domingo, 13 de setembro de 2009

O estrábico

Josué me busca no trabalho sempre às seis em ponto. Nunca atrasa um minuto. Ai, que pontualidade. Invejada por todas no salão, dou passos delicados. Uns cinquenta metros até subir na garupa, abraçar firme, grudar no cangote. Lá atrás, as venenosas lançando olhares e acenos para nós. Antes, beijinho no rosto, na testa. Na pontinha do nariz, ele é todo meu.
Casada, sim. Feliz, e muito. A gente vive na Vila Operária, junto com a mãe dele, que ocupa o quartinho dos fundos, e no domingo faz um doce de morango que perfuma todo o bairro. A porta do quarto, só empurrando com os dois braços bem fortes. Não tem mesmo janela. Mas quem precisa, nesse calor?
É na construção de Maringá, vendo tudo lá de cima, dos andares mais altos, que o meu marido sempre chora na sexta feira. O Sol vai abaixando no horário de verão, e ele imagina que nada permanece da mesma maneira. Nem gente, nem cidade, nem cachorro abandonado.
Chora meio escondido, entre os pilares e restos de tijolos. Nenhuma alma com dó. Desce do prédio, pronto, cheiroso para me buscar de moto, que será nossa, de verdade, só daqui a três anos, em dezembro.
Vou te mentir se eu não disser que somos os mais felizes do planeta. Quanto carinho num peito só. Seis meses ele ficou sem me buscar no salão, porque o prédio no novo centro estava ocupando o tempo de todos os pedreiros: quanto mais rápido nascer a construção, melhor.
Eu alcançava o ônibus no terminal, sempre lotado no fim de tarde. Mas só um, porque, como eu já disse, saio do terminal. E, em Maringá, você anda a cidade inteira em dois ônibus apenas.
Desde o primeiro dia em que Josué não me buscou, aquele cara ficou me olhando. Gel no cabelo, traços finos, barba rala, perfumado. O sotaque, percebi quando cedeu o lugar para uma velhinha, e me olhou bem lá no fundo, olhos tortos: o esquerdo, atrapalhado, mirando o nariz.
Um dia sentou comigo, me ajudou a pegar algo no chão. Sorrindo, que eu dissesse meu nome.
“Eulália.”
Por uns dois ou três minutos ficou em silêncio, observando o trânsito na Avenida Brasil. Com a voz doce, disse que na Europa não encontrou nome mais bonito.
“Eulália”, ele disse, e se apresentou:
“Antônio.”
Cheio de detalhes, aguçava minha imaginação com histórias sobre a Espanha, onde viveu quinze anos. O perfume, a camiseta, o sotaque, tudo de lá. Um dos maiores fotógrafos do mundo, sentado do meu lado, no mesmo ônibus. Descia umas dez quadras antes da minha, na casa em que estava construindo. Contava das noites todas gastando dinheiro em cavalos, touradas, em jogos de carta, dos diversos nãos às mulheres mais lindas da Europa.
Aqui em Maringá, no Brasil, o Antônio dizia, tudo era diferente. Começando pelo transporte. Lá na Europa, também andava de ônibus, tranquilo, um luxo, porque ele não pode dirigir. Pode ter convulsão, enrolar a língua, ficar tremendo que nem um terremoto, não pode correr riscos. O jeito é encarar a lotação, com todo mundo. Tudo muito diferente de quando saiu do Brasil, aos dezoito, para a Espanha.
Um dia, me mostrou um álbum bonito, branco, cheio de fotos que ele dizia ter feito. Cada página, um suspiro de inveja. As garotas mais lindas, em cada roupa. Às vezes, até sem roupa, sempre segurando algum dos produtos. Uma delas, nuazinha completa, sorria com uma pasta de dente. Dava um calor só de ver aquelas imagens.
“Imagina você.”

Ai, que besta, como eu fiquei sem graça. Ri de uma forma tão estranha, esquisita. Certo que o assustei. Como ele sabia o que eu pensava? Cada foto, mais de quinze mil reais.
“Meu Deus!”
Eu imaginava Josué descansando no domingo, eu nos braços dele, minha foto vendendo na Espanha, como seria bom. Foi só ele propor essas coisas, que os pregos começaram na minha cabeça. Cada prego por minuto, não fiquei em paz.
Pelos cálculos, dava para largar o salão, descansar um bom tempo, abrir alguma outra coisa mais tranquila, comprar uma casa grande só para a mãe do Josué. Talvez montar uma floricultura ou uma lanchonete por aqui. Duas coisas que faltam mesmo em Maringá: flor e comida.
Sempre que eu entrava no ônibus, encarada por aquele olhinho torto, à espera da resposta. Ainda não, eu dizia. Eu ainda tinha dois meses para pensar com calma, depois disso ele voltaria para a Espanha, para trabalhar com aquelas modelos incríveis, fazer mais fotos, ganhar dinheiro.
Pensei em contar ao Josué, mas ele não iria entender. Embora chore lá de cima dos prédios, olhando toda a cidade mudar, aqui em baixo ele é machão para danar. Nunca que eu ganhasse dinheiro sem roupa. Primeiro, coitado do fotógrafo. Certo que iria tomar uma surra daquelas, talvez até colocasse o olho no lugar certo.
Também não comentei com ninguém do salão. Bando de fuxiqueira, elas me dedurariam na primeira oportunidade. Eu entrei decidida no ônibus numa sexta. Lembro bem, porque eu e o Josué estávamos ansiosos pelo casamento da Lélia e do João, na sexta seguinte. Estava chovendo, aquele trânsito chato, quando sentei ao lado do Antônio. Ele nem percebeu que era eu, observava pela janela o atropelamento que acabara de acontecer.
“Estou pronta.”
Ele me olhou um pouco desconcertado, seu lábio inferior deu uma tremidinha, mas logo sorriu e a tranquilidade reapareceu no seu rosto. A camiseta preta, o gel no cabelo, que perfume era aquele? Antônio era atraente de óculos escuros. Como eu sei que não vai passar aqui no Brasil? E se a foto vier para Maringá?
“Não vai se arrepender.”
A fábrica de pantufas, ele dizia que era portuguesa, de uma cidade chamada Évora. Precisavam de uma modelo brasileira para a foto do novo catálogo, porque o produto principal seria uma pantufa estampando o mico-leão-dourado. Trinta mil euros só para umas fotografias calçando os chinelos de veludo. Não concordei em tirar a parte de baixo, não mesmo. Ele insistiu que não poderia começar desse jeito, eu exigindo tudo.
“Mas a parte de cima?”
“Tudo bem”, concordei.
A foto seria na casa de um amigo, onde, segundo ele, estavam armazenados temporariamente seus equipamentos de fotografia, lentes, tripé. Numa casa localizada atrás da Avenida Cerro Azul, amanhã, às quatro da tarde, sem atraso. Não deveria levar nenhuma amiga, porque ele dizia que, com mais garotas, é sempre um estorvo. Com a roupa mais sensual, claro. Calculando na cabeça, disse que ainda daria tempo para alcançar a lotação.
Naquele dia, me arrumei feito princesa. Mas isso à tarde, quando não tinha ninguém em casa. Antes de sair para o trabalho, fiz surpresa e carinho: levei café e bolo de fubá na cama para o Josué. A desculpa para deixar o salão, depois do almoço, era a tontura que me fez desmaiar enquanto eu pintava as unhas de uma japonesa. Todas assustadas, fui para casa de carona com a patroa, que insistia em me levar ao hospital. Com o falso desmaio, machuquei a cabeça de verdade.
Coloquei o vestido verde, bem decotado, troquei de brinco pelo menos dez vezes, o salto vermelho nos pés. Sai de casa torcendo que ninguém me flagrasse. Dois ônibus até chegar à casa de madeira, sem cerca elétrica, de muros baixos, decorados com algumas pichações.
Sem campainha, bati palma e gritei pelo Antônio, que demorou para chegar à janela, espionou-me e, finalmente, veio empurrar o portão para mim. Ele vestia branco, dos pés à cabeça, o cabelo encharcado de gel, estava até engraçado. Abraçou-me, perguntou se eu estava pronta. Sim. O dinheiro, ele explicou, seria depositado no dia seguinte, na minha conta ou quando eu quisesse. Tinha ocorrido um problema na conta dele, mas já havia entrado em contato com o gerente do banco, e tudo estaria certo até a noite, por volta das dez horas.
O combinado era o dinheiro antes. Mas fiquei com vergonha de perguntar, já que isso deveria ser comum nesse meio da moda. Eu bem que vi, quando entrei naquele lugar, como podia morar alguém? Infelizmente, a mobília foi retirada porque ele está terminando uma mudança, e só o segundo andar, lá em cima, ainda está todo cheio, justificava o Antônio. Ele e seu amigo estudaram juntos desde a quarta série no Instituto de Educação. Os dois caminhavam juntos até o colégio, amigos para tudo, compartilhavam dinheiro, histórias, namoradas, isso ele ia dizendo enquanto ajeitava os equipamentos.
Na parede, Antônio colocou um pano branco. Que eu ficasse ali na frente. Fui. Sem luz elétrica, como fazer a foto? Isso ele não respondeu. Enquanto ele me indicava as posições em frente ao pano, para testar a máquina, pensava o tempo inteiro no meu Josué, como administraríamos os trinta mil euros, quanto eles valeriam aqui no Brasil? Pensei em perguntar ao Antônio, mas ele estava concentrado demais apertando os botões e mexendo numa lanterna que ajudava a iluminar o lugar.
Imaginei um homem de Évora dirigindo seu carro, contornando um redondo, observando minha foto estampada na parede de um shopping. A mulher ao lado dele, dando-lhe um tapa pela indiscrição, os filhos rindo no banco de trás: motivo de ciúmes e inveja. Bendito seja o mico-leão-dourado.
“O vestido”, ele apontou.
Tirei um pouco sem jeito, estava fria aquela casa. Que eu jogasse para ele. Atrás do pano, que eu pegasse as pantufas. Uma coisinha muito feia, viu? Um troço esquisito, desconfortável, nem parecia mico-leão.
“É moda na Europa.”
Calcei lentamente, meus pés logo começaram a doer. Não sabia o que fazer dali para frente. Fiquei encarando a lente, num olhar que misturava ódio e sensualidade. De onde veio? Sei lá. Fiquei com essa cara até ele começar a exigir. Sorria, deita, sorria, tira o sutiã. Mais de quarenta minutos.
Dai para frente ele começou a beber alguma coisa que não dava para ver o que era. Comecei a ficar com sede. Pedi por água.
“Não sai dai. É trabalho.”
Ele já não falava comigo durante as fotos. Eu começava a perder a noção do horário, virava de um lado para o outro, fazia poses de tudo que era jeito, deitada, na ponta dos pés, ajoelhada: quantas fotos mais?
Notou minha impaciência. Fez dois ou três elogios: bonito, bonito. Às vezes, deixava a máquina no canto, e mexia na lanterna, é verdade. Mudava de posição, deixava uma parte do meu corpo iluminada, a outra ficava escura. Tirei as pantufas do pé, coloquei em frente aos seios, mordi cada uma, depois mordi as duas de uma só vez, dei alguns tapinhas na minha bunda com o mico-leão, deslizei a pantufa do pé esquerdo da minha boca até o umbigo. Repeti isso quinze vezes. Minha cabeça estava doendo por causa do falso desmaio, estava exausta. Finalmente ele chegou com água para mim, eu já estava escorada na parede, nem percebi.
“Meu anjo.”
Fui acordar desse jeito, naquele Gol branco, no meio do Borba Gato, com o barulho dos carros, o vidro arrebentado do lado esquerdo, deitada no banco de trás. Umas crianças gritavam que eu estava morta, acordei confusa, ela morreu, ela morreu, muita buzina, ela morreu, eu não entendia nada. Alguém me cobriu com uma camiseta, um velho arriscou uma respiração boca a boca, tentei empurrá-lo com o pouco de força que eu tinha no momento. O gel, o perfume, o endereço da casa, o nome, não sei onde trabalhava, não vi o amigo dele nem sei o nome. Também não sei o sobrenome do Antônio. Não sei se ele mora mesmo naquela casa. Que desgraçado. Moça, jura para mim, no meu olho: meu Josué não vai mesmo nunca saber disso? Não esquece, pelo amor, de fazer o desenho dele ai, com o olho torto que nem o diabo: cem por cento estrábico.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Manolo, me come!

As mãos tocando a coxa branca, o suspiro do gordinho. Lábios mordidos, quase sangrando, olhar embriagado de suco de goiaba. Na Praça da Catedral, o domingo ensolarado, famílias aproveitam o descanso sagrado. Lugar ideal do piquenique romântico.
Em cima da toalha verde com estampa do Batman, mortadela, geleia de morango e quatro pães. Manolo, saciado, tira do bolso o presente da amásia. O anel de prata que brilha feito diamante debaixo do sol: a economia mais sofrida da vida. Deixou os gibis de domingo, o fliperama do Avenida Center e não comprou raspadinha nem lanches no colégio.
Surpresa, Dulce agradece com o beijo mais molhado. Ao aproximar-se, Manolo contempla seus pequenos seios de bicos rosados, durinhos. E nem estava ventando, como pode?
Dulce sorri, dá uma cuspidinha no anel, que é logo guardado dentro da cestinha. O dedo de Manolo – ele jurara à atendente: “é o mesmo tamanho, tenho certeza” – não foi boa referência ao diâmetro do mimo. Antes de lançar um olhar furioso, um olhar que o amante precoce nunca mais esquecerá, Dulce abre um pouquinho mais as pernas: o enfarto do Manolo? Mãos atrapalhadas na massagem improvisada.
“Assim dói.”
Mais macia que o sofá da tia Lúcia, pensava o gordinho, cujos dedos desbravavam mais e mais centímetros na perna da garota.
Suavemente inclinada para trás, ainda sentada na grama, Dulce suspirava com os toques em seu corpo. Sentia todos os pelinhos loiros balançarem nos dedos roliços do namorado, três anos mais jovem. Ela com quinze anos neste janeiro; ele com doze apenas em dezembro.
Aproximou-se novamente, expondo os peitinhos rosados, sorrindo ao observar o olhar desnorteado à sua frente. Após o beijo, lambeu delicadamente a bochecha esquerda e seguiu com a língua até a pontinha da orelha. Lá, percorreu toda ela com a língua, enquanto Manolo se contorcia sem controlar o riso e o pequeno relevo em sua bermuda branca:
“Você é um tesão”, “Por que você não pára de olhar meus peitos, hem?”, “Manolo, me come?”
Não só sua orelha estava encharcada. Ela saiu dos braços do Manolo e, sorrindo, puxou a mão dele para baixo da sua saia jeans. Segurando firme, Dulce regia os movimentos que três dedos do Manolo faziam acima de sua calcinha. Olhava, despreocupada, a calçada e o time de futebol que jogava um pouco longe deles, camuflados nas sombras das pequenas árvores.
Dulce gemia, Manolo ofegante já coordenava os dedos sem o auxílio, “bem de levinho”, como ela mesma exigiu. Os olhos fechavam, abriam, ela tremia um pouquinho, cerrava os dentes nos lábios grossos, pôs a mão novamente na mão de Manolo, arranhou seus dedos, endureceu as duas pernas, que começaram a tremer.
“Ai, meu Deus!”, suspirou.
“Ai, ai, ai, Manolo!”
Quando ele achou que ela fosse desmaiar ou sofrer um ataque, Dulce sussurrou, saciada, uma jura de amor que leu numa embalagem de bala de morango. Ele estava assustado, a prova da paixão nos dedos da mão direita, úmida de suor, parcialmente dolorida: o gordinho mais feliz de Maringá.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Num bar em Lisboa

“Bolchevique! Bolchevique! Bolchevique!”, acusou-me o sujeito bigodudo e gordo, com o dedo em riste. O Bocage era tudo o que eu sempre quis, com o fado melancólico do quarteto lusitano. Os poucos bêbados, as garçonetes e as paredes soturnas do Bocage pareciam girar, enquanto a soprano recitava alguns excertos d’Os Lusíadas, acompanhada pelo timbre estridente da guitarra.
O sujeito se aproximava.
Debaixo do braço, pasta encardida e caderno velho. Jornais macilentos colados sobre as páginas. Dizia-me, do pouco que eu conseguia ouvir, algumas datas e nomes russos. Tcheckov precisava de alguém na fábrica. Mas ele não voltará para aquele inferno nunca mais. Comunista, Tcheckov, nessa altura do jogo? Tentei continuar a conversa. A colheita e o carteado. Olhava-o, mas já não ouvia. A temperatura havia consumido suas pedras de gelo; as mulheres, a bebida. A gola desarrumada contrastava com o cabelo alinhado.
E já era melancolia demais.
Educado, agradeci a cerveja. Sorri ao deixar o dinheiro. Ele empurrou de volta. Em pé, me segura o braço e abre a pasta. Três canetas caem. Devolvo sem algum agradecimento os panfletos subversivos. Muito texto, poucas fotos. Luto contra o espirro, mas ele sai mesmo assim e eu limpo minha mão na camisa branca. Crônicas literárias narram o encontro do militante colombiano, Passos Aguiar, com um agitador cultural, no meio da posse de Gorbachov, em 12 de Março de 1985. Não sei russo, confidenciaria. Não sei quem é o agitador nem o tal Aguiar.
Estou aqui, estou em Lisboa, estou definhando. E só.
Estou definhando moralmente, intelectualmente e socialmente.
Pediríamos outra bebida e o sujeito me pagaria outro drinque. Falaríamos sobre linguística, poesia e, talvez, até desabafássemos sobre o sexo, que sempre precisa ser desabafado nesses lugares estranhos, desproporcionais, angustiados. Criticaríamos as mulheres, seríamos grandes amigos.
Era uma reunião plenária do Comitê Central do Partido Comunista analisada sobre cinco ou seis literatos e intelectuais alternativos. O indicador atabalhoado do gordo apontava a foto: cinco personalidades russas. A morena de olhos verdes, ele apontava, quase em segundo plano, aqui, quase desfocada: Lá estava Carolina, bem atrás do escritor que eu nunca ouvira falar.
Eu seguia mais rápido por aquela Lisboa encardida, em que as pessoas possuíam cabeça de galo e corpo de bacalhau. E não sorriam. “Carolina é só uma questão de tempo”, gritava o gordo, tresloucadamente.
Subíamos correndo, eu e o acusador, por entre a D. Dinis; passávamos pelas putas; banhávamo-nos às margens do Tejo e escalaríamos sem dificuldade a Torre do Tombo. O acusador nunca me alcançaria. Talvez até chegasse perto, com seus dedos escapando da gola da camisa. Quase.
“Bolchevique! Bolchevique! Bolchevique!”, acusou-me o sujeito gordo com o dedo em riste. Foi a última coisa que eu consegui ouvir, antes de receber dois tiros e ser arremessado às margens do Tejo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Por que tão faminta?

Acordei de pau duro. Não consegui urinar. Tive que mijar sentada, forçando meu pau para baixo, para que ele não encostasse na beira da privada. Eu estava no Vale Azul, tinha acabado de ser sequestrada por dois fortes negros e um ruivo obeso com chapéu panamá. Eles enfiavam canos de aço no meu cu, masturbavam-se uns aos outros e terminavam gozando na minha boca, puxando meu cabelo, enfiando as três picas de uma vez goela abaixo. Ai Meu Deus, caralho, vou engasgar, tenham dó de mim, porra. Cada vez que eu pedia clemência, mais rijo eles surgiam. Nem adiantou chamar Nossa Senhora. Eu sentia a barba ruiva roçando minhas costas, seus dentes podres a estraçalhar meu pescoço, um dos negros babando no meu mamilo direito e o outro punhetando-se atrás do ruivão. Entre os três sujeitos, eu, cadela no cio, saciando o desejo, gritando socorro, querendo mais, sem saber quantas grossas picas amontoavam-se, agachada, satisfazia cada um deles, dedicada, sorrindo, vem ruivão, e eles já não eram três, mas vinte, vinte e nove, que voltavam ainda mais sedentos quando satisfeitos. Eu havia sido molestada no Parque do Ingá, no bloco G34 da UEM e, finalmente, em Sarandi, no Vale Azul. Não é lá muita coisa ter acordado de pau duro. Meu pau é bem pequeno, aliás, se você quer saber. Desde que abandonei a enfermaria do Hospital Santa Rita, há três meses, mal saio da cama, o mastruço se exibe orgulhoso. E só desce na hora do almoço. Deus, por que tão faminta?


terça-feira, 12 de maio de 2009

Esquartejada sem um pio

“Ô de dentro!”
Lavando o prato de plástico, Edivânia escuta o insistente do portão. Faz sol nesta quinta feira e, graças a Deus, nenhum motoqueiro atropelado no Jardim dos Pássaros.
Camiseta xadrez, calça jeans surrada, suspensório e sapato marrom. Edivânia observa, dentro da cozinha, sem motivos para não simpatizar.
“Bom dia, paz do Senhor. Vim aqui com a indicação do padre Janilson. A senhora não ouviu o sermão de março? Atropelada na Cerro Azul, minha filhinha de sete anos. Que eu corte a sua grama?”
Há três meses faltava nas missas da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Contenta-se em acompanhar pela Rádio Colmeia, chupando manga, os pés descalços. E nem é preciso ajoelhar, uma dificuldade e tanto aos oitenta e dois anos.
“Minha nossa misericórdia! Que o gramado está assim dos ratos do Ney Braga.”
No sorriso do
“Como é o seu nome, seu moço?”
Dente de ouro no sorriso do Amaral.
A vida inteira sozinha. Conheceu a Vila Operária, onde criou o filho único, seu sustento e alegria. A mesada justa para o mês.
“E não faz muito caro?”
Dente de ouro no sorriso do Amaral.
Na bolsa cinza, o cortador enferrujado e as sacolinhas do Cidade Canção. Ó, mato infinito, albergue de todos os peçonhentos desabrigados do Jardim dos Pássaros. Cozinha suja de barro, leite velho fora da geladeira, os óculos esquecidos em cima do fogão aceso.
Cuspiu no gramado, chutou o cortador. O ônibus obedecia a faixa de pedestres e o motorista sorriu ao anjinho, que escapou dos braços da mãe, cruzou a Cerro Azul exibindo a imensa janelinha, onde a língua escorregou marota:
“Pai!”
O asfalto tingido de vermelho durante quatro dias sem chuva. Mais alguns meses para completar oito anos, não fosse o entregador de pizzas embriagado.
Arranca a navalha enferrujada e a lubrifica com cuspe. Em vinte pedaços, Edivânia esquartejada sem um pio. Cheio de moscas e uma gosma amarela entre os dedos dos pés, o corpo seria encontrado em frente ao Parque do Ingá, por volta das oito horas da manhã do dia seguinte, dentro das sacolas do Cidade Canção.
O Sol desaparece. Um motoqueiro é atropelado no Jardim dos Pássaros. Uma deficiente mental acaba de ser molestada novamente pelo padrasto na Zona 7. Dois pedreiros são espancados por policiais no Requião. E na Avenida Brasil, Marta, 58, prostituta, seduz o motorista do Del Rey preto:
“Que eu fico louca com dente de ouro!”

sábado, 7 de março de 2009

Foge, Silvia! Foge!

“Para aqui, porra. Policial gostoso. Mostra o cacetete! Vem, gostoso”, gritou a Silvia. No silêncio da Avenida Brasil, a viatura escuta o pedido da nova garota. E volta.
Era a primeira semana dela, Abílio.
A porta da Principal Calçados está sempre coberta por folhas de jornais. O cheiro de tinta é forte - acabaram de pintá-la hoje –, mas o cheiro de merda é ainda pior. Alguém cagou em uma caixa de sapatos e deixou ali mesmo, no meio da rua. Silvia senta em cima do jornal. O inferno do vestidinho branco. O jeans é melhor, não suja tanto. As sacolas de supermercado não são nada confortáveis, rasgam logo, não duram a noite. As páginas ficam por lá, aguardando os funcionários da loja, no dia seguinte.
Na bolsa, traz presente do Edvaldo, O Diário. Na segunda, Silvia trouxe até pirulito.
“Pra mexer com a língua e dar um aceno, sabe?”
Quase três anos no açougue, as crianças na escolinha particular, o pai morto-vivo no hospital há seis meses.
Nunca negou cliente. Até faz hora extra, de manhã e à tarde, atrás do Instituto de Educação. Só não quis com o Louquinho. Suado, bobo da ideia, olho virado, exibindo as economias. De dia, na Tiradentes, perseguindo os vestidos que passam. Ás vezes é certo correr. Fica meio esquisito, pode ser violento com pau na mão. Ou faca. Na Santos Dumont, uma moradora do Edifício Atlantis chegou a largar sacola e celular com medo dele. Diz que vai caçar tubarão em Marte. Policial nenhum prende.
Entra na quitanda, compra miojo, ganha café. Onde ele cozinha? Ninguém precisa de panela quando não tem miolo.
“Estou sem casa. Mataram ele com arpão, nas costas. Hoje, não vou mais para Marte”, costuma dizer. Durante três meses, ela me contava que atendeu um nobre empresário, que até virou nome de bairro, em Londrina. Sempre oferecendo pozinho.
“Mas dessas coisas eu não gosto, não, viu?”. Tão meiga.
Disse que falou em casamento. O sonho de todas nós, Abílio.
“Detalhava meu vestido, alugaria em São Paulo, chamaria o padre Júlio, eu escolho os padrinhos. Quem sabe, se tudo desse certo, andaríamos de Limusine por Maringá, pela Tiradentes lotada. E seria na Catedral, entrando com Bandolins, faríamos fotos entre as árvores - se não chovesse, claro.”
E como ela não ia acreditar?
“Falava sério, cuspiu na aliança. Era o diabo, aquela mulher. E tão cheiroso, romântico, recitava poema. Trouxe um livro do Vinícius de Moraes no carro. Não culpo eles, não. Mulher não dá carinho, não dá nada, nem conversa, e quer coisa fiel? Não fosse o maldito ataque cardíaco. Saiu em todos os jornais, com foto e tudo.”
Eu falei para ela do comandante Antônio. Direito, sempre pagou certinho. Contei do dia em que, enfezado, fez o diabo. Também, o João Paulo foi inventar um programa, reclamou lá na frente. O melhor vestido vermelho. O rapaz tirou foto pro jornal. Mas nem saiu, não. Acho que eles devem trocar por dinheiro ou só para sacanear, né? Mas quem viu, viu. Comandante puto, chamando de viado, travesti, tudo misturado. Prendeu na hora. O João voltou com dente a menos e roxo no corpo.
Mexer com policial é complicado. Sempre tem um que bebe um pouco e já vem para cima da gente, aqui na Avenida Brasil mesmo, dizendo que é a voz da autoridade. O negócio é abrir a perna, que passem a mão e deem uma beliscada. Nunca se sabe muito bem quem está dentro do carro, nem o estado de humor. Freguês, policial ou não, sem humor bom é terrível. Você tenta fazer uma piada, fala sobre o tempo, e o silêncio aterrorizante do seu lado.
Com a Silvia foi horrível. Segunda feira é fria, nunca tem movimento. A Larissa, e você sabe disso, Abílio, nem vem de segunda. Ela é diferente. A Silvia é trabalhadeira, é raçuda.
Mas ninguém pode cutucar a onça com vara curta, né?
Era a primeira semana dela, ali na Avenida Brasil. A Silvia estava feliz porque estava na rua. Abandonara o namorado violento, o segurança ladrão, iria mudar de vida, iria trabalhar na PrincipaL Calçados. Logo aqui, bem atrás da gente. Ela treinava em voz alta:
“Pois não, posso ajudá-lo, moço? Os chinelos ficaram lindos!”.
Engraçado, né? Lembrei da sua frase, Abílio: “Longe é um lugar que não existe”.
Ainda pagaria a mensalidade atrasada da escolinha dos meninos. Eu já gostava dela. Bom humor, sonhadora. Não sei como ela foi virar mulher da vida.
Quando eu vi a confusão, desesperei.
“Foge Silvia! Foge!”, gritei.
Era o comandante de Curitiba, trabalhando na cidade. Promovido recentemente. Veio só passar a semana.
Freada brusca, ouvindo CBN, desceram com a mão na arma.
Amarildo, o motorista, ligou a lanterna e alumiou a cara da Silvia.
Ninguém naquela segunda. Ninguém mesmo.
“Ela é nova no pedaço, Curitiba”, avisou o Amarildo.
“Fica na sua, negão. Perguntei? Quantos anos você tem, putinha?”
Cachorro acuado, Silvia não dizia nada. Olhava para o chão, parecia muito longe. Irreconhecível. Resmungou alguma coisa que só o Curitiba ouviu.
“Ah, então você gosta de dar? É porque o veado do seu pai está na merda, né? Quantos filhos você tem? Hem? Quantos filhos? Responde, vadia!”
Ela começou a chorar, sentou no chão, esfregou a cabeça na parede, dizia alto:
“Ai, meu Jesus. Ai, menino da tábua.”
Ele deu mais um ou dois passos.
“Para de mentir. Você dá, porque você gosta. Porque você é uma P-U-T-A! Quanto você cobra o anal, hem? E se alguém tiver o pau grosso como o meu? É mais caro?”
E foi tirando o dinheiro. Cinco, dez e várias notas de um real eram arremessadas e caíam sob a cara da garota, que já abraçava as pernas e tremia.
Ai, que dor no peito, Abílio. Eu tentei te ligar. Mil desculpas. Você trocou o telefone? Como não te encontrei? Está em Maringá, né? Não fique bravo. Eu deveria ter ligado para a polícia?
Não consegui sentir cheiro de cachaça.
O Curitiba se aproximou ainda mais dela, exigiu que o motorista ficasse ao seu lado, e começaram a cuspir nela. A interminável chuva de catarro. Já com as bocas secas, puxaram o cabelo, chutaram e levaram ela no carro.
Tremendo toda, eu, atrás da árvore.
Atendi um garoto, depois de tudo. Era recém casado, Astra azul, banco de couro, ar condicionado. Igual àquele que você tinha.
Até o louquinho estava lá, do outro lado da rua, mostrando as economias, querendo sexo. Ele gritava que me amava mais do que tudo, me chamava para viajar para Marte, que a nave estava partindo e eles não partiriam sem mim.
Nem Deus sabe onde a Silvia foi parar.
Sinto muito, Abílio.
Sempre sua,
Marta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Depois do Bar do Vermelho

Eu tinha acabado de sair da panificadora, já estava escuro. Fui para casa, contornando o muro do cemitério, e parei para fazer sinal da cruz, em frente à capela do Prever. Três velhos sendo velados.

Em casa, antes de tomar banho, recebi um telefonema-gravação daquela atriz famosa, tentando me convencer a adquirir um pacote para celular, incluindo seis meses de mensagens gratuitas.

Nós nos reunimos no Bar do Vermelho, aqui perto. Fui andando, não perco dez minutos, nem fico suado. Matraca e Paulão chegaram depois, no Del Rey preto.

O ponto do Bar do Vermelho é precioso. Para chegar à faculdade, basta descer uma única rua. As garotas moram por aqui. Voltam para casa em pequenos grupos. Na sexta-feira, todas enfeitadas para a noitada.

O nome dela é Ariela. Mora sozinha, frequenta a academia. De segunda a sábado, uma hora de exercícios enfiada num vestido de tenista de filme pornô. Que pernas.
Eu mesmo não queria isso. Foi coisa do Matraca e do Paulão. Até insisti para a gente ficar mais um pouco no Vermelho.

Enquanto ela tentava encontrar a chave na bolsa, o Matraca mostrou a faca:

“Quero amor”, disse.

Subimos os quatro no elevador apertado. Boca tapada, ela se esfregando no Paulão. Foi difícil colocá-la dentro do apartamento. A pancada na cabeça? Resultado da mão pesada do Matraca. Deitamos ela no sofá, com a cabeça na almofada.

Tiramos a seqüência no par ou ímpar. Eu, o último.

O Paulão começou lá mesmo. Em seguida, partiu com ela para o quarto. O Matraca ficou se divertindo com as saias e com as calcinhas. Eu fiquei vendo as fotos dela. Bailarina desde a quarta série. E como era gordinha.

Quando ela insistia em acordar, alguém dava soco na cabeça. Mas não tinha estilete, não. Isso é certeza.

O Paulão, saciado, ajudou o Matraca a colocá-la de quatro, no banheiro. Acomodou a cabeça da Ariela na tampa do vaso sanitário. Arrumou o cabelo dela nas costas. Eu ainda estava na cozinha, acompanhando sua excursão para a Pousada do Rio Quente, na oitava série.

Eu ouvia os gritos vadia, putona, filha da puta, cachorra, mais, mais, gostosa, que eu fico louco, que eu vou gozar, porra, mais, caralho.

Na minha vez, fui para o banheiro e perdi a vontade. Toda lambuzada, tadinha.

“Se não for, não é homem, porra”, eles disseram e apontaram a faca.
Gozei rápido. O Paulão foi por trás do Matraca, ali na minha frente. Veados. No sinal combinado, o Matraca agachou e se lambuzou com o jato do Paulão. Eu já tinha levado a Ariela para a sala. Vi que seus olhos estavam cerrados. Tomei o pulso. Nada. Abri seus olhos, fiz respiração. Veio o Matraca e deu outra pancada na cabeça. Sobrou até para mim:

“O que você fez, caralho? Fodeu e matou a menina, escroto?”

“Ela não respira, Matraca”.

“Dê um jeito ou eu vou te foder”, disse, dirigindo-se ao quarto.

Comecei a rezar.

Voltou exibindo o pau.

Tirou a cinta e começou a espancar a Ariela. Pulei em cima dele. Puxei pelo pescoço. Minha vez de receber cinta nas costas.

Eu sangrei durante vinte e cinco minutos.

Meu cu ainda está ardendo.

E não lembro de mais nada.