21:08.
Tão tarde da UEM.
Ai, que ainda bem não tem aula.
E se?
Quem sabe.
Uma só?
Avenida Brasil.
Só espiar.
Loira, morena e ruiva.
Saem do bar.
Todas de mini shorts.
Como adoro as pernas.
E se?
Qual delas?
Hum.
Dou a volta no quarteirão.
Merda.
Bem na hora que tem carro passando.
Não paro.
Dou outra volta no quarteirão.
Viro à direita.
Que azar.
Agora tem um Palio na frente e essa caminhonete atrás.
Eles me conhecem?
Anotaram minha placa?
Outra volta no quarteirão.
Ah, é agora.
Ninguém atrás de mim.
Nem do outro lado da rua.
Dedo em riste, vidro fechado, eu aponto.
A loira olha pra mim.
Eu?
Aponto para a do lado.
Quero a ruiva.
A ruiva parece confusa.
A loira me aponta a ruiva.
Olho para a morena e ela aponta para si mesma.
É, você mesma, eu balanço a cabeça.
Pode ser.
As três são gostosas. E já tem carro vindo atrás de mim.
Ela me encara com um sorriso.
Ai, adoro esse shorts jeans curto.
Tenta me enxergar melhor.
Eu uso óculos.
E boné encobrindo minha testa e sobrancelha grossa.
Quanto é o programa?
É cinquenta o completo.
Ela sorri.
Gostosa.
Hum.
E a chupetinha?
A chupetinha é vinte e cinco, e com camisinha.
Hum.
Dá pra fazer só por quinze?
Ham? Fala um pouco mais alto?
Tô ouvindo Oasis bem alto.
Dá pra fazer a chupetinha por quinze? Eu tenho camisinha.
Ela me olha.
Quer ver se sou feio.
Minha última namorada me achava feio.
Minha professora do jardim de infância me achava feio.
Meu irmão, esses dias, disse que sou feio.
É rápido?
Como assim, eu pergunto.
É rápido? Não demora?
Acho que ela gostou de mim.
Não, acho que não demoro.
Sorriu, abriu a porta e disse então vamo.
Onde a gente vai?
Vamo na rua de trás.
Tá.
Por que você perguntou se eu demoro?
Ah, tem gente que demora demais, né?
Ah, é? Muito?
Demoram tanto que dá cãimbra de ficar batendo, e cãimbra na boca.
Cãimbra na boca? Pôxa!
Na maioria das vezes eles tão bêbados.
É, né? O álcool dá uma atrasada.
Atrasa demais!
Por isso é bom ficar na rua até meia noite, né?
Meia noite só tem bêbado e tranquêra.
Ah, é?
É.
Assim, todo mundo que procura a gente tem alguma coisa.
...
Você sabe.
...
Tem alguma coisa.
...
Mas todos, cê imagina, não sei qual é a profissão, e entro no carro.
Hum.
Não quero saber, mas vai que o cara é traficante?
E você já se envolveu com gente barra pesada?
Já.
Como foi?
Assim. Não é preconceito.
...
Tenho amigos pretos.
Ham.
Mas só preto me sacaneou.
É?
É. Um dia um me deixou no contorno sul e tive que voltar andando.
Caralho.
É. Outro me levou pro meio do mato. Dois meses atrás.
...
Sujeito estranho, jeito de drogado.
Hum.
Me levou pro meio do mato. Disse que era fetiche.
...
E pimba!
Caralho.
Depois me deixou sozinha. Nem me pagou.
Por sorte a polícia me buscou.
E não me abusaram.
A polícia abusa de você?
Sempre querem alguma coisa, né?
Ou noite completa pro cara que tá casando.
Ou chupetinha pra fazer a ronda mais segura.
Cê já viu, né? Se não fizer? Eles te marcam.
Aqui é Maringá.
A polícia é treta.
Direitos humanos aqui não existem.
Estaciona ali atrás da Saveiro.
Atrás, não. Na frente.
Ela já está com a camisinha nas mãos.
Assoprou a pontinha.
Com a mão esquerda pega em mim.
Sorri.
Tenta me enxergar por trás do astigmatismo e da minha forte miopia.
Me chama de amor.
Engole com força.
15 minutos depois diz que deu câimbra. No braço.
Prometo ser rápido.
Passo a mão nas costas dela.
Na bunda.
Mas gosto mesmo é da perna.
Da perna naquele shorts curto jeans.
Gostosa.
Que delícia.
Dou um tapinha na bunda.
Ai, que gostosa.
Ai.
Ai.
Dou outro tapinha.
Delícia.
Gostosa.
E pimba!
Enrolo a camisinha usada.
Jogo fora da janela numa árvore.
Subo a bermuda azul.
Minhas bermudas são sempre azuis.
Ela pergunta minha idade.
Eu minto.
Não digo que tenho 22.
Ou que sou jornalista.
E que sou formado em Letras.
Respondo a questão: 20.
Por isso essa cara de novo.
Você acha?
Eu acho.
Qual o seu nome?
Marta.
Você mora aqui?
Perto de Sarandi.
Hum.
Gostei da chupetinha, Marta.
Acho que volto para a gente fazer um completo, que tal?
Volta sim, amor.
Posso te deixar aqui?
Claro.
Deixo Marta na rua de trás.
É menos movimentada.
segunda-feira, 22 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Tormento do Abílio
Seu padre eu vim aqui pra me confessar.
Não sou dessa paróquia.
Frequento a do Jardim dos Pássaros.
Conhece o Padre Janílson?
Não consegui confessar com ele.
Nem com os amigos.
Não tenho dormido direito.
O tormento diário da minha existência.
O que eu falo só o senhor me ouve né?
Sem Maria anjinhos ninguém vai nunca saber né?
É assim.
Direto.
Vou falar de uma vez.
Deus tem aparecido nos meus sonhos.
O próprio.
Eu sei que é ele porque ele me diz.
Vem cercado por um monte de anjinhos.
Falando Aqui em cima na terra prometida não tem lugar pra você Abílio.
O que eu fiz ele diz não tem perdão.
Quando minha mulher saiu de casa logo arranjei outra.
Nem uma semana.
Amor com amor se cura.
Senão vira doença.
Apaixonada bem bonita dizia que me amava.
Junto com ela veio a garota.
Doze aninhos.
Loira como a mãe pele clarinha.
Sempre no banho esquecia a toalha.
Eu levava porque a mãe não desgrudava do fogão.
Mas daí fui notando algumas coisas.
Tem um espelho na frente da pia.
Se a porta fica um pouco aberta dá pra ver lá dentro.
E só espiei porque ouvi os gemidinhos.
Cada vez que eu entregava a toalha ela estendia a mão direita pra mim.
Enquanto a esquerda ia lá pra pititita dela.
Tudo acabava com o risinho abafado pela porta que batia com força.
Isso uma vez.
Isso duas três vezes.
Isso vinte vezes.
Olha.
Tô até suando de nervoso.
Em seis meses eu já tinha sonhos com ela.
Sonhava mas claro pensava nunca jamais tô fora.
Sabia do pecado.
É crime de polícia e cadeia né?
Num dia lá a menina tava doente.
Não levantava pra ir na escola.
Era bem quarta feira.
No dia em que não trabalho.
Fiquei de cuidar da menina.
Bem carente não conheceu o pai.
Um desses maloqueiros aí perdido no crack e coca.
A mãe a deixou no sofá.
Com os pés no meu colo.
E ligou a TV num programa lá.
Um beijo em cada um de nós.
Te amo Abílio paixão eterna minha vida meu suspiro!
Nem bem saiu a garota levantou saltitante.
Minha vida meu suspiro?
Deu uma reboladinha na minha frente.
De saia curta calcinha azul e blusinha branca.
Parou.
Desligou a TV.
Lambeu o controle bem devagar me encarando.
Jogou ele no tapete.
Vinte minutos pra encontrar as pilhas depois!
Agachou.
Ficou de joelho no chão.
Passando a mão na minha coxa.
Com as duas mãos abriu minha calça jeans.
Mais rápida do que a mãe.
Riu quando viu o tamanho da coisa.
Como é grande não dói?
Enquanto ia com a boca lá gemia gostoso e mandava:
Goza seu puto goza!
Na presença da mãe uma santa.
Minha pequena devassa do Jardim dos Pássaros.
Lábio molhadinho.
Língua geladinha.
Cabelos dourados.
Sorriso de anjo.
Ai aqueles pelinhos dos braços todos arrepiados.
Ai que falta me faz puxar aquele cabelo por trás.
Eu vou trazer ela aqui pra confessar que me ama.
A Igreja tá do meu lado?
Meu coração não suporta.
Vou pedir o casamento.
Se não der vou casar assim mesmo.
Assumo o filho que tá na barriga.
Mudo de cidade de país se necessário.
Tenho economias vou pro Paraguai.
Ou Argentina.
E se Deus não estiver de acordo e se Deus me abandonar por aqui.
Eu deixo a Igreja a hóstia as cerimônias a caridade.
Entrego minha alma de bandeja pro Diabo.
Mas não abandono o amor da minha vida.
Não sou dessa paróquia.
Frequento a do Jardim dos Pássaros.
Conhece o Padre Janílson?
Não consegui confessar com ele.
Nem com os amigos.
Não tenho dormido direito.
O tormento diário da minha existência.
O que eu falo só o senhor me ouve né?
Sem Maria anjinhos ninguém vai nunca saber né?
É assim.
Direto.
Vou falar de uma vez.
Deus tem aparecido nos meus sonhos.
O próprio.
Eu sei que é ele porque ele me diz.
Vem cercado por um monte de anjinhos.
Falando Aqui em cima na terra prometida não tem lugar pra você Abílio.
O que eu fiz ele diz não tem perdão.
Quando minha mulher saiu de casa logo arranjei outra.
Nem uma semana.
Amor com amor se cura.
Senão vira doença.
Apaixonada bem bonita dizia que me amava.
Junto com ela veio a garota.
Doze aninhos.
Loira como a mãe pele clarinha.
Sempre no banho esquecia a toalha.
Eu levava porque a mãe não desgrudava do fogão.
Mas daí fui notando algumas coisas.
Tem um espelho na frente da pia.
Se a porta fica um pouco aberta dá pra ver lá dentro.
E só espiei porque ouvi os gemidinhos.
Cada vez que eu entregava a toalha ela estendia a mão direita pra mim.
Enquanto a esquerda ia lá pra pititita dela.
Tudo acabava com o risinho abafado pela porta que batia com força.
Isso uma vez.
Isso duas três vezes.
Isso vinte vezes.
Olha.
Tô até suando de nervoso.
Em seis meses eu já tinha sonhos com ela.
Sonhava mas claro pensava nunca jamais tô fora.
Sabia do pecado.
É crime de polícia e cadeia né?
Num dia lá a menina tava doente.
Não levantava pra ir na escola.
Era bem quarta feira.
No dia em que não trabalho.
Fiquei de cuidar da menina.
Bem carente não conheceu o pai.
Um desses maloqueiros aí perdido no crack e coca.
A mãe a deixou no sofá.
Com os pés no meu colo.
E ligou a TV num programa lá.
Um beijo em cada um de nós.
Te amo Abílio paixão eterna minha vida meu suspiro!
Nem bem saiu a garota levantou saltitante.
Minha vida meu suspiro?
Deu uma reboladinha na minha frente.
De saia curta calcinha azul e blusinha branca.
Parou.
Desligou a TV.
Lambeu o controle bem devagar me encarando.
Jogou ele no tapete.
Vinte minutos pra encontrar as pilhas depois!
Agachou.
Ficou de joelho no chão.
Passando a mão na minha coxa.
Com as duas mãos abriu minha calça jeans.
Mais rápida do que a mãe.
Riu quando viu o tamanho da coisa.
Como é grande não dói?
Enquanto ia com a boca lá gemia gostoso e mandava:
Goza seu puto goza!
Na presença da mãe uma santa.
Minha pequena devassa do Jardim dos Pássaros.
Lábio molhadinho.
Língua geladinha.
Cabelos dourados.
Sorriso de anjo.
Ai aqueles pelinhos dos braços todos arrepiados.
Ai que falta me faz puxar aquele cabelo por trás.
Eu vou trazer ela aqui pra confessar que me ama.
A Igreja tá do meu lado?
Meu coração não suporta.
Vou pedir o casamento.
Se não der vou casar assim mesmo.
Assumo o filho que tá na barriga.
Mudo de cidade de país se necessário.
Tenho economias vou pro Paraguai.
Ou Argentina.
E se Deus não estiver de acordo e se Deus me abandonar por aqui.
Eu deixo a Igreja a hóstia as cerimônias a caridade.
Entrego minha alma de bandeja pro Diabo.
Mas não abandono o amor da minha vida.
domingo, 14 de março de 2010
Traidor
Aqui é o fim da linha.
Ninguém mais vai adiante.
Pelo menos que eu saiba não.
Isso é pra não fuder mulher de malandro.
Pra nunca nem olhar quando tiver passando na rua.
Nem na Praça da Catedral.
Cê deu muito azar mesmo.
Na frente de todo mundo?
Isso não ia ficar assim pra sempre né?
Não chora não bicho.
Cê tem família é?
Pior ainda.
Cê vai morrer como traidor.
Eu mesmo vou levar essas fotos aqui.
Vou mostrar essas no bar do Moacir.
Essa uma que ficou boa no Estância Gaúcha.
E com chave de ouro eu tiro essa aqui do motel.
Que fotos hem?
Que sua mulher vai achar?
Ninguém chorando no teu velório.
Só dois coveiros jogando terra no seu corpo.
Sem reza cê vai cruzar pro lado mais sombrio da vida.
Sozinho.
Agora diz aí vai.
Quantas vezes cê saiu com ela?
Se o cê me disser quem sabe não te deixo de boa?
Daí se vai pra casa só com esses roxo nas costa.
Só duas?
Fala alto.
Com essa fita na tua boca eu não escuto.
Baiano traz o fogo!
Vamo mutilar esse filho da puta agora mesmo.
Cê sabe o que é engraçado?
Que cê paga de machão.
Mas aqui não tô vendo nada.
O chefe mandou assim.
Primeiro as porradas.
Depois mutila ele.
Queima o mamilo a sola do pé menos o pau.
O pau coloca dentro aqui do vidro.
Tá vendo esse pacote da maionese?
É pra cá que vem o seu pau.
O mais divertido?
É que cê vai sentir seu pau sendo cortado.
Vai chorando enquanto pode.
Baiano que demora porra!
Vê se ta lá dentro da Kombi então.
Ela rebolava no seu pau?
Te pegava pra dançar no Estância Gaúcha só pra esfregar aquela bunda bem gostoso?
Te chupava bem?
Pode falar pra mim ela era uma puta né?
Dava pra ver de longe.
Aquela saia curtinha.
Unha sempre pintada de vermelho.
No salão de beleza toda semana.
Chupava bem afinal?
Deixava gozar na cara dentro da boca na bochecha?
E as bolas ela mandava bem?
Engolia com carinho?
Sorria quando metia seu pau goela abaixo?
Que demora Baiano.
Cê não quer responder nada é?
Mas eu vô te dar uma resposta.
Cê amava ela?
Ah amava?
Que bonito.
Olha só apaixonado:
O chefe resolveu que não vai matar ela não.
Ela vai ficar presa na chácara.
Tipo cárcere privado.
Acho que um mês todo sem bimbar com ninguém.
O pior castigo pra ela.
Luva fogo protetor tudo certo Baiano.
Só tem mais uma pergunta antes da gente começar:
Ela fez anal também?
Ninguém mais vai adiante.
Pelo menos que eu saiba não.
Isso é pra não fuder mulher de malandro.
Pra nunca nem olhar quando tiver passando na rua.
Nem na Praça da Catedral.
Cê deu muito azar mesmo.
Na frente de todo mundo?
Isso não ia ficar assim pra sempre né?
Não chora não bicho.
Cê tem família é?
Pior ainda.
Cê vai morrer como traidor.
Eu mesmo vou levar essas fotos aqui.
Vou mostrar essas no bar do Moacir.
Essa uma que ficou boa no Estância Gaúcha.
E com chave de ouro eu tiro essa aqui do motel.
Que fotos hem?
Que sua mulher vai achar?
Ninguém chorando no teu velório.
Só dois coveiros jogando terra no seu corpo.
Sem reza cê vai cruzar pro lado mais sombrio da vida.
Sozinho.
Agora diz aí vai.
Quantas vezes cê saiu com ela?
Se o cê me disser quem sabe não te deixo de boa?
Daí se vai pra casa só com esses roxo nas costa.
Só duas?
Fala alto.
Com essa fita na tua boca eu não escuto.
Baiano traz o fogo!
Vamo mutilar esse filho da puta agora mesmo.
Cê sabe o que é engraçado?
Que cê paga de machão.
Mas aqui não tô vendo nada.
O chefe mandou assim.
Primeiro as porradas.
Depois mutila ele.
Queima o mamilo a sola do pé menos o pau.
O pau coloca dentro aqui do vidro.
Tá vendo esse pacote da maionese?
É pra cá que vem o seu pau.
O mais divertido?
É que cê vai sentir seu pau sendo cortado.
Vai chorando enquanto pode.
Baiano que demora porra!
Vê se ta lá dentro da Kombi então.
Ela rebolava no seu pau?
Te pegava pra dançar no Estância Gaúcha só pra esfregar aquela bunda bem gostoso?
Te chupava bem?
Pode falar pra mim ela era uma puta né?
Dava pra ver de longe.
Aquela saia curtinha.
Unha sempre pintada de vermelho.
No salão de beleza toda semana.
Chupava bem afinal?
Deixava gozar na cara dentro da boca na bochecha?
E as bolas ela mandava bem?
Engolia com carinho?
Sorria quando metia seu pau goela abaixo?
Que demora Baiano.
Cê não quer responder nada é?
Mas eu vô te dar uma resposta.
Cê amava ela?
Ah amava?
Que bonito.
Olha só apaixonado:
O chefe resolveu que não vai matar ela não.
Ela vai ficar presa na chácara.
Tipo cárcere privado.
Acho que um mês todo sem bimbar com ninguém.
O pior castigo pra ela.
Luva fogo protetor tudo certo Baiano.
Só tem mais uma pergunta antes da gente começar:
Ela fez anal também?
Anúncio da desgraça
Avenida Cerro Azul.
Meia noite.
Voltando pra casa cansado depois de sair com os amigos.
Todos queriam ver meu novo carrão.
Quase três anos economizando.
Rebaixado neon DVD som no porta malas calota zerada.
Tinha deixado minha mina na casa dela do lado do cemitério.
Na Cerro Azul nunca tem puta.
Pelo menos nunca vi.
Ninguém ali anda de boa.
Não de noite.
É tenso.
Achei estranho quando vi a garota na calçada.
Se fosse noutro lugar eu não parava.
Mas quem acudiria se fosse algo sério?
Com tanto tarado nas ruas à toa?
Ela chorava como se tivesse morrido alguém.
Toda suja de maquiagem.
Vestido de noitada sabe?
Decotado curtinho bem caro.
Coisa de burguês.
Não sou virjão.
Um cão como eu sei farejar.
Aquilo tinha pedigri.
Encostei o carro sem desligar.
Sempre é preciso ficar esperto.
Baixei meio vidro e fiquei com um olho no retrovisor.
Perguntei o que tinha acontecido.
Ela se jogou na porta chorando ainda mais e disse que tinha brigado com o namorado.
Uma carona?
Eu já tava abrindo a porta.
Quem não faria isso?
Eu tinha só boas intenções.
Disse que morava perto da UEM.
Ainda tinha um pouco de gasolina.
Quase quinze litros.
Quando eu me preparava para abrir avistei o primeiro negão lá atrás.
O cara era grande tava sem camisa e tinha um bastão na mão.
Ele surgiu da esquina mesmo.
O bastão rodava no seu corpo.
Ia pro lado esquerdo.
Depois pro direito.
Do meu lado outro figura já vinha cruzando a Cerro Azul.
Um anão preto.
O mais assustador deles.
Sem nenhuma arma.
Mas vinha decidido ao meu encontro.
Talvez o chefe da gangue?
Pra fechar veio o outro.
Saído do terreno baldio quase cinquenta metros à minha frente.
Sorrindo alucinado.
Barbudão.
Obeso.
Gordo.
O pior sorriso que alguém te pode dar.
Todos os dentes brilhando:
O anúncio da tua desgraça.
Me dei conta que a puta já tava tentando abrir a porta por dentro.
Cê tá fudido mermão!
Deus eu pensei.
No desespero fui ligar o carro mas ele já tava ligado.
Dei um soco na piranha e mordi a mão dela.
O do bastão conseguiu acertar a minha traseira.
Acelerei como nunca.
Quase dá tempo pro anão também se jogar no carro.
Eu vou pro inferno com o cê desgraçado!
Não vai não!
Pisei no freio firme.
Ela não caía de jeito nenhum.
Ali no redondo lá embaixo mordi a mão dela pra valer até sangrar.
Só depois disso ela soltou.
E caiu na rua abraçando a mão.
Acelerei.
Que caralho.
Que caralho.
Quando terminei o redondo olhei pra trás.
O preto me apontava o bastão.
A puta chorava com a mão no peito.
E o anão me encarava de um jeito estranho.
Como se soubesse que nos encontraríamos em breve pelas ruas de Maringá.
Meia noite.
Voltando pra casa cansado depois de sair com os amigos.
Todos queriam ver meu novo carrão.
Quase três anos economizando.
Rebaixado neon DVD som no porta malas calota zerada.
Tinha deixado minha mina na casa dela do lado do cemitério.
Na Cerro Azul nunca tem puta.
Pelo menos nunca vi.
Ninguém ali anda de boa.
Não de noite.
É tenso.
Achei estranho quando vi a garota na calçada.
Se fosse noutro lugar eu não parava.
Mas quem acudiria se fosse algo sério?
Com tanto tarado nas ruas à toa?
Ela chorava como se tivesse morrido alguém.
Toda suja de maquiagem.
Vestido de noitada sabe?
Decotado curtinho bem caro.
Coisa de burguês.
Não sou virjão.
Um cão como eu sei farejar.
Aquilo tinha pedigri.
Encostei o carro sem desligar.
Sempre é preciso ficar esperto.
Baixei meio vidro e fiquei com um olho no retrovisor.
Perguntei o que tinha acontecido.
Ela se jogou na porta chorando ainda mais e disse que tinha brigado com o namorado.
Uma carona?
Eu já tava abrindo a porta.
Quem não faria isso?
Eu tinha só boas intenções.
Disse que morava perto da UEM.
Ainda tinha um pouco de gasolina.
Quase quinze litros.
Quando eu me preparava para abrir avistei o primeiro negão lá atrás.
O cara era grande tava sem camisa e tinha um bastão na mão.
Ele surgiu da esquina mesmo.
O bastão rodava no seu corpo.
Ia pro lado esquerdo.
Depois pro direito.
Do meu lado outro figura já vinha cruzando a Cerro Azul.
Um anão preto.
O mais assustador deles.
Sem nenhuma arma.
Mas vinha decidido ao meu encontro.
Talvez o chefe da gangue?
Pra fechar veio o outro.
Saído do terreno baldio quase cinquenta metros à minha frente.
Sorrindo alucinado.
Barbudão.
Obeso.
Gordo.
O pior sorriso que alguém te pode dar.
Todos os dentes brilhando:
O anúncio da tua desgraça.
Me dei conta que a puta já tava tentando abrir a porta por dentro.
Cê tá fudido mermão!
Deus eu pensei.
No desespero fui ligar o carro mas ele já tava ligado.
Dei um soco na piranha e mordi a mão dela.
O do bastão conseguiu acertar a minha traseira.
Acelerei como nunca.
Quase dá tempo pro anão também se jogar no carro.
Eu vou pro inferno com o cê desgraçado!
Não vai não!
Pisei no freio firme.
Ela não caía de jeito nenhum.
Ali no redondo lá embaixo mordi a mão dela pra valer até sangrar.
Só depois disso ela soltou.
E caiu na rua abraçando a mão.
Acelerei.
Que caralho.
Que caralho.
Quando terminei o redondo olhei pra trás.
O preto me apontava o bastão.
A puta chorava com a mão no peito.
E o anão me encarava de um jeito estranho.
Como se soubesse que nos encontraríamos em breve pelas ruas de Maringá.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Dois encontros com Dalton Trevisan, autor de "Cemitério de Elefantes"
Pulicada no Jornal do Brasil (20/02/10).
Ele repudia o culto à celebridade. Apressa o passo de suas caminhadas matinais quando é perseguido por fotógrafos. Xinga os repórteres que, sedentos, se aproximam em busca de uma entrevista. E jamais, de forma alguma, comparece aos eventos nos quais é homenageado. Hoje aos 84 anos, o escritor Dalton Trevisan escolheu viver nas sombras, no silêncio que somente o anonimato pode propiciar.
O sonho de qualquer jornalista? Uma entrevista exclusiva. Quando isso vai acontecer? Nunca. Então, para arrancar algumas palavras do Vampiro de Curitiba – apelido devido ao seu livro homônimo, lançado em 1965 – traço a estratégia: encarar os 428 quilômetros que separam minha cidade, Maringá (PR), de Curitiba, omitir ser estudante de jornalismo e torcer para o contista sair de casa. Se chover, o plano vai por água abaixo: como armar a tocaia em frente à casa do enigmático Trevisan?
Às 8h entro, pontualmente, no táxi que me levará ao bairro Alto da Glória – um nome digno para acomodar o maior contista brasileiro vivo. No curto caminho que separa a casa de Dalton da rodoviária, pergunto ao taxista se é verdade que o famoso escritor reside por ali.
– Dizem que mora sim, mas ninguém nunca o viu – responde o curitibano, seco, sem tirar os olhos do volante.
Chamando à porta de casa
Uma leve garoa atinge os transeuntes que atravessam a movimentada esquina onde reside o escritor. Para quem escreve sobre violência, assassinatos, drogas, prostituição, pedofilia e fetiches sexuais, Dalton Trevisan escolheu um lar ideal: grande e antigo, totalmente cinza, cercado por árvores que funcionam como barreiras aos curiosos que se penduram no muro, a fim de tentar espiar o tão misterioso autor. Estranhices à parte, não há barulho algum dentro da casa. Uma única luz acesa, no corredor, indica que ela não está abandonada.
Com um olhar mais atento sobre o puxadinho de trás, é possível observar que as janelas estão, desde cedo, escancaradas. Em julho do ano passado, quando passava, descompromissadamente, perto da residência do escritor, resolvi mudar meu roteiro e chamar ao portão. Sem campainha, tive de bater palmas e gritar seu nome. Para minha surpresa, o Vampiro abriu uma fresta da porta, deixando o rosto parcialmente escondido, protegido de algum flash que eu, rapidamente, poderia disparar. Mostrei três livros para que ele viesse ao meu encontro: “Deixe na livraria do Chain!”, gritou, antes de bater a porta na cara do petulante.
Agora a situação é diferente. Permaneço em silêncio, atento a cada movimento. Sorte minha: não chove. Precisamente às 10h50, Dalton Trevisan abre a porta de sua casa. Debaixo do braço, ele carrega alguns livros. Com passos rápidos, o ágil senhor de 84 anos caminha em direção à Livraria do Chain, local em que troca mensagens com sua editora e autografa os livros deixados por seus leitores.
Cinco minutos é o tempo que o Vampiro permanece na livraria, observando os lançamentos e deixando as edições que trazia de sua casa. Ele sai, agora, sempre taciturno; caminha geralmente olhando para baixo, e nunca se distrai com as belas curitibanas que passam ao seu lado ou cruzam sua frente.
É assim que observa os detalhes de Curitiba, cidade mitificada em suas obras: quieto, sem gestos bruscos, imperceptível. Passa pelo Teatro Guaíra e dá uma volta e meia na praça em frente à Universidade Federal, num cenário em que namorados, mendigos, hippies, empresários e turistas convivem em harmonia.
Quando passa por alguma banca de revista, para por cerca de dois ou três minutos, contemplando as notícias dos exemplares à mostra. Misturado aos curitibanos, o Vampiro escuta camuflado as novelas nada exemplares da vida urbana, como um anônimo ladrão de histórias. E volta a caminhar. Cruza semáforos, em meio a um trânsito caótico, driblando barracas de camelôs, passando por botecos, padarias, pontos de ônibus, deficientes físicos, filas de aposentados e indivíduos suspeitos.
Estou preparado para ficar cara a cara com o Vampiro. O local da abordagem? Uma esquina bem no Centro da cidade. No meu primeiro encontro, em janeiro de 2009, identifiquei-me como aspirante a escritor e revelei estudar letras (omiti estudar também jornalismo). Se ele sente qualquer intenção jornalística, foge como se lhe exibissem uma cruz. Trevisan, há um ano, na esquina de sua residência, me convidou a ir até à livraria, pois compraria alguns livros para mim. Antes, porém, perguntei como ele gostaria de ser lembrado daqui a 40 anos. A resposta, que arrancou uma boa gargalhada minha, foi surpreendente:
– Daqui a 40 anos, ninguém se lembrará de mim.
Eu o contestei imediatamente. Não adiantou nada:
– Essa sua opinião é uma opinião isolada.
No rápido trajeto, o contista revelou uma listinha com seus livros prediletos e fez críticas concisas às obras.
O poeta alemão Rainer Maria Rilke, com Cartas a um jovem poeta, foi o primeiro a ser citado:
– Nas cartas dedicadas ao jovem poeta, ali está tudo o que você pode aprender sobre inspiração, escrita e linguagem – afirma Trevisan.
A metamorfose, do também alemão Franz Kafka, foi considerada como “uma história incrível” e A morte de Ivan Ilitch, do russo Liev Tolstói, “a melhor novela já feita”, na opinião do contista.
Dentro da livraria, Trevisan elogiou outro contista:
– Leia tudo o que puder do russo Anton Tchecov. Aliás, existem boas coletâneas de suas obras.
No campo da poesia, o Vampiro indicou o pernambucano Manuel Bandeira, um dos seus prediletos:
– O estilo e a linguagem dele são maravilhosos. As crônicas também são boas. Leia Crônicas da província do Brasil e Os reis vagabundos.
E para o Vampiro, quem é o maior contista brasileiro?
– Machado de Assis. Além dos contos, leia Quincas Borba, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.
Depois de Machado, indagou-me se eu gostava de Rubem Braga. A última obra citada , classificada como “maravilhosa”, foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Em meio a tantos clássicos, o Vampiro seria capaz de reescrever as histórias melhor do que os próprios autores? A resposta é negativa:
– Ninguém pode reescrever A metamorfose melhor do que Kafka. Ninguém vai reescrever A morte de Ivan Ilitch melhor do que Tolstói.
Naquela manhã, ganhei dois presentes de Dalton Trevisan: duas edições pockets das obras citadas de Tolstói e Rilke. Outros livros, solicitados pelo contista, estavam fora do catálogo. Na frente do Vampiro, a atendente se comprometeu a conseguir os livros para eu buscá-los no dia seguinte. Ao encerrar o encontro, o contista estendeu a mão e abriu um sorriso. Semanas depois, entrei em contato com a livraria, passei meu endereço em Maringá e recebi, em minha casa, outras quatro edições de bolso enviadas pelo contista: Kafka, Tchecov, Machado e Dalton.
Jamais imaginaria que eu teria a chance de encontrá-lo novamente. Ele deve ter se irritado. A reportagem relatando nosso encontro foi publicada em um jornal do Paraná. Depois da publicação, enviei um outro livro para ele autografar, alguns contos de minha autoria e uma carta agradecendo pelas edições enviadas e também por sua produção literária. Todo o material foi reenviado para mim. No livro, nenhum autógrafo. Da mesma forma que foi, voltou. Era a primeira vez, em três décadas, que o contista concedia alguma declaração à imprensa.
Agora, quase um ano depois do primeiro encontro, eu me aproximo com três livros para serem assinados. Estamos em uma movimentada esquina. O sinal fecha.
– Dalton? – eu pergunto. Ele vira e me olha desconfiado. Peço um autógrafo nos três livros que retiro de dentro de uma sacola plástica.
Ao se deparar com uma rara primeira edição de Cemitério de elefantes, publicada em 1964, o contista reclama:
– Mas esta edição eu renego! Já reescrevi diversas vezes!
A curiosa cena protagonizada pelo autor, fanático por recompor suas obras em novas edições, extirpando uma ou outra conjunção, sempre reduzindo o tamanho dos contos, arranca uma risada minha. Peço que ele autografe mesmo assim. Dalton olha para trás, onde há uma pequena padaria, e indica o balcão:
– Vamos ali, para firmar os livros.
Na dedicatória, ele pede meu sobrenome, mas me recuso a dizer.
– Basta só Alexandre? – indaga o mestre da concisão e, diante da minha afirmativa, diz sorrindo: – Então tá, só Alexandre.
Com o tempo, Trevisan padronizou seus autógrafos: “Ao (nome), cordialmente, D. Trevisan”. Agora, se há uma intimidade, o Vampiro muda: “Ao (nome), com um abraço do D. Trevisan”. E ele só rabisca a dedicatória em um dos livros. Nos seguintes, deixa apenas a assinatura. Na década de 60, quando iniciou sua trajetória literária, era diferente. Ele sempre era afetuoso na dedicatória e não assinava seu sobrenome, apenas Dalton.
Antes de encerrar o encontro, o contista indaga:
– Como você me achou aqui no Centro?
É claro que não digo que estou perseguindo-o há cerca de meia hora. Sem desviar o olhar, relembro um trecho de uma entrevista concedida nos anos 60, em que o próprio Trevisan contestava a fama de recluso. Cara a cara com o Vampiro, parafraseio sua declaração: “É possível encontrar Dalton Trevisan em cada esquina de Curitiba”. Ponto para mim. Arranco outro sorriso do autor, que observa:
– E você confirmou isso mesmo!.
Na padaria, ele estende a mão, compassadamente, e sorri:
– É sempre bom encontrar um leitor .
O escritor retoma a caminhada sem olhar para trás. Dalton Trevisan nunca olha para trás. Volto a segui-lo. Ele entra em um restaurante vegetariano. Sozinho. É muita ironia: um vampiro que se abstém de carne. Na volta para casa, meia hora depois, ele escolhe o mesmo trajeto e circula pelas mesmas praças, até enfrentar a íngreme rua que o leva à sua residência. Deixo o Alto da Glória com os livros assinados e algumas imagens do recluso contista. Curiosamente, não são as palavras do nosso encontro que ecoam na minha cabeça. Mas, sim, um excerto de sua nova obra, Violetas e pavões: “O senhor esconde o rosto desta cidade, mas não de mim”.
O sonho de qualquer jornalista? Uma entrevista exclusiva. Quando isso vai acontecer? Nunca. Então, para arrancar algumas palavras do Vampiro de Curitiba – apelido devido ao seu livro homônimo, lançado em 1965 – traço a estratégia: encarar os 428 quilômetros que separam minha cidade, Maringá (PR), de Curitiba, omitir ser estudante de jornalismo e torcer para o contista sair de casa. Se chover, o plano vai por água abaixo: como armar a tocaia em frente à casa do enigmático Trevisan?
Às 8h entro, pontualmente, no táxi que me levará ao bairro Alto da Glória – um nome digno para acomodar o maior contista brasileiro vivo. No curto caminho que separa a casa de Dalton da rodoviária, pergunto ao taxista se é verdade que o famoso escritor reside por ali.
– Dizem que mora sim, mas ninguém nunca o viu – responde o curitibano, seco, sem tirar os olhos do volante.
Chamando à porta de casa
Uma leve garoa atinge os transeuntes que atravessam a movimentada esquina onde reside o escritor. Para quem escreve sobre violência, assassinatos, drogas, prostituição, pedofilia e fetiches sexuais, Dalton Trevisan escolheu um lar ideal: grande e antigo, totalmente cinza, cercado por árvores que funcionam como barreiras aos curiosos que se penduram no muro, a fim de tentar espiar o tão misterioso autor. Estranhices à parte, não há barulho algum dentro da casa. Uma única luz acesa, no corredor, indica que ela não está abandonada.
Com um olhar mais atento sobre o puxadinho de trás, é possível observar que as janelas estão, desde cedo, escancaradas. Em julho do ano passado, quando passava, descompromissadamente, perto da residência do escritor, resolvi mudar meu roteiro e chamar ao portão. Sem campainha, tive de bater palmas e gritar seu nome. Para minha surpresa, o Vampiro abriu uma fresta da porta, deixando o rosto parcialmente escondido, protegido de algum flash que eu, rapidamente, poderia disparar. Mostrei três livros para que ele viesse ao meu encontro: “Deixe na livraria do Chain!”, gritou, antes de bater a porta na cara do petulante.
Agora a situação é diferente. Permaneço em silêncio, atento a cada movimento. Sorte minha: não chove. Precisamente às 10h50, Dalton Trevisan abre a porta de sua casa. Debaixo do braço, ele carrega alguns livros. Com passos rápidos, o ágil senhor de 84 anos caminha em direção à Livraria do Chain, local em que troca mensagens com sua editora e autografa os livros deixados por seus leitores.
Cinco minutos é o tempo que o Vampiro permanece na livraria, observando os lançamentos e deixando as edições que trazia de sua casa. Ele sai, agora, sempre taciturno; caminha geralmente olhando para baixo, e nunca se distrai com as belas curitibanas que passam ao seu lado ou cruzam sua frente.
É assim que observa os detalhes de Curitiba, cidade mitificada em suas obras: quieto, sem gestos bruscos, imperceptível. Passa pelo Teatro Guaíra e dá uma volta e meia na praça em frente à Universidade Federal, num cenário em que namorados, mendigos, hippies, empresários e turistas convivem em harmonia.
Quando passa por alguma banca de revista, para por cerca de dois ou três minutos, contemplando as notícias dos exemplares à mostra. Misturado aos curitibanos, o Vampiro escuta camuflado as novelas nada exemplares da vida urbana, como um anônimo ladrão de histórias. E volta a caminhar. Cruza semáforos, em meio a um trânsito caótico, driblando barracas de camelôs, passando por botecos, padarias, pontos de ônibus, deficientes físicos, filas de aposentados e indivíduos suspeitos.
Estou preparado para ficar cara a cara com o Vampiro. O local da abordagem? Uma esquina bem no Centro da cidade. No meu primeiro encontro, em janeiro de 2009, identifiquei-me como aspirante a escritor e revelei estudar letras (omiti estudar também jornalismo). Se ele sente qualquer intenção jornalística, foge como se lhe exibissem uma cruz. Trevisan, há um ano, na esquina de sua residência, me convidou a ir até à livraria, pois compraria alguns livros para mim. Antes, porém, perguntei como ele gostaria de ser lembrado daqui a 40 anos. A resposta, que arrancou uma boa gargalhada minha, foi surpreendente:
– Daqui a 40 anos, ninguém se lembrará de mim.
Eu o contestei imediatamente. Não adiantou nada:
– Essa sua opinião é uma opinião isolada.
No rápido trajeto, o contista revelou uma listinha com seus livros prediletos e fez críticas concisas às obras.
O poeta alemão Rainer Maria Rilke, com Cartas a um jovem poeta, foi o primeiro a ser citado:
– Nas cartas dedicadas ao jovem poeta, ali está tudo o que você pode aprender sobre inspiração, escrita e linguagem – afirma Trevisan.
A metamorfose, do também alemão Franz Kafka, foi considerada como “uma história incrível” e A morte de Ivan Ilitch, do russo Liev Tolstói, “a melhor novela já feita”, na opinião do contista.
Dentro da livraria, Trevisan elogiou outro contista:
– Leia tudo o que puder do russo Anton Tchecov. Aliás, existem boas coletâneas de suas obras.
No campo da poesia, o Vampiro indicou o pernambucano Manuel Bandeira, um dos seus prediletos:
– O estilo e a linguagem dele são maravilhosos. As crônicas também são boas. Leia Crônicas da província do Brasil e Os reis vagabundos.
E para o Vampiro, quem é o maior contista brasileiro?
– Machado de Assis. Além dos contos, leia Quincas Borba, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.
Depois de Machado, indagou-me se eu gostava de Rubem Braga. A última obra citada , classificada como “maravilhosa”, foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Em meio a tantos clássicos, o Vampiro seria capaz de reescrever as histórias melhor do que os próprios autores? A resposta é negativa:
– Ninguém pode reescrever A metamorfose melhor do que Kafka. Ninguém vai reescrever A morte de Ivan Ilitch melhor do que Tolstói.
Naquela manhã, ganhei dois presentes de Dalton Trevisan: duas edições pockets das obras citadas de Tolstói e Rilke. Outros livros, solicitados pelo contista, estavam fora do catálogo. Na frente do Vampiro, a atendente se comprometeu a conseguir os livros para eu buscá-los no dia seguinte. Ao encerrar o encontro, o contista estendeu a mão e abriu um sorriso. Semanas depois, entrei em contato com a livraria, passei meu endereço em Maringá e recebi, em minha casa, outras quatro edições de bolso enviadas pelo contista: Kafka, Tchecov, Machado e Dalton.
Jamais imaginaria que eu teria a chance de encontrá-lo novamente. Ele deve ter se irritado. A reportagem relatando nosso encontro foi publicada em um jornal do Paraná. Depois da publicação, enviei um outro livro para ele autografar, alguns contos de minha autoria e uma carta agradecendo pelas edições enviadas e também por sua produção literária. Todo o material foi reenviado para mim. No livro, nenhum autógrafo. Da mesma forma que foi, voltou. Era a primeira vez, em três décadas, que o contista concedia alguma declaração à imprensa.
Agora, quase um ano depois do primeiro encontro, eu me aproximo com três livros para serem assinados. Estamos em uma movimentada esquina. O sinal fecha.
– Dalton? – eu pergunto. Ele vira e me olha desconfiado. Peço um autógrafo nos três livros que retiro de dentro de uma sacola plástica.
Ao se deparar com uma rara primeira edição de Cemitério de elefantes, publicada em 1964, o contista reclama:
– Mas esta edição eu renego! Já reescrevi diversas vezes!
A curiosa cena protagonizada pelo autor, fanático por recompor suas obras em novas edições, extirpando uma ou outra conjunção, sempre reduzindo o tamanho dos contos, arranca uma risada minha. Peço que ele autografe mesmo assim. Dalton olha para trás, onde há uma pequena padaria, e indica o balcão:
– Vamos ali, para firmar os livros.
Na dedicatória, ele pede meu sobrenome, mas me recuso a dizer.
– Basta só Alexandre? – indaga o mestre da concisão e, diante da minha afirmativa, diz sorrindo: – Então tá, só Alexandre.
Com o tempo, Trevisan padronizou seus autógrafos: “Ao (nome), cordialmente, D. Trevisan”. Agora, se há uma intimidade, o Vampiro muda: “Ao (nome), com um abraço do D. Trevisan”. E ele só rabisca a dedicatória em um dos livros. Nos seguintes, deixa apenas a assinatura. Na década de 60, quando iniciou sua trajetória literária, era diferente. Ele sempre era afetuoso na dedicatória e não assinava seu sobrenome, apenas Dalton.
Antes de encerrar o encontro, o contista indaga:
– Como você me achou aqui no Centro?
É claro que não digo que estou perseguindo-o há cerca de meia hora. Sem desviar o olhar, relembro um trecho de uma entrevista concedida nos anos 60, em que o próprio Trevisan contestava a fama de recluso. Cara a cara com o Vampiro, parafraseio sua declaração: “É possível encontrar Dalton Trevisan em cada esquina de Curitiba”. Ponto para mim. Arranco outro sorriso do autor, que observa:
– E você confirmou isso mesmo!.
Na padaria, ele estende a mão, compassadamente, e sorri:
– É sempre bom encontrar um leitor .
O escritor retoma a caminhada sem olhar para trás. Dalton Trevisan nunca olha para trás. Volto a segui-lo. Ele entra em um restaurante vegetariano. Sozinho. É muita ironia: um vampiro que se abstém de carne. Na volta para casa, meia hora depois, ele escolhe o mesmo trajeto e circula pelas mesmas praças, até enfrentar a íngreme rua que o leva à sua residência. Deixo o Alto da Glória com os livros assinados e algumas imagens do recluso contista. Curiosamente, não são as palavras do nosso encontro que ecoam na minha cabeça. Mas, sim, um excerto de sua nova obra, Violetas e pavões: “O senhor esconde o rosto desta cidade, mas não de mim”.
Alexandre Gaioto é jornalista freelancer e já colaborou com os jornais Diário do Norte do Paraná, Folha de Londrina, O Estado do Paraná, Gazeta do Povo e Zero Hora.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
A Manaus de Hatoum

Em "A cidade ilhada", livro de contos do amazonense Milton Hatoum, Manaus é o centro de suas tramas delicadas, poéticas e surpreendentes
É comum um escritor iniciar sua trajetória literária publicando contos. E, depois, com a experiência adquirida nas histórias curtas, partir para a composição de narrativas mais longas, dedicando-se à novela ou ao romance. Com o amazonense Milton Hatoum, autor do aclamado “Dois irmãos”, o trâmite foi diferente.
Seu primeiro livro publicado, o romance “Relato de um certo oriente” (1989), foi bem acolhido pela crítica especializada, venceu o prêmio Jabuti e, desde aquela época, já mostrava algumas características literárias que reapareceriam em suas obras, como o regionalismo, a prosa poética e o objetivo de imortalizar Manaus.
Depois de três Jabutis seguidos – além de “Relato de um certo oriente”, os romances “Dois irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005) também foram contemplados com o prêmio –, o escritor apostou no diferente.
No ano passado, a Companhia das Letras lançou “A cidade ilhada”, volume reunindo alguns de seus contos publicados em jornais e revistas, no período de 1990 e 2008, além das histórias inéditas. Tanto na novela “Órfãos do Eldorado”, publicada há dois anos, quanto nos contos, Milton Hatoum revela-se um autor saboroso em suas concisões. Seu ritmo de narrativa delicado conduz, sempre com belas imagens, as 14 histórias de “A cidade ilhada”.
No primeiro conto, Hatoum regressa à Manaus de sua infância para compor, com pureza e inocência, sobre a primeira noite de um grupo de jovens amigos no prostíbulo “Varandas da Eva”. Tal como o grupo de amigos que vai ao balneário das mulheres, praticamente todos os personagens do livro estão em Manaus.
Em “Dois poetas da província”, Hatoum resgata a passagem do filósofo Jean-Paul Sarte por Manaus; “Um oriental na vastidão” mostra a bonita história de um cientista japonês que viaja à Manaus apenas para conhecer as águas do rio Negro – local onde, futuramente, ele escolherá para morrer; um jornalista indiano, disfarçado de almirante, faz uma visita a um escritor de Manaus – Milton Hatoum? – a fim de publicar, na Índia, um perfil sobre autor.
Na cidade de Hatoum, os homens defendem sua honra com vingança e cabeça em pé. Nos contos “O adeus do comandante” e “A casa ilhada”, o escritor traça dois perfis completamente diferentes para dois homens traídos por suas respectivas mulheres. No primeiro, um simples barqueiro, numa lúgubre viagem de barco, assassina o próprio irmão após descobrir os casos de infidelidade envolvendo sua esposa: “Salvei minhas honras e tirei a vergonha dos meus três filhos”, explica o personagem. Já em “A casa ilhada”, um renomado biólogo retorna à Manaus para matar o homem que seduziu sua mulher e arruinou o início do seu casamento. Assim, o contista une, no mesmo nível, o intelectual ao homem simples: ambos traídos à beira do rio Amazonas.
Tal como Dalton Trevisan mitificou Curitiba e João Ubaldo Ribeiro, a ilha de Itaparica, o escritor amazonense se dedica às peripécias de sua região, com os seus costumes, tradições, gírias, pratos típicos e lendas: é o comportamento subversivo do jovem artista Mundo, do romance “Cinzas do Norte”; são as brigas constantes dos gêmeos Yaqub e Omar, em “Dois Irmãos”; é o retrato da decadência na vida de Arminto Cordovil, em “Órfãos do Eldorado”.
As delicadas histórias de Milton Hatoum, em “A cidade ilhada”, poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo. Mas o contista não abre mão de sua terra. É em Manaus - ou numa pequena cidade à beira do rio Amazonas – que suas tramas são ambientadas e desenvolvidas.
Milton Hatoum segue o conselho do autor russo Leon Tolstoi: “Cante a tua aldeia e serás imortal”.
Publicado em O Diário do Norte do Paraná, no dia 27 de janeiro de 2010.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Sussurros e gemidos
Minha cabeça ainda estava doendo quando desci as escadas do hotel e peguei o embrulho sem nada dizer ao atendente. Cruzei a Herval apertando a encomenda debaixo do braço e entrei na camionete marrom que me esperava do outro lado da rua, no local combinado, em frente à panificadora.
“Pensei que você fosse mais alto”, disse o gordo ruivo de chapéu panamá.
Ele sorriu, estendeu a mão, perguntou algo sobre o hotel, se eu havia gostado, e saímos em direção à casa do primeiro da lista: um traficante que morava sozinho no Jardim Tabaetê.
A casa era grande, tinha um alto muro protegido com cerca elétrica e três cachorros exibiam suas arcadas dentárias assassinas ao notar minha presença como transeunte. Esperei o sujeito chegar, a casa da frente estava vazia, era uma chance de entrar tranquilamente. Ele parou o carro por volta das cinco da tarde, o portão abriu lentamente e fechou como se sofresse mal de Parkinson. Mas ele não estava sozinho. Chegou acompanhado por uma loira, provavelmente do seu tamanho, o que não era muito: era um nanico. O casal desceu e, dentro da garagem, demoraram no beijo que indicava o início de uma noitada entre sussurros e gemidos. Só um erro de minha parte: era um travesti. Hoje em dia, está cada vez mais difícil identificar esses viados, travestis, essa corja toda.
O gordo dormiu no banco do motorista a tarde toda. Antes de sair, tirei o chapéu panamá da cabeça dele e o acomodei na minha cabeça. Ficou um pouco largo, mas tinha estilo próprio. No começo, há uns quinze anos, eu só fazia meu trabalho com um chapéu panamá. Era a última visão que muitas pessoas tinham dessa vida: minha Colt Special 12 milímetros e meu chapéu panamá.
Na intensidade do amor, ainda na garagem, o nanico se esqueceu de disparar o alarme. Joguei três fartos pedaços de carne envenenada para os cachorros. Em dez minutos, todos derrubados. Entrei pelo lado esquerdo, onde havia uma árvore que quase encostava no muro. Andei pelo telhado e pulei no quintal. Fui tranquilo, sabia que eles estavam no quarto. Na cozinha, os gritos dos amantes se tornam compreensíveis, e era possível ouvir os palavrões, o barulho dos tapas arrebentando, amorosamente, as ancas de alguém no segundo andar.
Na intensidade do amor, ainda na garagem, o nanico se esqueceu de disparar o alarme. Joguei três fartos pedaços de carne envenenada para os cachorros. Em dez minutos, todos derrubados. Entrei pelo lado esquerdo, onde havia uma árvore que quase encostava no muro. Andei pelo telhado e pulei no quintal. Fui tranquilo, sabia que eles estavam no quarto. Na cozinha, os gritos dos amantes se tornam compreensíveis, e era possível ouvir os palavrões, o barulho dos tapas arrebentando, amorosamente, as ancas de alguém no segundo andar.
Abri a porta lentamente. Os dois caras estavam abraçados, em pleno coito, quando dei uma grava no travesti e apontei o revólver para o nanico. Ele ficou pálido; o travesti, mudo. Meteu a mão, bruscamente, debaixo do travesseiro. Sempre a ideia da arma debaixo do travesseiro. Dei um tiro no peito dele que fez o travesti gritar. Meti uma coronhada no traveco.
“Baiano manda lembranças”, eu disse.
Mais um que atravessa para o outro lado da vida contemplando minha Colt 12 milímetros e meu chapéu panamá. O covarde estava de costas, tentando se proteger com um cobertor de lã. A bala estraçalhou seu crânio e espalhou pedaços do seu cérebro na coberta.
O travesti estava roendo as unhas. Tinha urinado no carpete. Tremia. Cobria seu pinto, frouxo, com as mãos. Ainda bem que não é uma garota. Nessas horas, eu chego a hesitar. Mas com o travesti, fui sem dó: um na cabeça. Era o puto errado, com o freguês errado, na hora errada.
Liguei para o gordo.
“Pode vir”, mandei.
Juntos, reviramos a casa. Tiramos todas as gavetas, pegamos carteira, documentos, drogas, dois passaportes e cinco revólveres. Saímos pelo portão da frente, recolhi a carne envenenada e entramos na camionete.
Em frente ao hotel, o gordo me deu um envelope amarelo. Deixei o papel que envolvia a minha pistola no carro dele, cruzei o escuro saguão do hotel sem nada dizer ao atendente e subi as escadas até o terceiro andar. Amanhã será divertido: não gosto de pretos.
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