segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Crimes, fedor, fugas e versos do cárcere

Magrelinho, voz baixa, passinhos curtos. Minúsculo em seu um metro e sessenta - cravados! - de altura. O carcereiro mais temido de todos os tempos do minipresídio de Maringá tem um nome nada grandioso, ironicamente no diminutivo: Paulinho. Nunca levantou a voz - nem um ai, qualquer ameaça que seja, mínimo xingamento no ápice das tantas tensões. No lugar dos fortes músculos - onde foram se meter, num corpinho tão miúdo? -, o carcereiro de apenas 57 quilos tinha seus contornos assustadores em outros hemisférios. No olhão esbugalhado revistando cada cela. No silêncio intimidante desafiando os presos. No ruído estridente, quase desumano, que ecoava dos seus dedos ao arranhar, de leve, o revólver de calibre 38 pendurado à cintura. Não foi fácil se transformar na figura mais temida e mais respeitada desses 32 anos do minipresídio maringaense. O momento decisivo foi em 1988: a forma destemida - e suicida - como encarou a morte.

Os boatos de cadeia, ao contrário da maioria dos presidiários, nunca passam muito tempo dentro das celas. Compartilhados com um único vizinho de cárcere, rápido ganham as ruas e a liberdade, passando, antes, pelos ouvidos dos próprios agentes penitenciários. Qual seria a sua reação diante de uma ameaça de morte? Pior: uma ameça de morte de um sujeito de alta periculosidade, com seus quase dois metros de altura, um sujeito que já está encarcerado e permanece, ali, o dia inteiro, sorrindo cinicamente para você atrás das grades? Paulinho deve ter pensado duas vezes. Mas, se pensou, foi tudo muito rápido. Que não deu tempo de ninguém aconselhar nem evitar o que viria pela frente. Tranquilamente, ele deixou a arma em cima da mesa e abriu a porta do minipresídio, caminhando em direção à cela onde estava o preso. No submundo da carceragem, passou rente aos 350 presidiários. Ninguém, inicialmente, esboçou reação – estupefato, você não demora a crer em seus próprios olhos? Em frente à cela, no meio do corredor, o presidiário das ameaças aguardava o carcereiro com um porrete de aço afiadíssimo. Um só golpe daquilo lava a alma de sangue. Ninguém disse única palavra. Quando a pancadaria começou, outros presos partiram para cima de Paulinho, armados com bugigangas caçadas no meio do caminho. Outros, preferiram assistir. Quem viu a cena, nunca mais esquecerá os mínimos detalhes. "Sem ajuda de ninguém, de ninguém!, ele arrebentou o sujeito grandalhão que fazia as ameaças e ainda se defendeu dos presidiários que tentaram fazê-lo de refém. No final, isso parece coisa de cinema, todos os presos abriram caminho para o Paulinho. E da mesma forma como ele entrou, quieto e sozinho, sem qualquer arranhão, debandou da carceragem, fechou a porta e calou a ameaça. A partir dali, todos os presos passaram a chamá-lo de Doutor Paulinho. Essa história já é uma das grandes lendas do minipresídio", detalha o mitológico repórter policial Roberto Silva que, embora não tenha testemunhado a tal batalha, há mais de trinta décadas vem acompanhando, de perto, os bastidores do universo policialesco maringaense.

Exigência do próprio Roberto Silva, eu telefonaria mais tarde ao Doutor Paulinho. "Cada lenda tem mil e uma lacunas de ficção. Vá atrás da verdade", ordenou. Do outro lado da linha, a voz aguda do Doutor Paulinho me receberia com gentileza e outros detalhes. "Não teve isso aí de porretes, não. Entrei sem arma no inferninho e os dois sujeitos que me ameaçaram, dois homicidas, também estavam desarmados. O problema é que eles tinham me ameaçado, num dia de visita, e me chamaram pra porrada. Eram grandes, faziam capoeira e ficaram jogando, me provocando, dizendo 'cê não é bom de porrada, é?'. Eu tinha acabado de chegar a Maringá. Não podia deixar que fizessem aquilo comigo. Então, encarei a dupla. Acertei o primeiro no pau do pescoço. O segundo ficou surpreso, e com isso ganhei vantagem. Dei um golpe no segundo, também sem problemas. Eu, que só tinha as lições do treino da polícia. Nem jogar capoeira eu jogo. Bom, desde então, nunca mais nenhum preso veio me provocar", comentaria o Doutor Paulinho, hoje aposentado do inferninho.

Às três e meia da tarde, disputando os últimos centímetros na sombra, seis repórteres policiais e cinegrafistas vão matando o tédio na frente da 9ª SDP (Subdivisão de Polícia). O vento faz cócegas na árvore, derruba o chapéu do velho, atropela o jornal do delegado. Diante do vento e do Sol impiedoso, você só agradece. Por sorte - ou milagre do tal padre-cantor? -, sem temporais nem previsão de chuva molha-bobo. Aleluia! É hoje que a polícia vai abrir a cadeia. E a imprensa poderá ver, de perto, como é acordar e dormir dentro do inferninho.

"Cêis vieram hoje cedo?", pergunta o cinegrafista João Vitor, 29, de uma emissora de TV. Eu e Ricardo Lopes, fotógrafo de O Diário escalado para a missão, respondemos que não.

"De manhã, eles já liberaram pra TV. O outro cinegrafista até passou mal. Lá dentro é muito fedorento. Vou te falar, viu? Não tenho o estômago pra essas coisas."

Tiro, porrada e bomba
Enquanto a polícia não libera o cárcere à imprensa, Roberto Silva propõe um city tour pela área externa do cadeião. Os demais repórteres e cinegrafistas também se animam. "Esse minipresídio tem uma porção de fatos macabros", adianta o mito do jornalismo maringaense, guia turístico num safári ensolarado. "Dizem que nos anos noventa, a polícia descobriu um plano de fuga dos detentos. Em vez de tapar os buracos, os agentes esperaram que os presos terminassem as escavações. E, no meio da madrugada, quando os presos finalmente conseguiram chegar do lado de fora da cadeia, deram de cara com os policiais, todos fortemente armados. Todos os presos foram fuzilados", relata, fazendo pequenas pausas precisas, controlando o tempo da ação – exímio narrador de causos.

Nesses anos todos, segundo as contas de Roberto Silva, mais de trinta túneis foram cavados. "Era tão fácil escavar o chão que os presos deram o apelido: 'presídio manteiga'", comenta, a boa risada ecoando. E muita, muita gente mesmo, conseguiu debandar, livrinha da silva. "Eu mesmo, veja só, bem aqui onde estamos, do lado de fora do minipresídio, notei que havia um buraco meio estranho. Recente. Feito há poucos dias. Eu imediatamente notifiquei a polícia. Os investigadores até aceitaram a denúncia, mas com ressalvas. Eu desconfiava que aquele buraco tinha sido escavado para que os presos, em suas escavações, encontrassem mais facilmente o ponto de saída. E não deu outra. Dias depois, vários presos fugiram por aquele buraco."

O muro acinzentado, única barreira que separa a liberdade dos presos, não é alto. Fugir por pirâmide humana, alternativa considerável. O arame farpado não é dos mais ameaçadores. Não há guarita nas vértices das paredes, com guardas armados, tal como nos filmes de ação. Nos fundos do cadeião, um campinho de futebol e carcaças de velhos carros apreendidos. É dali, do cemitério de automóveis, que os comparsas dos presos arremessam bolas de meias embolando baseados, cigarros, isqueiros, serras, brocas e outros regalos. Com uma vara de pescar improvisada, ajeitada com tiras de lençol e escovas de dentes, os presos conseguem fisgar, atrás das grades, as bolas de meia. "A única coisa que é proibido mandar pra dentro da prisão é crack: a pedra faz com que os presos surtem e fiquem fora de controle no meio dos demais", comenta.

Lá dentro dos muros cinzentos, Roberto Silva explica, há uma série de regrinhas que jamais podem ser descumpridas. 1) Caguetagem: quem dedura o crime do próximo é punido com uma mortezinha básica. 2) Talaricagem: deu uma de Don Juan para cima da esposa do colega de cela? Danou-se. Crime punido severamente – outro assassinatozinho. 3) Preso por estuprar alguém? Será recebido muito carinhosamente. Por todos os presos, um de cada vez, democraticamente. 4) Furtou o companheiro de cela? Acabou a amizade. Você é colocado numa roda e os presos podem fazer o que quiser – use a imaginação. 5) Soltou gases? Ato imperdoável no mundo do crime. Condenável com bons tapas e pontapés, embora a sova não chegue à morte.

Mais próximos do muro, vamos andando, é possível ver a rachadura, do topo ao chão, causada pelo explosivo C4, arsenal que costuma ser usado em guerra. "Foi um pedacinho desse tamanho ó, minúsculo", diz o jornalista, ilustrando com os dedos. "E mesmo assim fez esse estrago todo. Desse certo, derrubava o muro e ninguém ficava pra contar história."

Prisões bizarras

Pelo celular hipermoderno, Roberto Silva recebe uma mensagem do alto escalão da delegacia. Vão liberar o minipresídio para a imprensa. Vamos voltando. "Quando a polícia informatizou o sistema, tive acesso às fichas antigas. Documentos fabulosos. Achei uma ficha assim: com dia, hora, nome completo do preso, dia do nascimento dele e o motivo do crime: o cidadão tal foi preso porque estava na rodoviária pensando em aplicar um golpe. Pensando! O cara nem cometeu crime algum. Descobri outra ficha, registrada duas horas depois, dizendo que o mesmo sujeito havia sido liberado. E, por fim, tinha uma terceira ficha, registrada quatro horas depois da segunda, oficializando a nova prisão do sujeito, na rodoviária, porque continuava a pensar em aplicar um golpe", lembra. "Tinha tanta coisa lá... Até uma prostituta. Essa é ótima também. A prostituta foi presa, em 1972, no antigo cadeião, porque estava a trottoir nas calçadas", comenta, arrancando boas risadas de repórteres e policiais.

Agentes armados apertam o passo no corredor da delegacia. Submetralhadoras. Pistolas. Escopetas. Olhares firmes e atentos. Cruzamos salas, salinhas e saletas até chegar às grades do inferninho. Quatro e pouco da tarde. Os jornalistas vão sempre atrás. Uns comentam sobre o carcereiro assassinado não sei onde, outro sobre o jornalista, acho que do Norte, que recebeu nova ameaça de morte, e já vão mostrando imagens no celular, vídeos ensanguentados. Somos nove, contando câmeras, fotógrafos e os famosos apresentadores de TV. Vamos entrando no minipresídio, cruzando os pesados portões de ferro. Sabe você o que é estar atrás das grades? O climão, do nada, fica tenso. Abafado. Mal iluminado. Nada de ar correndo, livre – a última brisa fresca dá um nó no coração. E é só alguém dar um berro lá de dentro - epa! -, ainda não é hora. "Volta, volta, volta!", ordena um policial, com rosto surpreso. Recuamos. Primeiro da fila, o fotógrafo Ricardo Lopes desembesta a correr - mais ligeiro que Abebe Bikila! Veloz feito Paavo Nurmi! As mesmas pernadas de Emil Zatopek! Olhão vidrado, esconde o fôlego numa saleta cheia de agentes. "Tem preso escondido nas celas. Traz mais agente, traz mais!", grita o policial. Com o pedido de reforço, quatro sujeitos abandonam a saleta de controle e, afobados, atropelam o fotógrafo assustado, e se metem no meião das celas, com porretes e revólveres. A funcionária entediada, agora, sim, empolgada e atenta às dezesseis câmeras revelando quase todo o interior do cárcere. Quase. A caçada e a correria, culpa de um preso que ignorou a ordem e não seguiu para o pátio. "Imaginou o susto dele, acordar e ver toda a cadeia vazia? Fugiram todos, só eu fiquei?!", comentaria um agente, minutos mais tarde, com uma boa gargalhada. "Tava dormindo. Deve ter fumado um bagulho estragado", disse, apontando para o sujeito encarcerado.

Agora, tudo liberado. Desenhos de palhaços demoníacos, símbolo do PCC. Nomes de mulheres. Amanda. Michely. Declarações do eterno amor - para quem ver? Paredes de histórias. Teses que sugerem novas interpretações da Santíssima Palavra: "Deus não gosta do pecado mas ama o pecador. Vida loka cabuloza", escreveu alguém, enforcando a gramática normativa. Outro preso, alheio a vírgulas e distribuindo milagrosamente um e outro acento, aproveitou o tédio da prisão para compor delicados versinhos, em homenagem a um tal Lincon. Valsinha dois por dois? Pagodinho romântico? Cante como quiser: "Lincon do universo / só bala pra você / seu frango / desse (sic) na vilinha que vc vai morrer / seu safado /Vilinha!!!"

Fosse o Lincon, evitaria me embrenhar nalguma Vilinha. Vila Operária. Vila Morangueira. Vila Esperança. Num show do Martinho da Vila. Toda e qualquer vila - nunca, jamais.

Aleluia!

No minipresídio, cheiro de merda e mijo. O lamaçal e a terra molhada, culpa das tantas escavações – sorte a deles, que de manteiga. Você tropeça num pé solitário de chinelo velho. All Star. Colchões ensopados de lama e suor - talvez sangue. Muita gente já morreu aqui dentro. Enforcada. Eletrocutada. Decepada. É quente aqui dentro. Quarenta e cinco graus sem ter para onde fugir? Sorte de quem conseguiu escapar. A cela não é maior que meu banheiro. Aqui, o banheiro, sem urinol, fica de frente para a pia, onde os presos preparam a comida. Você come com o mesmo cheiro que evacua. A cela, em poucos segundos, começa a ficar mais apertada. Impossível acomodar gente nisso daqui. Teu estômago embrulha. Apertado, em vários nós. Nesses corredores labirínticos, concluo, só aceito me prender aos fios de Ariádiny. O vento lambe o teu pescoço e te recebe com beijos e abraços - não é boa a liberdade lá fora?

Publicado no Diário (15/8/15)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Padre, beatas, musa, água benta e chips

Não rezo há muitos anos. Venho equilibrando pecados nesses ombros canhestros, sinto um calafrio dos diabos ao passar perto de cultos, igrejas e megaeventos ecumênicos, com pessoas berrando e gritando e louvando - o eterno sorrisão nos grandes lábios! -, tudo em nome de Cristo, Alá, Jeová, Javé. Sei que estou condenado, ai de mim, ao último dos infernos do velho Dante. Desde muito tempo, encaro qualquer tipo de religião com seis pés atrás – sete não, que é número sagrado. O mundo, afinal, não seria menos caótico sem a Conspiração da Pólvora, sem as Cruzadas, sem a partição na Índia, sem a confusão de palestinos e israelenses, sem o Estado Islâmico derrubando estátuas, sem judeus ultraortodoxos esfaqueando homossexuais no meio da rua? Não há dúvidas. Mesmo assim, encaro numa terça-feira a "suspensão da descrença", de que falava o grande Coleridge, e abandono todo esse preconceito, ainda que a situação se oponha aos meus sentimentos, para testemunhar, pela primeira vez, o lançamento de um livro do padre-cantor Marcelo Rossi.

Badalados romancistas brasileiros, como, por exemplo, Milton Hatoum e Cristovão Tezza, chegam a passar até duas horas em concorridos eventos literários, posando para fotos e autografando livros - uma maratona louvável. Mas nada disso se compara à assombrosa maratona protagonizada pelo padre Marcelo Rossi, aqui em Maringá: o lançamento de seu livro tem oito horas de duração, das 14h às 22h – com direito a pausas estratégicas para as refeições –, e o público esperado, isso antes do evento, era de 5 mil leitores fiéis, segundo os organizadores.

Mal chego no shopping Catuaí, sou surpreendido pela multidão enfileirada no estacionamento descoberto. Camisas de Jesus, torós de lágrimas, crucifixos e litros de água – benta? Velhas, muitas velhas. Velhas rezando terço. Velhas enfrentando filas de até cinco horas. Velhas desafinando o punhado de canções religiosas. Velhas com tubo de oxigênio. Velhas zanzando em cadeiras de rodas. Velhas exigindo filas prioritárias – com qual fim, se todas são velhas? Nem Peppino di Capri e Toto Cutugno, juntos num bailão com entrada grátis, atrairiam tantas velhas.

Padre falante

Para ganhar autógrafos, fotos e bênção do padre-cantor, os maringaenses Antonio de Souza, 57, e Jade de Souza, 63, chegaram às oito horas da manhã no Catuaí. Prevendo a multidão, trouxeram uma cadeira de plástico e outra de madeira – aguarda melhor quem espera sentado. Por nada no mundo perderiam a chance de conhecer o padre- cantor. "Há quinze anos, ele me revelou Deus pelo rádio", lembra Jade. "Eu tava passando roupa e ouvindo o programa de rádio. Era meio de semana, bem de manhã. De repente, o padre começou a comentar o caso de uma pessoa deprimida e deu conselhos pra que melhorasse a vida. Naquela mesma hora, meu corpo ficou todo arrepiado: senti que ele falava comigo", comenta, emocionada.

Tomara que ela não chore. É estranho vampirizar desconhecidos aos prantos. Após sentir o padre dialogando com ela, Jade, que era "católica ausente", passou a bater cartão numa igreja maringaense. "O padre salvou a minha vida", comenta. Visivelmente felizes e cansados, eles passaram 9 horas na fila. Às três e pouco da tarde, estão prontos para ir embora. "Pena que é tudo muito rápido. Gostaria de dizer o quanto ele é importante pra gente."

Vagando pelo Catuaí, encontro seis senhoras serelepes. Todas voltando do encontro com o padre-cantor. Aos 90 anos, Eponina Leme é a única do grupo que não está cansada. Confortavelmente sentada em sua cadeira de rodas, ela deve causar certa inveja às amigas, todas em pé, carregando bolsas pesadas, chapéus, bonés e garrafas de água. Em vez de levantar cedinho, Eponina chegou à uma da tarde e já foi se metendo na fila – o lugar guardadinho pelas fiéis amigas madrugadoras. "Como fui uma das mais idosas do evento, até ganhei uma lembrancinha do padre, ó", diz a senhorinha, chacoalhando o bracinho esquerdo, ostentando o terço em forma de pulseira.

Com o sol queimando a espera da fé, você escuta mil e um diálogos celestiais. "Deus é tão bom que hoje não choveu, nem tá abafado! Até o sol, olha que beleza!, não tá tão quente", esgoela-se uma tiazinha no meio da fila. Um sujeito grandalhão e barbudo, ao meu lado, não esconde o mau humor.

"Minha sogra não é católica nem evangélica, não tem religião, daí de repente ela encasquetou que queria ver esse padre. Ontem foi um inferno. Fazer o quê? Tive que trazer a velha. Olha aí, ó. Setenta e cinco anos nas costas. Sogra é um horror."

Piquenique do Senhor

Bolo de chocolate. Bolo de milho. Suco de laranja. Vômito de criança? – alguém caminha com um pacote de Fandangos aberto. No estacionamento do shopping, um piquenique de espera. Vou ouvindo uma e outra senhora. Todo mundo comentando que o padre, com sua gloriosa intuição divina, fala diretamente com os ouvintes, por meio de seu monológico programa de rádio. "Ele é iluminado por Deus. Um dia até me descreveu, dizendo bem assim: você, senhora que está aí, de blusinha vermelha, sentada na cozinha e ouvindo o rádio, eu sei dos seus problemas... E não é que ele disse todos os meus problemas e como melhorar de vida?", diz.

Impossível, por aqui, é encontrar gente jovem. Onde as musas maringaenses de decotinhos e shortinhos? Onde a ruivinha de olhinhos lancinantes? Onde as tais suecas feéricas? De longe, bem longe, avisto uma moçoila. Desconfio do Todo-Poderoso. Não será dessas miragens? Troça celestial para zanzar à toa na multidão? Loirinha, um metro e sessenta de pura louvação? Obrigado, Senhor. Afoito, vou abrindo caminho no mar de gente – Moisés, cruzando o mar vermelho, o impávido cajado nas mãos. Depois da longa caminhada, chego finalmente perto dela. Sorte minha, de carne e osso - aleluia! O nome do milagre? Fernanda Félix, 19, aluna de Psicologia da UEM. Boa de prosa, discorre sobre Deus, totens da psicologia, tempestades, Curitiba. Como é bom mulher que se abre.

"Nos dias de hoje é difícil não se apegar em nada. Muitas pessoas superam problemas gigantescos com a fé. O próprio padre Marcelo, que se livrou de uma profunda depressão, é prova disso", vai dizendo. Blusinha laranja, Jesus Cristinho no pescoço e olhinhos verdes – ou seriam azuis? Ai, que dúvida deliciosa.

Na sala de Psicologia, ela diz que quase ninguém acredita em Deus. "A fé está fora de moda", lamenta. Resumo a ela os relatos que andei ouvindo. De que o padre Marcelo Rossi consegue, sabe-se lá como, estabelecer comunicações surpreendentes, detalhando roupas e problemas pessoais dos seus ouvintes. Fiel e fã do padre, ela escancara o sorriso da desconfiança . "Olha, sinceramente eu não acredito nisso. É um blefe dele. Uma estratégia de comunicação", admite. Gostei da Fernanda. Verbos escancarando janelas a desconhecidos – meu tipo favorito. Da ala menos conservadora, não é contra o casamento gay. Tem vários amigos ateus e detesta os berros sertânicos do sertanejo maringaense. "Gosto mesmo é de rock", revela, sorridente.

Pertinho da Fernanda, encontro a estudante Maria Laura, 17. Outra representante da jovem guarda dos fãs do padre Marcelo Rossi. "Deus me ajudou a superar muita coisa. Olho para meu priminho, que tem deficiência e que não andava nem se comunicava com ninguém... Agora, tudo mudou pra melhor. Ele está ótimo! Para Deus, tudo é possível", comenta a jovem. De repente - ai não! -, ela começa a chorar. Não gosto de ver mulher chorando. Ainda mais assim, de 17 aninhos. Recuperada, Maria Laura conta que uma grande amiga sua recebeu uma mensagem especial, por meio do programa de rádio do padre-cantor. Agoniada com as tantas brigas dos pais, que se esgoelavam no quarto do casal, a garota se afogava em prantos na cozinha. "Daí, no rádio, o padre começou a falar assim: 'você, adolescente que está aí na cozinha, não fique triste nem desesperada com a briga dos seus pais, fique tranquila e reze. Você acredita? Deus fala com a gente, por meio do padre Marcelo Rossi."

Depois de longa caminhada, ouvindo coisas como "coloque aí no Diário, pelo amor de Deus, que sou contra o casamento gay!", por pelo menos três dezenas de vozes enrugadas, chego finalmente ao começo da fila, que dá para uma porta lateral do shopping. Seguranças de terno e moçoilas controlam quem entra."A crença é a pretensão de ver em plena treva", já dizia Augusto de Lima. E vou lembrando essas palavras, enquanto entro pelo tão cobiçado portão do shopping.

Em vez do padre-cantor, mais filas. Um andar inteiro de escada é tomado por mais idosas, acampadas nos gelados degraus. Sorte estar de blusa. O vento frio, na escada, caminha com dificuldade. Perfumes mancomunados de suor adiam a espera. Senhorinhas gripadas espirram para lá e para cá, distribuindo gripe e tosses em lenços bordados. Poucas conversam. O tédio degola a prosa. Pior ainda, com a iluminação capenga. Todo mundo jogado nos degraus da penumbra - só chega à luz quem vence a escuridão? Isso aqui mais parece um bunker nazista, sussurro,atordoado com a cena. Mesmo em tons quase inaudíveis, uma velha se intromete na minha constatação. "Que bunker, o quê! Não é o que diz a Bíblia? Onde duas pessoas estiverem reunidas em seu nome, Deus estará nesse local. Tá vendo? Ele está aqui", garante, aos berros, olhão alucinado de glória.

"Olhe o meu caso, moço", diz uma mulher, invadindo a conversa. "Tive rompimento nas trompas, útero retrovertido e endometriose. Me disseram que eu nunca poderia ser mãe", comenta a dona de casa de 43 anos. "Sabe o que eu fiz? Rezei muito pro padre Marcelo me ajudar. E, por meio dele, recebi um milagre de Deus. Você quer ver um milagre de Deus?" Desacreditando e já um tanto cansado de tantos papos milagrosos, respondo um sim desanimadão. "Você vai poder ver e tocar o milagre", adianta. Eu me animo. "Quer ver ou não quer?" Respondo que sim, claro, claro, quem não? "Olha aqui, ó: meu filho João Gabriel, de 14 anos. Ele é o milagre." Vejo o garoto. Desses magrelos e altos. Essa molecada de hoje é sempre alta. "Viu só? Como Deus existe?" Mais tarde, eu descobriria que não era bem assim. Entrei em contato com um competente médico maringaense, amigo meu, a fim de tirar o milagre a limpo. "Isso não é um milagre. Rompimento nas trompas, útero retrovertido e endometriose dificultam, sim, a gestação, mas não é impossível engravidar. Basta um bom obstetra", explica o médico."Todo o santo dia aparece alguém dizendo que é fruto de milagre. A Medicina é uma ciência de mais de dois mil anos e o povo ainda insiste em colocar a culpa em Deus. Se há alguém que precisa ser parabenizado é a ciência", observa, com razão, o médico maringaense.

Das escadas mal iluminadas, sigo para outro setor. Um corredor, agora, sim, branquinho, boas luzes, ar condicionado, acho até que chão encarpetado. E, claro, mais fila. Essa, a última. Velhas aflitas, equilibradas na pontinha do pé, tentam espiar lá na frente. Sigo, cruzando a lateral de aflição. "Meu Deus, o padre tá parecendo uma vara", fofoca uma velha.

Santa disposição

O padre-cantor veste a sobriedade. Camisa, calça e tênis esportivo, tudo preto. A camisa, aliás, está folgadona. O padre que era magrelo e virou gordo, agora volta à boa forma. Quer dizer, está tão magrelo que não parece dos mais saudáveis. Mas ele parece feliz. Sorri para as fotos, assina os livros, estende a mão sobre o fiel e despeja uma bênção ligeira. Tropeçando nos próprios passos, vacilante no cai-não-cai, um velho sai do encontro banhado em lágrimas. Roupas surradas, um empoeirado boné preto, ombros exaustos de cansaço. As mãos tremelicantes equilibram, com cuidado redobrado, o grande tesouro: oito exemplares, todos autografados, do novo livro do padre-cantor. Tenho umas boas perguntas na manga. Com a funcionária da Editora Globo, peço para entrevistar o padre. Coisa rápida. Três perguntas bastam. Ela adianta que será difícil. "Inicialmente, o padre só daria entrevista pra Globo. Mas, agora, topou atender o SBT. Vou ver com a assessora dele e te dou uma resposta", avisa. Minutos mais tarde, ela recebe a resposta da assessora. "O padre não vai falar com mais ninguém."

Não fico decepcionado. Acho até bom. Colecionador de pecados, meu corpo não pegaria fogo diante de um santo homem? Vou refazendo o trajeto, cruzando fiéis pacientes. "Conseguiu falar com o padre?" "Ele vai atender todo mundo?"

São seis horas da tarde. A fila no estacionamento parece aumentar. Duas mil senhorinhas em pé? Santa disposição. Gritando, a menina da livraria explica que o padre não vai mais autografar, só posar para fotos e dar bênção. Deixo Jesus, padre-cantor e mil milagres para trás. A fé não é mesmo uma coisa louca?

Publicado no Diário (2/8/2015)