segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Número 2, banho no posto, ranho na parede e muita raiva

Os últimos dias transformaram radicalmente o humor da cidade. Saiu, você, para sentir o climão das ruas sem banho? O trânsito na Avenida Brasil surgia intensificado por palavrões – xingamentos muito além dos clichês cotidianos, mesclando elementos da umbanda com quiromancia, magia negra e maçonaria, alusões a Opus Dei e ao satanismo de Anton Szandor LaVey, tudo bem berrado em cada boca.
Motoristas enfezados recusavam ceder passagem diante da faixa de pedestre - não importa se feia ou bonita, moças eternamente à espera. As buzinas - você não ouviu? - soaram ainda mais estridentes. Rostos transbordavam raiva em cada ciclista – todo mundo pedalando bem devagar, suficiente para não suar demais. 
De repente, na cidade, sumiram todos os sabiás. Nada de jam session com pássaros trompetistas. O vinho azedou. Crianças envelheceram. Amores amargaram. A água, enfim, acabou.
Ironicamente causada pela inundação da chuva nos últimos dias, a escassez de água em Maringá parecia enredo de algum conto fantástico do Cortázar. 
Há quem diga que moradores de cidades vizinhas chegaram a escancarar as portas de casa, oferecendo banho e banheiro a suadões desconhecidos - sete minutos por R$ 10.
O desespero da velha, correndo no megamercado, não era de perder o capítulo da novela, mas agarrar o último galão de água cristalina.
Na Igreja Jerusalém de Deus, o Todo-Poderoso não fez milagres e, para a tristeza dos fiéis, as torneiras permaneceram sequinhas.
Nos cantos da cidade, filas quilométricas de distribuição não de comida aos refugiados sírios, mas de água aos maringaenses idôneos - muitos deles, com as contas todas em dia. Climão de quase calamidade e revolta infinita.

Filas

“Olha só que desgraça, moço: catando água na bica! Quando pensei que fosse fazer isso na vida? Eu, hein?!”, berra a mulher espalhafatosa, mirando o galão vazio diante de uma das duas torneiras jorrantes, no meio da Vila Olímpica.
A água geladinha batuca paredes internas do galão e transborda um pouquinho, arrancando riso rejuvenescido da velha – aqui, é permitido ostentar.
Na fila d’água, pobres, ricos, velhos e jovens vão surgindo entre garrafas e galões.
Desculpa da louça suja. Da ducha sagrada. Chegam acanhados, rostos trancados, e saem aliviados.
O casal traz dois galões de cinco litros vazios em cada mão. Sem água em casa na noite passada, os dois apelaram para um posto de gasolina. E ainda levaram a família inteira.
“Foi o pior banho da minha vida. Durou dez minutos. Tinha ranho e catarro nas paredes, cabelo entupindo o ralo e forte cheiro de mijo. Mesmo assim, melhor que ficar sem. Acredita que ainda tive que pagar cincão?!”, recorda Tatiane Soares, 24.
O maridão, agachado na coleta aquífera, ri do relato dos horrores e diz que não achou tão ruim assim.
“Claro que não era como tomar em casa, com conforto e tal, mas o banheiro masculino até que tava limpinho. Você deu azar e usou o banheiro das mulheres podres”, diz, rindo.

Cidade horrível

Melhor lugar para coletar histórias, na fila da coleta d’água você nem precisa fazer nada. Teu bloco de anotações atrai todo o tipo de detalhe. Padre no confessionário, voyeur dos causos maringaenses, você escuta de tudo.
“Também tá faltando água lá no Diário?”
“Vou te falar, viu? Ruim é ter que tomar banho na casa da sogra!”   
“Agora é que a gente aprende a dar valor, né?”   
“Cê também passou por isso? Cê esquece que acabou. Daí cê vai no banheiro, liga a luz e abre a torneira, mas não sai nada...”
“...”
“... não dá um nó no coração?”
Os detalhes duram o tempo do abastecimento. Cada pessoa leva dois minutos para encher dois galões de água. Com o reabastecimento, é só levar para o carro. E correr para casa.
“Vocês da mídia...”
O dedão em riste, de olho na tua caligrafia tremida e na foto sorridente do crachá.
“...só ficam do lado do poder! Quero que você escreva aí: que isso tudo é uma irresponsabilidade ab-su-rda!”, critica, com razão, a publicitária Suely Vasconcelos, 54.
Olhos ardendo ódio, raiva e gastrite – minha ou dela? Ouça a dor de Suely: duas pedras rasgando tua vesícula. Tanta fúria, causa da falta d’água?
“Como é que uma empresa desse tipo não tem um plano B? Se eu não pago a conta, eles cortam a minha água. Se eu pago, eles não me mandam. E agora, como é que fica?!”
Na fila, a cólera diminui quando os galões vão enchendo. Suadões trocam sorrisos camaradas entre si. “Os que se parecem juntam-se”, escreveu Homero, em algum lugar.
“Vou te dizer uma coisa: sou de Curitiba e já tô indo embora desta sua cidade. Um calorão desses, e sem água? Que cidade horrível!”, desabafa a publicitária.
“Na firma, tá um clima bem constrangedor. Tá todo mundo com vontade de ir no banheiro, mas ninguém pode”, comenta, rindo, o vendedor Reinold Stein, 24. “Daí sobrou pra mim, né? Como sou recém-contratado, tive que buscar água pra empresa”, completa o sujeito, equilibrando três grandes galões de quantidade indecifrável. “Ele só querem a nossa desgraça!”, grita uma mulher, degolando a nossa conversa.

Musa fitness nº 2

A fila d’água não é só desgosto e desabafo. Por ali, esbarro em Maria Marta, professora de inglês.
Moreninha de luzes loiras. Vinte e três aninhos, blusinha laranja e calça preta coladinha. Nos pés, tênis laranjado fosforescente. Ombros altos e braços brancos, adornos de uma estrutura óssea inigualável.
Gentilmente, ofereço toda e qualquer ajuda, seja com os baldes, abrindo e fechando torneiras, abandando leques japoneses ou protagonizando massagens tailandesas, a seu dispor, com todo prazer. Ela é só sorrisos. Narra os tantos perrengues. Mostra a revolta na ponta da língua. Detalha a situação dos familiares, fala da crise em si.
“Como faço natação, já aproveitei pra tomar banho na academia. Em casa, sem chance pra qualquer coisa. O xixi fica na patente. E...”
“?”
“...bom...”
“...”
“...você sabe...”
Sei? Sabemos?
De voz firme e respostas diretas, Maria Marta discorre sobre qualquer assunto com sorrisinhos de verão. Sorte a sua, outra mulher que se abre.
“...o número dois, né, só pode se for no saquinho!”
Tendo dispensado leques japoneses e massagens tailandesas, e levando em conta o atual teor da nossa conversa arenosa, permito que Maria Marta encerre a entrevista.
E a professorinha sai de cena, sai ostentando seu galão d’água cheinho, diante da fila cada vez maior.
“Ela não vale mais que ouro?”, sussurra um aposentado.
Lábios rachados pelo tempo, salivando miseráveis emoções, contemplando o galão cheio d’água.

Consciência

“Hoje em dia, água vale mais do que ouro!”, observa, emocionado, o aposentado Luis de Carvalho. “É só nessas horas que o povo dá valor. Quando sente falta. Mas, comigo, sempre fui econômico. Tomo banho sempre rapidinho. Lavo tudo o que tenho direito. Pensando, toda hora, no dia de amanhã”, diz o consciente aposentado.
Ouro e água, número dois no saquinho, ranho e catarro na parede: é mesmo um louco conto do Cortázar.
Repare nos rostos de derrota. O velho que não vai cantarolar “E Lucevan le Stelle” debaixo do chuveiro, com a água escorrendo geladinha, ininterruptamente, por três minutos e meio. A tristeza da quarentona pela escolha da vida errada - tivesse fugido com o malabarista do circo Maximus, não estaria aqui, sozinha, empunhando três baldes vazios, debaixo de um sol dos diabos, numa maldita cidade sem água.

Publicada no Diário (17/1/2016)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crianças, Juarez e Deus e o Diabo na Terra do Sol

Os negros dentes tortos da quarentona arregaçam promessas de prazer.
"Entra, amor, entra."
Sentadona na banquetinha capenga, na portela do boteco sem fachada. Perfume azedão. Caatinga de porco. Mescla de cachaça, mofo, cerveja, cigarro paraguaio – ali, é permitido fumar dentro do estabelecimento. O tapete do bar, desista: surrado demais, impossível ler.
"Me paga uma cervejinha, amor", suplica a quarentona.
Em tempos de crise, resisto ao canto da sereia. A cerveja geladinha, por lá, custa inacreditáveis R$ 15. Às sete horas, num sol das seis, o bar estaria vazio, não fosse um cover de Francisco Cuoco. Bom de prosa, nosso ator narra aventuras para as quatro donzelas da bodega. Além da negra quarentona, uma gorducha estrábica, uma oxigenada magrela e outra gorducha morena disputam a atenção do aposentado falante – você, daqui a alguns anos?

***

"Mas hoje é só isso mesmo, viu?", avisa o velho.
Em uníssono, o quarteto de vozes implorando que fique.
"Não, não, hoje é só a cervejinha mesmo. Tó aqui, ó", avisa, arremessando duas notinhas no balcão.
"Vai trocá a gente pela casa de massagem, é?", diz, tristonha, uma das moças.
O velho sai sem respostas. Na bodega, ele é amado por todas.

***

No cômodo do bar - sem janelas, ainda mais quente e encardido de suor, bueiro, cigarro, peixe morto -, Amado Batista berra as coisas do coração. Mesas desertas, único casal. Magrelinho de quarenta anos, macetado na cadeirinha de plástico, nosso herói equilibra no colo a gorducha negra e de cabelos vermelhos. Nos pés agigantados da moçoila, o chinelinho não dá conta de tantos dedos.
Concentrado na própria trama, ele fisga a atenção dela com detalhes banhados na cervejinha carérrima. Arranca suspiros, palminhas empolgadas. Gritinhos estridentes de surpresa, terror e alívio.
Narra detalhes de alguma aventura rocambolesca, com a mão sinalizando armas de grosso calibre, volantes de caminhonetes, aviões, corda pendurada no pescoço. Naquela orelhona, ele não sussurra ser o misterioso milionário maringaense, em carne e osso, aproveitando anonimamente as coisas boas da vida, depois dos tantos dias de horror? Cheio de grana, à espera da vida e do grande e verdadeiro amor? Rapidinho, ela escancara a bocona para um beijo legítimo – das entranhas da gorda ecoam as mil e uma fragrâncias do Rio Bostinha.

***

A morena cinquentona, de saiona rosa e decotão, exibe sorrisinho banguelão: no canto esquerdo do lábio, a verruga escura com mil pelinhos dourados. Quantos digníssimos pais de família não se perderam no caminho de casa, numa pausinha casual ali no boteco?

***

Uma velha acena, com cuidado, para alguém: o braço estendido, fixo, movimenta únicos quatro dedinhos. Um aceno tradicional, efusivo, balangando o braço veementemente, não denunciaria as gordas pelancas acumuladas do último reparo plástico?

***

"Tudo que faço, ofereço pra Ele..."
Outro desses - ai, não! - louvadores da aleluia.
"...quem me guia e me rege..."
Santa paciência: prepara-te para três horas ininterruptas de conversão religiosa.
"...quem me socorre e me protege..."
Por que tão onipresente, pô?!
"...meu Santo Satanás..."
"!!!"
"...meu Pai da magia..."
"?!?"
"...quem sempre tudo dá."
Pergunto ao jovem músico sobre o Diabo. Jair, que interrompe o show na calçada da Avenida Brasil, responde tudo baixinho - jamais ser descoberto pelos cristãos maringaenses, ainda mais em climão natalino.
"Nossa seita, em Sarandi, conta com vários fiéis, mas eu não posso te dar detalhes. É tudo secreto", adianta.
"Não tem filial em Maringá?"
"Infelizmente, não."
Disso, já suspeitava. Nem o Diabo suporta esta cidade infernal, celeiro das trezentas duplas sertânicas.
"Muitas oferendas em Sarandi?", questiono.
"Dia desses sacrificamos um bode. Acho que Ele gostou. Mas o comum é oferecer galinha preta e coelho."
"Alegres, as celebrações?"
"Com muita música, viola, pacto de sangue e bruxaria: tudo com muito respeito e bom gosto."
"Quais princípios da turma satânica?"
"Liberdade, amor, vida e luta."
"Paga pra entrar?"
"Tem o cofrinho do dízimo. Quem pode, vai colaborando."
"!"
"Alguém tem que bancar as velas e o sal grosso."
Balaio do dízimo. Musiquinha fervorosa. Fiéis clamando milagres. Orações e sacrifícios. Deus & o Diabo não são tão diferentes na terra do sol.

***

Ventos assustadores derrubam o chapéu do velho e arrepiam os braços nus da moçoila. "Jesus amado, meu filho, vai despencar o mundo!", berra a mãe aflita. Nuvens negras, cinzas, soturnas e lúgubres escurecem a noite. O menino gorducho, assustado e babão, finca as duas mãozinhas num portão de ferro – jamais ser levado pelo vento, muito menos pela mãe. Crianças excitadas batem palmas – finalmente, o Bom Velhinho vai descer dos céus, em seu imponente trenó de renas voadoras.

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Como pousarão as renas voadoras, descendo das nuvens e rasgando estrelas? Qual altura média e idioma dos duendes? Quantos quilos de presentes cabem no trenó? Será que Papai Noel desconfia, ai, não!, das tantas artes acumuladas no ano inteiro? Essas e outras questões ensopam de saliva a roupinha dos minúsculos filósofos babões – crianças pensando jamais tiram dedos da boca.

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Nove conselhos aos pais: 1) Cuidado ao recolher as roupas sujas: crianças guardam o tempo no bolso da camisa. 2) Nunca proíba a criança de cantar pela casa: é no canto que a criança desenha a própria existência. 3) Repare na melodia: cada canto de criança é composto por notas quentes e azuis. 4) Desbravadores experientes nunca vão explorar tantos mundos quanto canelas de criança – a viagem de uma criança só termina quando o sono pede pra descer. 5) Distribua canetas coloridas e libere as paredes da casa (ou parte das paredes do apartamento): rabiscos de criança degolam o tédio em família. 6) Com cuidado, espie seus diálogos: crianças contam e recontam verdades de mentiras. 7) Nunca proíba quintal nem sol nem terra nem chuva: criança compreende o mundo no relevo da mão. 8) Choro de criança tem 14 mil caracteres (incluindo espaços). 9) Velho, você foi a mesma criança de amanhã – não é rejuvenescedor?

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No bebedouro, mãos tremelicantes estendem o copo. Ao som da água que escorre geladinha, o velho lambe os beiços rachados pelo tempo. Mata tudo numa só golada, olhão escancarado, fio de baba escorrendo pelo queixo - essa grande sede de viver.

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Cinco perguntas ao milionáriomaringaense Juarez Arantes: 1) Por que um sujeito como ele, com verba de sobra para morar em qualquer lugar do planeta (Leblon, Cuba, Hong Kong), faz tanta questão de permanecer, sozinho e recluso, numa suíte de 28,20 metros quadrados do Deville, com vista para a Avenida Tiradentes? 2) É fato ou lenda esse papo de que ele mesmo dirige o próprio carro, um Del Rey preto – já que não faltariam economias para contratar um talentoso motorista ou adquirir um carrinho mais moderno? 3) Quais os detalhes da queda do seu avião, quando, em tenra idade – e pilotando a aeronave! –, teria feito um pouso forçado, no meio da Amazônia, evitando o desastre aéreo e saindo de lá vivinho da silva? 4) Qual bebida negra e misteriosa ele carrega na garrafinha de guaraná Caçulinha, de 237 ml? 5) E, afinal de contas, como ele conseguiu acumular tanta grana – teria um e outro conselho para o resto do povão, malditos diabos afaimados que sonham com os dias de fortuna, epifanias e levitações?

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Durante a ligação, o repórter policial Roberto Silva assume as mesmas características que o grande Stefan Zweig notou na estátua que Rodin fez de Balzac: a surpresa de alguém arrancado bruscamente do céu para cair numa realidade que já havia esquecido. O olhar de uma grandiosidade aterradora que se assemelha a um grito. Aquela expressão fisionômica de quem é sacudido em pleno sono. Aquele aspecto de sonâmbulo, junto ao qual se pronuncia brutalmente o nome. Aperto o cinto, tranco a porta. Roberto Silva volta a pisar fundo, em busca do próximo corpo.

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Se não estivesse tão quente, Meursault não assassinaria aquele árabe e você não invejaria os trabalhos forçados do grande Dostoiévski na Sibéria. Batesse única rajada de vento, você não sequestraria tua irmã nem ameaçaria teu próprio pai. Se estivesse um pouquinho menos quente, Juarez Arantes não guiaria seu Del Rey pelas ruas maringaenses com os vidros escancarados, exposto a trombadinhas, ladrões ou algum parente querido.

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Poças de água inundam axilas, encharcam a palma da mão, transbordam de palavrões o velho abanando a camisa – é verão.

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Parque Alfredo Nyffeler: sol mergulhando na nascente do Ribeirão Morangueiro. Setenta tons de verde, dependendo da inclinação dos raios e das tantas sombras. Verde oliva. Musgo. Esmeralda. Samambaia. Verde mar, amarelado, lima. O mesmo verde dos lábios de Eva Green. Aqui, o velho Monet não pintaria novo ciclo de suas ninféias? Você não é menos elegante que Woody Allen zanzando no Central Park ou Milan Kundera flanando pelo Jardim de Luxemburgo.

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Andar pelo Parque do Ingá é esbarrar num punhado de macaquinhos - a glória da criançada. Um deles persegue uma borboleta dourada, sem ser notado pelo grupo de turistas, todos armados com celulares hipermodernos. Com desenvoltura, pula os troncos de árvores caídos na mata, desvia da pedra, tenta em novo pulo abraçar a borboletinha – brincam, os dois, ou é a fome batendo forte?

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Quinze anos de espinhas e canelas finas. Bonés disfarçando semblantes salivantes. Debaixo da escada rolante do shopping, gordo e magro assistem a digníssima mãe trintona subindo em vestidíssimo florido: panturrilhas torneadas, coxas lisinhas, a polpinha acenando no alto da escada. Mulher em escada rolante não é melhor que goiabada com queijo?! Videogame e Coca-cola!? A última camada de açúcar na filhó quentinha!? O que seriam dos hormônios sem os adolescentes?

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O vento lambe o vestidinho da morena, derruba o chapéu do velho e empurra a abelha para dentro da tua latinha de Coca-Cola – é verão.

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A sortuda gotícula de suor escorre pela testa da moçoila, raspa na sobrancelha, percorre o narizinho,contorna lentamente os grandes lábios, mergulha na profunda covinha de sorrisos e, logo na beirada do queixo, depois de lamber cada centímetro daquele rostinho, encerra a jornada com um salto mortal em direção à esteira negra - viver mais pra quê?!-, onde jaz bravamente, no êxtase da paixão, aplaudida por Goethe e outros poetinhas fatais.

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Já leu as linhas de umbiguinho tão poético? Dois quartetos e dois tercetos. Decassílabos platônicos. Dicção severa. Sussurros de Shakespeare & Camões. A boquinha vermelha acelera teus batimentos cardíacos – uma escola de samba inteirinha com repiques, surdos, chocalhos, cuícas e tamborins batucando teu próprio peito.

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No Sebo Cultura, diante da morena de dezoito aninhos, me perco naqueles contornos. Dela ecoam as seis suítes de violoncelo do Bach, executadas pelo grande Mstislav Rostropovich. A "Marcha Turca", do Mozart, surge em cada covinha dela. Se provasse aquele riso, Bruckner teria composto mais quarenta motetos. De passagem pelo sebo, competentes críticos musicais falhariam vergonhosamente se tentassem desvendar cada surpresa harmônica daqueles lábios, perdidos entre oitavas neutras, tercinas arpejadas, linhas ondulantes e vigorosas oitavas no final. Ouça: a tensão dramática dela não é aliviada pelo amável tema do rondó? Ai, que rondó!

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Molhadinha de suor, shortinho rosa coladinho, blusinha preta, cabelo preso num rabinho de cavalo. Nas panturrilhas à mostra, duas maçãs vermelhíssimas – só para você morder?

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Seu riso, a última camada de açúcar da filhó quentinha, cheia de canela.

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No adeus daquela boquinha vermelha, você não dá todas as razões ao maldito Humbert Humbert?

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Pouco importam as loiras de Renoir, a ruiva do Klimt, os peitos de Delacroix: há mais obras-primas circulando pelas calçadas maringaenses do que expostas nas paredes do Louvre.

RETROSPECTIVA Publicada no Diário (3/1/2016)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Anão, pastel, musas, suor, cães e Deus

No terminal rodoviário, você reflete a tua Maringá. Não a Maringá dos pontos turísticos, da chatíssima igreja-cone e das infinitas fragrâncias do Rio Bostinha. Não a Maringá dos 547 trovadores, dos vendedores de sorte ou azar e dos incontáveis berros sertânicos – em cada bar dessa cidade você é refém de alguma dupla sertaneja. Única maravilha? Suas calçadas cheias de moças, banhando as delícias debaixo do bendito sol.

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Alguns apartamentos do Edifício Maurício Schulman têm cozinhas e banheiros virados para os corredores. Na porta de um deles, o aviso à Saramago extermina todas as vírgulas: "Deus está no controle não entre aqui com raiva mau humor pessimismo intrigas inveja porque acreditamos na vida que fazemos e principalmente temos fé". Por que exibir sua fé aos vizinhos? "Ponhando a palavra do Senhor aqui no vidro, quero impactar um pouco. Muita gente do prédio precisa de Deus", justifica o sujeito.

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Latidos graves e potentes ecoam de um dos apartamentos do Edifício Maurício Schulman. Quem responde, noutra janela, é um latido menos encorpado, mas também grave. Dá para ouvir tudo bem nítido: dois barítonos no primeiro ato da opereta canina. Interrompendo o dueto masculinizado, um terceiro latido, agudo e estridente - eis a nossa Maria Callas! -, assume o posto de soprano. Nem o severo Karajan seria capaz de encerrar a performance do trio.

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Encostadinha no muro, uma loirinha transcendental refestela-se com pastel de queijo e sodinha bem gelada. Shortinho jeans, blusinha branca, boquinha pintadinha de vermelho – ai, essas moças de lábios vermelhos. Não tem ela os ombros altos de Liv Ullmann? As coxas portentosas de Anita Björk? Nos olhos, a mesma melancolia de Ingrid Thulin? Quem não daria tudo para ouvir os pensamentos da nossa sueca bergmaniana?

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A sexagenária mancando, apoiada numa bengala, carrega duas sacolas cheias de milhos e verduras. Ela está suando e parece fazer um esforço tremendo para caminhar – a feira não é sua via crucis?

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Na banca de rosas, com flores vermelhas, amarelas e brancas, a japonesa lamenta a queda nas vendas. "Ninguém quer ser romântico com a crise. O pessoal quer é comer, né?"

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O amor é o grito suicida na goela do gago .

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O cemitério parece quieto, mas não é. Prestando atenção, você escuta os diálogos dos mortos:
"O mausoléu mais bonito, aqui de Maringá, é do João. Parece obra de arte."
"Se esse treco é uma obra de arte, o que dizer do 'Último Adeus', do Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo?"
"Cala boca, quero dormir!"
"Quem consegue dormir nesse calor?"
"Fosse vivo beberia todos os vasilhames do Divina Dose."
"Venderia fácil minha alma por uma última noitada no Skolzinho."
"Alguém aí sabe dizer que horas são?"
"Mãezinha! As minhocas tão fazendo cosquinha de novo!"

***

Às cinco da tarde, a praça Raposo Tavares é melancolicamente erótica. A anã, negra, oferece as perninhas magricelas e as mãozinhas miúdas. Sentada no banquinho, lançando olhares maliciosos, uma prostituta sexagenária veste blusona vermelha, chinelão de dedo e saiona jeans. No sorrisão da doce senhora, o que seduz mais? O dentão amarelo e a verrugona na bochecha esquerda, ou as pernonas infestadas de longas varizes azuis? O amor, na praça Raposo Tavares, tem todos os motivos do mundo.

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À mostra, as perninhas macilentas e cheias de varizes azulonas, que se cruzam e formam cidades com pontes, igrejas, pracinhas, penitenciárias e estádios de futebol, não são as iscas mais eficientes?

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Vinte e poucos anos, loirinha, olhos castanhos, sorrisinho de sexta-feira: com a professora Polyanna Bavia Capdeboscq, você não tomaria todas as lições prazerosas da vida? Mão posta à palmatória - bate!, bate!, bate! - você erra de propósito a tabuada e o bê-à-bá. Sabatinado em plena saleta, diante da cruz de mármore, você confunde briófitas com pteridófitas, troca Machadinho por Zé de Alencar, e, espada em riste!, declara guerra a Oliver Cromwell ou qualquer outro grande nome que desperte admiração da professorinha, oferecendo o corpo inteiro aos tapas e beliscões, ansioso pela punição mais dolorosa - o amor.

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Tomasse aulas com essas novas professoras do Santo Inácio, sua vida seria radicalmente diferente. Você não odiaria Deus, não teria tanto ranço de duplas sertânicas, não compraria brigas com dramaturgos medíocres, não seria adepto fervoroso do sedentarismo, e, talvez, em alguns momentos - além da prosa do Proust, das sonatas do surdo Beethoven, de dois ou três filmes do Bergman -, você, enfim, apreciasse viver.

***

Novos acordes sertânicos dão o tom do baile da melhor idade. Quem não dança, aguarda. Sapatinho brilhante, dedões pintados de vermelho, bafão de dezessete maços de cigarro. O olhinho meio torto? Deve ser felicidade.

***

Clima de azaração. Troca de olhares. Coxas roçando canelas e sorrisos na melhor idade. Velhos conversam alegrinhos, mãos danadas abanando coxas e pescoços. Línguas rugosas encharcam lábios rachados pelo tempo – a sedução.

***

Em quarenta e seis anos de prisão, carcereiro e detenta dividindo a mesma cama de casal.
"E quantos filhos?", vou sondando.
"Tive doze filhos!"
"?!"
"Daí você me pergunta, né? Imagina, então, se o casamento fosse bom, hein?!"
Mais risadas serelepes.
"Naquele tempo, meu filho, se a mulher não queria, tinha que querer..."
"!"
"... sem berro, sem reclamar: na marra."
Uma velha afobada, de olho no verbo alheio, invade a conversa.
"A gente era estuprada! Es-tu-pra-da!", denuncia, aos berros, a voz esganiçada.
"Isso mesmo. Ai de você, se não quisesse..."
"E sempre bêbado, né, Maria?"
"Ca-cha-cei-ro! A mesma desgraça toda santa noite."
Doce gargalhada das duas velhas, alívio das mil e uma noites de horror.

***

Única entediada, uma velha tolera o show e, esvaindo-se em suor, encharca o guardanapo de quarenta graus. Sentadinha à mesa, dedinhos batucam versos sertânicos. Desânimo da música ruim, do calor castigando ou da garrafa de água?
"Bom mesmo seria uma cervejinha, né?", pergunto.
Ela escancara dentes branquíssimos – quinze mãos lhe fazendo cócegas, o mesmo êxtase dos dezessete aninhos.
"Ai, sim! Cervejinha bem geladinha", responde, remexendo de um lado para o outro a dentadura vacilante.
"Em busca do grande amor?", vou sondando.
Inquietos, pré-molares e incisivos requebram na boquinha carcomida.
"Deus me livre..."
Cai ou não cai?
"... nunca mais..."
Cai ou não cai?
"... disso tô vacinada."
Correndinha, a mão protege a bocona banguela, inteirinha nua - não para você, mas para pouquíssimos privilegiados. Último ato erótico, arremessado ao lado da cama, nessa longa estrada da vida.

***

Latidos de bem-te-vi, cantos de cachorros das casas vizinhas. O solo de nove notas de um pássaro desconhecido te arrebata no Parque Alfredo Nyffeler – você decide, de uma vez por todas, também aprender trompete.

***

Nas paredes da cadeia, o preso aproveita o tédio da prisão para compor versinhos delicados, em homenagem a um tal Lincon. Valsinha dois por dois? Pagodinho romântico? Cante como quiser: "Lincon do universo / só bala pra você / seu frango / desse (sic) na vilinha que vc vai morrer / seu safado /Vilinha!!!" Fosse o Lincon, evitaria me embrenhar nalguma Vilinha. Vila Operária. Vila Morangueira. Vila Esperança. Num show do Martinho da Vila. Toda e qualquer vila - nunca, jamais.

***

No meio de milhares de velhos enfileirados à espera do autógrafo do padre Marcelo Rossi, avisto, ao longe, uma moçoila. Desconfio do Todo-Poderoso. Não será dessas miragens? Troça celestial para zanzar à toa na multidão? Loirinha, metro e sessenta de pura louvação? Obrigado, Senhor! Afoito, vou abrindo caminho no mar de gente – Moisés, cruzando o mar vermelho, o impávido cajado nas mãos. Depois da longa caminhada, chego finalmente perto dela. Sorte minha, de carne e osso - aleluia! O nome do milagre? Fernanda Félix, 19, aluna de Psicologia da UEM. Simpática, discorre sobre Deus, totens da psicologia, tempestades, Curitiba. Como é bom mulher que se abre.

***

A chuva encharca a gripe da criança, inunda o tédio da tarde e agride a velha imóvel na esquina – outro
maldito motorista explodindo poças d'água.

***

Se ela estalasse os dedinhos vermelhos, não moveria o Monte Sinai e o Monte Sião? A escuridão não encobriria o Sol por três dias ao seu único pedido? A nuvem de gafanhotos não dominaria a cidade, se ela ordenasse, cochichando no ouvidinho? Claro que sim: moscas atacariam homens e animais!, rãs cobririam a terra!, as águas do Nilo tingir-se-iam de puro sangue!

***

O pôr-do-sol lambendo o ônibus - quase seis da tarde.

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Vou me embrenhando numa Maringá sinistra. De ruas apertadas, terrenos abandonados. Da Capela Papa João 23. Dos rostos desconfiados no açougue-boteco. Da Igreja Pentecostal Diante do Trono, com gente de terno e sorrisão nos grandes lábios – o portão sagrado escancara berros da louvação. Pó, poeira, cheiro verde. É noite. Quilômetros e quilômetros mal iluminados apressam o passo da moça, aumentam os batimentos cardíacos do velho, matam de susto o tiozinho na bicicleta. Desses becos Moisés avistou a Terra Prometida? Daqui o Senhor mostrou-lhe toda a terra, de Gileade até Dã? Essa cidade nem de longe lembra a Maringá dos cartões postais.

***

Na frente do Mercadão, trânsito infernal. Não é a nossa Julie Manet, caminhando na calçada? Os mesmos olhos tristes, aquela boquinha vermelha?! De sainha rosa, blusinha preta, meia rosa erguidinha e cabelinho preso num rabinho de cavalo - ó hexâmetros órficos da Grécia heroica!, ó margens do rio Hebro!, ó azeite de oliveira puríssimo! De pé, eu me ergo: levanto ligeiro, embasbacado pela mirra mais preciosa, arremessando flores e versinhos líricos.

***

As bochechas de um Buldogue, no Parque do Ingá, escorrem do rosto canino – inspiram-se nos relógios
molengões de Dalí ou nas flácidas bochechas do dono amado?

***

Na janelinha do Facebook, a morena de vinte aninhos insiste que o empresário sessentão envie selfies eróticos. Seguindo as orientações, ele foi compartilhando tudinho - não era a maior provinha de amor? Orgulhoso de sua torre de Davi!, seu cume de Hermon!, tirou três selfies, sem aumentar nem diminuir nadinha. "E a minha vida, agora, como é que fica?"

***

Naquela orelhinha, você não sussurra os versinhos proibidos do danado Bocage? Não entoa, suave, a "Tristesse", do Chopin? Feche os olhos: veja as grinaldas de Hera!, os ramos de videira!, as margens do rio Hebro! Saciadas, as duas loiras da barraca do pastel encerram suas respectivas contas e, cada uma para um lado, partem para o cortejo báquico, ao som dos tamborins dos coribantes. Quem, ali, não ofereceria bodes, coelhos e pássaros corvídeos à passagem das duas deusas?

***

Bonfim começou a perder a visão aos 11 anos e ficou completamente cego aos 23. Às quartas de feira, canta quatro horas seguidas.Durante o concerto, volta e meia passa a mão na cumbuca à sua frente – esperto aos larápios sacanas. "Nunca vi alguém me roubando", garante.

***

A resposta da moçoila causa cócegas em violinos – já ouviu, assim, tão pertinho, três bailarinas sorrindo?

***

Debaixo da mesa, na biblioteca Bento Munhoz da Rocha Netto, a ruivinha vai despindo, lentamente, o All Star colorido. Meinha por meinha, primeiro o pezinho esquerdo e depois o direito, até a brisa geladinha do ar-condicionado refrescar cada dedinho nu. Embasbacado, você testemunha o silencioso strip-tease dos pezinhos da estudante.

***

No Ceasa, encontro Rita Andrade de Paula, 76. Leitora fiel. Me presenteia com vinho francês e puxa assunto.
"Pra quê esses olhos tão grandes?"
"Jamais perder o mínimo detalhe."
"E esses dedos, por que tantos calos?"
"Marcas das tantas escritas."
"Por que insiste em usar chapéu?"
"Nele cabem todas as minhas mentiras."
Olhos trêmulos, voz tremelicante.
"E tudo o que você escreve, Gaioto, é mesmo verdade?"
"Tudo é real no universo da ficção."
"Quais conselhos aos jovens escritores?"
"Desista enquanto é tempo."
"E uma segunda dica?"
"Evite reticências... maldito recurso covarde."

RETROSPECTIVA Publicada no Diário (29/12/2015)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Raul Seixas, top model, choro, paraíbas e trenzinho de tédio

"Eu não sou besta pra tirar onda de herói. Sou vacinado, eu sou cowboy. Cowboy fora da leeeei!", esgoela-se o rapaz magricelo, empunhando um velho violão, na frente de uma loja. São oito horas da noite e o comércio surge escancarado. Vai e vem de gente, famílias inteiras, uma e outra pessoa com sacola de presente nas mãos. Quinze loiras cruzam a calçada em um minuto e meio de canção – ninguém arremessa moedinhas, nem ao menos acenos e afagos ao jovem cantor. As capengas luzes coloridas, agarradas aos troncos das árvores, deveriam distribuir alegria aos cantos da cidade – as ruas não ficam, no final das contas, mais tristes e melancólicas? No caos da São Paulo, o cantor insiste nos versos ignorados. "Durango Kid só existe no gibiiii." A criança babona tapa com as mãozinhas as duas únicas orelhas, irritadiça de Raul. "E quem quiser, que fique aquiiii." Tivesse outra orelha, não taparia também a terceira? Dois gordos riem deboches do artista – a voz do povo não é a voz de Deus? Uma velha se benze, fazendo sinal da cruz – rock nunca foi coisa do Senhor. "Entrar pra história é com vocêêêês", finaliza o sujeito, berrando ainda mais alto, diante do descaso público.

Sem única palma, encosta o violão na parede. A pausa do cantor popular não tem pedidos de selfies nem disputa por autógrafos. Onde as tantas groupies insaciáveis? Calça jeans, camiseta preta, chapéu de vaqueiro. O cansaço evidente de quantos concertos?

"Tô desdas duas. Canto uma hora, uma e pouco. Daí, intervalo. Senão, diretão, ninguém guenta", comenta Jair Moreira, 20, sem estrelismos nem petulantes assessores de imprensa.

A capa da viola, dormindo no chão, não recebeu notas nem moedas. Mas o público nem sempre é tão muquirana.

"Já teve dia que tirei R$ 120", gaba-se o cantor, que mora em Sarandi e toca para cá quase diariamente, há seis meses, onde assume a trilha da calçada. De repertório minimalista, dedica-se a retomar canções de apenas três artistas: Raul Seixas, Zé Ramalho e Ventania. Sua Santíssima Trindade. Vez ou outra, sem aviso prévio, chega a executar uma de suas únicas doze músicas próprias.

"Tudo que faço, ofereço pra Ele..."

Outro desses - ai, não! - louvadores da aleluia.

"...quem me guia e me rege..."

Santa paciência: prepara-te para três horas ininterruptas de conversão religiosa.

"...quem me socorre e me protege..."

Por que tão onipresente, pô?!

"...meu Santo Satanás..."

"!!!"

"...meu Pai da magia..."

"?!?"

"...quem sempre tudo dá."

Pergunto sobre o Diabo. Jair responde tudo baixinho - jamais ser descoberto pelos cristãos maringaenses, ainda mais em climão natalino.

"Nossa seita, em Sarandi, conta com vários fiéis, mas eu não posso te dar detalhes. É tudo secreto", adianta.

"Não tem filial em Maringá?"

"Infelizmente, não."

Disso, já suspeitava. Nem o Diabo suporta esta cidade infernal, terra das trezentas duplas sertânicas.

"Muitas oferendas em Sarandi?", questiono.

"Claro. Dia desses sacrificamos um bode. Acho que Ele gostou. Mas o comum é oferecer galinha preta e coelho."

"São alegres as celebrações?"

"Com muita música, viola, pacto de sangue e bruxaria: tudo com muito respeito e bom gosto."

"Quais princípios da turma satânica?"
"Liberdade, amor, vida e luta."

"Paga pra entrar?"

"Tem o cofrinho do dízimo. Quem pode, vai colaborando."

"!"

"Alguém tem que bancar as velas, o sal grosso... São várias despesas."

Balaio do dízimo. Musiquinha fervorosa. Fiéis clamando milagres. Orações e sacrifícios. Deus & Diabo não são tão diferentes assim na terra do sol.

Agruras do coração

Longe dos seguidores diabólicos, vou flanando pela Brasil anoitecida. Papai Noel sorridente. Árvores enfeitando vitrines. "PROMOÇÃO." "TUDO POR R$ 10,99." "PRESENTE DE NATAL E AMIGO SECRETO É AQUI." Entro. Chinelo verde. Cadeira de praia. Bomba de chimarrão. Boia de jacaré. Copo vermelho. Boia de pato. Puff rosado. Todo mundo espia, mas poucos abrem carteiras. No bocejo da vendedora, o tédio de nada fazer. Animadinha, a senhora serelepe é a única empolgada nas compras.

"Venha cá, Camila, ponha isso por cima!"

A garota de cinco aninhos obedece e vai vestindo o vestido branquelo.

"A Camila é oito, né?"

"Isso, mãe."

Decotadíssima e curtíssima, a tal peça infantil.

"Sei não, hein. Isso aí tá curto demais."

"Que nada, filha, tá cada vez mais quente!"

A menina tira o vestido, a vó já enfia outro pela cabeça.

"Um mais lindo que o outro!"

Debando da loja. O trenzinho cheio de crianças cruza a Brasil, tocando musiquinha estridente e revelando rostos entediados.

Planalto bombástico

"Ólhaaa rédi!", anuncia o paraibano na calçada.

"Quanto, amigo?", indaga o pai de família, já prevendo a sesta serena, apreciando a qualidade dos panos na ponta dos dedos.

"Quarentinha!"

"Credo, que horror!", diz, imediatamente afastando a mão – o mesmo pavor de tocar num velho leproso.

As pencas de pano não emplacam. Culpa de quem?

"Da Dílma. Ela meréce sábi u quê?"

"?"

"Qui um cábra ponha dinamíti e exploda túdo áquilo lá."

"!"

"Tém que explodí a Dílma!"

Anti-cristos, crise econômica e paraibanos explosivos. Tem quase de tudo. Menos travestis e garotas de programa. Ninguém quer se exibir com tanta gente zanzando de lá para cá, nas mesmas calçadas natalinas.

Agruras do coração II

Passos adiante, uma pausa. Não para contemplar as chatíssimas árvores de luzinhas tortas. Mas, sim, para aplaudir um vestidíssimo branco. Tatuagem indecifrável no punho. Às nove e pouco, esperando familiares consumistas. Sobrancelhas perdidas na Getúlio Vargas, rosto ensopado de lágrimas.

"Por que choras, meu bem?"

Deve ser essa época do ano. Todos, cada vez mais melancólicos.

"Não, nada disso. Adoro Natal. O problema não é a festa..."

No cantinho da bochecha, uma lágrima salta ao suicídio.

"...meu problema é ele."

Namorado? Ex? Noivo? Maridão louco de amor?

"Um amigo... meu vizinho. Resolveu infernizar minha vida e fica 'fazendo fusquinha'!"

"?"

"Virar a cara, fingir que nem sabe o motivo do choro: isso é 'fazer fusquinha'."

Entre os grandes lábios, trinta e dois dentes respondem a cócegas imaginárias da gíria automobilística – finalmente, um sorriso.

"Não admito que pensem isso de mim, sabe?"

"..."

"Sou tra-ba-lha-do-ra. Estudo à noite, trampo o dia in-tei-ro, de do-min-go a do-min-go. E agora vem esse i-di-o-ta..."

Mãos que se coçam não querem esganar o vizinho?

"...dizer pra toda a minha família que eu sou..."

"?"


"...ga-ro-ta de pro-gra-ma?!"

Um rapaz moreno invade nosso diálogo. Meio constrangimento de. Teria ele? Achando que ela? Ai, não.

"Aceitam cone trufado?", questiona o vendedor, fingindo nada ouvir.

Essa época do ano, todo mundo tem algo a oferecer.

Educadamente, a moça responde que não. Também dispenso acepipes adocicados.

"Me desculpe, viu? Sou assim, toda derramada..."

Braços morenos arrepiadinhos pela lambida do vento.

"...qualquer coisa, eu choro."

Quer dizer, chorava. Agora, seu rosto surge livre da tristeza. A mãe, gorducha cheia de compras, surge por trás e diz que é hora de ir embora. Menos tristonha, a moça agradece o dedo de prosa. Você, anônimo psicólogo das ruas maringaenses.

Top model

Quando me dou conta, estou sentado num ponto de ônibus da Joubert de Carvalho. Há umas três horas, quando o Sol ainda dava os últimos acenos, foi exatamente aqui. Ainda, no ar, os mesmos tons de begônias e camélias. De início, desconfiei de minha miopia. Forcei a vista. Ombros altos, olhos castanhos, lábios vermelhíssimos. Séria sisuda. Mulheres assim não existem só na ficção? Sainha jeans, um palmo e meio acima dos joelhos - ai, que joelhos. A literatura não surpreende tanto quanto a misteriosa moçoila maringaense. O nó na blusinha jeans exibia o mais lírico dos umbigos – ali se encontram o Bem, a Beleza e a Verdade. Já leu as linhas de umbiguinho tão poético? Dois quartetos e dois tercetos. Decassílabos platônicos. Dicção severa. Sussurros de Shakespeare & Camões. Naquele umbiguinho, razão e emoção te confundem. Catatônico, fui puxando assunto.

"Aposto que..."

Um metro e setenta e nove de curvas morenas te encarando sem curiosidade.

"...modelo?"

Sinta cada perfume: mescla de lírio do vale, begônias,camélias, gardênias, jasmim-manga e canela.

"Como adivinhou?", surpreendeu-se Mariana.

A boquinha vermelha acelera teus batimentos cardíacos – uma escola de samba inteirinha com repiques, surdos, chocalhos, cuícas e tamborins batucando teu próprio peito.

"Sou modelo formada há muitos anos. Fiz fotos, desfilei em São Paulo, Curitiba, Londrina, Cianorte e até posei para a Vogue brasileira."

"!"

"Mas a foto só saiu da cintura pra baixo..."

"!"

"...era matéria sobre calça jeans."

Ai, o tão esperado sorrisinho natalino. Geralmente, essas modelos são todas secas e antipáticas. Tudo diferente com nossa top model. Nas marés de Mariana, você navega o Pacífico, o Atlântico Índico, o Glacial Ártico e o Antártico – cuidado, Gaioto, para nela não se afogar.

"Tô pensando seriamente em ir embora desta cidade."

Ai, não. Nunca!

"Aqui, modelos magrinhas, como eu, não têm muito mercado. Só querem essas do tipo paniquetes, bombadas e tal."

Maringá, túmulo da beleza feminina.

"E o tal do book rosa... você já..."

"Nunca nem ouvi dizer dessas coisas por aqui."

"E o namorado? Aposto que..."

"Larguei domingo. Em dúvida se gostava ou não."

Solteiríssima, ela estende o braço nu de pelinhos dourados. É o ônibus dela. Tua despedida tem gosto amargo - não poderia ser diferente.

"Última pergunta: qual idade?"

"Dezesseis anos. Acredita?"

"!!!"

"Vou terminar o Ensino Médio e ir embora dessa cidade."

E me pego salivando detalhes do encontro, ainda em plena Joubert de Carvalho. No adeus daquela boquinha vermelha, você não dá todas as razões ao maldito Humbert Humbert?

Publicado no Diário (13/12/15)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Berros, bombas, Batman, canto, terroristas, Polyanna & Maysa

A trintona de olhos claros invade a recepção do colégio e deixa com a secretária um boneco de super-herói. Explica que é para o filho dela, do tal ano, dá um sorriso sem graça e, de olho no celular, sai rapidinho de cena. Tudo muito ligeiro. Outros dois pais imitam o itinerário da mulher. Um deixa helicóptero de guerra. Outro estende boneca de braços abertos. "Você veio no dia certo", comenta uma das orientadoras do colégio, notando que observo o entra e sai de pais apressados. "Estamos na Semana da Criança e hoje é o Dia do Brinquedo: cada uma traz alguma coisa e todo mundo se diverte", diz, escancarando a porta que leva à criançada.

De volta aos corredores da infância perdida - aqui você correu, caiu, berrou e amou 78 garotas diferentes -, vou me embrenhando no Colégio Santo Inácio. A temida sala da orientação, vazia às dez da manhã, ainda te dá um frio na espinha – entrar ali é amargar sete dias sem presentes novos. Gritaria, cavalos galopantes, gargalhadas estridentes, explosões de bombas nucleares, tiros de submetralhadoras norte-americanas e berros de tortura ecoam de uma das salas. "Que tal essa? Aqui, os alunos têm só quatro anos. Qualquer coisa, me chama. Boa sorte", sinaliza a coordenadora, me jogando no meio de três dezenas de pequenos terroristas do Estado Islâmico.

Meninos e meninas abandonam os enredos rocambolescos. E, surpresos, te encaram no campo de batalha: curiosos rostos interrogativos. De bermuda e camisa florida, você é menos exótico que um alien de sete cabeças. Que idioma falará? Como se comunicar? Com mãos ou basta o verbo? A que distância se aproximar? Crianças te sondam e você traça estratégias. Melhor, talvez, ficar do mesmo tamanho. Sento na minúscula cadeira. Agora, sim, de igual para igual. Uma menina espevitada rompe a barreira da timidez. E, sem aviso prévio, enfia dois dedinhos no meio dos teus tortos cabelos – que azar, nessa manhã, esquecer o chapéu. Inesperado, você sorri. E começa o ataque.

Trinta (ou seriam sessenta?) miniaturas de gente te cercam no canto da Faixa de Gaza, entre mesinhas e o quadro branquíssimo, empunhando bonecos do Capitão América, do Homem-Aranha, das Tartarugas Ninjas, boneca de olhão esbugalhado, aviões, tanques e soldados. Frases altissonantes. Tudo bem berrado.

"Minha barba também já tá grande, ó."

Olhando para você, um menino passa a mão no próprio queixo. Despenteado de suor. Bochechas vermelhas.

"Quando a gente crescer também vai ter barba?"

Cabelos espetados de gel, um garoto de quinze centímetros força a miopia.

"Sabia que meu pai faz a barba, toda manhã, bem cedinho?"

Só duas semanas sem se barbear. Você nem está, assim, tão barbudão.

"Minha mãe não gosta do meu pai barbudo."

Ou está?

"Meu pai faz o meu topete todo dia."

Dar atenção ao garoto loiro que te cutuca a barriga com o caminhão de bombeiros.

"Sabia que eu quero ser médico?"

A garota tropeça e bate a cabeça na mesa, escancarando de berro as cordas vocais – fôlego de promissora soprano.

"Olha meu Batman, ó!"

Cuidado com o pé do.

"Gosto muito de cantar (trecho incompreensível). Posso?"

Protetores auriculares: não esquecer na próxima vez.

"Eu-tro-pe-cei-sem-que-rer, pro-fes-so-ra."

A professora abraça a menina e silencia o choro. Quem é mesmo o cantor? Loiro, moreno, meio japonês?

"Ai, não, ele vai cantar de novo?"

Duas mãozinhas puxando a barra da tua camisa. Confusão danada.

"Anota meu nome na TV, anota!"

Garotos engolindo as próprias mãos. Crianças correndo de um lado para o outro.

"Eu gosto de brincar com a Risadinha, é minha boneca: ela dá risada e dorme."

"Se eu parar de fazer bagunça, meu pai vai me dar uma guitarra."

"O meu cachorro voa de abas abertas!"

"Queria que (trecho incompreensível) até (trecho incompreensível)."

Jesus, quantas vozes ao mesmo tempo?

"Também vou ficar barbudo. Que nem você!"

Meninos curiosos se avaliam – qual deles, a maior barba?

Hora do show

A professora quarentona me apresenta o jovem talento. Magrelinho de cabelo lambido. Dedinhos entrelaçados de vergonha – ou parte essencial do aquecimento vocal?

"É um grande artista: voz que é uma belezura", adianta a professora. Dona da ordem, só ela estabelece a paz. E na sala, milagrosamente, você escuta um único segundo de silêncio. Seguro de si, o artista assume o centro dos olhares. Postura ereta, peito estufado, rosto ligeiramente beijando o céu: não é o grande José Carreras, dignamente diante da plateia no Palácio Garnier? O mesmo olhar determinado. A mesma serenidade. O cuidado de sustentar a nota precisa – jamais vacilante.

"Livre estou, livre estou", entoa o fiozinho de voz, amontoando suspiros das mocinhas.

"É a trilha do 'Frozen'", cochicha, orgulhosa e serelepe, a assessora de imprensa quarentona.

Tecnicamente impecável, a performance não agrada todo mundo.

"Ai, não! É a música do filme da princesa!", reclama um garotinho, tapando os ouvidos com as mãozinhas e torcendo olhos, nariz, boca e sobrancelhas – no som, o mesmo arrepio do limão azedinho.

"Livre estou, livre estou", insiste o fio de voz.

"Vamos respeitar o colega!", exige a professora, em tom ameaçador, silenciando críticas negativas.

"Adoro essa música", elogia, da plateia, a moçoila com tiara de florzinha vermelha.

Sorriso satisfeito de quem arrebata multidões. Curvado diante da ovação, o cantor recebe as palmas febris do coração.

"Viu só? Não disse?!", gaba-se a professora.

Polyanna & Maysa


Ainda vivo, sou resgatado do meio das crianças pela coordenadora. "Vamos para uma turma mais madura", ela anuncia, já me desovando na sala ao lado, composta por crianças de cinco anos. A cena é semelhante: os mesmos brinquedos, as mesmas bochechas vermelhas. Todo mundo correndo de um lado para o outro. Quer dizer, quase todo mundo. Um japonesinho, entediado de caos, vai colorindo um desenho de silêncios, sentadinho na mesa minúscula. Alheio às brincadeiras coletivas, ele não aparenta ter mais de 38 anos?

"Sonha ser pintor?", vou sondando, de olho nos rabiscos surrealistas.

"Claro que não!", responde, sem tirar os olhos do papel, talvez consciente dos pífios salários dos artistas contemporâneos.

"Quando crescer, vou trabalhar em escritório químico..."

"!"

"...já tenho dois tablets e dois PCs."

"!"

"Ô, professora! Olha ali, ele tá mexendo no meu Batman!", reclama o japonesinho, apontando com o lápis um menino sorridente e babão.

"É um desafio constante cuidar dessas crianças todas", desabafa a professora Polyanna Bavia Capdeboscq. Vinte e poucos anos, loirinha, olhos castanhos, sorrisinho de sexta-feira: com ela você não tomaria todas as lições prazerosas da vida? Mão posta à palmatória - bate!, bate!, bate! - você erra de propósito a tabuada e o bê-à-bá. Sabatinado em plena saleta, diante da cruz de mármore, você confunde briófitas com pteridófitas, troca Machadinho por Zé de Alencar, e, espada em riste!, declara guerra a Oliver Cromwell ou qualquer outro grande nome que desperte admiração da professorinha, oferecendo o corpo inteiro aos tapas e beliscões, ansioso pela punição mais dolorosa- o amor.

As professoras - aleluia, Senhor! - já não são aquelas velhas rancorosas, mas, sim, moçoilas melífluas e maviosas. Já pensou? A cada ano de estudo, um novo grande amor escrevendo e apagando palavras, desenhos, mensagens no quadro-negro? Ai, como é bom estudar, estudar, estudar, e reprovar de ano, reaprendendo tudinho.

No pátio do colégio, exércitos de crianças correm, pulam, rastejam, sobem no trepa-trepa e, velozes, giram no carrossel: treinando para a grande batalha da vida. Atenta a cada detalhe, outra professorinha feérica: Maysa Buzzo. Ombros altos, vinte e seis aninhos, longas argolas de brincos, loirinha de unhas pintadas de vermelho - ai, essas moças pintadas de vermelho. Como resistir? "Depois do trabalho, preciso de pelo menos meia no hora no sofá, pra me recuperar. É uma loucura, né?", comenta, em meio à gritaria.

Com professoras assim, sua vida seria radicalmente diferente. Você não odiaria Deus, não teria tanto ranço de duplas sertânicas, não compraria brigas com dramaturgos medíocres, não seria adepto fervoroso do sedentarismo, e, talvez, em alguns momentos - além da prosa do Proust, das sonatas do surdo Beethoven, de dois ou três filmes do Bergman -, você, enfim, apreciasse viver.

"Professora, amarra meu tênis, por favor?", pede o garoto, trepando na nossa conversa.

Você também não pediria?

Conselhos aos velhos

Esbarro em mim mesmo no pátio do colégio – algumas partes de mim, na verdade, nunca saíram daqui. Um garoto pede que coloque seu nome no papel. Pergunto se já tem um grande amor. Ele se espanta.

"Que nada! Ainda sou criança!"

Mas é só puxar conversa que você escuta detalhes dos tantos desejos.

"Tem mesmo uma menina. Também de cinco anos, da minha sala. Até já fui na casa dela; ela, na minha. Acho que gosto dela. Mas, por favor, não coloca isso aí, hein!"

Pode deixar, pode deixar, vou dizendo aos primeiros passos das agruras da paixão. E, enquanto distribuo acenos aos meus novos amigos, vou elencando, mentalmente, dez conselhos aos velhos: 1) Cuidado ao recolher as roupas sujas: crianças guardam o tempo no bolso da camisa. 2) Nunca proíba a criança de cantar pela casa: é no canto que a criança desenha a própria existência. 3) Repare na melodia: cada canto de criança é composto por notas quentes e azuis. 4) Desbravadores experientes nunca vão explorar tantos mundos quanto canelas de criança – a viagem de uma criança só termina quando o sono pede pra descer. 5) A única criança preguiçosa é aquela que você não mais verá. 6) Distribua canetas coloridas e libere as paredes da casa (ou parte das paredes do apartamento): rabiscos de criança degolam o tédio em família. 7) Com cuidado, espie seus diálogos: crianças contam e recontam verdades de mentiras. 8) Nunca proíba quintal nem sol nem terra nem chuva: criança compreende o mundo no relevo da mão. 9) Choro de criança tem 14 mil caracteres (incluindo espaços). 10) Velho, você foi a mesma criança de amanhã – não é rejuvenescedor?

Publicado no Diário (11/10/15)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Dentadura, clássicos sertânicos, enfarto, sedução e cárcere privado

Duas velhas ensopadas de chuva dão graças a Deus quando alcançam a área coberta do Parque de Exposições. A água encharca o vão dos dedos dos pés, inunda decote, orelha, sovaco, e despenteia o que resta da cabeleira: fios esparsos tingidos de vaidade. Velhas molhadinhas vão se enturmando. É dia de festa. No palco, a bandinha de integrantes sexagenários inicia a execução de "Nessa Longa Estrada da Vida", clássico sertânico dos tempos d'antanho. A sanfona da memória vem a calhar. Incontáveis senhoras serelepes saltam das capengas cadeiras de plástico rumo à pista, engalfinhando-se ao lado de outras dezenas de viúvas que cantam, caçam e dançam. Duas horas da tarde de uma terça-feira. Aqui, ninguém se importa com o horário – o tempo passa sempre lento, indiferente aos anseios do Baile do Idoso.

Clima de azaração. Troca de olhares. Coxas roçando canelas e sorrisos na melhor idade. Casais conversam alegrinhos, mãos danadas abanando coxas e pescoços. Línguas rugosas encharcam lábios rachados pelo tempo – a sedução. Atenta, a doce estudante de Educação Física da UEM não desgruda os olhos da pista, animada pelos dançarinos idosos. "Quem me dera essa empolgação toda", surpreende-se Erica Leme, 22. No meio da velha guarda, uma única garota encarna o sertanejão, descalça, formando par com a própria mãe. "Venho pra acompanhar mesmo. Dançar é uma das minhas paixões", comenta Virginia Pereira, 16. De vestidinho em branco e preto, segurando o saltinho alto com a mão direita, ela está visivelmente exausta: não é fácil acompanhar o ritmo dos tantos anos.

Prisão de amores

A música termina sem as palmas febris do coração. Os artistas, aqui, são os próprios dançarinos. Chego junto. Maquiagem desbotada no toró. Vestidão florido, decotão generoso, cabelo preto lambido na testa. Setenta e sete anos aparentando uns 98.

"Meu tempo de casada foi um inferno. Única bênção da minha vida, quando ele foi embora. Há quinze anos."

Olhinhos faiscantes metralhando cada dançarino.

"Meu marido me atazanava. Me chamava de tudo quanto era nome. Aquilo era o diabo em pessoa. Me trancava em casa. Nunca me levou pro baile. Dançar assim? Nunquinha."

Em quarenta e seis anos de prisão, carcereiro e detenta dividindo a mesma cama de casal. Todas as noites.

"E quantos filhos?", vou perguntando.

"Tive doze filhos!"

"?!"

"Daí você me pergunta, né? Imagina, então, se o casamento fosse bom, hein?!"

Mais risadas serelepes.

"Naquele tempo, meu filho, se a mulher não queria, tinha que querer..."

"!"

"... sem berro, sem reclamar, na marra."

Uma velha afobada, de olho no verbo alheio, invade a conversa.

"A gente era estuprada! Es-tu-pra-da!", denuncia, aos berros, a voz esganiçada.

"Isso mesmo. Era estupro toda noite. Ai de você, se não quisesse..."

Doce gargalhada das duas velhas, alívio das mil e uma noites de horror.

"E sempre bêbado, né, Maria?"

"Ca-cha-cei-ro! A mesma desgraça toda santa noite."

Risos centenários concluem no bailão: o casamento é o sepulcro do amor.

Às senhoras, pergunto sobre a paixão. Dessa louca mania de casar cedo, morar junto para todo o sempre, amém. Quase todos os seus amigos, na casa dos vinte e poucos anos, não estão se metendo em frutíferas famílias? Em uníssono, a rápida resposta da dupla:

"Deus me livre!"

Olhar de nojo, asco, contorcendo todos os músculos do rosto – você, criança, deliciado com o azedinho do limão.

Descompasso do gordo

Novos acordes sertânicos dão o tom do baile. Quem não dança, aguarda. Sapatinho brilhante, dedões pintados de vermelho, bafão de dezessete maços de cigarro. O olhinho meio torto? Deve ser felicidade. Sentadona de frente para a pista, ela acompanha corpos sacolejando – cada partido solteiro, novo sonho da velha.

"Solteiríssima?", indago.

"Vim solteira. E tô pescando", sinaliza, serelepe.

À mostra, as perninhas macilentas e cheias de varizes azulonas, que se cruzam e formam cidades com pontes, igrejas, pracinhas, penitenciárias e estádios de futebol, não são as iscas mais eficientes?

"Fiquei viúva e minha mãe, de 79 anos, também enviuvou. Viemos juntas. Olha ela lá, bailando."

Apontando a senhora de longe – epa!, não é a mãe mais nova que a própria filha?

"Só acho que podiam tocar música mais antiga."

"!"

"Por que não cantam 'Saudade do Matão'?"

"?!"

"As músicas de hoje são tudo ruim. Cê não quer dançar comigo?"

Doce risada, a da liberdade.

"Ah, não dança? Que pena. Sabe que não tenho tipo favorito?! Pode ser qualquer um. Desde que dance bem. Olha esse, ó, que tá passando."

Gorducho arrastando passos em sapatos marrons. Boca aberta, olhos confusos com tantos braços e movimentos, camisa azul por baixo da calça jeans surrada.

"Ô, dança comigo aê!"

A ordem de berros surpreende o sujeito. Intimado de supetão.

"Dança comigo, vem!"

Passivo e submisso, ele acata. Ombro com ombro. Mãozinha vacilante na cintura – dele e dela. Discrepância evidente dos dançarinos. Passos frenéticos de garça magrela, lentidão de elefante obeso. Dois pra lá, dois pra cá. Canhestros sem clima. Ela sussurra no ouvido dele uma série de palavras - impublicáveis? O grupo entoa "Ainda Ontem Chorei de Saudade", recebida pelas experientes dançarinas com gritinhos de delírio – beatlemania do sertão. Trilha ideal. Mas há certo descompasso. Não vai dar certo. Não por muito tempo. Menos de dois minutos de dança, ela volta à cadeira um bocado frustrada. E o sujeito, como se nada, segue caminho.

"Acredita que pisou no meu pé? Meu Deus, como dança mal", critica, compenetrada no criterioso processo seletivo.

Morte e vida londrina

Para não morrer de fome, doze velhos aguardam enfileirados no quiosque – ali, não existe atendimento preferencial. O dinheirinho bem guardado na mão firme é para água (R$ 2), refrigerante (R$ 3) ou porção de frango (R$ 10). Cardápio minimalista. Cadê a cerveja geladinha? Caipirinha de limão? Onde a sobremesa? Doce de goiaba com creme de leite? "Aqui não tem nada disso. A maioria da velharada é diabética ou hipertensa. Cervejinha ou vinho, meu filho, só de vez em nunca", explica a senhorinha de 68 anos. Mas cerveja e acepipes adocicados são o que menos fazem falta.

"Ruim é essa falta de homem, né?" Sobre a ausência, ela tem razão. Onde os grandes varões? Herói de Tirso de Molina? Insuperável dançarino de tangos e boleros? Eterno rei das trovas, exibindo canetinha no bolso da camisa – prestes a rabiscar versinhos de amor à musa da tarde? "Tão tudo enfiado no boteco. Enchendo a cara, jogando bocha, berrando no baralho. Homem quando fica velho se aposenta de tudo. Até disso que cê tá pensando! Daí pro enfarto é um passo só. E a gente fica aqui, que nem besta, caçando homem pra bailar", reclama. Vaidosa, ajeita o cabelinho a todo segundo. Dedões enrugados volta e meia tocam o brincão balangando na orelha – quantos já perdidos nessa vida inteira? Rapidinho, pouco tempo de conversa te escancara a morte: o marido, falecido há muitos anos. Ela tinha acabado de chegar em Londres, onde a filha entrava em processo de parto. Quatro dias depois do desembarque, a mensagem. "Enfarto fulminante. Caiu durinho." A morte não atrapalhou a vida. "Nem voltei pro enterro no Brasil. Fazer o quê?! Morreu, morreu, ué", comenta a velhinha, já abraçando as amigas que acabam de chegar ao baile. "De Londres, acompanhei o nascimento do meu neto. Desde então, tô na ativa. Danço um pouco de sertanejo, só me falta valsa e bolero."

Dentes vacilantes

"Mas o tempo cercou minha estrada e o cansaço me dominou. Minhas vistas se escureceram e o final da corrida chegou", esgoela-se o cantor sexagenário, amontoando suspiros no formoso topete de laquê. Nos olhares lançados pelas senhoras, promessas secretas de noites em claro e cama quente. Única entediada, uma velha tolera o show e, esvaindo-se em suor, encharca o guardanapo de quarenta graus. Sentadinha à mesa, dedinhos batucam versos sertânicos. Desânimo da música ruim, do calor castigando ou da garrafa de água?

"Bom mesmo seria uma cervejinha, né?", pergunto.

Ela escancara dentes branquíssimos – quinze mãos lhe fazendo cócegas, o mesmo êxtase dos dezessete aninhos.

"Ai, sim! Cervejinha bem geladinha", responde, remexendo de um lado para o outro a dentadura vacilante.

"Em busca do grande amor?", vou sondando.

Inquietos, pré-molares e incisivos requebram na boquinha carcomida.

"Deus me livre..."

Cai ou não cai?

"... nunca mais..."

Cai ou não cai?

"... disso tô vacinada."

Correndinha, a mão protege a bocona banguela, inteirinha nua - não para você, mas para pouquíssimos privilegiados. Último ato erótico, arremessado ao lado da cama, nessa longa estrada da vida.

Publicado no Diário (4/10/15)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Defuntos, lanches, preces e jam session no cemitério

Não há como ignorar a morte. Ainda mais aqui, contornando o cemitério. Batendo pernas, você escolhe o seu epitáfio. “Glad did I live and gladly die”, do grande Robert Louis Stevenson, ou “para quem pediu sempre tão pouco, o nada é positivamente um exagero”, do mestre Zé Paulo Paes? Na última despedida, quem virá? Meia dúzia de parentes e três centenas de duplas sertanejas – celebrando, felizes da vida, o teu fim? O cemitério parece quieto, mas não é. Prestando bastante atenção, você escuta os diálogos dos mortos:

“O mausoléu mais bonito, aqui de Maringá, é do João. Parece obra de arte.”


“Do João? Tá brincando, né?”


“Se esse treco é uma obra de arte, o que dizer do ‘Último Adeus’, do Alfredo Oliani, no Cemitério São Paulo?”


Silêncio entre os mortos.

“E a escultura do Francisco Leopoldo e Silva, ‘Interrogação’, no Cemitério da Consolação?”


Mais silêncio entre os mortos.

“Eu, aqui, debaixo da terra sem um túmulo decente... Bom mesmo seria um nu feminino, em cima da minha lápide, tão sensual
quanto à moça de ‘Solitudo’, do Francisco e Leopoldo e Silva, lá na Consolação.”


Os mortos voltam a discutir. Alguns berram de raiva, outros dão risadas. 


“Cala boca, quero dormir!”


“Quem consegue dormir nesse calor?”


“Parece que chegaram mais dois novatos hoje.”


“Fosse viva tomaria mil sorvetes.”


“Novatos, quem são vocês?! Nome completo e causa da morte!”


“Fosse vivo beberia todos os vasilhames do Divina Dose.”


A escalada do dólar, o impeachment petista, o escândalo de lordes ingleses - assuntos importantíssimos não interessam aos mortos maringaenses.


“Sejam bem-vindos ao cemitério, novatos.”


“Venderia fácil minha alma por uma última noitada no Skolzinho.”


“Compraria um revólver e mataria algum cantor sertanejo.”


“Alguém aí sabe dizer que horas são?”


“Mãezinha! As minhocas tão fazendo cosquinha de novo!”


Cemitério de automóveis

Os carros na frente do Prever denunciam as tantas mortes do dia. Uno. Gol. Palio. Ecosport. Corola. Pampa. Parati. Monza. Hordas de velhas, famílias, crianças. Policiais uniformizados saúdam senhoras serelepes e vão entrando no cemitério. Mais policiais zanzam no meio da rua, distribuindo tapinhas nas costas, escancarando sorrisos macilentos. Parentes que não se viam - há quê de anos? - emendam abraços e conversas. A mesma morte que separa, também une. Sentadinha na frente do Prever, abanando o suor com a mesma mão que esbofeteia o mosquito, uma velha morre de calor. Quase quarenta graus para acompanhar a morte alheia – você, suando bicas, também morre aos poucos.

Das sete salas de homenagens, duas estão abertas. Seis velhos velam o corpo de um homem numa delas. Mais concorrida, a despedida da mulher ao lado atrai nove pessoas. Ninguém chora nas salas. Não nessa segunda-feira, às seis da tarde. De frente para os dois corpos, é forte o cheiro de presunto – um menino se regala com sanduíche recheado. As outras salas estão vazias. Entro. Raspas de flores. Cadeiras tortas. Vazio suporte de defuntos. A morte passou por aqui. A fome atacou pacotes de bolachas e pães. Uma Bíblia aberta em algum versículo de Marcos refresca a leitura do crente: “apenas o trigo amadurece, logo se mete a foice, pois é a época da ceifa”. Única lembrança da homenagem, o nome da mulher continua pregado na parede: Terezinha Elias Batista. Ceifada pela vida.


No bebedouro, mãos tremelicantes estendem o copo. Ao som da água que escorre geladinha, o velho lambe os beiços rachados pelo tempo. Mata tudo numa só golada, olhão escancarado, fio de baba escorrendo pelo queixo - essa grande sede de viver.


“Tô aqui pro enterro do meu irmão”, diz o velho. “Morreu novo, só tinha 78 anos. Foi câncer de próstata, não fez direito os exames. A próstata dele ficou desse tamanho, ó. Você, quando chegar aos 40, e se chegar lá, vá logo fazendo os exames, viu?”, aconselha, num tom quase ameaçador.


O movimento parece paradão, mas o dia foi um agito só. “Hoje de manhã tinha mais cinco mortos. Às vezes, tem tanto morto que nem tem onde deixar. Daí a família tem que esperar. Ou ir noutra capela. Tem vez que morre doze, quinze, tudo de uma vez”, comenta uma faxineira. 


A passos firmes, um sujeito entra no Prever carregando um caixote de acepipes. Coca-Cola. Queijos. Pães. Margarina. Chocolates. Bate forte, a fome, rangendo teu estômago. E até penso em me regalar no velório alheio. Mudo o destino com os passos da menina. Correndinha, passa de cabeça baixa, cruzando velhas e velhos enlutados, alheia aos dois corpos mortos, rumo à máquina de refrigerantes. Ligeira, mete moedas na máquina e seleciona salgado, bombom e Guaraná. “Cresci com a morte: isso faz parte da minha vida”, comenta a jovem Keisla Amabile, 15. Neta da proprietária da floricultura ao lado, Keisla dá uma mão nos dias mais movimentados. “Venho desde pequena: entrego as coroas de flores e vou embora”, diz. Encarando a morte diariamente, ela discorre sobre o tema com desenvoltura e inteligência. “Se pudesse escolher, gostaria de morrer dormindo, sem sentir dor.” O primo dela de 18 anos, que invade a conversa, diz que a morte já deu mais trabalho. “Faz tempo que não morre um monte de gente de uma vez”, lamenta o garoto. “Parece que até a morte tá em crise”, comenta, rindo. 

Volto para a frente do Prever. Na saída de um enterro, dezenas de pessoas vão saindo do cemitério em direção aos carros. Crianças tossem desenfreadamente. Beijos, abraços, promessas para uma próxima visita. 

“A gente só se vê nessas horas tristes. Passa lá em casa, pôxa.”


“Olha que eu vô, hein”, ameaça a velha.


“Ai, vai sim. Ficamos amigas por causa dela. Agora, tem que continuar a amizade.”


No meio de tanta gente – até aqui?! -, uma moçoila cruza o Prever. Olhos castanhos, longos cabelos negros, shortinho, blusinha e tênis, tudo preto feito a morte. Vinte e um aninhos de pura louvação. Nas mãos, um skate minúsculo. De criança e anão?

“É um mini long. Adoro andar perto do cemitério”, comenta a voz melíflua e maviosa.

“Os mortos não te incomodam?”, pergunto, arrancando faíscas da boquinha mais vermelha. 


“Claro que não! Super de boa. Não é um lugar triste. Tiro o meu rolê e me sinto confortável”, diz.


Estudante de Psicologia, a moçoila implora, mais de uma vez, que não divulguem seu nome. Das musas maringaenses você não aceita os pedidos mais sórdidos?


Velório ostentação

Familiares bocejantes morrem de tédio. As salas vazias te dão um frio na espinha – não é você o próximo da fila? No meio dos bocejos, um sujeito varre preguiças. Silencioso, atento a cada palavra alheia. Taciturno, lúgubre, soturno. Calado, recolhe lixos. O faxineiro mudo, perturbador em seu silêncio, é um bocado assustador. Dele não ecoam sorrisos. Olhares vazios. Empunhando o rodão de limpeza, não é a morte com sua foice fatal? Ele se aproxima - fugir ou encarar a morte? 


“Bom mesmo foi o enterro do Pinga Fogo. Aquilo deu uma multidão de gente. Nem eu, que trabalho aqui, consegui ver o Pinga. De tão grande, a fila chegava lá no Teatro, no meio da Cerro Azul. Dois agentes funerários acompanhavam a entrada e a saída do público”, lembra o zelador, forçando o esfregão no piso.


Passos pequenos, cabeça inclinada, ombros curvados para dentro. Alma penada vagando pelos corredores desertos.
“Tem vez que dá dó: não vem ninguém velar o defunto. Geralmente, porque a família mora muito longe. Tem caso até que mora em outro país. Daí vem algum amigo da família e vela o corpo. Sem choro”, comenta, olhão esbugalhado de detalhes. “Trabalhando aqui, você aprende a respeitar a tristeza alheia, a se importar com quem tá sendo velado, ainda que seja um desconhecido. Entro, faço uma oração. Mesmo pra quem não conheço.”

Repostas firmes. Amigo dos defuntos abandonados. Único aceno, o dele, antes da lápide pesada tampar o grito do cataléptico. 

“A morte é repentina. Pode ser brutal ou serena, mas quase sempre é repentina.”

As pesadas palavras do faxineiro ecoam no corredor. O mesmo peso de ameaças. Ele, porta-voz da morte. 


“Quando eu morrer, só tenho uma certeza. O Senhor Deus estará presente no meu enterro”, garante, olhão pregado na saleta vazia, imaginando seu último dia. De terno, gravata e dedinhos entrelaçados. 


Carona fúnebre

Terça-feira, seis e pouco de tarde. Poucos carros no estacionamento. Do alto das árvores do cemitério, anu-branco, andorinha-de-casa e sabiá-do-campo solam sax e trompetes numa jam session frenética. Duas risonhas velhinhas forçam a vista, rangendo testas e sobrancelhas, tentando, em vão, observar algum dos pássaros jazzistas. Sentadas no banquinho, de frente para o cemitério, mal enxergam as nervuras azulonas e as crateras de frieiras nos próprios pés, que se esfregam violentos, banhando em sangue o dedão carcomido.


“Uma pena, ter morrido. O Mané era jovem e tinha problemas respiratórios. Lutou muito, mas a morte veio”, lamenta uma das velhas.


Casais, velhos, famílias e crianças ramelentas vão brotando, aos poucos, dos muros do cemitério. Uma chupeta vermelha escorrega e vai ao chão – não é de luto o berro do bebê. 


Pessoas abrem espaço para a passagem de um veículo motorizado. Em vez de jogadores e tacos de golfe, o carrinho motorizado carrega uma velha centenária. Serelepe e sorridente. Quieto e soturno, o motorista de terno preto guia o carrinho em câmera lenta – não matar a centenária de susto? O carro fúnebre leva uma eternidade para cruzar os poucos passos de distância, do cemitério ao Prever. Satisfeita, a velha agradece a carona. “Tchau, viu. Muito obrigada.” O motorista retribui o sorriso, sussurrando palavras quase inaudíveis. Mais dia menos dia, velha e motorista não se encontrarão, por aqui, no mesmo carrinho fúnebre, encarando o mesmo percurso? Do outro lado da rua, um glorioso grupo de mulheres deixa o cemitério. Algumas, como pede o calor de quarenta graus: vestidinho florido, saltinho alto, decotinho fatal - a morte não assassina a vaidade. Com mil e uma musas,a despedida digna de todo grande herói. Assim, o meu, o teu, o nosso fim.


Publicada no Diário (27/9/2015)