segunda-feira, 20 de junho de 2011

Em você perdido

Não sei responder assim
De veio como quando
De onde surgiu
Aquela vontade de te
Assustou e te parei
No meio do bar tão
Em você perdido
Com o copo na mão
-primeiro a cerveja
Depois o vinho
Bêbado catatônico
Tro-
pe-
çan-
do
Em palavras vomitando
Frases um trecho desordenado da
Divina Comédia
Que você pediu e gostou Alexandre
Me repete essas palavras
Com prazer
Seria capaz de sabia passar uma vida
Na sua frente
Repetindo o mesmo trecho
Da Divina Comédia
Lendo cervejas
Bebendo Dante
Enquanto você fuma um baseado e suave acaricia
Seu cachorro Ringo debaixo de um pôster
Dos Beatles
Num momento estranho
Voltei a viver
-e gostei disso

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pra Noêmia

Louca de pernas abertas
Bem molhadinha ele me deixou
Começava assim Marta me chamando pelo nome:
Noêmia
Fui despedido e caí na vida
Precisando comprar leite pão pros dois filhos
De costa com a família sem um centavo pra dívida
Enterrado pra sempre na miséria e azar?
Pensei que sim
Deus tinha então me abandonado
Ah cotovia no terror é tão triste lembrar o dia feliz
Na Vila Operária não me olhavam mais
O alvo favorito das mentiras do Tatá
Dedão na minha frente gritando ofensa e palavrão
Logo eu roubando dinheiro do caixa no karaokê?
Jurei em nome da mãe mostrei bolso debaixo do boné
-nem quiseram ver lugares íntimos
Te tiram a honestidade sem prova numa sexta qualquer
E pra sempre traidor até o fim dos dias
Verdade sim cotovia me envolvi em coisa ruim
Arrependido cada vez que deito a cabeça e durmo
Teve mesmo o lance do roubo no velho
Na mansão sem machucar ninguém
Pra pegar só um dinheiro de quem tem muito
Tudo isso com bebida sem dormir e maldito
Longe de ser perfeito
Ao seu lado morro de orgulho
-aqui ó a pontinha de vergonha da tua pureza
Todo meu carinho e agradecimento
Trabalhar no culto me deu uma coisa boa
Dentro fundo sabe como é?
Cotovia
Sou um homem só
Mas sou todo seu
-se quiser claro
Com carinho
Seu devoto
Manolo
Viu só Marta?
Que grandalhão assim te manda flor com carta no sábado?

terça-feira, 31 de maio de 2011

Aos vinte e três

Cansadas depois de acordar
As ramelas dos olhos me levam ao espelho
Tenho vergonha de encarar à frente
-aquilo que nunca fui está ali esperando uma resposta

Meto uma calça jeans
Pego o cinza da camiseta
Calço o velho tênis
Desço do elevador sem cumprimentar o porteiro
-havia mesmo um porteiro?

Na esquina da Avenida Brasil com a São Paulo
Encontro mais ramelas como as minhas
Elas são pesadas
Secas
Amargas
Dirigem carros importados
Seguem a pé rumo ao ponto de ônibus
Correm em silêncio enumerando as tarefas do dia
Entre os disparos de mensagens por celular
E a narração das manchetes dos principais jornais do País no rádio da pastelaria

Entro nesse prédio equilibrando um elefante nas costas
E ainda tenho de sorrir dar um alô perguntar tudo bem e o seu pai
-como vai?
No teclado as letras saem lentas sem estilo nem tesão
Sou um homem morto
-concluo aos vinte e três anos de idade

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Karaokê do Tatá

Falei pra ele
Tua putinha!
Contra a parede sem fuga meu amor
De mim o que bem quer
O tuzinho em coro cotovelo
Na minha boca o mindinho do teu pé
Triste pensando em quem naquelas outras?
Ai Tadeu
Setembro senti que já distante
Suas negras de vastas nádegas
Enchendo tua cabeça na minha frente?
Ódio é não escutar o papo inteiro no karaokê
Sei bem que além do parabéns
No sorriso daquelas promessas de uma cama mais quente talvez
Domingos de fúria e gozo sem pausa?
Invencível no karaokê do Tatá
Da voz profunda sedutora de cadeiras
Em pé quase todos batendo palma
Gente que sai longe até da Vila Operária
Se fala amor aqui bem pertinho capaz de matar
Sozinha já tão achando que eu louca
Ranjando briga errada no Meu Pato
Negando homem machão do teu tamanho sabia?
Perdida quem sabe sem volta pra pinga e cachaça
-nem dó tem aí dentro de mim?
No mar a âncora você me prendendo pra todo sempre?
Choro o sono por ti de raiva e tesão
Enfia a faca em mim mas não me despreza Tadeu

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Me profana diabo!

Na voz vi um sujeito aflito
Tropeçando em palavra e silêncio
Cheio de três pontinhos sabe?
Cinco anos de rua conheço bem o tipo
Combina no Meu Pato e dá balão
Esperando feito trôxa eu sozinha na mesa
Matando o bicho aqui dentro com goles de Presidente
O lugar?
Uma sobreloja na Vila Operária
Pra surpresa não cancela não
Até bonito o apê em cima duma loja de sapato
Toquei o interfone no primeiro andar
Da linha abriu o portão sem dizer oi pode subir vem tesão
Sem elevador parti pra escada
Bem metida num vestido azul curtinho e salto alto
No 101 o olho me espera atrás da porta meio aberta
Salivando me espia de baixo pra cima e empurra a porta
É quatro talvez cinco mãos menor que eu
Tão miúdo capaz de subir nas coxas daqui?
Num risinho digo bem gostoso hem
Se todos fossem assim que nem cê
Ele fica suado acho que sente a mentira
Não insisto
Tinha um sofá laranja no centro da salinha nada demais
Na mesa o retrato derrubado à pressa
-quem abraçado a ele jurando amor eterno?
Peguei pela mão e levei pro sofá
Numa lambidinha na orelha ele todo contorcido
Sete anos sem bimbar?
Louco com as gemidas da leoa em mim ao pé do ouvido
Escancara o tuzinho da tua cotovia faminta
Benze de leite meu rosto minha boca não perdoa nem a covinha
Soca tudo inteiro de uma vez sou tua me profana diabo!
Ele ficou louco ainda mais suado
Lambendo atordoado meu decote até aqui
Daí veio a campainha com alguém batendo na porta
Tão branco tremendo assustado
A voz pela primeira vez respondendo fraquinha calma tô me trocando
Corri pra trás do sofá abaixei muda
Pra minha surpresa ele veio do lado
Levantei achando que tinha outro esconderijo
Nisso a mulher com razão mandando abrir e batendo
Fraco ainda não sei como fez aquilo não
Me erguendo com tudo de uma só vez no colo
Tão rápido não gritei só fechei o olho
Arremessada um andar sem dó pelo escroto
Aqui ó a queda dói como uma faca no tuzinho
Na hora dor alguma
Só a sede de enforcar aquela garganta buscar meu dinheiro bolsa dignidade
Ninguém ali se importou comigo
Nem perguntaram de onde como se eu mesma caí
Enquanto um velho abria o portão aproveitei e corri
Sangue no zóio!
Empurrei a porta num grito alto não lembro o que disse
Quem descia a mão nele era a coitada
Que me jogou vinte pila a bolsa e um olhar de mulher

sábado, 30 de abril de 2011

Domingos Pellegrini - Entrevista

Definido pelo crítico literário Wilson Martins como um "autor de um idioma próprio e de uma não menos própria visão do homem", Domingos Pellegrini não teve dificuldades para encontrar sua própria voz ao publicar seu primeiro livro, "O Homem Vermelho", em 1977.

Em sua estreia, contemplada com um Prêmio Jabuti, o autor londrinense apresentou uma escrita voltada à oralidade e histórias fortemente autobiográficas.

"Meu estilo é meu maior patrimônio. Ninguém escreveu como eu", defende, com razão, em entrevista ao Diário.

O escritor, que participa de debate sobre infância e literatura com a mineira Angela Lago, amanhã, no Sesc, não deixou que a verve de Hemingway e Graciliano Ramos, suas duas maiores influências, transformassem seu fazer literário num pastiche tosco. Deles, Pellegrini bebeu da concisão e da clareza, e parou aí.

Em mais de vinte livros, que incluem contos, poesias, romances e obras voltadas ao público infantil, o londrinense não sabe ao certo como explicar sua peculiaridade. "O jeito de um escritor tratar a língua não tem explicação. O estilo é uma dádiva, é um dom. Gosto de escrever como quem fala, mas isso não é uma tarefa simples. Na minha literatura, não há lugar comum. O leitor sente a narrativa como se ouvisse algo novo."

A dica, aos novos escritores, é inovar. O londrinense lembra que, na década de sessenta, quando houve um boom de contistas surgindo aos borbotões, a maior parte se dedicava à cópia descarada de Guimarães Rosa.

A linguagem sertaneja, contundo, não deu certo às pencas de jovens. "30% dos contistas seguiam Guimarães. Ninguém lembra, hoje, o nome desses caras."

Quem começa influenciado cegamente por um ídolo literário ainda escapar do fracasso. "É como uma banda cover. Dá até para começar tocando músicas de outras pessoas para ganhar coragem e subir ao palco. Mas, se não tiver composições próprias, a banda vai cair no esquecimento", compara.

Diferenças

Para escrever suas histórias, Pellegrini volta no tempo e visita mentalmente lugares que frequentou durante sua vida. Na pensão administrada por seu pai, por exemplo, entre diálogos de peões e mascates, o autor relembra as gírias, as imagens e vai tecendo as redes de suas narrativas.

Nos contos, ele só pôs no papel o que sentiu na pele. "Vivi a maioria das coisas que escrevi. Eu não inventei. Para fazer os contos, é preciso ter uma vida intensa. Por isso eu parei de escrevê-los", avalia.

Das pequenas histórias, surgiram romances quatrocentões, como "No Coração das Perobas" (2002), de 436 páginas, e "Terra Vermelha" (2003), de 472 páginas. Nos enredos mais extensos, ele abre mão da memória e parte para a observação.

"Nos romances, é preciso criar personagens fortes, tecer painéis humanos. Não escrevo tanto das coisas que vivi: aprecio a vivência dos outros", conta.

Vivendo somente de literatura, Pellegrini vê suas obras virarem dissertações acadêmicas, escreve crônicas para dois jornais do Paraná e acompanha, anualmente, seus contos ganharem novas compilações. Morar em Londrina e ambientar suas histórias por lá, longe demais das capitais, não prejudicou em nada sua produção."Faulkner era do interior. Gabriel García Márquez não ia além do interior da Colômbia."

Publicada em O Diário no dia 28 de abril.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O carnaval de Júlio

Júlio largou a enxada, pediu descanso no carnaval ao pai, quebrou o porquinho e, pela primeira vez na cidade, foi fundo em tudo. Pinga. Cerveja. Presidente. E uma ou outra dose de uísque. No Bar do Moacir, um cavalheiro de 16 anos. Pagou cerveja, seduziu as mulheres, ficou bem falado. No Meu Pato, tratamento de rei. Se deu bem com a mesa do lado. Tema da conversa, criticou Deus, aquele puto safado, e ganhou inimigos. Jurado de morte por três cristãos, Júlio deixou o bar com um copo no bolso, cuidando atrás que não lhe golpeassem com cadeiras ou garrafas. Dormiu em frente ao inferninho, do outro lado da rua, onde lhe acordaram os carros, as motos e dois policiais. Assustado, de ressaca, perdeu a fala, tirou os documentos e amaldiçoou Deus novamente - a carteira esquecida na mesa dos religiosos. Sem maconha, pedra, nada além de um copo, Júlio partiu rumo à delegacia, antes de levar chutes nas costas, no estômago e receber a dupla enchente de catarradas em seu rosto. Liberado no dia seguinte, após escrever o nome em sete papéis diferentes, Júlio foi largado próximo da UEM, onde pediu dinheiro e desafiou desconhecidos na mesa de sinuca. Derrotados todos os rivais, fez a limpa na grana e torrou quase tudo ali mesmo, em cervejas no Manhattan. Na alta madrugada, desceu a rua em direção ao Bar Sem Nome, onde a noite nunca acaba, alguém prometeu, desafiou desconhecidos, criticou Deus à vontade, aquele puto safado ladrão de carteiras, fez a limpa na grana e torrou tudo em cerveja. Na saída, Júlio ainda conseguiu carona de um dos derrotados até à rodovia, bem próximo da fazenda, onde, no fundo, sua mãe, pai e quatro irmãos seguem a rotina num barraco de madeira. Cantando na rodovia, notou seus passos tortos cada vez mais engraçados. Olhou, como nunca antes, a plantação de soja à luz da lua. Amaldiçoasse mil vezes que fosse, dali o sustento de quantas bocas em Maringá? Abraçado à soja, Júlio dormiu orgulhoso das noitadas. Às sete horas da manhã, Abílio manchou de sangue a plantação dirigindo a colheitadeira.