quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A antiarte de Duchamp


Um urinol virado ao contrário, uma roda de bicicleta montada sobre um banco e até mesmo um simples pente provocam: o que é preciso para algo ser considerado obra de arte?
Inaugurada em julho, a retrospectiva “Uma obra que não é uma obra ‘de arte’”, a maior já realizada sobre o gênio Marcel Duchamp (1887-1968), na América Latina, é simplesmente desconcertante.
Praticamente todas as 120 obras expostas são réplicas produzidas pelo próprio artista franco-americano, que teve parte da produção original confundida com lixo e jogada fora por sua irmã, enquanto limpava o atelier. “O grande vidro”, “Sendo Dados”, “Caixa-Valise” e “Por que não espirrar, Rose Sélavy?”, produções consagradas de Duchamp, garantem ao público um contato íntimo com o mestre da antiarte. Diversos manuscritos, fotografias e filmes raros sobre o artista também compõem a mostra.
A partir do diálogo de Marcel Duchamp estabelecido com o Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo e até com a sua incondicional paixão pelo jogo de xadrez, é possível acompanhar, no MAM, as propostas da excitante revolução do universo artístico. Os seus ready-mades (tradução equivalente a “pronto para uso”) são as provas de que todo objeto cotidiano e trivial, qualquer objeto resultado da produção de massa, quando assinado pelo autor e deslocado para dentro de um museu, transforma-se em obra de arte. Duchamp coordenou uma revolução marcada por seu humor ácido e sardônico, que não poupou nem mesmo a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, rabiscada com divertidos bigode e cavanhaque.
“Roda de bicicleta” (1913), o seu primeiro ready-made, abre a retrospectiva. O público, reunido em redor de uma roda inerte sobre um banco, é tomado por uma desconfortável sensação coletiva. O efeito é a catarse, ao enfrentar obras tão inusitadas e repletas de puro anarquismo estético. Mas, sobretudo, repletas de genialidade.
Poucos metros à frente, pendurados no teto, “Previsão do braço partido” (1915) e “Porta-garrafas” (1914/1964), uma pá para neve e um suporte para garrafas, respectivamente, causam estranheza e arrancam sorrisos do público embasbacado.
A sensação desconfortável reaparece, inclusive, durante a leitura dos textos objetivos e bem escritos que conduzem os espectadores. Sorrisos consternados estampam faces quase incrédulas, observando o tampão de pia em bronze polido, na obra “Boca-ralo” (1964/1967), e “Ar de Paris” (1919), que é, simplesmente, uma ampola vazia; cheia, apenas, de ar parisiense.
Frente a frente com sua obra mais popular, a “Fonte” (1917/1964), nenhum ruído, nenhum comentário. O silêncio fúnebre predomina, como se os espectadores estivéssemos próximos de um túmulo. O mictório invertido é fotografado. Pessoas posam ao seu lado e analisam detalhes nos diversos ângulos. Gênio? Louco? Bizarro? Superestimado? Dadá? Graças a Duchamp, hoje, um intelectualizado vômito dentro de um museu é arte. Uma pessoa gritando dentro de um museu é arte. A própria ausência de obras de arte, em um museu, é arte. Você, leitor, acompanhando esse jornal: se você estivesse dentro de um museu, também seria uma obra de arte. Agradeça a Marcel Duchamp, o algoz dos cânones tradicionais. O coveiro zombador da arte clássica.
Marcel Duchamp: Uma obra que não é uma obra “de arte” permanece no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) até o dia 21 de Setembro. Endereço: Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, portão 3. De terça a domingos e feriados, das 10h às 18h. Ingresso: R$ 5,50. Crianças até 10 anos e adultos com mais de 65 anos não pagam. Telefone: (0/xx/11) 5085-1300.

4 comentários:

RICK NICOLETI disse...

Lembre de fazer uma visitinha no meu blog...

ricknicoleti.blogspot.com

Michel Queiroz disse...

atualiza esse blg, seu cretino!
Cadê a capa d'O Pampeiro aí!

VANDRÉ FERNANDO disse...

Não sei como fazer, mas todos os colegas Blogueiros poderiam fazer uma BLOGAGEM COLETIVA focada em orientar a população para ajudar corretamente nossos irmãos Catarinenses.

Anônimo disse...

A CONVIVENCIA COM THALITA SO TE VEZ BEM