada e olhar lúgubre vaga pelo corredor do térreo, empunhando um sacolão transparente com latas amassadas de refrigerante – se visse vivo, o grande Iberê Camargo faria nova pintura.

Crianças entediadas morrem de silêncio num dos quatro aparelhos, igualmente silenciosos, da ATI (Academia da Terceira Idade). O maior boceja no simulador de caminhada. Não há risos na prefeitura. Quase todo mundo só está aqui porque tem mil e um problemas. Ninguém vem pra cá à toa, para dar uma caminhada aprazível entre papéis, burocracia e processos, determinado a apreciar ambientes diferenciados. Na praça de atendimento, a essa hora sem fila, tem gente com todo o tipo de missão.

Recém-contratada, a ajudante de limpeza Mayara Fernandes, 23, perambulando à caça de vale-transporte. Ela mora em Sarandi e trabalha num colégio da Vila Operária. São quatro ônibus, diariamente, para ir e voltar do trabalho. “Tô com um probleminha. Como eu não tenho conta de luz, água, telefone, não consigo o vale-transporte. Daí, tenho que tirar da boca pra pagar o ônibus e conseguir chegar no trabalho”, comenta.

Recém-formado em Jornalismo, um jovem maringaense tirou carteira de funcionário autônomo - exigência do promissor primeiro emprego - e trabalhou por dois meses numa empresa. Demitido e desiludido com a profissão, resolveu cursar História. Um ano depois, ele se deu conta de que não tinha solicitado o cancelamento da carteira de funcionário autônomo. O resultado? Uma dívida de quase R$ 700 com a prefeitura. “Agora, tenho que cancelar isso o mais rápido possível e parcelar a dívida”, lamenta.

“É um problema atrás do outro, né?”, observa a empresária Bruna Staub, 29. Visivelmente cansada, ela equilibra nos braços a pilha de papéis. “É a sexta vez que venho aqui hoje!”, contabiliza. As idas e vindas são culpa do processo burocrático, iniciado em março deste ano, para que ela possa construir, finalmente, uma casa na Vila Santa Isabel. “A obra ficou embargada porque a prefeitura, há muitos anos, ocupou 50 centímetros do terreno. Entre outras coisas, hoje tive que doar esses centímetros pra Prefeitura, pra que minha casa seja liberada”, conta.

Banheiro de Judas

Sisudo, empunhando pasta e papéis, o engenheiro Jacir Cardoso chega para pegar um de seus projetos, que está, no momento, em avaliação. “Se pudesse, mudaria algumas coisas desse prédio da prefeitura. Veja o banheiro: antigos e sujos. Não parecem aqueles banheiros de rodoviária dos cafundós do Judas?” Desconheço os banheiros dos cafundós do Judas. Mas, realmente, a coisa está feia. Um cheiro desagradável emana dos banheiros masculino e feminino. Acostumada com as tantas fragrâncias, trabalhando estrategicamente de frente para os tronos públicos, a senhorinha da portaria, com seus 65 anos, nem parece se importar tanto com o odor.

Solícita e sorridente – eis o bendito sorriso! –, tenta ajudar todo o tipo de gente perdida, desde outubro passado. Antes, ela dava aulas de artesanato, em escolas integrais, para alunos do Ensino Médio. “O problema é que minhas cordas vocais secaram. Como dar aulas com a voz enroscada? Passei por uma adaptação funcional e me trouxeram pra cá”, resume.

Com fácil adaptabilidade, ela, hoje, já está acostumada aos milhares de setores da prefeitura e diz que gosta do que faz. Lidar com pessoas, um trabalhão danado, não é das missões impossíveis para ela. “Sabe qual é o segredo? Atender da mesma forma como eu gostaria de ser atendida”, revela. “Às vezes, cavo um buracão pro pessoal, pego de um lado, mando pro outro, tento ajudar de toda forma possível.”

Vou penetrando o ventre do prédio, encarando as rampas centrais que levam ao primeiro piso, passando pela Secretaria de Comunicação Social e Secretaria da Fazenda. Os corredores folgam desertos. Dentro das saletas transparentes, homens e mulheres redigem textos, preenchem processos, imprimem arquivos.
Dos corredores você não ouve a risada do japonês gorducho nem o espirro da morena. Sigo. Gabinete do prefeito, portas fechadas. Ninguém à espera. Da rua, nada escuto. Protegido pelas espessas paredes, o prefeito deve trabalhar em paz, a salvo dos berros sertânicos.

Milagres e curas na vila

“O que eu estava te dizendo”, retoma o grande Zé Luiz, já me alcançando no segundo andar, “é que você mostra uma Maringá diferente. Chega a cumprir um papel memorialista. Minha mulher adora os seus textos.”
Estendo um sorriso. Mando um beijo à digníssima esposa. De que valem as tantas tortas linhas sem uma leitora fiel?

“Eu mesmo, que passo com alguma frequência pelo Centro Comercial, nunca tinha notado aqueles detalhes. Suicidas românticos, escritórios misteriosos, cada coisa. Você está preservando essas histórias, perdidas no esquecimento e na morte. Os personagens, o estilo, os temas vibrantes, as suspensões que nutrem a expectativa, diálogos com réplicas breves! Ah, não fosse Gustave Planche, no decênio de 1820, na França, não teríamos esse nosso romance de folhetim aos domingos!”


Agradeço, acumulando elogios debaixo do chapéu. E já no terceiro andar, cruzando a Procuradoria, a Direção de Licitação e os Recursos Humanos, disparo duas frases, de “As Cidades Invisíveis”, do Italo Calvino:

“Nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a escreve. No entanto, há uma relação entre ambos.”

Zé Luiz abre um sorriso.

“Gostaria que você escrevesse uma história... É fantástica. Você sabia que ali em Pulinópolis, distrito de Mandaguaçu, houve o desaparecimento de uma vila de quase mil pessoas, nos anos setenta? Você teria que ir para lá, claro, passar um dia inteiro, mas renderia um bom material. Em 1975, talvez um pouco antes, a vila Allan Kardec recebia pessoas de diversos lugares do País, do Mato Grosso, São Paulo, Minas. Muita gente acreditava que o médico de lá, um médium muito respeitado, era capaz de realizar milagres, curas e salvações. E ele dava aqueles passes, bênção, fazia de tudo.

Os meus pais, que eram de Iguaraçu, vieram para cá. Esse médico construiu até um hospital, dedicado a pessoas com problemas mentais, e a vila chegou a ter pousadas, restaurantes, bares...”

“E como tudo desapareceu?”

“Esse médico, que já morreu há muitos anos, acabou mudando para Sarandi, com a família. E as pessoas que viviam na vila, pouco a pouco foram parar em outras cidades. Como ninguém permaneceu no local, a vila simplesmente desapareceu do mapa. Virou tudo pasto.”

Vou anotando, no bloco de notas, os detalhes da história. O contista não é, como disse Baudelaire, “o pintor da vida moderna?” Ali mesmo, pincelo o futuro quadro. Cheio de pastas e de olho no relógio, o Zé Luiz se despede. Entretido com ruivas e com o sumiço da vila Allan Kardec, até esqueci de perguntar o que ele foi fazer ali. Devia ser outro desses problemões.

No último andar, nada diferente. O mesmo chão calado. As mesmas saletas envidraçadas. Triste, não esbarrar em outra ruiva. Secretaria de Obras. Secretaria de Planejamento. Secretaria do Meio Ambiente. Funcionários concentradíssimos à espera dos próximos problemas, filas livrinhas e banquetas vazias – não há melhor dia para ir à prefeitura.

Ali, encontro uma morena de 28 anos. Advogada, nascida em Maringá, há dois anos morando em São Paulo. Em passagem-relâmpago pela cidade, aproveitou para cumprimentar uma velha amiga na prefeitura. Vamos descendo, juntos, pelo ventre do prédio.

De barco em Bertioga

“No escritório, somos só em três: eu, minha chefe e a secretária. Quer dizer, agora tudo mudou.”
Olhinhos castanhos. Blusinha branca. Saltinho preto. Frases aceleradas, dessas que escancaram o armário a desconhecidos. Meu tipo favorito.

“Na sexta-feira passada, minha chefe disse que era pra eu ensinar um monte de coisas pra secretária, porque ela estava com tempo ocioso demais e seria bom que fizesse umas atividades mais simples.”

“...”

“Ou seja: basicamente, qualquer coisa que não precise de OAB.”

Tão bom encontrar moça que se abre.

“Na segunda-feira de manhã, saí pra pegar uns processos na Justiça do Trabalho e disse à secretária que à tarde ensinaria alguns negócios diferentes. Quarenta minutos depois, eu volto e a minha chefe tinha demitido a secretária. Sabe qual justificativa? Disse que precisava ‘diminuir o escritório’. Pô, o escritório só tinha três pessoas!”

Seu riso, a última camada de açúcar da filhó quentinha e cheia de canela.

Além da crise decepando os colegas de trabalho, a advogada ainda tem que lidar com um problema ainda mais delicado e inusitado, entre rimas de ventos e velas, vidas que vem e que vai.

“Nosso escritório praticamente trabalha para um único grande cliente. Empresário cinquentão, solteiro, até que bonito pra idade. Agora, por meio da minha chefe, ele vem me sondando pra passar um final de semana ao seu lado, viajando de barco, em Bertioga. Já imaginou? Sai sexta e volta domingo?”

Qual amor não é louca viagem? Quem nunca navegou nas ondas turbulentas da paixão? O azul da cor do mar não te remete à inocência perdida? Despacho malícias cheias de clichês.

“Me parece romântico...”

“Esse é o problema! Tenho namorado sério, moramos juntos há dois anos, somos praticamente casados. Se eu entro nesse barco, meu relacionamento naufraga em alto-mar. Se não entro, corro o risco de ser despedida. Que rolo, viu?”

Qual grande amor não parece outro neurótico enredo do Woody Allen? Quando me dou conta, já estamos no térreo. A voz acelerada agradece a conversa.

“Melhor que a minha terapia.”

Ligeira, deserta pela prefeitura e encara o toró, com o inseparável guarda-chuva preto. A chuva encharca a gripe da criança, inunda o tédio da tarde e agride a velha imóvel na esquina – outro maldito motorista explodindo poças d’água.

Publicado no Diário (19/7/2015)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Crimes, corpo, chifres e outras histórias

Roberto Silva entra na Redação de O Diário às dez para as duas. O homem que já resolveu casos antes mesmo da polícia, chegando a arrancar confissões de experientes criminosos, tudo em primeira mão, mede um metro e setenta e pouco.

Magrelo, usa tons sóbrios: calça jeans azul escura e camisa jeans da mesma cor. Nos pés, botinas pretas feito a morte – talvez, dessas impermeáveis. O mito do jornalismo policial maringaense tem sua mesa num canto da Redação, debaixo do ar-condicionado e a três passos da cruz boiando na parede. Acessa os e-mails e vasculha, ligeiro, um e outro site. Basta. Pega um café.

Conversa com três jornalistas, exibe no celular hipermoderno as fotos de um corpo banhado em sangue, arrancando um “Deus me livre, que horror!”, de uma delicada editora japonesa, e repete a piada que vem disparando, diariamente, há 32 anos nos corredores do Diário, perguntando se alguém, por ali, “tem um furo pra dar”. E, como sempre, por incrível que pareça, a velha piada minimalista funciona: não há riso que resista ao trocadilho sacana. Pense errado, não. Furo, caro leitor, é só um jargão jornalístico para uma notícia exclusiva.


“Tô indo pra delega. Quer mandar notícia pra algum preso?”


A moçoila responde com uma boa risada – a cabeça negando até a alma.


“Então, vamos nessa, Gaioto.”


Não é qualquer um que tem o aval de Roberto Silva para mergulhar, ao seu lado, no submundo do crime. Avesso a exposições midiáticas, o jornalista de 55 anos tem um lado meio recluso. “Meu sonho era fazer uma matéria na TV com esse cara. Mas ele nunca aceita. Não gosta de aparecer”, comentaria, horas mais tarde, o repórter de TV Jota Junior.


Entramos num Palio do jornal. Saindo da empresa, ele berra ao porteiro:


“Quer mandar recado pro Tião Coca-Litro?”


O porteiro cai na risada, o dedo indicando jamais. Nunca que ele quer envolvimento com o tal Tião, famigerado protagonista do universo piadístico de Roberto Silva. “Faz trinta anos que o Tião tá lá trancado, sem sexo, na solitária. Quer passar a noitada com ele, Gaioto?!”


De tudo vai rolar


Bem casado há vinte anos, Roberto Silva gosta de Bob Dylan, Rolling Stones, Pink Floyd. Não suporta Beatles nem João Gilberto. Cervejas, cachaças e uísques também não fazem sua praia. Enquanto acelera nas ruas maringaenses, rumo à 9ª SDP (Subdivisão de Polícia), vai adiantando o que poderemos esbarrar pela frente.


“É sempre uma incógnita. Pode ter muita coisa, e também pode não ter nada. E prepare-se: você vai ver muita bobagem. Gente que registra boletim de ocorrência porque foi xingada no Facebook e um monte de outras ocorrências à toa, de roubinho besta e trecos amalucados. Aliás, 70% dos crimes não existiriam se a população fosse mais cuidadosa com seu próprio patrimônio.

Por exemplo: o cara viaja pra praia e gasta R$ 300, todo o dia, bebendo cerveja e comendo camarão de frente pro mar. Mas deixa a casa dele, que não tem grade nas janelas nem câmera nem muro alto, toda abandonada. Daí alguém rouba a casa, e o sujeito ainda bota a culpa na polícia”, comenta, antes de frear bruscamente, numa esquina próxima da Avenida Colombo, para uma senhora serelepe cruzar a faixa de pedestres.

“Gosto dos velhinhos. Da molecada, não: moleque eu passo por cima”, brinca.
 
Chegamos à delegacia em inacreditáveis nove minutos. Rostos tristes em pé, sentados, famílias inteiras debaixo da árvore fugindo da fúria solar. E já estamos entrando na delegacia, quando toca o celular dele. Durante a ligação, Roberto Silva assume as mesmas características que o grande Stefan Zweig notou na estátua que Rodin fez de Balzac: a surpresa de alguém arrancado bruscamente do céu para cair numa realidade que já havia esquecido.

O olhar de uma grandiosidade aterradora que se assemelha a um grito. Aquela expressão fisionômica de quem é sacudido em pleno sono. Aquele aspecto de sonâmbulo, junto ao qual se pronuncia brutalmente o nome. O mito do jornalismo policial dá meia volta. E, correndo em direção ao carro, começa a dizer que uma de suas fontes passou os detalhes de um corpo, encontrado, nesse exato momento, às margens do Ribeirão Morangueiro, entre os Jardins Alvorada e Oásis, na zona norte. Aperto o cinto, tranco a porta. Roberto Silva volta a pisar fundo nas ruas maringaenses.

Córrego mortífero


O grito estridente da mulher atravessa a Avenida Alexandre Rasgulaeff, aguça a curiosidade do marido e das pessoas em volta, quem estava em dúvida vai se aproximando: “Tá morto, tá morto, vem ver!”. Adolescentes, tiazonas, velhos, pedreiros sujos de tinta e moçoilas com roupinhas de ginástica se engalfinham na grade que separa a calçada do início do matagal, caçando com olhares lá em baixo, no córrego, vestígios do corpo, abraçado a um tronco de árvore, na margem do rio. Um bebê de um ano, no colo do pai, e o cachorro nos braços da velha são os únicos desinteressados no morto.


“Quero ver tudo bem de perto: daqui só saio depois do IML.”


“Deve ser outro craquento.”


“Não, parece boneco de Judas?”


“Vão ter que abrir uma clareira, ó.”


Quem tem celular aproveita para enquadrar o corpo em diferentes ângulos. “Vou passar um filtro e já vou postar no Facebook”, comenta, alegrinha, a dona de casa Marisa Fenaco, 40. “Isso não é meio tétrico?”, pergunto.


Ela abre um sorrisão: “Claro que não. Todo mundo faz!”


Na cena do crime, Roberto Silva é saudado por repórteres, cinegrafistas e bombeiros: “Grande Roberto!”, “Chegou o cara!”, “Roberto Silva, o mito!”. Gente boa, retribui os tantos cumprimentos. Ouve moradores, entrevista bombeiros e policiais: quase trinta minutos. Na calçada, concede rápida entrevista sobre o descobrimento do corpo para um locutor de voz empostada, que estende o celular e pede detalhes, ao vivo, para alguma rádio da cidade.


“Uma mão lava a outra. Nesse meio, você tem que ser amigo de todo mundo.”


A analogia não é só recurso metafórico. No meio da confusão de gente e polícia e curiosos e bombeiros, o próprio Roberto Silva surge, fora do enfoque da câmera, empunhando o microfone de uma TV local e entrevistando o velho que achou o corpo no córrego: cinco perguntas, rapidinho. “Esse câmera, aí, é meu filho. Você já conhecia ele?”


Com 30 anos nas costas e onze de jornalismo, Robertinho, o cinegrafista, é igualmente gente fina – bom humor é, entre os Silvas, um atavismo. Engraçado. O filho parece mais velho que o próprio pai. Vampiro que se alimenta do sangue no submundo maringaense, Roberto Silva assim mantém sua jovialidade? Tá explicado.


“Segundo a polícia, esse cadáver está aqui há, no máximo, 72 horas. Ainda não há informações se há marcas de violência ou perfurações de faca ou tiro. O sujeito usava blusa. Isso pode indicar que ele morreu à noite, já que, nas últimas 72 horas, as manhãs e as tardes estavam quentes; e as noites, geladas.”

Roberto Silva termina de passar as informações por telefone para a repórter de odiario.com. Última olhada no corpo, ao longe, e arrisca a conclusão: “Aqui perto, há uns mil metros, tem um conhecido ponto de drogas, bem num córrego, relativamente fundo. Esse corpo está abraçado ao galho, parece que o cara tentou se salvar. Acho que veio de lá. Até porque o córrego, no ponto onde estamos, é rasinho: ninguém, por mais chapado que esteja, conseguiria se afogar. Pode ser assassinato. Vamos ver o que o pessoal da polícia vai dizer.”


Entramos no carro. Hora de voltar à delegacia de polícia. No meio do caminho, próximo ao Hospital Universitário, Roberto Silva aponta: bem ali, há alguns anos, morava uma família riquíssima. Muita briga, ódio, até que um adulto morreu sozinho. “Ninguém reclamou o corpo. Só acharam meses depois. O cheiro era insuportável e restava pouca coisa: os ratos tinham devorado o corpo inteiro. Uma cena horrível.”


Acesso ao proibido


Na delegacia, Roberto Silva é de casa. Vai entrando em salas, salinhas e saletas – para ele não valem as centenas de avisos em letras garrafais: PROIBIDO: SOMENTE POLICIAIS. Cumprimenta delegados, moçoilas, investigadores, distribui dois exemplares do Diário para alguém, dá tapinhas nas costas do famoso sargento e conta suas tantas piadas. A passos céleres, é até difícil acompanhá-lo, disparado lá na frente. Nos corredores labirínticos, surge a carceragem. Epa, não foi aqui que, mês passado, decapitaram um detento? O perfume de cafezinho e papelada, esquecido nas saletas lá atrás, dá lugar a um forte cheiro de merda e mijo. No setor de triagem, apenas três das cinco celas têm banheiros.


Lamentos do cárcere


“Cadeia é desumano. Não tô conseguindo nem comer, cara, porque tem um cocozão aqui na cela”, reclama o preso lá de dentro. Roberto Silva chega junto. Ouve a história do garoto: 23 anos, vendendo crack na quebrada, arrependidíssmo. “Não faz mais isso, pô, cê tá acabando com a sua vida”, aconselha o jornalista.

Da carceragem encardida tocamos para outro canto. Abrindo e fechando portas, perambulando em corredores e bebedouros – ai, que saudades das minhas musas maringaenses! -, Roberto Silva entra e sai de salas que abrem espaço para outras salas menores, e de repente é como estar perambulando nos corredores claustrofóbicos e infinitos do “Processo”, do Kafka.


“Tem alguma coisa interessante por aí?”, ele vai perguntando, em cada sala, insaciável colecionador de nãos.


Empunhando o monte de BOs, Roberto Silva vasculha possíveis matérias. Estelionatos, ameaças, golpe de falso prêmio, gente que se lasca vendendo moto e não faz a transferência do veículo, alguém reclama do carro riscado nalguma rua da cidade e outro assume não pagar pensão e vai até a delegacia registrar a ameaça jurada pela sogra.

Depois de meter seu carro numa estrada rural, num canto da zona norte, e encontrar um lamaçal à beça pela frente, o revoltado motorista maringaense registrou um BO porque tinha muito barro - quem diria?! - na estrada rural. Depois da noitada regada a cachaça e outros pileques, um bêbado surgiu na polícia para registrar o grandessíssimo roubo de R$ 2. Segundo o depoimento da vítima, um desconhecido lhe afanou a dinheirança, pegando-o desprevenido em sua boemia.


“O bêbado, que teve seus R$ 2 roubados, gastou R$ 6 para se locomover de ônibus até a 9ª SDP, acredita?! Tá vendo que loucura é isso? Olha esse, ó. A mulher agrediu o marido verbal e fisicamente e ainda quebrou o para-brisa do carro dele. Quer outro? Uma mulher diz estar sendo caluniada e jura que as fotos nuas circulando no WhatsApp não são dela, diferentemente do que tão comentando. Agora, a polícia vai acionar escrivão, cartorário, promotor e mais um monte de gente pra investigar essa besteira do celular, ver quem postou, primeiro, a tal foto e quem tá caluniando a moça. Esses casinhos, aí, besteiras de internet, custam cada um, cerca de R$ 3 mil para o contribuinte”, diz.


Nessa hora, Roberto Silva recebe de alguém um bolo de páginas: penca de BO’s de desaparecimentos. Num banco da delegacia, ele vai separando os perfis que se aproximam do morto encontrado no córrego e passa a ligar para as famílias. Sozinho, correndo contra o tempo, à caça da identificação do corpo.


“Tenho uma história boa pra você”, avisa um policial, chegando junto, dando risada.“Dia desses, veio uma japonesinha de uns sessenta e poucos anos, já velhinha, acima de qualquer suspeita, sabe? Registrou um BO. Ela chifrava o marido com um garotão de vinte e poucos anos, e o marido descobriu. Com a traição, o marido nem se importou. O problema é que ele descobriu, também, que a velha tinha dado R$ 20 mil pro Ricardão. Revoltado, o marido desceu a mão na esposa e, agora, vai responder pelo crime, enquadrado na Lei Maria da Penha”, relata o policial, aos risos.


Depois de três ou quatro ligações, ele ainda não conseguiu identificar o sujeito. Embora pareça alheio à conversa, absorto na investigação, Roberto Silva dá uma boa risada e emenda: “Se você for um corno, então, que seja um corno manso!”. Fica a lição.
 
Abandonando os BO’s, corremos por outros departamentos. “Tem algum furo pra dar?”, pergunta Roberto Silva. Mais risadas de figurões – não é aquele sargento famoso do YouTube? Passamos pelas saletas de interrogatório. Olhares vigilantes, armas à vista, molecões ainda imberbes, com pés e mãos algemados, respondendo por assassinatos, tráfico de drogas e o diabo.

No corredor, encontramos Jota Junior, repórter de TV, de voz empostada e cabelo penteadinho. “O Roberto tem um jeito especial: ele conversa com o criminoso como se conhecesse o sujeito há uns 300 anos. E, claro, tem sua malandragem. Ele chega assim: ‘Ô, fulano, sei que você acariciou a criança, passou a mão nela, estuprou mesmo, e só depois foi estuprar a mãe’. Daí o suspeito responde, como se conversasse com um amigo: ‘Peraí, a criança não! Só estuprei a velha!’”, comenta.


“O Roberto é do tempo em que não tinha celular nem internet. Então, o jornalista tinha a informação, um dia antes, por exemplo, que um grupo de Sem Terra iria invadir, no dia seguinte, no horário tal, alguma fazenda. O Roberto tinha que ir pra essa fazenda e fazer a matéria. E se não tivesse a tal invasão? E se fosse trote? Ele tinha que arranjar outra pauta, em cima da hora, para não voltar de mãos vazias pro Diário. Sabe o que ele é? Um gênio”, avalia.


Gente fina, o repórter é mais um dos tantos alunos de Roberto Silva. “Ele é uma escola. Agora há pouco, no caso do corpo no córrego. Não é só o corpo que importa. O velho que achou o corpo, sabe? Quando bati o olho, vi que o velho estava com algumas folhas na cabeça e a calça suja de barro. Então, perguntei pro velho se ele desceu até o córrego pra ver o corpo de perto. E o velho comentou que viu, sim, mas por acaso. Todo o dia, não lembro há quantos anos, esse velho vai pra beira do córrego regar a plantinha que ele tem ali na margem. Mesmo com a chuvarada que deu ontem, olha só!, ele estava lá, para regar a tal plantinha. Com esses detalhes, consegui humanizar uma história que, inicialmente, era só mais um corpo descoberto. No final das contas, mostrei um pouco daquela região e do cotidiano de seus moradores. Quem me ensinou tudo isso foi ele .”


Quando me dou conta, Roberto Silva já está em outra sala, tomando notas de um caso de estelionato e de uma vistoria que será feita não sei por quem, na carceragem. Sigo seus passos, vamos saindo. Muitas armas, risadas, alguém notifica o roubo de um vídeo game. Na frente da delegacia, quase cinco da tarde, os primeiros minutos em que Roberto Silva está, finalmente, um pouco menos acelerado. “Viu que correria? Tô o dia inteiro querendo mijar, e nem tive tempo”, revela, rindo.


E o banheiro espera mais um pouco. O trabalho ainda não acabou. A escrita, aliás, nem começou. Cinco e quinze da tarde, chegamos ao jornal. Roberto Silva invade a Redação e vai comentando, em voz alta, no léxico da juventude, todo os detalhes do morto, até o momento sem indícios de assassinato, além do caso do estelionatário e umas outras ideias que, se mexer bem, podem virar tantas matérias. O papo com o editor-chefe, no meio da Redação, dura menos de cinco minutos. Antes de seguir para o computador, Roberto Silva dá um berro: “E vocês não conversem comigo nos próximos trinta minutos, hein!”
Furiosos, seus dedos arquitetam histórias, personagens, detalhes, com uma rapidez impressionante. Quieto e compenetrado, desafiando o tempo. Encaro Roberto Silva, novamente, pela última vez. Ele sabe que tenho um livro de 223 páginas sobre suas histórias. Amanhã de manhã, quantos leitores não vão ler e tresler as linhas do seu corpo?


Ainda na Redação, me dou conta de que talvez - assim como aconteceu com o Machadinho -, só depois de quatro décadas de sua morte a posteridade consiga traçar, de maneira consideravelmente satisfatória, o perfil humano desse sujeito cheio de piadas minimalistas e dedos ágeis, obcecado pelo processo de investigação e pela escrita: o gênio multiplicado que é o mito Roberto Silva.

Publicado no Diário (5/7/2015)
 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Salas, sonhos, hippies, letras, superação, amores e viagens

Não gosto de perambular por lugares tristes, embora tenha total consciência de que a boa arte é, essencialmente, uma só tristeza. Você encara “MacBeth”, “Rei Lear” ou “Hamlet” gargalhando? Escuta o Quarteto nº 2, do Buhuslav Martinu, rindo à beça? Difícil imaginar alguém com ataques de risos num filme do Bergman. O sorrisão do pagodeiro, os coraçõezinhos felizardos de Romero Britto, as gargalhadas desses comediantes de stand-up – a felicidade, eterna inimiga da arte maior. Vou pensando nisso no meio do bar-lanchonete. Quase quatro da tarde. A loirinha da TV dá os detalhes do enterro de algum cantor sertanejo. Cristino Araújo, Cristiano Ronaldo, qualquer treco assim.

“Ele lançou os grandes sucessos ‘Efeitos’ e ‘Mente pra Mim’. É ídolo de Goiânia”, ensina a moça da TV. Tento lembrar algum refrão dessas músicas. Não lembro nenhum. Devo ser o único a ignorar a obra poética e musical do tal Cristino Araújo. Porque logo atrás da repórter surgem milhares de mulheres chorando, enfileiradas, esperando a vez de se aproximar do túmulo.

 “Que pena, né? Tão jovem...”

O sujeito quarentão, camisa verde e bermuda, chega puxando assunto.

“... morreu ele e a namorada, cê viu?”

“Não, não vi”, respondo, de olho na TV.

E começo a pensar em Shakespeare, Bergman e Buhuslav Martinu no momento em que a telinha exibe cenas do tal cantor sertanejo, todo sorridente, balançando as mãos e batendo palmas, em cima do palco, entoando outro desses arrochas universitários.

“Bem agora que ele tava começando a ganhar dinheiro, que coisa.”

“Você era fã? Quais suas três músicas favoritas dele?”, questiono.

O sujeito perde a resposta na goela.

“Rapaz, agora cê me pegou. Não conheço, não. Na verdade, minha filha é que gosta. Ele tem aquela música lá, sabe?”

“...”

“Aquela lá, que fala não sei o quê do amor?”

“...”

“Olha, pra falar a verdade, eu nem gosto dele, não.”

 “?!”

“Não é porque esse moleque morreu que eu vou ficar gostando dele.”

“?!”

“O que eu gosto, mesmo, é de sertanejo raiz”, confessa o sujeito.

Outro cara, agora de dentro do balcão, pergunta se quero alguma coisa. Cafezinho, cerveja, esfihas, suco, chips, pão de queijo a R$ 1. É tentador, mas ainda não. Única porta, abre durante a semana, das 7h às 23h, servindo um pouco de tudo. “90% da clientela é por causa do colégio”, comenta o proprietário do bar-lanchonete Pasárgada. Voltarei depois, eu digo, e saio do bar-lanchonete. Engraçado. No famoso poemeto, o velho Bandeira diz que, quando estiver triste, triste de não ter jeito, vai-se embora pra Pasárgada. Bandeira também não era chegado na tristeza. Coincidentemente, Pasárgada fica a meia dúzia de passos do Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos), na Rua Paranaguá, 430.

Quem me mandou pra cá foi o Emanuel Lopes. Num e-mail muito gentil, ele disse ser um “leitor assíduo” dessas mal traçadas linhas e garantiu que o local renderia boas histórias. Sei não. Como eu disse, não gosto de perambular por lugares tristes -quem cruza esse portão não escorrega num barranco de melancolia?

Caminho a passos céleres. Roleta. Coordenação. Secretaria. Bebedouros. Banheiros. Pátio deserto. Portas escancaradas de saletas vazias. TVs alaranjadas. Pego o corredor. Centenas de apostilas coloridas empilhadas num canto. Deve ser nessa porta escancarada. Entro. Um grande galpão - quadra de esportes? -, com salas improvisadas e delimitadas por divisórias de um metro de altura. Várias salas. Inglês. Sociologia. Física. Química. Filosofia. Matemática. O nome de cada matéria pregado no alto da parede. Um silêncio generalizado: é dia de prova. Tiozinhos sessentões e jovens de 18 a 30 anos se debruçam sobre as questões. Todo mundo realmente concentrado. Epa, quase todo mundo. Observe com calma: ali, ó, na última fileira de Inglês, empunhando um celular hipermoderno, a senhorinha sessentona confere as últimas atualizações do Facebook e, escondendo-se de professores e alunos – ó assassino que envenena o próprio pai, toma o trono e casa-se com a rainha! -, hesita por um instante em trocar mensagens pelo WhatsApp. Responder ou não responder, eis a questão? Dedinhos enrugados e serelepes fazem cócegas na tela – ela responde.

Unidos na exclusão

“Todo mundo que está aqui passou por um processo de exclusão. Ou teve que trabalhar no lugar de estudar, ou repetiu de ano, ou teve algum problema pessoal”, comenta uma professora que pede para não ser identificada. “Tem muita gente que aprende, já adulto, a ler e escrever aqui. Tem o caso de uma senhora, de 50 anos, que nasceu no Nordeste, passou fome e sede, numa vida miserável, e só agora, há alguns anos, veio se alfabetizar com a gente. Hoje, como ela consegue se explicar e falar com alguma desenvoltura, diz pra todo mundo que se acha uma madame”, relata outra professora.

O maior desafio da escola, ela conta, é fazer com que os alunos não desistam no meio do processo de aprendizado. “Muitos abandonam porque não conseguem conciliar com o trabalho. E tem o lado negativo: antes, os alunos poderiam vir no horário que quisessem. Hoje, os horários são definidos. Essa organização é prejudicial pro aluno”, observa.

Na saleta de inglês, uma garota se levanta. Caminha até a professora, entrega a prova e, discreta, sai do galpão de aulas coletivas. Crislaine Felipe, 26, estuda geografia, inglês e educação física, todos os dias, de manhã e de tarde. Pretende concluir os estudos de 5ª a 8ª série até o final do ano. Mora perto do colégio, junto com um irmão, e vem a pé: quinze minutos de caminhada. Paranaense nascida em Mariluz, a cerca de 138 quilômetros de Maringá, ela começou a trabalhar desde muito cedo com o corte de cana e, depois, virou auxiliar de cozinha num restaurante oriental. “Eu já tinha reprovado quatro vezes a 4ª série. Estava parada, sem fazer nada, e foi aí que comecei a trabalhar. Eu tinha desistido do estudo”, diz. A rotina, na casa dela, era de muito suor. Mais dois irmãos trabalhavam na roça e ajudavam nas despesas. O pai, caminhoneiro, abandonou a família e nunca mais deu as caras. “Minha mãe, que era espancada todo o dia pelo novo marido, foi uma heroína: conseguiu colocar comida dentro de casa pra todos nós.”

Hoje, Crislaine não abre mão da sala de aula. E sonha longe. “Quero seguir o exemplo do meu irmão e conseguir ser uma boa professora. Um dia ainda vou me formar na UEM”, diz. Com 40 anos, o irmão dela, que hoje dá aulas em Campo Mourão, fez das tripas coração para virar professor de História. Deslocava-se diariamente de Mariluz a Umuarama, onde estudava, e contava com a ajuda dos professores, que vez ou outra lhe ofereciam lanches e bolachas. “Ele pegava o ônibus às cinco da manhã e chegava em casa a uma hora da manhã do dia seguinte. Passava o dia inteiro estudando, muitas vezes passando fome. Se ele venceu, eu também posso vencer na vida”, comenta.

Desejo boa sorte à Crislaine. É sempre bom trombar com pessoas determinadas. Volto a vagar pelo Ceebja. Numa saleta de artes, um grupo de vinte e poucas pessoas tem seus dotes artísticos avaliados. Concentrados, alunos capricham nos traços e cores. Saio. Três senhoras passam por mim. Comentam, alegrinhas, o desempenho na prova.

“Fui um horror. E você?”

“Mais ou menos. Sorte que eles não podem reprovar a gente.”

Amor x sala de aula

Com roupas de academia, Amanda Amancio, 18, cruza a roleta rumo à rua. Parece um bocado cansada depois da prova – os pés na calçada sustentam a alminha exausta. Novata na área, ela encara o supletivo de dia e à noite, há duas semanas. Recém-casada, Amanda ficou um ano sem estudar. O amor, já dizia Diógenes, não é mesmo “a desocupação dos desocupados”? Sempre certeiro, o nosso Cínico. “O casamento modifica toda a sua vida. Vida a dois, dar mais atenção ao marido, esse tipo de coisa. Como estamos emocionalmente e economicamente mais estáveis, quero voltar a estudar e sonho cursar Psicologia, na UEM”, comenta. Enquanto a faculdade não chega, ela continua a se deslocar, diariamente, de Paiçandu, onde mora, a Maringá. “Em Paiçandu, o Ceebja é só de noite. Minhas noites, eu divido com meu marido”, diz.

Já estou há quase uma hora vagando pelo Ceebja. Bate forte a fome no peito. Lembro do pão de quejo a R$ 1. Chega de tristeza. Vou-me embora pra Pasárgada. Lá, peço o tal acepipe a preços módicos. O sujeito que falava sobre o sertanejo sumiu de cena. O Pasárgada estaria deserto, se não fosse a garota com os dreads cheios de cabelos. De vestidinho colorido, chinelinho rosa e blusinha preta, a curitibana Ellen Patricio guarda uma porção de viagens e mil e uma aventuras em seus 18 aninhos. Numa das poucas mesas do Pasárgada, ela toma um cafezinho e se regala com pão de queijo, enquanto segue a leitura do livro “Maestros, Obras-Primas e Loucura”, do Norma Lebrecht. Olhinhos intensos e voz maviosa, diz que parou de estudar aos 15 aninhos.

“Só não me pergunte o motivo. Porque eu nunca te direi”, responde, desafiadora. Certo, certo. Mudemos o rumo da conversa. Sobre qualquer outro tema, porém, ela topa falar numa boa. Da paixão por caiaques, ioga, cachoeiras e muita natureza. De sua admiração por Van Gogh, Modigliani, Picasso. De seu bom gosto musical, que vai de Caetano Veloso e Chico Buarque a Chopin e Bach, passando por Louis Armstrong e John Coltrane. “Acho que tô em fase de transição: nem gosto mais tanto de reggae”, reconhece. Dos mochilões por Sergipe, Mato Grosso do Sul, Bahia, Alagoas, Minas Gerais, conversando com nativos, buscando inspiração, vivendo a vida intensamente – quem sorri, ela ou você? Das oito telas já pintadas e a vontade danada de cursar Artes Visuais, talvez em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, em qualquer canto do País.

Curioso, você, pelos quadros da nossa jovem pintora on the road? De nada adianta fuçar na internet, vasculhando as plataformas sociais da moçoila. “Pintar é algo muito íntimo: não mostro para qualquer um. Tô até planejando uma exposição, mais pra frente. Mas, se isso acontecer, terei que estudar como fazer as réplicas desses meus quadros. Ciumenta que sou, me recuso a exibir os originais ao público”, diz, já de olho no relógio e debandando de Pasárgada. “Tô atrasada pra aula de ioga, fica aqui perto. Tchau, bom falar contigo.”

Seis e pouco da tarde, mais alunos vão tomando a frente do Ceebja. Futuros pintores, psicólogos, professores – quantos sonhos cabem numa só pessoa? -, quase todos com passados lúgubres ou arrependidos. Na mesa do bar-lanchonete Pasárgada, ouço Bandeira sussurrar os famosos versinhos de seu poemeto: “E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar / — Lá sou amigo do rei — / Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada”. Colado ao Ceebja, o paraíso de Bandeira está localizado a menos de meia dúzia de passos. Para toda essa gente, à espera do início da aula, o paraíso fica um pouquinho mais distante, a duas quadras, precisamente, nalguma sala da UEM.

Publicado no Diário (29/6/15)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Cabelo, barba, lobisomens e muitas outras histórias

Os planos eram mirabolantes e cheios de luxo, no início dos anos setenta. Erguido na Avenida Brasil, num edifício imponente, com quatro andares e influências arquitetônicas do Modernismo, o atual Centro Comercial deveria ser uma espécie de Galeria Lafayette, reunindo lojas de roupas caras, perfumes europeus, joias, relógios e outros milhares de acessórios de gala.

Difícil imaginá-lo, assim, esquecido ao lado da Praça Raposo Tavares, com as paredes pichadas e surradas – restos resistentes da Maringá d'antanho. No lugar das lojas afrancesadas, os quatro andares foram tomados por advogados, contadores, cabeleireiros, dentistas, vendedores de auditórios para igrejas e até uns sujeitos desconfiados, silenciosos em escritórios sem fachadas, trabalhando sabe-se lá com o quê.

Passo pela farmácia na esquina, desviando de treze pombas obesas e de quinze barrigonas se fartando com cachorro quente – a salsicha na chapa é a perdição do gorducho. Vou entrando pela porta que dá para a Brasil. Quase todas as lojas têm portas de vidro: olhar e ser visto, nas ruas ou nos corredores. Óculos nas prateleiras, máquinas fotográficas antigas, dezenas de celulares. Aparelhões cinzas, vermelhos, azuis, modernetes, com câmera de vídeo e fotos em alta resolução – sonho de consumo de todo tarado, recebendo e enviando mil e uma obscenidades.

Barbeiro das estrelas
No térreo, reencontro Nelson Ide, 71. Um barbeiro finíssimo, bom de prosa e, sobretudo, privilegiado. Proprietário do Ide Cabeleireiro, há 27 anos no Centro Comercial, Nelson aparou a cabeleira de todo o tipo de gente: gloriosas atrizes globais, ícones da UDR, baluartes do MST, três ditadores, quatro ex-BBBs depravadas e sete santíssimos cardeais. No início dos anos noventa, Bob Dylan era figurinha fácil: entabulava longas conversas com os clientes, quase sempre falando de Deus e das maravilhas provindas do Senhor. João Gilberto, Caetano Veloso e Elomar, ocupando num sábado de manhã as três confortáveis cadeiras do salão, chegaram a fazer planos para uma turnê, juntos, dividindo o mesmo palco e entoando somente canções de Dorival Caymmi. Desde que aderiu à reclusão, David Bowie dá as caras pelo menos cinco vezes por semestre, pede o corte de sempre e até dá uma palhinha, geralmente no final da tarde - prova irrefutável, o violão com a dedicatória carinhosa na parede do salão: "To Nelson, with love, Bowie".

Pintores, filósofos e fazendeiros abastados convivem em harmonia no salão do Nelson, que ainda conta, na labuta diária, com a ajuda de sua esposa, Nilda Ide, e da funcionária Cleuza Ferreira. Além dos cortes caprichados, o salão tem outro atrativo: um café de receita sigilosa, preparado com blends especiais. "Ninguém faz um café como o meu: é bebericando que a gente põe o papo em dia", conta Nilda. À base da cafeína, numa tarde de outono, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca saíram no braço, entre tapas e pontapés, após uma divergência sobre o processo de escrita do conto. Sebastião Salgado enxotou Romero Britto do salão, acusando-o de "louco", "incompetente" e "picareta". O cantor Otto soube, ali, que sua esposa, Alessandra Negrini, o traía descaradamente nas ruas do Leblon. Geraldo Vandré e Jards Macalé revelaram-se grandes piadistas. "Deveriam largar a música e fazer stand-up. Nunca ri tanto na minha vida", comenta um cliente que pediu para não ser identificado.

Fosse um desses barbeiros qualquer, Nelson teria ostentado no Facebook suas selfies com todos os figurões que passaram pelas suas mãos. Certamente, exibiria na parede do salão os retratos de todos eles – antes e depois de sua tesoura. Reservado e discreto, como todo bom oriental, limitou-se a exibição do violão. Quando questionado sobre os detalhes, porém, chega a negar que tantos encontros realmente aconteceram, inventando justificativas aleatórias para o instrumento autografado, exposto no salão. Tudo para preservar a intimidade dos clientes e evitar que seu pacato local de trabalho se transforme em parada obrigatória de fãs e paparazzis. "O que eu posso te dizer é que nossos clientes preferem o corte tradicional, não gostam de ficar inventando moda. Esse pessoal que gosta de cortes modernos fica mudando de salão para salão, dependendo da onda do momento. Aqui, trabalhamos com a tradição. Acredita que já estamos na terceira geração de clientes? Tem vez que vêm todos juntos: avô, pai e neto", comenta.

Nelson recusa falar da clientela estelar, mas topa abrir o bico sobre o Centro Comercial. "O prédio tem umas histórias engraçadas. Teve o caso do romântico suicida, há uns três anos. O sujeito levou fora da namorada, subiu aí pra cima e ameaçou se jogar. Só que desistiu e foi salvo pelos bombeiros", lembra, rindo. "Depois de uns dias, o sujeito voltou: ameaçou de novo, juntou um monte de gente, e ele não se jogou. Hoje em dia, ninguém mais faz isso em nome do amor, né?", comenta. Voltarei mais tarde, com tempo, cortar meu cabelo com Nelson. Peço um café, cortesia da casa: é mesmo o melhor café da cidade.

Algumas pessoas circulam de um lado para o outro, a caminho dos cabeleireiros, da cantina ou das vitrines de celular. Cumprimento o porteiro, que não desgruda os olhos do monitor, esperto às várias câmeras de segurança, e subo para o primeiro andar.

Sebo fino
Outra loja de celular. Venda de aparelhos zeros e usados. Disposto a me livrar do mal do século, pergunto ao vendedor quanto vale a velharia que tenho em mãos. Surrado, retrô, dispara mensagens e – incrível! – até faz ligações: nada de internet nem de coisas modernetes. "Você me diz quanto quer, e eu te digo se quero comprar", avisa o vendedor. Peço R$ 500. Ele se espanta. "Nem a pau." Diminuo para R$ 250. "E tem documento?", ele pergunta, olhando o velho aparelho. Digo que sim. "Aguentaí, vou levar pro meu chefe." Pega o meu celular e some pela porta lateral. Quarenta segundos, o vendedor volta. "Hoje não, amigo. Fica pra próxima."

Azarado nos negócios, toco para o Musical Box, sebo de LP's e CD's do Aquiles. Entrar ali e sair de mãos vazias? Missão impossível. Já comprei, em outros tempos, discos do Assis Valente, Neil Young, Sá & Guarabyra, tudo em boas condições e preço justo. O sebo do Aquiles, pequeno e aconchegante, completou a maioridade neste mês: há 18 anos resistindo, no mesmo Centro Comercial, com o som puríssimo. Nadando contra a corrente, ele abriu o sebo com 300 discos quando o CD começava a dominar o mercado. Outras duas lojas de discos, na época, também funcionavam naqueles andares. Só restou o Aquiles.

Hoje, ele oferece maravilhas da MPB (Vicente Celestino, Chico Buarque, Luiz Gonzaga) e do rock, nacional ou internacional, além de duplas sertanejas. Há, também, umas coisas inusitadas, como o LP "Vibrações", de Alexandre Frota, autografado pelo artista. "Passo esse treco pra frente por qualquer cinco reais", sinaliza Aquiles. Enquanto conversamos, um sujeito se aproxima. Nas mãos, CD's com MP3 de Amilton Lelo e Moreno & Moreninho. Pedreiro alagoano de um metro e meio, negro, simpático e de fala acelerada – às vezes, com longos trechos incompreensíveis -, o sujeito pede que Aquiles copie aqueles dois CD's. E, no balcão, vai falando um pouco de sua busca e seus gostos.

"Ouvir música boa faz bem pra alma. E eu tô procurando também, rapaz, aquele filme, 'Na Trilha da Justiça', de 1975, o filme com o Teixeirinha, porque (trecho incompreensível). Lembro de ver esse filme na roça, no dia que morava, adolescente, na região lá de Goioerê. Já fui em loja de computador, gente com conhecimento profundo, e não consegue (trecho incompreensível) puxou tudinho, mas não era o que eu quero. Você me ajuda?"

Aquiles confessa que nunca ouviu falar do filme. Vou explicando que, infelizmente, também não faço ideia. O alagoano pega os CD's copiados e toma seu rumo. Eu também saio pela galeria - um compacto do Geraldo Vandré debaixo do braço.

Cantos sem fachada
Com exceção dos fregueses que entram no sebo do Aquiles, não há pessoas nos corredores do primeiro andar. Passo por escritórios de advogados e de contabilidade - alguns, fechados. O velho e desgastado letreiro informa que, à minha frente, fica a Centro América Imobiliária. Na entrada, o antigo balcão de madeira e a cadeira de couro desbotado. O escritório acumula pilhas de carimbos, montes de listas telefônicas, papéis e anotações nas mesas de madeiras.

Dois simpáticos senhores setentões, sentados em suas respectivas mesas, vão logo contando os causos da imobiliária. "Estou aqui há 42 anos", comenta o proprietário Benedito Luiz, o Bene, 73. Curioso, pergunto a ele se alguma coisa mudou nesses anos todos. Ele responde sorrindo. "Que nada. Basicamente, tudo continua a mesma coisa." Há nesses anos todos, uma coisa que poucas pessoas sabem, adianta o Bene. "A cruz que hoje tá lá na Catedral, sabe? Ela é de um artista plástico que tinha um atelier lá na Colombo. E antes de ir para a igreja, a Cruz ficava aqui no Centro Comercial", comenta. Isso eu não sabia, digo. "Teve até um rapaz que se desequilibrou, pelo que parece, e caiu do primeiro ou segundo andar. Como ele não se machucou, ficou todo mundo dizendo que era milagre de Deus, porque foi tudo pertinho da cruz", recorda, rindo. Com o surgimento da Catedral, Jesus, então, foi levado para dentro da igreja. "E ninguém nunca reclamou a falta da cruz", diz.

O barulho diminui no segundo andar. Único som, carros se esgoelam na Brasil. No consultório de um dentista, impossível identificar o número do telefone – a escrita não resiste ao tempo. Letras garrafais, que provavelmente eram vermelhas, hoje amareladas anunciam o principal serviço: IMPLANTES DENTÁRIOS. Na portinha do consultório, uma imagem santificada sorri acima da frase: "Jesus vive e é o Senhor". Entro na antessala vazia do consultório e o alarme estridente dispara. Quatro antigas cadeiras de madeira aguardam os muitos clientes. O chão está sujo de terra e poeira. Na parede, oito quadrinhos e um certificado de honra ao mérito, todos tortos, decoram a espera de ninguém. O alarme soa cinco minutos, nenhum dentista aparece. Vou embora.

Mistérios da meia-noite
"Bom mesmo era quando tinha o Clube do Lobisomen", lembra, saudoso, um empresário setentão. Aberto apenas para convidados seletos, o bar funcionava no terceiro andar do prédio, com juízes, advogados e políticos se refestelando com cerveja geladinha e um e outro acepipe. Na trilha, bolachões de Ray Coniff e Casino de Sevilha. Às sextas, o clube abria das seis da tarde à meia-noite. "Fechávamos precisamente nesse horário. Depois da meia-noite, cada um saía pra se aventurar nas ruas maringaenses. Se alguma esposa reclamasse do horário, era só dizer que passou a noite com a gente, no Clube do Lobisomem", lembra, com um sorriso sacana.

Sigo para o terceiro andar. O Clube do Lobisomem faz falta por aqui. O silêncio dominando os corredores – qual o barulho do abandono? Passo por uma sala vazia, empoeirada, com pastas e papeis no chão. Não há qualquer nome na fachada. Outro escritório de advogado solitário? Mais um de contabilidade? Um sujeito gordo e de camisa verde anota um monte de coisas em agendas, sentado à única mesa, no pouco que resta da sala. À sua frente, dois anosos sofás de couro.

"Tudo bem? Aqui é o quê?", pergunto.

"Aqui? Uma sala."

Uma confusão de agendas pretas e marrons, pilhas de papeis rasurados, pastas, anotações. Longas contas aritméticas ou um extenso poemeto épico? – que azar, a maldita miopia.

"Escritório de advocacia?"

"Não, não. Uma sala que alugo. É minha."

"É uma empresa?", questiono.

"Empresa? Não, não", responde o sujeito, com alguma relutância.

"Então aqui é o quê?", insisto.

"Aqui não é nada", resume o sujeito, encerrando a nossa conversa.

Dou a última olhada: o sujeito gordo e de camisa verde volta a anotar uma porção de coisas nas agendas espalhadas pela mesa. Redigiria, ele, um grande poema existencialista sobre o nada? Vá saber.

Ainda no terceiro andar, passo por outro escritório de contabilidade – na parede da antessala, um quadrinho de violino azulão, pintado ao lado de uma partitura. A alguns metros dali, um dentista trancou o consultório com cadeado e deixou aviso de "volto já" pregado na porta, informando o número do celular. No consultório abandonado, outro quadrinho decorando a antessala: uma rua no centro da tela, sobrados à esquerda, um dia ensolarado. Seriam obras de um mesmo manco artista?

Deus é mais!

Vejo um aviso numa das salas: "Tudo para a sua igreja: valorize seu templo com auditório". Como não entrar? Diferentemente de algumas salas, esta tem porta de madeira. Bato e logo sou atendido.

"Boa tarde, você quer o quê?", pergunta um jovem atendente, o mesmo sorrisão nos grandes lábios.

Na pequena saleta, dezenas de cremes e outros produtos de beleza se espremem nas tantas prateleiras.

"Aqui é o quê?"

"Depende. O que você quer?", pergunta, ligeiro, o rapaz.

"O aviso na porta diz que vocês vendem auditório para igrejas, mas, pelo jeito, também oferecem produtos de beleza, né?"

"É. Desde que a crise começou, há um ano, nosso movimento caiu 90%. Estamos começando agora com os cremes", conta.

"E vocês fazem auditórios para qualquer igreja?"

"Exato: para todas elas, sem preconceitos."

No quarto piso, nada de cabeleireiros nem auditórios ecumênicos sob encomenda. A primeira sala comercial traz, em vez de malfadados quadrinhos capengas, um grande painel exibindo o azul do mar, dezenas de palmeiras, coqueiros e ondas quebrando debaixo do sol infernal. Deve ser revigorante trabalhar nesse escritório, debruçando-se sobre as leis, a poucos centímetros da praia paradisíaca. Sigo. Tropeço em mais escritórios de advogados e contadores, esbarrando na infinidade de saletas vazias. No Sindicato Nacional dos Aposentados, um silêncio comovente - nem entro. Onde foi parar todo mundo? Onde a nobre clientela da Lafayette maringaense? Como seria bom tomar a saideira no Clube do Lobisomem, com a vitrola tocando "El Sítio de Zaragoza" e "Granada" – saudosismo não é a negação do presente doloroso? Sou arrebatado pelo vazio. Quieto, desando a escrever versinhos existencialistas. Daqui de cima, a Avenida Brasil é um filme mudo de carros coloridos.

Publicado no Diário (21/6/2015)