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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Por quê?

Doce às vezes caramelo com hortelã
Do amargo do tomate seco uma lembrança
Menos acentuada que o azedo do maracujá doce
Se passo a língua
- e não é o mistério a preliminar favorita?
Nunca sei o que encontrar
Muda de dia com o humor
Triste tão singelo calado
Alegre meio amarelo
Na semana sente minha falta
Sem quem regue com carinho
Primeiro a língua caminha apreensiva
Pequenos círculos
Lenta sente na ponta quando treme
Desbravando molha com força
Tira e enfia
Te pega no susto encharca de desejo
Você pede
Mete!
Mas não
Ainda não
De costas te viro puxo o cabelo
Uma ou outra sacanagem
(antes meu amor)
Mão cheia um tapa ardido na sua bunda
De quatro
-mando
Você me recebe quente
Arrepia a coxa afogada em suspiros
Seus pelos
Não sabia que tão bom
-você grita
O salgado da cachaça
Esse cheiro de amora no café fresco
Por isso Luana gosto tanto de lamber seu cu

domingo, 2 de outubro de 2011

Borboletas cavalos

Nojo deles tenho sim
Sujos da sujeira da alma
Sabe?
Borboletando de asinhas loucas
Em cada esquina de Maringá
Atrevidos não é que mandam beijos piscadinhas
-enquanto os dedos apertam os seios?
Pra quem reclamar?
IBAMA?
ONU?
Obama?
U.S.A.?
Cavalos de quase dois metros
Metidos em decotes
Metidos em vestidos
Na voz a última lembrança de um machão distante
Meio assim estridente
Fanhosa
Negando a natureza
Nojo deles tenho sim
Que não é na sua loja da avenida Brasil
Todo dia provando salto alto sandália
-bem na hora de fechar
Aquela coisa
Que se esconde de vergonha
Se não tem dinheiro pra tirar
Nunca toquei num dedo de pé jamais daquilo
Aberração
Cuspo no banheiro a saliva sem um volte sempre
Comemoro quando escuto no Pinga Fogo
Quem corta na madrugada as loucas asinhas das borboletas
Com barra de ferro extintor de incêndio ou martelo
No mínimo um mês de repouso no hospital
Sem voltar pra loja e provar salto alto sandália

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Infiel

Gosto de comer mulheres. Muito. Desde que minha ex - que fodia mal e tinha uma bunda mole - me meteu um pé na bunda, há uns meses atrás, não tenho do que me queixar. Maringá acolheu um órfão de braços – e pernas – abertos. Amém. Um notívago como eu, míope, exilado de academias, é a prova de que qualquer sujeito escroto pode comer bem nessa cidade.

Quando Caio me ligou no domingo passado, dizendo ter recebido um fora da namorada de quatro anos, tentei acalmá-lo. Caio, vamos pro bar. Vamos nessa, tenho que te contar daquela morena – uma estudante de educação física da UEM que eu havia conhecido e fudido na semana passada.

Chegamos no Democrático, na Zona Sete. Gosto de lá porque toca rock, AC/DC, Metallica, e o litrão é barato. Chegamos sozinhos. Na mesa da esquerda, duas morenas e uma loira bebiam Brahma: uma mesa de futuro.

Para você saber seu efeito sobre as mulheres de Maringá, basta notar os pés debaixo da mesa de plástico. Se começarem a bater logo após você sentar, meu amigo, sua noite está garantida. Notei que uma das garotas tinha um pescoço esbelto, que me lembrou os quadros de Modigliani – além de seios, coxas e decote. Mas eu não cheguei com essa cantada por dois motivos óbvios.

Se ela fosse inteligente – característica extremamente rara em mulheres maringaenses -, talvez ficasse ofendida. Você, me chamando de pescoçuda? Talvez. Mas, como essa garota certamente tinha um nível de estupidez considerável, não seria agradável chegar citando Modigliani. Ninguém quer ser um alienígena munido de pintores numa mesa de bar.

Por isso cheguei na mesa, sentei e disse algo sobre seu pescoço. Como é lindo o seu pescoço. Ela me olhou, assustada. Sei que ninguém nunca elogiou o seu pescoço. No máximo, continuei, você sabe que arrepia e esquenta na língua ou na barba mal feita, algum ex, atual, algum noivo, você não é casada e têm filhos?

Não tenho certeza. Faz tempo que parei de olhar aliança. Já me dei bem com uma casada, e não abordaria a mesa em que ela estava sentada, nem teria fodido ela atrás do Senac, numa rua deserta, se soubesse do seu comprometimento – mas isso eu não falei para a Modigliani.

Na verdade, ela gostou de ter, pela primeira vez na vida, seu pescoço elogiado por um estranho num bar de rock. E logo chamou o Caio para conversar na mesa também - afinal, o que fazer com as outras duas garotas?

O problema é que Caio não fala. Quieto, olha, acompanha, ri e, quando quer, dá o bote, astuto. Caio fala com silêncios. Perguntei, em seguida, no terceiro diálogo da noite, há quanto tempo ela não fudia.

Vermelha, rindo alto, loucamente, bateu os braços na mesa, apoiando os dois cotovelos: taí a resposta, há seis meses, eu disse. Ela ficou ainda mais vermelha, respondeu que era a coisa mais inconveniente que alguém já havia perguntado. Cortei aquela baboseira toda, perguntei se de quatro ou de lado. Ela me encarou. De quatro, claro. As amigas, que até então estavam em silêncio, também disseram suas posições favoritas. E abriram o jogo: Modigliani namorando sério há um ano e meio, e não via seu amado, que infelizmente mora em São Paulo, há cerca de seis meses. Em três perguntas, totalmente exposta.

Ficamos mais meia hora no bar. Fomos para o apartamento da morena – não lembro o nome -, na rua ao lado do Democrático. Caio pegou a garota, logo tocou para o quarto. Eu fui para a cozinha, preparei uma caipirinha, como quem não quer foder, como quem ignora o sexo: foi o bastante para ela ficar puta. Mulher, meu amigo, é extremamente competitiva. Me empurrou para o quarto, arranhou minhas costas, esqueceu de fechar a porta, deu de quatro, de lado, de quatro novamente, deu em pé, apoiada na cômoda, gritou com a janela aberta, gritou me fode, seu animal, me fode, seu escroto, nossa, meu Deus, nunca senti isso antes, que tesão, e eu já estava satisfeito.

Para encerrar o primeiro tempo, ela ainda me puxou, no momento em que eu ia gozar, e gritou dentro não! Goza aqui, na minha boca, seu canalha. Não é assim que o seu amigo te chama, canalha? Gozei primeiro em seu olho. Depois na testa. Em seguida no queixo, gozei nos lábios e no nariz dela. Pegando no meu pau, vencido na batalha dos justos, passou no rosto inteiro, batendo aos poucos, feliz, no sorriso aberto. Nunca fiz isso, ela me disse. Acho que te amo, Alexandre. Segurei a risada, claro. Ela foi para o banho, voltou de toalha, fudemos novamente, ela tomou banho, e dormiu.

Deixei o apartamento no meio da noite - nunca durmo com uma mulher na primeira noite. Antes, notei a foto do corno da Modigliani, pregado na parede do quarto num desses corações que servem de portarretrato. Um corno exemplar. De camiseta xadrez e bermuda. Um desses bombadões de academia. Deve ser publicitário.

Modigliani acordou solitária. Talvez, vá se masturbar durante algumas semanas lembrando a noite passada em que deu para um estranho fascinado em seu pescoço. Talvez ligue para o bombadão só à noite, não no almoço, como sempre faz, dizendo te amo, meu amor, sinto sua falta, me guardando só para você, aliás, quando você vem me visitar, hem? Maringá, túmulo dos infiéis.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Tobias dos Santos Santos

Covardes
Sinto
-ah se sinto
O calafrio no pé da nuca?
Não sou idiota
Não eu
Eu?
HAHAHA
-idiota nunca não
Sei que tão querendo me matar
No começo até ficava assustado
Com um tempo de polícia nascem culhões que ninguém prevê onde
Deixa só
Como se nada
De noite quem teme é meu salmo bíblico em corpo humano
Cada dia novo susto agarrada em mim
Preocupada mais com a minha morte
Que com a minha vida
Depois do café ela tão meiga
Passa a manteiga beija me benze
Deus na minha testa pelo indicador macio dela
Que o nosso Senhor esteja sempre
Tudo naquela voz desconcerta
Regressam os homens à Igreja
Desistem das guerras e mortes
Em silêncio o teu lado ruim desaparece
Pra onde?
Covardes
Ninguém faz isso à minha cotovia
Carta de ameaça com sangue de galinha?
Azar o deles porque com ela longe de mim
No Borba Gato na casa dos pais
Já tô ouvindo aqui de novo ó
Como eles gritam
Sempre desse lado tá vendo?
HAHAHA
Minha mão Gordão me controla
Se fico dois meses sem dar pipoco em malandro
Tremendo não para quieta
Nunca tomei gota de álcool
Cigarro faz mal pra saúde
Maconha tô fora
Meu único vício
-só falar nisso olha que delícia eles ficam loucos gritando
Mexeram com o infeliz errado
Meu único vício
-e não é gostoso escutar o coral agudo de anjos desconhecidos dentro de você?
Gosto de primeiro quebrar as unhas
Rir a deformação da coragem
Rir dos gritinhos de perdão me deixa ir por favor me deixa vivo
Dá uma coisa boa
Dizer na cara deles é o Magrela
Enquanto se debatem apavorados rangendo dentes
É o capitão Tobias dos Santos Santos
Que o inferno seja tua morada
Ser o último segundo de um filho da puta agonizando
Ó como treme a mão Gordão

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pra Noêmia

Louca de pernas abertas
Bem molhadinha ele me deixou
Começava assim Marta me chamando pelo nome:
Noêmia
Fui despedido e caí na vida
Precisando comprar leite pão pros dois filhos
De costa com a família sem um centavo pra dívida
Enterrado pra sempre na miséria e azar?
Pensei que sim
Deus tinha então me abandonado
Ah cotovia no terror é tão triste lembrar o dia feliz
Na Vila Operária não me olhavam mais
O alvo favorito das mentiras do Tatá
Dedão na minha frente gritando ofensa e palavrão
Logo eu roubando dinheiro do caixa no karaokê?
Jurei em nome da mãe mostrei bolso debaixo do boné
-nem quiseram ver lugares íntimos
Te tiram a honestidade sem prova numa sexta qualquer
E pra sempre traidor até o fim dos dias
Verdade sim cotovia me envolvi em coisa ruim
Arrependido cada vez que deito a cabeça e durmo
Teve mesmo o lance do roubo no velho
Na mansão sem machucar ninguém
Pra pegar só um dinheiro de quem tem muito
Tudo isso com bebida sem dormir e maldito
Longe de ser perfeito
Ao seu lado morro de orgulho
-aqui ó a pontinha de vergonha da tua pureza
Todo meu carinho e agradecimento
Trabalhar no culto me deu uma coisa boa
Dentro fundo sabe como é?
Cotovia
Sou um homem só
Mas sou todo seu
-se quiser claro
Com carinho
Seu devoto
Manolo
Viu só Marta?
Que grandalhão assim te manda flor com carta no sábado?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Karaokê do Tatá

Falei pra ele
Tua putinha!
Contra a parede sem fuga meu amor
De mim o que bem quer
O tuzinho em coro cotovelo
Na minha boca o mindinho do teu pé
Triste pensando em quem naquelas outras?
Ai Tadeu
Setembro senti que já distante
Suas negras de vastas nádegas
Enchendo tua cabeça na minha frente?
Ódio é não escutar o papo inteiro no karaokê
Sei bem que além do parabéns
No sorriso daquelas promessas de uma cama mais quente talvez
Domingos de fúria e gozo sem pausa?
Invencível no karaokê do Tatá
Da voz profunda sedutora de cadeiras
Em pé quase todos batendo palma
Gente que sai longe até da Vila Operária
Se fala amor aqui bem pertinho capaz de matar
Sozinha já tão achando que eu louca
Ranjando briga errada no Meu Pato
Negando homem machão do teu tamanho sabia?
Perdida quem sabe sem volta pra pinga e cachaça
-nem dó tem aí dentro de mim?
No mar a âncora você me prendendo pra todo sempre?
Choro o sono por ti de raiva e tesão
Enfia a faca em mim mas não me despreza Tadeu

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Me profana diabo!

Na voz vi um sujeito aflito
Tropeçando em palavra e silêncio
Cheio de três pontinhos sabe?
Cinco anos de rua conheço bem o tipo
Combina no Meu Pato e dá balão
Esperando feito trôxa eu sozinha na mesa
Matando o bicho aqui dentro com goles de Presidente
O lugar?
Uma sobreloja na Vila Operária
Pra surpresa não cancela não
Até bonito o apê em cima duma loja de sapato
Toquei o interfone no primeiro andar
Da linha abriu o portão sem dizer oi pode subir vem tesão
Sem elevador parti pra escada
Bem metida num vestido azul curtinho e salto alto
No 101 o olho me espera atrás da porta meio aberta
Salivando me espia de baixo pra cima e empurra a porta
É quatro talvez cinco mãos menor que eu
Tão miúdo capaz de subir nas coxas daqui?
Num risinho digo bem gostoso hem
Se todos fossem assim que nem cê
Ele fica suado acho que sente a mentira
Não insisto
Tinha um sofá laranja no centro da salinha nada demais
Na mesa o retrato derrubado à pressa
-quem abraçado a ele jurando amor eterno?
Peguei pela mão e levei pro sofá
Numa lambidinha na orelha ele todo contorcido
Sete anos sem bimbar?
Louco com as gemidas da leoa em mim ao pé do ouvido
Escancara o tuzinho da tua cotovia faminta
Benze de leite meu rosto minha boca não perdoa nem a covinha
Soca tudo inteiro de uma vez sou tua me profana diabo!
Ele ficou louco ainda mais suado
Lambendo atordoado meu decote até aqui
Daí veio a campainha com alguém batendo na porta
Tão branco tremendo assustado
A voz pela primeira vez respondendo fraquinha calma tô me trocando
Corri pra trás do sofá abaixei muda
Pra minha surpresa ele veio do lado
Levantei achando que tinha outro esconderijo
Nisso a mulher com razão mandando abrir e batendo
Fraco ainda não sei como fez aquilo não
Me erguendo com tudo de uma só vez no colo
Tão rápido não gritei só fechei o olho
Arremessada um andar sem dó pelo escroto
Aqui ó a queda dói como uma faca no tuzinho
Na hora dor alguma
Só a sede de enforcar aquela garganta buscar meu dinheiro bolsa dignidade
Ninguém ali se importou comigo
Nem perguntaram de onde como se eu mesma caí
Enquanto um velho abria o portão aproveitei e corri
Sangue no zóio!
Empurrei a porta num grito alto não lembro o que disse
Quem descia a mão nele era a coitada
Que me jogou vinte pila a bolsa e um olhar de mulher

quarta-feira, 16 de março de 2011

O carnaval de Júlio

Júlio largou a enxada, pediu descanso no carnaval ao pai, quebrou o porquinho e, pela primeira vez na cidade, foi fundo em tudo. Pinga. Cerveja. Presidente. E uma ou outra dose de uísque. No Bar do Moacir, um cavalheiro de 16 anos. Pagou cerveja, seduziu as mulheres, ficou bem falado. No Meu Pato, tratamento de rei. Se deu bem com a mesa do lado. Tema da conversa, criticou Deus, aquele puto safado, e ganhou inimigos. Jurado de morte por três cristãos, Júlio deixou o bar com um copo no bolso, cuidando atrás que não lhe golpeassem com cadeiras ou garrafas. Dormiu em frente ao inferninho, do outro lado da rua, onde lhe acordaram os carros, as motos e dois policiais. Assustado, de ressaca, perdeu a fala, tirou os documentos e amaldiçoou Deus novamente - a carteira esquecida na mesa dos religiosos. Sem maconha, pedra, nada além de um copo, Júlio partiu rumo à delegacia, antes de levar chutes nas costas, no estômago e receber a dupla enchente de catarradas em seu rosto. Liberado no dia seguinte, após escrever o nome em sete papéis diferentes, Júlio foi largado próximo da UEM, onde pediu dinheiro e desafiou desconhecidos na mesa de sinuca. Derrotados todos os rivais, fez a limpa na grana e torrou quase tudo ali mesmo, em cervejas no Manhattan. Na alta madrugada, desceu a rua em direção ao Bar Sem Nome, onde a noite nunca acaba, alguém prometeu, desafiou desconhecidos, criticou Deus à vontade, aquele puto safado ladrão de carteiras, fez a limpa na grana e torrou tudo em cerveja. Na saída, Júlio ainda conseguiu carona de um dos derrotados até à rodovia, bem próximo da fazenda, onde, no fundo, sua mãe, pai e quatro irmãos seguem a rotina num barraco de madeira. Cantando na rodovia, notou seus passos tortos cada vez mais engraçados. Olhou, como nunca antes, a plantação de soja à luz da lua. Amaldiçoasse mil vezes que fosse, dali o sustento de quantas bocas em Maringá? Abraçado à soja, Júlio dormiu orgulhoso das noitadas. Às sete horas da manhã, Abílio manchou de sangue a plantação dirigindo a colheitadeira.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nem vaselina?

O primeiro barulho veio no intervalo da novela.
Uma coisa lá no quintal.
Tipo um tropeço.
Estranho, seco.
Depois uma tosse.
Um palavrão no chute da latinha.
Sozinha, aqui, entrei em desespero.
Desde que Jonas morreu não fui mais a mesma.
Roçar o calcanhar de madrugada com quem?
Corri o olho no telefone.
Debaixo do sofá que não tava.
No meu azar, perdido em algum canto da casa.
Me cobri com a cortina ali atrás.
No silêncio do Borba Gato, só os passos do infeliz, meu coração e a propaganda da pasta de dente na TV.
Tão ruim de magrelo, puxou a cortina gozando da minha cara.
Escondendo de mim?
Não conseguia ficar em pé, ele.
Desequilibrado, derrubou tudo sozinho.
A estante, a mesinha e caiu ali, ó, bem em cima do aquário.
Contra ele nem um sopro saiu da minha boca.
De nada adiantou explicar.
Alegar inocência?
Eu era, sim, a culpada do sangue derramado.
Azar o meu.
Que tive a boca fechada com a mão dele.
Talvez até me passou doença de sangue.
AIDS?
Me levou até que com cuidado lá pra cima.
Sempre com o estilete na mão ameaçando por trás.
De uma vez me jogou na cama.
E pimba!
Eu, a última cotovia do Borba Gato.
No meio da novela, mais uma vítima da fome?
Aos oitenta e três, sem piedade?
Nem vaselina?
Só deu pra ver aquelas marcas no corpo todo.
Desenhos de rostos tortos.
Estranhos rostos pretos de diabos.
Sem nariz, olho, cabelo.
Dois grandes na barriga.
E alguns nas costas.
No rastro de sangue minha quase consumação.
Foi ouvir a sirene na rua, não pensou duas vezes.
O telhado do vizinho facilitando a fuga do marginal.
Que agora conhece até o esconderijo atrás da cortina.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Agacha e Engole

Depois do cinema me levou pra casa dele.
Descemos perto do Prever ali na Vila Marumby.
Ele sem nenhuma palavra.
Tava agitado.
Manolo?
E nada.
Mal fechou a porta deixou a chave na mesinha.
Acho que tremia.
Agacha e engole.
O quê?
Agacha e engole.
Ham?
Os dedinhos gordinhos abaixando a bermuda florida no meio da sala.
O troço dele ali durinho durinho durinho.
Na hora ri um montão.
Agacha e engole!
Isso?
Rindo apontando já com dor no estômago.
Sua tonta!
Nenhum tapete no chão.
Eu de vestido florido.
Não sabia que era assim:
Todo tortinho pro lado direito.
O troço.
Ele começa reto.
No meio também é reto.
Mas depois vira tudo pra direita sabe?
Tudo muito estranho.
De uma só vez coloquei inteiro na boca.
Ai meu santo Deus quase vomitei!
Sabe esse sininho na garganta aqui no fundo?
Senti o troço do Manolo batendo nele bem forte.
Tossi tossi tossi.
-mas não gorfei.
Impaciente ele não tava gostando é nada.
Sua tonta!
Tentei devagarinho.
Lembrei da minha irmã mais velha contando pra amiga:
Tipo chupar sorvete Maria.
Que sorvete nada!
Aquilo nem gosto de doce tinha.
É o amargo mais horrível tipo peixe fedido encardido sabe?
E tem que esconder o dente que se morder dói.
O do Manolo doeu tanto que ele me afastou na hora.
Mas o pior mesmo é depois.
A coisa.
A meleca.
Aquela gosma branca.
-meio amarela.
Um nojo um nojo um nojo só.
Ninguém sabe quando ela vem.
Pelo menos o Manolo não soube ou não me avisou o panaca.
Assim rápido sem alerta alarme sirene.
Nada.
Vai vai hum vai hum vai!
Não dá pra fechar o olho não.
Eu tava preocupada já.
Tantos vai vai hum vai vai hum.
Vou onde com o troço na boca Jesus?
Quando fui ver já tava em mim.
Toda lambuzada no rosto.
Minha prova de amor?
Levantei.
Os joelhos vermelhos vermelhos.
Abracei o Manolo e pedi um beijo.
Sua tonta!
Assim mesmo me afastou com cara de nojo.
Ele com nojo da coisa dele.
Pode uma coisa dessa?
Subiu a bermudinha florida.
Os dedos gordinhos tremendo.
Rápido sua tonta.
Fui pro banheiro e me lavei.
Como é difícil tirar aquilo do rosto.
Pior que chiclete.
Enroscou no cabelo não saia de jeito nenhum.
Só com sabonete mesmo.
Limpinha pedi outro beijo.
Eu te amo Manolo!
Me beijou rápido na bochecha com cara estranha.
Nunca mais quis sair comigo.
No colégio me excluiu.
Não ligou de volta.
Cuidado com esses garotos de Maringá amiga.
Cidade cheia de tarado.
Sei que gosta dele de verdade.
No primeiro momento sozinha pode esperar.
Fugir da situação rir fingir desmaio morte morrida?
Ligar para quem socorrer resgatar?
Seja adulta.
Na hora mesmo tira o troço da sua frente.
Mira a coisa lá pro outro lado.
Esquece o beijo no final faz só o que ele mandar.
Sem dar risada vá em frente agacha e engole tudo de uma vez.
Depois me diz se o dele também é tortinho pro lado direito.

Declaração

Põe a mão aqui.
Por cima mesmo.
Isso.
Aperta bem.
Assim.
Tá sentindo?
Como é grande meu amor por você?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Boa de morder

O apelido me deram ainda jovem.
Ficou.
Motivo de briga discussão e fim de algumas amizades.
Com o tempo acostumei.
Como tudo na vida.
Fora de peso uns cinquenta quilos.
-cinquenta e seis pra ser exata.
Gordinha sim mas muito tesuda.
Louca de paixão amor carinho pra dar.
Nas minhas coxas homem nenhum jamais minguou.
Quantas noites atravessadas em braços fortes?
Quantos suspiros arrancados pelo meu vestidinho roxo?
-me acabando nas tardes de samba de par em par?
Sei que causei algumas brigas entre famílias.
Que culpa tenho se eles não tiram o olho de eu?
Com o meu corpo negro ardendo nas safadezas da imaginação?
-em todas as posições de quatro meia nove erguendo o vestidinho devagar.
O sonho de todos eles?
Cochichar aqui bem baixinho:
Neguinha minha.
Mas isso não é pra qualquer um não.
Só selecionado.
Difícil sou e faço charminho.
Que eles gostam mesmo é de sedutora.
Mulher fácil tem vida breve.
Basta o decote provocando?
Que nada.
Nos pequenos detalhes o segredo da conquista.
Do perfume no umbigo à vela no quarto.
A voz de mansinho dizendo bimbada.
Pra começar o incêndio a lambidinha na orelha.
E um ou outro truque também pra melhorar.
No pé a unha vermelha esconde a verruga inimiga.
-onde mesmo ela foi se meter?
Comigo homem nenhum sai insatisfeito.
A campeã da chave de coxa.
Macia farta boa de morder.
Nunca me faltam elogios.
Palavras juras de paixão.
Desesperados pra repetir a dose no meu ninho de amor:
Cê mata a gente desse jeito Jabuticaba!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Pedido

No meu último suspiro
Já sem forças pra me debater
-agonizando no leito da morte
Que você clame baixinho no meu ouvido:
Goza na minha boca amor.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cadê a grana vacilão?

Quinta-feira.
22h37
Encosto a Pampa na praça da rodoviária velha.
Nenhum pedestre.
Nenhuma pomba.
Apoiado na janela ele me mostra a cruz no braço.
Cadê a grana vacilão?
Mais de vinte dias pra ajeitar a dívida.
Isso por causa de pedra.
Vício maldito.
O punhal prateado brilhando à luz do poste.
Desce da Pampa doidão!
A Pampa.
Presente do meu pai antes de morrer.
Eu vou mas ela fica pra te guiar meu filho.
A Pampa.
Onde comi algumas namoradas.
Desce da Pampa doidão da porra!
O punhal espetando o peito cheira à morte.
-ou ferida das bravas.
Como explicar depois na construção em casa no barbeiro?
Sequestro por engano?
O mistério do roubo da Pampa?
Nem seguro tem.
Fuça dentro do carro.
Confere se algo na carteira.
Apalpa minhas partes bem apalpado.
Rindo.
Meio bêbo chapado.
Sabe que tá fudido né?
Sou só o menor deles vacilão.
Não é mesmo pra ter medo de eu.
Lê alto meu endereço na carteira.
Ainda hoje só mais umas hora seu puto!
Na Pampa entro vou embora e dou a volta no quarteirão. .
Estaciono debaixo da mesma árvore.
Ao lado da banca de jornal.
Ele vem furioso.
Arregaça a manga pra intimidar.
Sabe que sou cagão.
Que tenho família emprego além de tudo boa reputação.
O punhal prateado volta a brilhar sob a luz do poste.
Abre a boca o banguela vem falando merda.
Gritando na praça vazia.
Três disparos no meio da fuça dele.
Impiedosos.
Aos pombos um banquete incomum de carne fresca.

Maníaco da moto

Eu tinha brigado com o Baiano.
Ele já tava bêbado.
De olho na gordinha da mesa ao lado.
Vai saber o que fez com ela depois do Meu Pato.
No meio da briga me chamou de puta.
Gorda baranga do carai.
Com o taco de sinuca ameaçou uma surra.
Ali mesmo no meio do bar.
O Celso e o Bode tavam junto.
Eles pensam que sou trôxa.
Bem sabia o motivo da alegria.
Comemorando mais um assalto.
Pagando cerveja pra todo mundo.
Era só pedir.
Daí na esquina mesmo liguei pro moto taxi.
Esperei dez minutos.
O cara parou na minha frente.
Esticou o capacete.
Corrida pra onde mesmo?
Moro perto dali.
Na rua perto do Bar do Vermelho.
Mas não arrisco voltar andando não.
Terra de maníaco é Maringá.
Rua Vasco da Gama.
A cor?
Preto feito a morte.
Que era bonito era.
Não tava nervoso.
Subimos pra Avenida Cerro Azul.
Ele virou o redondo certinho.
Seguiu.
No meio da Cerro Azul o pedido.
Se eu incomodava de passar num amigo.
Coisa rápida 5 minutos.
Só pegar um boné emprestado.
Não quis não.
Ele disse que não ia cobrar.
Entrou numa vilinha.
Uma coisa esquisita.
Ruas estranhas.
Logo me perdi.
Vi que tinha algo errado.
Parou a moto numa rua deserta deserta.
Na pressa de descer queimei a perna no escapamento.
Neguinha minha!
Todo fogoso veio pra cima de mim.
Musculoso.
Macho pra danar.
Se não gritei?
Não parava de tremer.
E a voz nessas horas desaparece.
Em momento algum tirou o capacete.
Deu uns tapinhas na minha bunda.
Eu desesperada.
Ele me fodeu feito um animal.
Descontrolado.
Viseira aberta.
Acabado.
Um último tapa na bunda.
Com o capacete bati nele.
E corri.
-minha salvação.
Não posso ouvir barulho de moto.
Entro em desespero.
Lembro dos detalhes.
Do Baiano me ameaçando com taco.
Da vilinha.
Dele deitado sobre eu.
A voz desaparece.
Fico muda sem palavras.
Forte dispara o coração.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Vassoura e alho!

Minha mãe, 87 anos.
Há dois nesse vai não vai.
Quantas vezes no HU?
Comida só de aviãozinho.
Consegui a cadeira emprestada.
Perdi o emprego no supermercado.
Ninguém aguentava eu saindo sempre pro HU.
O gerente chegou a duvidar.
Sua mãe doente de novo?
E lá vou eu com atestado assinado.
Um ano tudo bem.
No outro me botaram na rua.
Eu e minha mãe de 87 anos.
O namorado me deixou.
Baiano, tão bom, queria casamento.
Homem de igreja, sério, trabalhador.
Ou sua mãe ou eu!
O que você faria?

Banho só comigo.
E quando ela começava a brincar?
Me jogar água?
De birra não levantava o braço.
Me chamava de Eugênio.
Se apertava toda contra a parede.
Eu com a esponja na mão, a água escorrendo.
Chorando.
Ela ria.
Parecia coisa do demônio.
A conta sempre infernal no fim do mês.
De vez em quando recusava comida.
Não abria a boca de jeito nenhum.
O mesmo acontecia com o remédio.
Só eu virar as costas.
Que ela cuspia longe.
Tudo isso rindo de mim.
Dois anos essa a minha rotina.
Passear com ela na rua.
Ouvir no rádio a missa do padre Zezinho.
Aviãozinho de comida.
Vendendo vassoura e alho no Borba Gato.
Olha vassoura e alho!
De casa em casa.
E pensando na mãe.
Eu tava na cozinha ouvindo o padre Zezinho.
Ouvi os dentes tremendo.
Os pezinhos bateram na cadeira de rodas.
Menos de trinta segundos.
Desliguei o rádio.
Fui até o quarto.
Sem espiar fechei a porta.
Assoviei a musiquinha da Globo.
Aquela de fim de ano.
Peguei a bolsa e fechei o portão de casa.
Com o cartão quase acabando, liguei da esquina pro Baiano:
Nunca é tarde pra correr atrás do grande amor.

sábado, 10 de julho de 2010

Sou uma putinha difícil

Sou uma putinha difícil
Não entro no carro se eles tão drogados
Desconto não faço se o cara é bonito
Não fico gemendo
Não libero o tuzinho
Não sinto nenhum prazer na bimbada
Quando eu conseguir a grana
Vou embora daqui
Tudo isso por causa da minha mãe
Que tá em casa passando mal
Há um ano passando mal
Nessa coisa do morre ou não morre
Minha mãe matou a minha vida
Não deu pra continuar com meu namorado
Deixei tudo muito claro
Ele me bateu
No meio da rua
Na frente de todo mundo
Cê sempre foi uma puta mesmo
Tão difícil a gente ouvir essas coisas
Ainda bem até agora dei sorte
As histórias das outras meninas não são nada boas
Quando será a minha hora?
A gente nunca sabe quem é o motorista
Tão dizendo agora que tem até um cara aqui na cidade
Que tá espancando geral
Um cara bonitão
Do seu tipo
E como saber que não é você?
Quem me contou foi a Marta
Eles tavam no motel
Diz que o cara foi um anjo
Quando voltavam
Parou o carro
Desce sua puta!
Ela ficou assustada
No meio do nada
Que cê vai fazer comigo?
Fora!
Arrancou a roupa dela
Bateu com uma barra de ferro
Nas coxas
Nas costas
Na cabeça
Ela dormiu
Diz a polícia que o cara abriu a blusa dela
E continuou dando paulada com o ferro
Com tudo ensanguentado
Como ele teve estômago?
Tem maníaco pra tudo em Maringá
Se não fosse um motoqueiro
Ela ainda tava por lá
Sozinha
No meio da plantação de milho
Cheia de porra no rosto
Por isso que eu digo
Quero o meu dinheiro
Só pra pagar o hospital
Vou desparecer para sempre dessa merda de cidade

terça-feira, 6 de julho de 2010

Treze

Se eu tivesse um revólver
Mataria essa voz
Tem uma voz na minha cabeça
Uma voz que me dá ordens
Essa voz não me deixa dormir
Ela ecoa de um lado
Ecoa de outro
E nunca sai lá de dentro
Feito um sonâmbulo
Insone
Rondando

Se eu tivesse uma faca
Eu cortaria meu peito adentro
Depois esfaquearia meu olho
-talvez o direito primeiro
Enquanto o sangue jorra descontrolado córnea afora
Eu não esqueceria o pulso
-só para garantir
Se me restassem forças ainda deceparia meu pau
Mas isso eu não prometo

Se eu tivesse uma chave
-de moto, de carro, de apartamento, de treminhão
Eu a engoliria
E tentaria engasgar
Quantas vezes fosse necessário
Um controle remoto talvez fosse mais eficiente
Mas a voz não quer chave nem controle
Ela quer algo preciso
Eu preciso encontrar algo para a voz
Ela me manda balançar o braço desse jeito
Se eu falo gritando, assim, ó, a culpa é dela
E ela diminui o tom, olha só, da minha voz quando bem quer
E começa a gritar novamente
Que não há nada nem alguém mais triste do que “O Cão” do Goya
-exceto eu
Que nada no mundo soa tão triste quanto os acordes de "Spiegel im Spiegel" do Arvo Part
-exceto eu
Ela não gosta de vocês de branco
Nem do Gordão
Gordão
Aquele cara que agora dorme do meu lado, né?
Dormia?
Que pena
Gostei dele desde o início
-eu
Ela não
Eles não se identificaram
O gordão e a voz
Gordo filha da puta, ela me disse
E ficou zunindo
Zunindo
Zunindo
Até que eu tive de falar por ela
Gordo filho da puta
Gordo filho da puta
Gordo filho da puta
Depois ela mandou eu pular nele
Pular e bater com os punhos fechados
Não vá quebrar seus dedos, Treze
Pule e puxe a barba, Treze
Corte um pouco para mim, Treze
A ideia de furar o olho do gordo com os óculos dele?
Dela
De quem mais seria?
Duvido que ela pedirá desculpas
Não
Ela nunca me chama pelo nome
Nunca quis tomar um chope comigo
Nunca quis ficar de porre comigo
Eu não passo de um número
Treze
Treze
É assim
Treze aquilo
Treze aquilo
Pegue os óculos do Gordo, Treze
Pegue os óculos e mete no olho dele, Treze
Agora
Sabe o que ela diz?
Que vocês são idiotas
Que a roupa de vocês é idiota
Que vocês estão querendo mesmo é ver meu pau, grande, babando, decepado na guilhotina
Ninguém mais aguenta o branco deles, Treze, fala para eles, Treze
-nessa sala, nessas roupas, no corredor, no banheiro
Se eu pudesse deixar a voz
Você não acha que eu já teria saído daqui?
E deixado ela vagando no meu lugar?
Tudo o que eu quero é que ela cale a boca
Quero parar de tomar esses remédios
E parar de usar essa blusa escrota
Que prende minhas mãos
E só livra minhas pernas e cabeça
Aliás, a voz está mandando eu levantar dessa cadeira
Ficar de pé
E saltar no chão de ponta
E que se me mandarem para aquele quarto sozinho
-novamente nessa semana
Ela entra em todos vocês
E faz ainda pior

segunda-feira, 5 de julho de 2010

No Saleiros

Eu estava no bar. Saleiros. Gosto de lá porque não tem ninguém. Gosto porque posso beber minha cerveja e ouvir blues. Eu estava sozinho. Na mesma mesa em que eu sempre sento, do lado da janela. No fundo do bar. Tinha uma cerveja e um bloquinho em cima da mesa, intacto. Penso num romance. Num casal. Ele, um jornalista de vinte e dois anos. Escrevo. Ela é loira e trabalha numa livraria no centro da cidade. Ele frequenta a livraria pelo menos três vezes por semana, apenas para ver os lançamentos, comprar um ou outro livro, e torcer para descobrir um novo autor. Ela sempre o atende. Eles nunca conversaram sobre outros assuntos, a não ser o preço dos livros. Ele sempre foi tímido. Nunca se livraram da barreira que os separava. Ponto. Não sei como passar daqui. Peço outra cerveja. A mais barata. Desculpa, a voz disse. É uma garota, com uns vinte e cinco anos, loira. Você é o Alexandre, não é? Gostei bastante do seu último livro. Respondo que não, não sou o Alexandre. Tenho um rosto muito popular, digo. Ela sorri. Sabia que você diria isso. Eu também sabia que você estaria escondido debaixo desse boné. Só uma coisa: você não parece ter sessenta e cinco anos. Ela sai. Minha cerveja chega. Na mesa dela há mais três garotas com a mesma idade. Devem ser estudantes. Delas, minha leitora é a mais gostosa. Tem uma bela bunda. Recorro ao papel. MInha personagem não é mais uma atendente. Ela é morena, é uma estudante de Psicologia, Júlia, que quer abandonar tudo para ser cantora. Ela canta na noite, canta samba, Chico Buarque, enfim, ela é foda. Ele viu um show dela, recentemente, e ficou encantado. Escreveu um conto, “Júlia, minha artéria e meu esôfago”, sobre ela e publicou no seu blog, um blog ruim, malfadado, que ninguém perde tempo para ler. De contos idiotas. Ela leu. Ela pensa que ele é louco. Um desses maníacos que, se tudo der certo com sua carreira, ela enfrentará semanalmente após os shows, saindo dos camarins, fazendo o check in no hotel. Você é realmente uma pessoa triste, indaga a loira. Paro de escrever. Fecho o bloco de notas. As amigas continuam conversando. Mas ela está parada na minha frente, me dá um sorriso. Você é tão triste mesmo? Eu não a conheço. Ela não pediu para sentar. E recebe o copo vazio das mãos do garçom com naturalidade. Duvido que você não aprecie nem um pouco do Saramago. Concordo que você deve sambar mal. Ela toma um gole da cerveja. Estou sem graça. Preparo algo para dizer. O último conto do seu livro mexeu comigo, sabe? “Sou uma pessoa triste”. Tive pena de você. Porque você escreveu também sobre a minha tristeza. Eu canto Adoniran Barbosa quando fico bêbada. Mas, ao contrário de você, recito Saramago, embriagada, antes de dormir no banheiro. Ah, é, eu digo. É, ela afirma. Acabei de terminar com o meu namorado. Ela enche o copo dela, deixa a cerveja na mesa. Acabei de terminar o relacionamento. Com o meu namorado. Estou grávida. Não sei se o pai é ele. Tínhamos um relacionamento aberto. Mas me apaixonei por outro. E contei para ele. Ele estuda Letras comigo. Contei que estava apaixonada por outro. Ele nem ficou bravo. Sorriu. Me deu parabéns. Sei lá. Não dava mais para viver assim. Daí veio a notícia do filho. Disse que a culpa era minha. Que eu não tomei a pílula de propósito. Que eu fizesse o que eu bem desejasse. Dele, mais nada. É isso. Eu ia te escrever um e-mail, contando. Mas você banca o recluso, não dá entrevistas. Quem sabe você não quer escrever algo sobre a minha história. Dou um sorriso. Não diga que não gostou do nosso monólogo, ela diz. Foi fácil encontrar você por aqui. Talvez, se você não desse tantas dicas nos seus livros. Fala a verdade, você não quer se esconder. Qualquer um que lê o seu livro sabe que você frequenta o bar. Aliás, um belo bar. Saleiros. Minha primeira vez por aqui. Acho que volto. Mas já consegui o que eu queria. Até sábado que vem, ela diz. Deixa o copo ainda cheio na mesa. Chamo o garçom. Pago a conta. Saio olhando para o chão. Nunca mais entro nesse bar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mesa 12

Nunca quis saber dos meus dois filhos. Sabia, sim, que eram dois jovens. Jovens desses jovens de verdade, certamente, não desse novo tipo de jovens que saem andando nas ruas abraçados a outros jovens, porque, afinal de contas, eles vieram de mim, dentro daqui, foi com esse sêmen, com o meu espírito, não é mesmo? E jamais uma coisa dessa, uma curva inesperada, abrupta, aconteceria assim sem mais nem menos. Nem mesmo que o pai deles fosse, digamos, meio afeminado, não acredito que uma coisa dessas, a convivência, seja capaz de vencer a força, o poder do sangue meu que corre nas veias deles. Que são homens e de palavra. Veja, eu nunca, jamais, em nenhum momento, deixei de cumprir minha palavra. Talvez, um dos poucos homens, na terra, capaz de morrer com honra. Claro, não conheço você. Nunca falei com você. Não saberia agora dizer a sua voz. Não porque eu não me lembro, mas porque você, para mim, é indiferente e não me importo nem um pouco com o que você está pensando. Claro que aceito. Uma dose de uísque nunca deve ser negada. Mas eu estava falando da palavra. Da importância da palavra. Da necessidade da palavra. Palavra que eu dei desde o início sempre com clareza: não quero saber deles. A mãe me chegou um dia, era uma sexta feira à tarde, lembro do dia e dos sons que o vizinho fazia enquanto martelava algo na parede que ficava ao lado do local onde eu trabalhava. Das seis em diante, quando ele chegava do trabalho, não faço a mínima ideia da profissão, ele começava a martelar aquela porra e, se há alguma curiosidade que eu arrasto comigo nesses setenta e quatro anos é, de longe, que porra ele tanto martelava na parede. Às vezes imagino aquele japonês pequeno, de chinelo de couro, arrebentando a parede com buracos profundos apenas pelo prazer de sentir a parede e seus novos contornos, completamente esburacada, tal como um muro talhado a balas de revólver, canhões, metralhadoras. Enquanto a mãe, uma mulher sem graça, morena, não era feia, mas não era uma dessas mulheres que você, quantos anos você tem, vinte e dois, sei, então, não é uma dessas mulheres que você, com vinte e dois anos, gostaria de se casar e jurar amor eterno em frente ao padre, condenado, na saúde e na doença, a morrer lenta e vertiginosamente no melhor momento do seu sexo, sabe, eu te falo isso porque só era dois anos mais velho que você, sei das suas noites, quer dizer, imagino, afinal, você não é nenhum desses viados do caralho que caminham em Maringá como se aqui fosse um reino homossexual livre e colorido. É seu, ela disse e sorriu, passando a mão no ventre. Saímos de lá, fui puxando o seu braço, o som do martelo do japonês foi ficando mais baixo, quase surdo, enquanto saíamos da loja de estofado de bancos de automóveis do meu irmão, eu não apertava o braço dela, eu acho, só segurava, de leve, porque sabia que o pior seria em seguida, e não queria que ela se machucasse antes de não ouvir minha resposta. Já na calçada ela me olhou fundo. Talvez algum momento, que tal mais uma dose desse uísque, hem, é, como é mesmo o seu nome, então, resumindo não disse nada, sabe. Eu era jovem. Ela era jovem. Eu não queria arruinar a minha vida. Ela não queria ser arruinada, mas fazer o quê? São dois, ela disse. Dois. Meu Deus. Nunca consegui compreender o que veio depois. Sabe, tipo apagão? Os caras da borracharia cuidavam da mulher, que estava em lágrimas, com o vestido de flores rasgado, com o colo praticamente nu, soluçando num choro sem som algum. Como você deixou isso acontecer é a única pergunta do meu irmão que me vem, com força total à cabeça, mas, pensando bem, não sei se ele falou sobre a situação da moça, de algo que muito bem eu poderia ter feito, talvez fosse eu o maldito que a espancou no meio da rua, fazendo com que ela fosse acudida pelos borracheiros da rua, ou talvez, a ele, ela teria confessado o nascimento dos gêmeos. Acho que não, porque dos gêmeos meu irmão nunca tocou no assunto. A mulher foi embora sozinha, passos lentos, acho que sem olhar para trás, seguindo o compasso das marteladas regidas pelo japonês na casa ao lado. Tem mais uísque?