terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tome muito cuidado ao contemplar o pôr do sol

Os dramas urbanos dão vida às cidades. Enchem as esquinas de dúvidas, refletem o passado no ponto de ônibus, planejam crimes e pecados enquanto desviam de motoqueiros imprudentes, disparando rajadas de palavrões. Nos semblantes desarmônicos, um pouco de tudo. Repare em cada pedestre. Ciúmes. Preguiça. Inveja. Desejo. Tédio. Gula. Paixão. Rancor. Frustração. Medo. Orgulho. Preconceito. Ódio. Desespero. Pânico. As calçadas são um safári sentimental. Você, quando caminha, também ouve os sussurros das ruas? Confissões, desabafos e alguns detalhes revelam, aos poucos, os enredos das tuas cidades.

"Mãezinha, a genti não pódi complá: a gente não tem dinhêlu."
"A vizinha até ligou pro síndico. Toda semana, me inferniza. Ela é sabe o quê? Uma mal..."
"Comida. Não aguento mais lanche: hoje, quero feijoada completa."
"...caráter. Que culpa eu tenho se a vizinha do andar de cima fica andando de salto?!"
"Um beijão pra senhora, Dona Olga, e um abração pro Seu Sato!"
FÓÓÓÓÓÓÓÓM – a buzinada de um caminhão esmaga a fala alheia."
"Só se fala nisso, amiga: no casamento da socialite Camila Costa, em outubro. Sonho da minha vida é participar da alta sociedade maringaense."
"Reboco, ó: igual tua casa, tá vendo?!"
"Praia?! Cê tá louca. Com que dinheiro, amor?!"
"O plano de saúde tá impossível. Tô tentando operar a mãe no plano de alguém."
"Olha só. Que bonito. Todo mundo trabalhando!"
"Vô é terminá com aquela safada. Sei que saiu ontem com o Claudinho, acredita?! O Claudinho!"

Em cinco minutos, você testemunha amores e ódios de atores anônimos no trecho interditado da BR-376. O palco é a passarela recém-construída em Sarandi, num dos principais acessos à cidade, ligando a Avenida Antonio Volpato à Ademar Bornia. No processo de construção de dois viadutos, o trânsito foi desviado pelas marginais da rodovia. Diariamente, cerca de 30 mil veículos cruzam esse trecho sarandiense, entre buzinadas e xingamentos, num louvável exercício de paciência. A caminho de casa, pedestres exaustos fazem uma pausa. Dezenas deles. Rostos calados, ardidos, sofridos e suados – não são os mesmos rostos da "Manifestação", do grande Antonio Berni? Debruçados sobre a passarela, mergulham fundo na solidão e refletem segredos em silêncio - cogitam, eles, desistir da existência?

"Nunca! Tava aqui pensando no futuro", explica o ambulante Moacir Souza, 28, assistindo as três dezenas de operários, lá embaixo, manchando botas, calças e camisetas com respingos de cimento e cal. Antes de vender água (R$ 2), suco (R$ 2) e refrigerantes (R$ 2,50) em cima de uma bicicleta, aproveitando o trânsito da BR-376, Moacir passava manhãs e tardes construindo residências alheias. "Ganhava diária de R$ 80. Chapando parede, fazendo requadro: a coisa mais difícil que tem. Fiz casas e até um prédio em Maringá, na Vila Operária. Hoje, no trânsito, chego a ganhar R$ 70. Mas quero fazer um curso técnico e arranjar trabalho decente. A rua é incerta: num dia dá grana, no outro não dá nada. Há um ano, saí de Dourados, no Mato Grosso do Sul, com mulher e filho porque lá não tinha emprego. Mas, aqui, a situação também tá difícil. Se não melhorar, o jeito é voltar pra Dourados e morar junto com a minha mãe", comenta, escavando a memória, enquanto máquinas cavocam a terra vermelha.

A rua é incerta. O trabalho é incerto. A vida é incerta. Única coisa só é certa: ao lado do Moacir, outros rostos calados dão seus saltos introspectivos e parecem encontrar, ali, melhores soluções às tantas divagações. "Ver essa trabalheira faz bem pra cabeça da gente", garante um. "Ajuda a relaxar depois do trabalho", comenta outro. "É até bonito, não é, não?", avalia o terceiro.

Suor azedo. Terra seca. Pipoca doce. Perfume picante Jequiti. São vários, os aromas da passarela. Sete tiozões embasbacados não com as moças do Leblon, não com a maré de Copacabana, não com a vista privilegiada do Pão de Açúcar numa das mesas do Porcão, mas, sim, com a construção de Sarandi.

Churrasco de um homem só

Do outro lado da passarela, sinto de longe o cheiro de espetinhos. Na calçada, ao ar livre. Churrasco de um homem só. Onde os amigões? Onde a lambada e o rala coxa? Onde a música em alto e bom som? Quase seis da tarde, a fome bate forte e atravesso em direção aos acepipes na brasa. A dois passos do churrasco, sou tomado pelo fedor de porcos obesos e fezes amargas – um caminhão de suínos despeja aromas ácidos nas ruelas de Sarandi. Guiado, possivelmente, pelo porqueiro Eumeu, o caminhão levanta a poeira vermelha que ameaça teu chapéu e espirra cinzas e poeiras sobre os espetinhos de carne e frango, protegidos por uma tampa de metal. A fome - ela também incerta - passa rapidinho.

"A crise tirou 30% do meu movimento. A construção daí da frente, 40%", lamenta o empresário José Roberto, 55. Proprietário há três anos do restaurante Cabana, que abre diariamente para almoços, José teve que virar churrasqueiro para diminuir o prejuízo. Durante a semana, das 16h às 20h, ele oferece carne e frango aos motoristas, na calçada do restaurante.

"Vendo espetinho bem baratinho, a R$ 3. Mesmo assim, o povão não tem dinheiro pra comprar", lamenta o churrasqueiro da Cabana. Engraçado, esse nome. Cabana, Cabana... Não soa familiar? "Não era aqui, a única casa noturna de Sarandi?" "Exatamente: Cabana 40 Graus. Fechou faz tempão", esclarece o sujeito. A tal Cabana: reduto infernal de funkeiros, cantores sertânicos e outras pragas sonoras. "Não mataram alguém numa dessas noites de funk dentro da Cabana?", pergunto.

"Teve isso, sim. Realmente. Mas foi fora da casa noturna, que fique claro." Com a morte, a única casa noturna da cidade fechou as portas. Desde então, a noite em Sarandi não tem mais teto.

"O pessoal compra espetinho para apreciar a vista da passarela?"

"Nem tanto. Quem compra são os motoristas. Mas o pessoal passa o dia todo aí na passarela. Olhando o trabalho, passando o tempo. Incrível, né? Virou ponto turístico da cidade."

"O que buscam, os tantos turistas?"

"Parece que é bonito ver máquina cavocando. Dizem até que relaxa."

"Tipo pescaria?"

"Nem se compara! Pescar é muito relaxante. Eu mesmo pesco uma vez por ano no Pantanal. Os amigos vão junto. A gente pega Dourado, Piapara, Pintado, um pouco de tudo. E volta sempre mais jovem, com força pra trabalhar melhor."

Ruivinha hippie

Hordas de jovens, tiazonas, tiozões e velhos cruzam o novo ponto turístico. No meio da passarela, empunhando caneta e bloco de notas, você sinaliza com três braços à ruivinha hippie de fone nos ouvidos. Claro que ela não compreende o que você diz. Simpática, vai despindo os fones, e aceita a pausa para ouvir teu verbo.

"Todo dia venho notando esse pessoal parando, mas eu mesma nunca parei pra olhar o que tem lá pra baixo", comenta a ruivinha.
Camisa de deus indiano, pulseiras hippies, colar de filtro dos sonhos.
"A gente acaba não percebendo os detalhes. Das pessoas trabalhando. Das naturezas. Esse pôr do sol..." Setenta tons vermelhos misturados ao doce perfume da ruivinha.
"...não é lindo?!"
O mestre Monet não seria mais impactante. De um lado ou de outro, nada de prédios para atrapalhar a obra-prima. Quatro velhos embasbacados no Louvre logo seguem o rumo, deixando, para você e sua ruivinha, o bendito espaço na passarela.

"Ei, moço, só não olhe demais para o sol, tá?"
"?"
A última máquina vai resfolegando: fim do expediente dos operários.
"Dizem que o sol tem poderes mágicos: se você olhar demais, acaba ficando preso no lugar dele, e ele no seu."
"Não creio nessas crendices."
É doce, o místico riso de uma ruivinha.
"O que há de bom pra fazer em Sarandi?"
"Nada...."
Olhos melancólicos da mais profunda tristeza.
"...não tem arte..." "!"
"...não tem um bar de rock..."
"!!"
"...nem balada que toque música eletrônica...."
Não seria, esse, único lado positivo?
"...Sarandi é uma cidade maravilhosa, se você quer morrer de tédio", ela diz.
"Maringá é uma cidade maravilhosa, se você quer ser esfaqueada no meio da rua", devolvo.

Ela estende sorrisos, evitando encarar o sol – qual dos dois, mais vermelhinho? O vermelho do sol soa um tanto assustador. Há algo de infernal e sedutor no pôr do sol de Sarandi. Lembro as palavras da ruiva: tome cuidado com o sol. Encaro-o bem, quase sem medo: não parece enigmático nesse fim de tarde? Fixo os olhos sem piscar. Um tanto surpreso, vejo meu rosto na passarela, enxergo os detalhes daqui do alto: o chapéu preto, a camisa florida, o bloco de notas na mão. Faz calor demais aqui em cima. Nunca senti tanta febre nem cobicei tanta água. Lá embaixo, uma velha repreende o neto, que desiste de me olhar e protege a vista com as duas mãos. Quero correr, mas sinto o corpo pesado. Tento descer de uma vez, mas é impossível. A ruivinha hippie se despede e vai embora, caminhando em direção à Avenida Londrina. Lá embaixo, o corpo que me pertencia continua me encarando. Parece dizer algo, só que é impossível ouvir de tão longe. Será uma despedida? Tento gritar, mas, que diabos!, não há qualquer voz para gritar. Ele entra no carro e acelera feito louco. Espero que faça o que eu faria. Que siga para o jornal e escreva a crônica sobre o novo ponto turístico de Sarandi, a passarela que eu, agora, ilumino nos fins de tarde.

Publicado em O Diário (16/8/2016)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Dona Idalina, papo com a Morte e quatro saltos fatais

Por que as pessoas desistem de viver? Única dúvida desperta diversas perguntas. Falta de dinheiro? Frustração amorosa? Insatisfação com o Grêmio Maringá? Desolação com a arte pós-Duchamp? Há dezenas de mistérios envolvendo suicidas, mas uma coisa é certa: na hora da morte, eles preferem a Avenida Carneiro Leão, mais especificamente dois prédios de lá. O Centro Empresarial Transamérica e Centro Comercial Europa. Ambos com 14 andares, separados um do outro por apenas 69 passos - o número mais sacana da vida! -, os prédios contabilizam quatro suicídios. "Se alguém se arremessa em um lugar, não há nada incomum. Mas se duas, três, quatro pessoas, de repente começam a procurar o mesmo canto... Bom, daí a coisa fica meio esquisita, né?", observa um empresário, prestes a entrar no Edifício Europa.

Lá dentro, um silêncio assustador emana das saletas de advogados, dentistas e escritórios de contabilidade. Pessoas se cruzam caladas e cabisbaixas, cada uma compenetrada nos próprios problemas existenciais - pensam elas, será, em desistir de vez? Desafiando os degraus quase infinitos, chego morto de cansaço num escritório do primeiro andar. A telefonista simpática me estende sorrisos e vai logo oferecendo ajuda. Pergunto sobre os tantos suicidas que se jogaram ali do prédio. "Pelo que eu sei, foram quatro suicídios. Dois aqui no Europa, com as pessoas caindo na calçada, e outros dois no Transamérica, no espaço interno do prédio", conta Mari Segatti, 49. "Parece que um rapaz pulou daqui porque tava endividado. A moça, desilusão amorosa. Tenho pena deles, viu? Eu mesma nunca pensei em me matar. Desde cedo, minha mãe, uma guerreira que admiro muito, me ensinou a encarar os problemas e seguir sempre em frente. Você não sabe o inferno que passamos. Minha única lembrança do meu pai é dele com foice na mão pra bater na minha mãe. Viemos fugidas de Paraíso do Norte. Mas, peraí, essas perguntas são para quê?" Ainda esbaforido e tonto da caminhada, nem disse nome nem expliquei nada. A revelação ofegante – ainda hoje morreremos de infarto? - causa assombro à telefonista.

"NÃO PODE SER! Minha nossa, minha mãe te ama. ELA TE AMA! Tem 72 anos e pega o jornal de domingo só pra te ler. E ela morre de dar risada! Você não imagina, Gaioto, o bem que faz pra minha mãe. Acredita que renovei a assinatura do jornal só por sua causa? Mas que coisa, hein! Ainda não tô acreditando. Você... bem aqui! A gente pode tirar uma foto? Quero mostrar pra ela que você não é um senhorzinho, mas um jovem."

Tiramos selfie sorridente. E rabisco carinhos num bilhetinho: "Dona Idalina, não perca o texto do próximo domingo. Você estará nele. Beijão, Gaioto."

No ápice da notoriedade - algo radicalmente diferente da fama, uma versão vulgar que ilude cantores sertânicos -, deixo o prédio e esbarro em mais semblantes tristes. Entre lojas de cosméticos, barbearias, colchões e empresas de crédito no Transamérica, trombo em dezenas de rostos exaustos – todos cogitando o fim de tudo? O silêncio, no hall do prédio, é ensurdecedor. O calor lá de fora, por incrível que pareça, aqui não chega. O ventinho gelado te arrepia a espinha – será o doce sussurro da morte?

"O pessoal, quando resolve se jogar, cai exatamente aqui", diz João Batista Nunes, 61, apontando para a frente dos elevadores. Há 18 anos ceifando cabelos alheios, Nunes acompanhou, de perto, os únicos dois saltos mortais. "É uma tristeza, viu? Ninguém sabe explicar a vida deles. Tanto prédio na cidade, logo esses daqui? Felizmente, pararam com isso. Pelo menos, por enquanto."

O quinto do pai

No terceiro andar, identifico um conhecido. Sessentão aposentado, ex-bancário, bochechas coradas.Volta e meia na companhia de moçoilas, sempre pondo a mão sobre o peito – ameaças do ataque fulminante?

"Veio se matar, Seu Dorival?"

"Não tô pensando mais nisso não, mas já pensei muito."

"Verdade?"

"Claro. Águas passadas, dureza total."

"Falta de dinheiro?"

"Que nada. Uma morena."

Chapéu marrom-claro na mão, ligeiro abanando o rosto – o amor deixa marcas que não dá para apagar.

"Deslumbrante, a morena?"

"E como! Coxão assim, ó. Peitão desse tamanho."

Cabeça doida, coração na mão, desejo pegando fogo...

"Ai, só de lembrar."

...esse Fagner sabe mesmo das coisas.

"A gente se conheceu num baile em Marialva. Daí em diante, não desgrudamos. Era pobrezinha e resolvi pagar a faculdade de Direito, aqui em Maringá. Ela bem sabia que eu era casado."

"!"

"Passei a bancar o apartamentinho dela. Nosso ninho de amor. Até que se enroscou com o professor, nove anos mais velho do que eu."

"!!"

"Você sabe... Hoje, o Viagra... Não que eu precise disso, graças a Deus!"

Doce gargalhada de galã, um e outro perdigoto saltando boca afora.

"Começamos a sair, nós dois, com a morena. Em dias diferentes, claro. Num sábado, ele se confundiu e foi bater no nosso ninho de amor. Levava buquê de rosa e vinho argentino, acredita? Ficou vermelho de raiva e, depois, me procurou. 'Quanto cê paga pra ela, hein?', ele perguntava. Fiz as contas: restaurante, aluguel do nosso ninho, aula de inglês e espanhol, parcela do carrinho, mensalidade da graduação: quatro mil e pouco. 'Pago o dobro pra ela. E você some, tá certo?' Respondi que sim, mas a morena continuou me procurando. Assim, por três anos. Até que nasceu o filho da morena. Um bebezão lindão. E a gente continuou saindo. Ela levando o filhinho junto nos nossos encontros no Egitu's, no Romanu's ..."

"!"

"...já se perguntou por que esses lugares têm essas fixações mesopotâmicas?"

"?!"

"Daí não suportei mais aquilo. Terminei. Há dois anos, a morena me procurou. Dizendo que o professor acusa o filho de ser meu."

"E é?"

"A prova está nas bochechas coradinhas!", comenta Dorival, orgulhoso da obra-prima.

"Hoje encaro numa boa. Mas pensei em me matar. De verdade. Eu, casado a vida toda, maior exemplo de dignidade... Fazendo filho em outra?! Minha família não ia suportar."

"Chegou a pensar no local?"

"Seria ou aqui ou no Europa. É o point dos suicidas", diz, alegrinho. "O que me salvou foi o trabalho. Também arranjei um hobby: natação. Rapidinho, esqueci os problemas. Já imaginou? Eu, agora, mortinho da Silva? Que bobagem. Hoje, se ela volta, nem me importo. Assumo a criança de vez. Já criei quatro filhos. Não me custa criar o quinto."

Diálogos fatais

No 14º andar do Transamérica, salas comerciais escancaram serviços num silêncio fúnebre. É aqui que a morte ronda, sedenta, à espera de novos saltos. No corredor vazio, tomo um baita susto com a visão: empunhando uma foice na mão direita e vestindo uma túnica negra, encobrindo toda a cabeça, encontro a Morte caminhando em minha direção.

"É você mesma?"

"Quem mais poderia ser?"

Vozinha dos diabos, aguda e estridente: a Morte tem os mesmos tons da cantora Joelma.

"Venho falando sobre você o dia todo."

"Ouvi o chamado. O que quer de mim?"

"Por que você costuma agir aqui, entre o Transamérica e o Europa?"

"É perto do Terminal Rodoviário, posso vir a pé ou de mototaxi. Além disso, há bons bares e restaurantes na região para depois do expediente."

"Como decide quem vai partir?"

"Não decido. Só cumpro meu trabalho. Presto serviço terceirizado, temos sindicato e tudo. Nosso sistema é organizadíssimo. Pego a alma aqui e despacho do outro lado da existência. Lá, outro colaborador decide se irá para o inferno, purgatório ou céu."

"Como é exatamente o outro lado da existência?"

"Quer que eu te mostre agora?"

"Acho melhor não."

"Certo. Ainda não é sua hora."

"Quando será?"

"Tá longe, pelo que ouvi dizer. Ainda tem muitos textos pela frente."

"Você, também, uma leitora fiel?"

"Vejo vez ou outra, mas, não me leve a mal, prefiro as crônicas do Demarchi e do Reginaldo."

"Muitas pessoas pedem pra morrer?"

"Toda hora. Me acionam e vou até o lugar. No começo, é tudo maravilhoso. Depois, a rotina vira uma chatice."

"Como assim?"

"Muita gente me chama e depois se arrepende no meio do caminho. Ficam de conversinha e já não querem se matar. Tô velha, sabe? Já não tenho aquela paciência do início da carreira. Dialogando, pacientemente, convencendo as pessoas. Pelo amor de Deus, hein, não vai colocar isso no teu texto!"

"Pode deixar."

"Há um bom tempo, já faço tudo maquinalmente: 'ô fulano, vai logo, se joga daí de uma vez, pô!'. Só faço uma exigência: não esqueça o bilhete, dobrado dentro da carteira, em letra legível. É mais fácil pra identificar o corpo."

"Essas são suas primeiras declarações oficiais à imprensa?"

"Creio que sim. Quando estive com Hemingway..."

"Você esteve com Hemingway?!"

"...sim. Em 2 de julho de 1960. Ou 1961, não me lembro."

"Caramba!"

"Era um gênio, né? E vou te confessar uma coisa. Foi a única vez que implorei para que alguém não cometesse suicídio."

"Você poderia ter evitado o suicídio do Hemingway?!"

"Tentei de todas as formas. Mas ele estava muito bêbado e, sobretudo, decidido. Queria passar de uma vez para o outro lado. Conversamos durante horas. Ele criticava tudo e todos e tomava um copão inteiro de Mojito. Num determinado momento, Hemingway me encarou, rindo, e disse bem assim: 'Se eu não estivesse tão decidido, publicaria nossa conversa na New Yorker, com o título 'O Velho e a Morte'. Daí pegou a espingarda e deu um tiro na cabeça."

Convido a Morte para tomar umas cervejas comigo no Divina Dose, mas ela recusa.

"Não bebo no meio do expediente. Além do mais, preciso correr. Outro roqueiro de 33 anos acaba de solicitar meus serviços urgentemente", explica, desaparecendo no corredor.

Na última olhada para o hall do Transamérica, você pensa na Nona Sinfonia de Dvorák, no "Guerra e Paz" do Tolstói, no filme do Woody Allen que ainda não estreou, nos versos do E. E. Cummings, nas obras completas de Dalton Trevisan: há motivos de sobra para suportar essa vida inautêntica.

Publicado em O Diário (8/8/2016)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A noite em que Rafael Castro quebrou a guitarra

Rafael Castro e Os Monumentais tocam hoje no Tribo’s”, anunciava o panfleto capenga pregado na parede do bar. A entrada custava R$ 15 ou R$ 20, não lembro exatamente, mas certamente não era mais caro do que isso. O bar estaria completamente deserto não fosse uma ruiva e uma morena conversando com um sujeito magricelo e careca.

Pesadelo de todo empresário, maravilha de qualquer boêmio. Ali, você poderia buscar sua bebida no balcão tranquilamente, sem a epopeia cruzando hordas de sujeitos aleatórios, todos embriagados, em meio a saltos mortais, desvios bruscos, cotoveladas, empurra-empurra e outras estratégias recorrentes em aglomerações sonoras, independentemente do estilo musical, do pagode ao funk, do metal ao gospel.

“Essa noite ainda pode ser épica”, comentou, sem qualquer resquício de empolgação, meu amigo Daniel Orsini. Físico e boêmio, ele insistiu em me levar para ver o show do tal Rafael Castro - mais para tomar uns pileques do que para ouvir o som. “Se for um desastre”, disse, “nenhuma alma vai testemunhar”.

Essa, a vantagem dos pessimistas. O otimista sempre levará uma vida pior que o pessimista porque, diante das inevitáveis frustrações, ele fatalmente se decepcionará. O pessimista, por outro lado, encara a vida como deve ser: enfadonha e entediante, e qualquer coisa diferente que apareça já é lucro. Não conhecia o som do trio paulistano. Dias antes, cheguei a ouvir qualquer coisa na internet. Lembro da guitarra e das gravações propositalmente toscas, mas não recordo, hoje, qualquer canção marcante. Não sei assobiar uma única música do Rafael Castro e os Monumentais - e talvez fosse uma obrigação moral depois de tudo o que ele nos proporcionou naquela noitada.

Falávamos sobre música e provocações. O rock, afinal, sempre esteve profundamente relacionado com a transgressão. Transgredir: ultrapassar o limite de algo. Bob Dylan, quando abandonou o violão no quinto disco e partiu para a guitarra elétrica, debandando do folk e, produzindo canções mais pesadas, assumiu um papel inegavelmente transgressor, sendo, inclusive, vaiado, xingado e amaldiçoado pela audaciosa proposta sonora. Hoje, não há quem negue a Dylan sua relevância ao rock mundial nem quem condene a mudança de rumo; aquelas opiniões negativas ficaram eternamente condenadas a sérias revisões críticas.

Evidentemente, as transgressões não são exclusivas de roqueiros. Debussy, ao apresentar “Pelleas Et Melissande”, foi extremamente criticado e houve quem abandonasse o teatro antes mesmo do fim da ópera – hoje, um clássico indiscutível. O compositor francês rompia com os paradigmas musicais da época e fazia de sua arte um novo caminho para as próximas gerações. Stravinsky, com a “A Sagração da Primavera”, e Tchaikovsky, com “O Lago dos Cisnes”, também levaram vaias devido à audácia estética de suas estreias. Nesse sentido, com provocações e urros de desgosto, os acordes de Debussy, Tchaikovsky e Stravinsky soam tão rock n’ roll quanto as canções de Bob Dylan.

Insistindo na provocação, vamos enumerando outros rocks e roqueiros injustamente ignorados: 1) a explosão erótica de Oswald de Andrade; 2) a batida sincopada de João Gilberto; 3) as reboladas agudas de Ney Matogrosso; 4) as figuras diabólicas de Iberê Camargo; 5) os versos subversivos de Geraldo Vandré; 6) a psicodelia de Ronnie Von. E só interrompemos a produção da lista para ouvir a conversa da mesa ao lado, surpreendente. “O Nasi veio no Tribo’s depois de um show do Ira!. Daí começou a beber, fumar e ficou tão louco, querendo fazer outras coisas, que foi expulso pelos seguranças”, disse a ruiva.
“A Camila Morgado também esteve aqui, tomou caipirinhas e ninguém percebeu que era ela! Esbarrar na Camila Morgado no Tribo’s deve ser como encontrar o Lula numa livraria: você até reconhece, mas nunca acredita que seja o mesmo!”, comentou a morena.

“E o show do Ludovic?! Que loucura foi aquilo”, comenta o magrelo. As duas moças escancaram curiosidade. “Você viu o show do Ludovic?!”

“Claro!”, gaba-se o sujeito. “Era uma noite dessas, ó, sossegadona. Mas o bar não tava tão vazio como hoje”, diz o sujeito, espiando mais duas almas que acabam de chegar e pegam lugares não distantes dali.

“No início, achei que seria uma noite normal. Mas não sabia que seria inesquecível.”

“E como o grande Jair Naves estava?”

“Louco. Muito louco. Sem camisa, ele ficou se debatendo diversas vezes contra o chão, acho até que arrancou, com a mão, umas lascas do palco. Cuspiu cerveja na cara do companheiro de banda, o guitarrista ou baixista, e, em seguida, desceu do palco, alucinadão, caçando alguma cadeira de plástico.”

“Uma cadeira de plástico?!’

“Quando achou a bendita cadeira, levou o treco para cima do palco e se enfiou debaixo dela, agachado, como se estivesse preso, e continuou cantando. O Jair só saiu lá debaixo depois, bem depois. Largou o microfone num solo de guitarra, saiu correndo pelo bar e, depois de uns dois minutos, voltou como se nada houvesse acontecido.”

O solo de guitarra, de repente, degolou a conversa. O tal Rafael Castro surgia com um surrado chapéu de pescador hippie, velha bermuda branca e camiseta regada verde. Cabelão ensebado nas costas, vasta barbona de profeta, olhos alucinados de felicidade – imaginaria, ali, um Rock in Rio só para ele? Não se incomodavam, ele e os Monumentais, de tocar para o mínimo público de apenas nove desconhecidos? Por que não cancelar? Devolver o dinheiro? Alegar dor de cabeça e cair na estrada rumo à próxima cidade, talvez Londrina, com mais fãs? O que, de fato, o motivou? Teria pensado, o tal Rafael Castro, naqueles poucos coitados que desembolsaram dinheiro e que talvez muito esperavam pela apresentação? Precisaria, ele, tanto assim do dinheiro, que, somando toda a portaria, daria uma média de R$ 135? Nessa tarde saudosista, entre uma e outra pergunta, me dou conta que já vi, em Maringá, algumas cenas provocantes. Jorge Mautner, por exemplo, cantando a capella (!), uma música erótica sua e de Caetano Veloso, “Tarado”, estrategicamente na frente da Catedral, foi um desses momentos inesquecivelmente transgressores na história do rock maringaense.

Gostaria de ter testemunhado, também, outras cenas. O show do Barão Vermelho no Chico Neto, com Cazuza e Frejat trocando socos e pontapés nos camarins. Aquela apresentação do Raul Seixas. O show dos Raimundos, com Rodolfinho Abrantes ainda não cristanizado, tocando com entrada grátis na UEM. Por mais shows que você testemunhe, a vida nunca será o bastante. É impossível dar conta de todas as melodias.

“Tá tudo bem com vocês, Maringá?!”, pergunta Rafael Castro, escancarando sorrisos de rockstar.

Havia um certo constrangimento coletivo. Público e banda não sabiam direito como se portar. Qual a maneira correta de agir diante do vazio? Na multidão, você é só mais um. E pouco importa se você cantar um determinado trecho de música, talvez errado, ou se vai improvisar uns passos de tango, certamente errados, com sua companhia.

“Tá tudo bem com vocês, Maringá?!”, insiste o rapaz, empunhando a guitarra.

É aí que o climão de constrangimento dá espaço a uma nova sensação. Um show sem barreiras entre público e artista, com canções servidas à la carte. Aos nove pagantes, Rafael Castro e os Monumentais fizeram um dos melhores shows que ninguém viu na história do rock maringaense. Não há registros fotográficos nem gravações daquela apresentação. Cada solo escapava da alma. Em que ano estávamos? As músicas eram entoadas com fervor. 2007? Impiedoso, o baterista descia a mão no surdo, na caixa, nos pratos. 2006? Quieto e calado, o baixista fazia suas cordas berrarem. Que memória traidora. Os nove pagantes estávamos todos colados ao palco. Só a música tinha direito à fala. Ninguém se importava com o mundo lá fora. Consciente dessa ligação quase sobrenatural, Rafael Castro tirou a guitarra vermelha do corpo e socou, com ela, o palco do Tribo’s, surpreendendo o resto da banda, que passou a tocar ainda mais alto. Você já tentou quebrar uma guitarra, caríssimo leitor? Não é tão fácil como nos filmes. A primeira batida, na verdade, é só para desestabilizar. A segunda, com mais força, extirpa alguns detalhes externos, como captadores, botões de volume, algumas cordas rompem, mas o corpo da guitarra ainda está ali, resistindo, quase intacto. É só na oitava batida, depois de jorrar estilhaços pelo palco, que a guitarra vermelha, finalmente, deita estraçalhada e sem vida. Rafael Castro e os Monumentais deixam o palco debaixo das palmas febris do coração. Aquelas nove pessoas nunca pediram um bis com tanta devoção – o que, evidentemente, seria impossível diante do estado da guitarra.

Se pudesse escolher, eu estaria bebendo vinho naquela noite, e não cerveja. “A embriaguez da cerveja é a mais ruidosa e a mais bonachona do que a do vinho”, define o mestre Milan Kundera. A culpa dessas noites maringaenses tão barulhentas, simples e estrondosas, é toda da ausência do vinho. E me pego pensando nisso exatamente agora à tarde, comemorando antecipadamente o Dia do Rock, celebrado no dia 13 de julho. Vou empunhando na sala a taça de um Toro Loco, balançando-a suavemente de um lado para o outro, enquanto o tom avermelhado do vinho tenta escalar a taça, em vão, na turbulência que eu mesmo dito e interrompo. Nas laterais, o vinho que escorre de volta à base da taça deixa vestígios de imagens de guitarras e baterias, flashes do Terminal Guadalupe mandando “Pernambuco Chorou”, da Sexta Geração da Família Palim do Norte da Turquia tocando “O Papa tem Artrite”, do Charme Chulo, do Lobão berrando “Dilma Bandida!” no MPB Bar, de uma moça morena que exige mais uma canção do Marcelo Nova, do show do Ecos Falsos com os integrantes da banda desolados à espera do público, da Relespública fazendo todo mundo dançar num boteco apertado, da noite em que Rafael Castro quebrou sua guitarra para nove pessoas em Maringá, do sol que insiste em romper a escuridão no fim da madrugada quando o segurança do Tribo’s, cordialmente, escancara a porta, permitindo que você chegue à calçada e volte para casa cheio de histórias transgressoras e subversivas.

Publicado no Diário (10/7/2016)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Senhoras serelepes, rosas, risos e lágrimas diante do Rei

As ruas da Urca surgem praticamente vazias de moradores – fogem para destinos silenciosos, os cariocas, atordoados com fevereiros de tamborins, surdos e repiques? Diferentemente da Zona Sul do Rio, aqui não há engarrafamentos nem caos. Há silêncios de uma província paranaense. Aos quarenta e dois graus das seis da tarde, o Pão de Açúcar é uma moçoila melancólica tomando banho de sol. Três únicos turistas se aventuram nas calçadas, sempre de olho na numeração dos prédios, alheios aos mosaicos de barcos, nuvens e pássaros jazzistas improvisando maravilhas sobre as águas. Confiro o rabisco: Avenida Portugal, 818, edifício Golden Bay. Eu cheguei em frente ao portão. Encaro um ar severo e aperto o interfone.

"Tenho uma carta para o Roberto Carlos", aviso, mostrando o envelope.

"Ô, rapaz, a gêntí não pódi récebê. Deixi lá no estúdiu dêli, fica a umas seis quádras pra lá, ó", responde o baiano, balançando a cabeça para a esquerda.

Com essa, eu não contava. Há um porteiro no meio do caminho. Se eu fosse conhecido de algum baiano importante e querido, tudo não seria diferente? Improviso nova estratégia:

"Vim em nome do João Ubaldo Ribeiro."

"..."

"Ele mandou isso para o Rei", respondo.

"Ú grândí João Ubaldo?"

"Isso, o grande escritor. Pediu que eu entregasse hoje mesmo."

Um sinal estridente destrava meu caminho. Fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro. Eu cheguei.

"Pódi deixar comigo. As cártas de hôji já subiram. Amanhã cédinho essa tará na mão dêli", promete o porteiro.

Nunca conheci João Ubaldo, infelizmente. Nas minhas mal traçadas linhas, pedia que Roberto autografasse meu CD "Em Ritmo de Aventura" - o melhor álbum dele - e mais outros dois encartes. Dizia que, dali a dois dias, eu passaria para retirar os discos, devidamente autografados, na portaria. Voltei, em vão, e nunca mais recuperei meus três CD's. Fui furtado pelo Rei.

Desabafo

Quando descobri que o Rei faria um show em Maringá, corri para conseguir uma entrevista. A dezenove dias da apresentação, encaminhei cerca de quinze perguntas para o assessor do cantor (leia nesta página). Confesso que caprichei: incluí tudo o que eu e você gostaríamos de saber. O assessor confirmou o recebimento e adiantou que não poderia garantir que elas fossem respondidas a tempo. Seria preciso esperar. Enquanto as respostas não surgiam, passava tardes inteiras bolando planos para que o Rei autografasse meu LP "Em Ritmo de Aventura".

Algumas ideias – admito, um tanto amalucadas - envolviam perseguições em alta velocidade – para acompanhar o carro do Rei entre o aeroporto e o hotel, abordando-o nalgum sinaleiro do meio do trajeto -, outras ideias contavam com três cachorros, dois gatos e quinze periquitos – tenho vergonha de detalhar, aqui, como seria exatamente esse plano - e até cogitei ligar para Juarez Arantes, a fim de que o milionário excêntrico me escondesse a bordo de seu Del Rey preto, na garagem do Deville – mas havia uma grande possibilidade de o Rei ficar em outros hotéis, e achei melhor não arriscar. Confesso que cogitei tudo isso. Fazer o quê? Às vezes me desabafo, me desespero porque o Rei é mais que um problema, é uma loucura qualquer.

Como vai você

A quatro dias da apresentação, nada de respostas. Penso e repenso: é preciso dar um jeito, meu amigo. Ligo para o Rio. Mauricio, o assessor, me atende. Digo que é uma pena não ter rolado entrevista. Que tenho uma segunda e última solicitação. Explico toda a história dos meus CD's surrupiados, com detalhes tão pequenos de nós e coisas muito grande para esquecer. Gostaria de um minuto ao lado do Rei, vou dizendo, tempo suficiente para ele fazer uma dedicatória no meu LP. Sem perguntas. Só um encontro. Faria um ótimo texto sobre a admiração de um súdito por seu Rei. Gente fina, o assessor me chama de querido.

"Só tem um problema, Gaioto: o Roberto não dá autógrafos."

"?"

"Por causa do Toc (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), o Roberto leva até vinte minutos para fazer uma dedicatória, tentando copiar a mesma letra que tinha no início da carreira."

"E se for uma foto depois do show?"

"A questão das fotos é muito complicada. Não é sempre que ele recebe alguns poucos convidados. Quando faz isso, é sempre, sim, no final do show. Mas ele precisa estar devidamente maquiado e quem faz as fotos é o fotógrafo oficial dele. Ainda não sabemos se ele atenderá convidados em Maringá."

"Sem fotos nem autógrafos posso acompanhar a descida do voo, um pouco próximo, só para registrar os primeiros passos do Rei?"

"Impossível. Quando o avião particular dele pousar aí, um automóvel já estará no meio da pista à espera do Roberto. Ele sai direto do avião, sem ter contato com ninguém, e entra no carro. Dali, segue para o hotel. Entra sempre pelo estacionamento e, de lá, escoltado por seguranças, segue para o elevador que leva à suíte. Nesses deslocamentos, ninguém tem contato com o Roberto: é pra evitar tumulto."

Encaro os fatos: longe dos palcos, impossível abordar o Rei.

Sentado à beira do caminho

Pelo lugar mais acessível, você desembolsa R$ 90 (meia-entrada): arquibancada a milhas e milhas distante do palco. Desisto do plano de abordar o Rei – as dezenas de sujeitos bombadões e uniformizados certamente me impediriam se eu, num gesto irresponsável, marginalesco e imoral, tentasse burlar o forte esquema de segurança, pulando para a arena, onde as cadeiras de plástico, a quatro passos do palco, foram vendidas a R$ 470,40 (meia) e R$ 940,80 (inteira).

"Olha só essas senhorinhas, cara! É o mesmo público das leitoras fiéis do Padre Marcelo?", pergunta, rindo, o meu amigo Jeferson Voss, 28.

Lá embaixo, uma senhora setentona carrega uma embalagem transparente, onde se vê uma felpuda almofada azul sob uma reluzente coroa dourada – roubada, pois, do grande Napoleão?! Atrás de você, quarenta cinquentonas vestidinhas de azul e branco estendem a faixona: "Roberto, essas EX-MOÇAS curtiram muito você e nunca desistiram de assistir o show DO CARA!" Sujeitos quarentões. Cinquentões. Sessentões. Debaixo dos doze graus, casais se abraçam na data mais caliente do ano – é Dia dos Namorados.

Amigo

Para matar a fome, entro na fila dos acepipes gordurosos. Reconheço, ao meu lado, um desses amigos virtuais que você só conhece pelo computador. Será amigo de meu pai, da minha mãe, algum vizinho da infância perdida?

"Você é o Roberto, né?", vou sondando.

Quarentão, coberto de jaqueta, segurando bilhete do pedido dezessete.

"Sou, sim. A gente se conhece?"

"Acho que somos amigos no Facebook."

"Como é o seu nome?", questiona, curioso, um olho grudado no placar eletrônico da senha.

"Alexandre Gaioto."

"Tá brincando?! Não te reconheci."

Gente fina, estende a mão e escancara sorriso.

"Gosto muito dos seus textos. Aquelas crônicas de domingo."

"Tá brincando?!"

"Verdade. Você e a terra da igreja-cone. Das senhorinhas serelepes. Das duplas sertânicas. Leio todas. São bem-humoradas, divertidas, continue escrevendo!"

Quase nem acredito: finalmente, encontrei um leitor.

"Posso tirar uma foto com você? Meu pai não vai acreditar que encontrei um leitor."

"Número dezessete! Dezessete!", esgoela-se alguém.

"É a minha senha. Sinto muito", despede-se o sujeito, aflito de fome.

Sabe, você, como é bom encontrar um leitor-amigo? E me pego pensando nos outros leitores-amigos-virtuais que acumulei com esses textos todos. Na Aniceia Maia, no João Xavier, na Sonia Maria, na Estter Ribeiro e tantos outros que me mandaram mensagens gentis e carinhosas nesse tempo que extirpei a vesícula e, por duas semanas, silenciei o verbo. Para este pobre cronistinha dominical, maior alegria não há do que esbarrar num leitor-amigo. "Eu quero ter um milhão de amigos", me pego cantarolando, a poucos minutos do show, com o lanche em mãos.

Emoções

Com trinta minutos de atraso, o Rei dá as caras às oito e meia. A mega-banda puxa uma versão instrumental de "Como é Grande o Meu Amor por Você", transformando o Parque de Exposições num karaokê lírico. Em seguida, a banda inicia o clássico arranjo de "Emoções". Do meio do palco, entre o baterista e os trompetes e saxofones, ele entra. Alto e magrelo. Vestindo azul, evidentemente, sua cor predileta. Curioso, ele não manca: a perna mecânica, tão firme quanto a esquerda. Homens e mulheres berram e acenam. E é só ele começar o primeiro verso que você, aquele garotinho gorducho de oito anos, tímido e calado, equilibrando três fatias de Panetone na frente da TV, assistindo ao especial de fim de ano, começa a chorar compulsivamente. Minha namorada me olha de uma forma engraçada. "Ué, mas você não prefere o Erasmo?", parece me perguntar, em silêncio. E só não fico tão constrangido porque as comportas oculares despejam litros de água dos rostos de várias dulcíssimas senhoras ao meu lado. A música não é a arte mais emocionante de todas? O Rei passa pela Bossa Nova, retomando "Além do Horizonte", mergulha no rock, com "Ilegal, Imoral ou Engorda", "O Calhambeque" e "Se Você Pensa" - com direito a guitarras distorcidas! -, mostra uma versão em reggae para "Eu te amo, te Amo, te Amo", e, generoso, entoa todas as canções de amor que marcaram a tua vida, como "Proposta" e "Detalhes", provocando mais mil litros de lágrimas na sua face ensopada. Na arquibancada, você é tomado pela mesma sensação de ter visto Bob Dylan, Rolling Stones, Paul McCartney, Erasmo Carlos. O vozeirão firme. Baita som. Banda finíssima. Só faria algumas preciosas alterações no repertório: "Lady Laura" (cafonérrima) por "Quando". "Mulher Pequena" (cafonérrima ao cubo) por "Eu Sou Terrível" - esta, aliás, encerraria a apresentação. "Nossa Senhora" por "As Curvas da Estrada de Santos". "Jesus Cristo" por "O Portão". Sem coisas cafonas nem versinhos religiosos, Robertão soaria ainda melhor.

Ilegal, imoral ou engorda

A cafonice e as letras xiitas fizeram, sim, com que eu me aproximasse mais do Tremendão. Em meio a tantas polêmicas em que Roberto se meteu – incontáveis acusações de plágios, o lance da propaganda da Friboi, a proibição das biografias e a briga com Paulo Cesar de Araújo, quantas mais? – assumi uma postura apática em relação a ele: virei homem calado e até desconfiado. Chamei-o, vez ou outra, de Rei Manco. Agora, esqueço as polêmicas e me entrego, assombrado, à sua música. Em mi menor, a banda puxa os acordes iniciais de "Jesus Cristo". É a última. Sempre foi. Sempre será. Olho para minha namorada, cantando e batendo palmas ao meu lado. No palco, o Rei beija flor por flor e arremessa aos súditos, que se engalfinham em busca da rosa mais cobiçada. Em plena Noite dos Namorados, digo à minha namorada que, por ela, farei uma loucura. Seus olhos, espantados, me espiam com terror – ela me conhece. E, ligeiro, vou descendo as escadas da arquibancada. Noto que os seguranças bombadões estão todos atentos ao show, e não ao público. Aproveito a distração para pular a mureta e invadir os setores carérrimos. Copio o pulo, os passos silenciosos e a mesma agilidade de Liam Neeson, numa de suas missões impossíveis. Então eu corro demais. Vou cruzando velhas que ardem em brasas – só o único bombeiro é capaz de apagar tanto fogaréu. Quem ganha rosa sai de cena e libera uma lacuna no meio da multidão. Aproveito um desses corredores humanos e, quando me dou conta, estou a três cabeças do palco. O Rei se aproxima para lançar a última rosa. "Robertooo, eu também te amo! Me dá uma rosa aí, pô!", solto num vozeirão grave, causando gargalhadas estridentes nas velhas em redor. Acho que ele não ouviu. Sou esmagado por dezenove velhas. O Rei lança a flor numa parábola de graus incalculáveis, mais ou menos na minha direção. Estendo os braços, mas fracasso. A sortuda é uma senhora suada e corpulenta que dá cotoveladas na de trás, passa a perna na da frente e empurra uma gorducha à esquerda e uma magricela à direita: para conseguir uma rosa do Rei, é preciso quebrar algumas leis, invadir setores alheios, apertar e espremer e empurrar, mas ninguém ali se importa com isso. Se chorei ou se sorri, o importante é que finalmente vi e ouvi o Rei.

O REI NÃO RESPONDEU
 

Qual a sensação de ser o maior cantor brasileiro de todos os tempos?

O senhor não vem a Maringá há 17 anos. Consegue se lembrar de seu show por aqui? O que sabe sobre a cidade?

Nas horas livres, o senhor gosta de literatura? Poderia citar os cinco livros mais importantes da sua vida?

O senhor já disse que pretende gravar um disco de inéditas neste ano. Como soará o novo CD?

Erasmo Carlos fez um excelente álbum apenas com os lados b da carreira dele. O senhor considera a possibilidade de gravar, algum dia, um álbum apenas com suas canções menos conhecidas?

O senhor e Erasmo Carlos compuseram "Maria Joana" como uma homenagem velada à maconha. Quando questionado, Erasmo costuma dizer que chegou a provar a maconha, mas não gostou. O senhor chegou a provar maconha ou algum outro tipo de droga durante a sua trajetória?

No filme sobre Tim Maia, a cena de um funcionário do senhor arremessando dinheiro aos pés dele, que estava pobre e no início da carreira, é muito forte e gerou muitas críticas. Essa cena realmente aconteceu nos bastidores do seu show?

Por que o senhor não libera o álbum "Louco Por Você"? Há planos para liberá-lo futuramente?

"Em Ritmo de Aventura", para mim, é um dos melhores álbum do senhor, com aquele rock sessentista. Algumas bandas de rock têm feito shows reproduzindo álbuns na íntegra. Acha que é possível, algum dia, o senhor fazer um show especial executando na íntegra esse álbum?

O senhor acha que a polêmica das biografias prejudicou a sua imagem?

O que o senhor pode adiantar sobre a autobiografia que está escrevendo? Quais os maiores desafios durante esse processo de escrita?

A música "O Careta" foi considerada plágio pela Justiça. Essa e outras acusações de plágio aborrecem o senhor?

O senhor ficou ofendido por ter sido convidado a se apresentar na abertura dos jogos paraolímpicos do Rio de Janeiro? Por que recusou o convite?

Em fevereiro de 2014, deixei meu CD "Em Ritmo de Aventura" na portaria do edifício Golden Bay, onde senhor mora, para ser autografado. No dia seguinte, passei pra pegar o CD autografado, mas, segundo o porteiro, o CD havia sido entregue em seu apartamento e o senhor ainda não havia assinado o encarte. Será que o senhor poderia devolver o meu CD, se possível autografado? Ou, então, eu poderia levar o meu LP do "Em Ritmo de Aventura" para o senhor assinar antes do show aqui em Maringá, que tal?

Publicado no Diário (19/6/2016)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Evangélicos ouvem a voz de Deus na Rua Galáxia, no Jd. Universo

Depois de passar três dias e três noites debruçado sobre um mapa de Maringá, à caça de coisas inusitadas, esbarro, finalmente, no destino perfeito: Rua Galáxia, no Jardim Universo. Planetas, anéis de Saturno, lixo cósmico, telescópios da Nasa e extraterrestres aterrorizantes não estão todos lá, a exatamente 5,9 km das mesas do Divina Dose, precisamente a 4,6 km da chatíssima igreja-cone? Rua Galáxia, no Jardim Universo: endereço certeiro para enviar as 300 duplas sertânicas desta cidade dos diabos, na esperança que sejam abduzidas e carregadas por OVNI’s a outros planetas distantes? Rua Galáxia, no Jardim Universo: lá, você não encontrará cosmólogos e cientistas comprovando, a partir do Big Ben, a origem de tudo? Rua Galáxia, no Jardim Universo: poetinhas octogenários não rascunham odes e sonetinhos à coincidência feliz da inimaginável junção cósmica?

O endereço mais interestelar de Maringá tem apenas dez quadras. Não há botequinhos minúsculos nem lojinhas de roupa nem armazém de secos e molhados: uma rua só de casas e moradores. Quem cobiça alguma dessas coisas, um copo de cerveja, uma camiseta nova, é obrigado a bater pernas até a Rua Universo, logo ao lado. Além do mínimo comércio, na Universo tem também a única igreja das redondezas. Aberta sete dias por semana – o bendito número sagrado! – a Igreja Evangélica Pentecostal Unção de Gileade tem agenda cheia. Sexta, às 20h, é a “campanha de cura e libertação”. Quarta, às 15h, tem “tarde da benção”. Terça, às 20h, é o dia perfeito nesse tempo de crise econômica, com a tal da “campanha da prosperidade”. Essas e outras atividades surgem no cartaz pendurado numa das três portelas da minúscula Igreja. Mas voltemos à nossa Galáxia, com suas dez quadras de espaço. Numa das esquinas, três sujeitos conversam amenidades – debatem, na Rua Galáxia, os aceleradores de partícula, radiação cósmica, a nucleossíntese estelar, a hipótese do átomo primordial?
“Na verdade, a gente tava falando sobre o culto”, comenta Leandro Emydio, 37.
Ai, não. A fé resiste à ciência até na Rua Galáxia.
“Não sei se você sabe, mas Deus me preparou esse ponto”, diz o sujeito, apontando para o terreno vazio de pedregulhos, cercado por uma cerca baixa e acinzentada. “Eu tava devendo, não tinha dinheiro pra abrir um comércio. Todo dia, dobrava os joelhos e chorava. Daí, ouvi a voz de Deus: ‘Trabalha, homem. Faz a sua parte que eu faço a minha’. Sabe o que aconteceu em seguida? O irmão da igreja comprou esse terrenão aqui e fez uma marcenaria. E eu peguei uma parte do terreno pra abrir o lava-jato. Hoje, faz um bom movimento”, garante, à frente do ponto esvaziado. “Quer dizer, não hoje, né? Que com essa crise tá tudo difícil.”
Gostei daquela parte da voz de Deus. Pergunto como é.
“A voz de Deus tem o mesmo agudo do Xororó ou é mais parecida com o grave do Emílio Santiago?”
O sujeito me olha intrigado.
“Não dá pra comparar com cantores. A voz Dele é como se fosse um vento.”
Já imaginou se Bob Dylan escuta isso?
“Mas, às vezes, Deus também fala como se fosse um vendaval”, comenta a esposa do sujeito do lava-jato.
Um terceiro crente, mais velho, agora irrompe o silêncio, acrescentando seu próprio testemunho.
“Todos nós somos evangélicos e já ouvimos a voz do Senhor”, garante.
O papo sobre a fé é quebrado por uma senhora que interrompe diálogos.
“Querem comprar um pacote do Prever?”, oferece Elza Correia, 50, empunhando pastinhas cheias de papéis e números. “Hoje, minha estratégia é oferecer contratos em toda essa rua, nas dez quadras”, comenta.
“Os moradores da Galáxia estão se preparando para a morte?”, vou sondando.
“Felizmente já marquei alguns horários. E vou voltar em breve. A gente planta hoje e colhe amanhã...”
Não é a vida que ceifa?
“...mas tenho sorte, sabe? Deus guia minhas vendas. Como evangélica, ele me protege e me aconselha.”
Ai, não. Mais uma?
“Você já ouviu a voz de Deus?”, indago.
“Claro que já. Várias vezes”, responde, com os olhos desafiadores.
“Poderia detalhar como é a voz de Deus?”
“Olha, é uma fala muuuito suave.”
“Deus, então, tem a voz do João Gilberto?”
“João quem?”
Começo a cantarolar “Garota de Ipanema”, separando sílaba por sílaba, imitando a calma e os tantos tons do Pai da Bossa Nova, batucando no corpo os toques sincopados que ele executa no violão. Não adianta.
“Não sei quem é esse João.”
“Deus tem a voz do Cauby Peixoto?”
“Não, não, não. Não tem nada a ver com o Cauby. É diferente.”
“Diferente como?”
Sem saber como responder, a senhora recorre a detalhes biográficos, lembrando que, há pouco tempo, “era do mundão”, “perdida”, “uma dessas incrédulas”, e que Deus deu a ela “mais paz de espírito e até dinheiro”.
“Você me garante que, se eu me converter, também ganharei mais dinheiro?”, vou sondando, prevendo os euros e as libras esterlinas, disposto, finalmente, a encarar a trilha da redenção divina.
“Para Deus, tudo é possível. Ele é a salvação”, garante a senhora, antes de se despedir e sair perambulando pela Galáxia, à caça de novos clientes. Despeço-me do trio de evangélicos. Por quanto dinheiro, caríssimo leitor, você se converteria?

Planetário adoentado
No céu, as nuvens ameaçam enxurradas. Infelizmente, nada de discos voadores trocando de cores nem alienígenas zanzando e convivendo harmoniosamente com os seres humanos. Uma rua, assim, com buracos e pedregulhos, com velhos espreguiçando o tédio nos portões, igual a qualquer outra. Numa esquina, avisto ao longe muros altos, brancos, portão de ferro. Deve ser lá. Um planetário na Rua Galáxia?
“Não, moço, aqui é o Núcleo Integrado de Saúde Universo”, informa um rapaz, interrompendo a leitura de um livro.
Como é bom encontrar um leitor. Nas mãos, um clássico de Machadinho? Vida e obra de Georges Lemaître? “Mecânica Quântica Moderna”, de J. J. Sakurai e Jim Napolitano?
“É a Bíblia Sagrada. Sou pastor”, avisa.
Um pastor em plena Galáxia. Vou resumindo o encontro com os fiéis. Ele não se surpreende.
“Em Maringá, 26% da população é evangélica. Nas outras cidades, o número é bem menor: 17%. É mais fácil você encontrar um fiel aqui do que em qualquer outro lugar do País”, justifica Luis Henrique, 39.
Na fila para fazer o exame e compreender a força estranha que atazana seu tornozelo, o pastor concorda em esclarecer as tantas dúvidas sobre as santíssimas cordas vocais.
“Muitos me disseram que já ouviram a voz de Deus. Como é essa voz?”
“Não sei. Deus nunca falou comigo através da voz.”
“Mesmo sendo pastor?”
“Deus fala comigo através da leitura.”
“Por que ele dirige a voz só a algumas pessoas?”
“A função dele é se aproximar e se fazer compreender.”
“Seguindo esse raciocínio, se Deus, então, resolvesse se aproximar de um fã de sertanejo universitário, pensemos aqui numa adolescente, ele poderia usar uma voz parecida com a de algum desses cantores famosos?”
“Claro que sim.”
“Mesmo sendo o Luan Santana?”
“Claro que sim. Não existe um mandamento dizendo que Deus não pode imitar o Luan Santana.”
E mais não é possível perguntar, porque a enfermeira anuncia o nome de Luis Henrique e ele segue, arrastando o pé, rumo aos mistérios do tornozelo.

Aleluia dominante
A senhora que escancara as janelas, com mais duas crianças, também se revela evangélica. O vendedor de limão, com a carriola já esvaziada, engorda a lista de evangélicos. A auxiliar de dentista que, ligeirinha, passa por mim, é testemunha de Jeová. Na Rua Galáxia, no Jardim Universo, é mais fácil flagrar alienígenas mantendo contatos imediatos de primeiro grau, a bordo de objetos voadores com luzes piscantes, do que esbarrar num único ateu.

Publicado no Diário (22/5/2016)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Odeio te amar, minha Maringá

Querida Maringá, cada cidade tem o mitógrafo que merece. Balzac mitificou Paris. Dostoiévski imortalizou São Petersburgo. James Joyce deu vida a Dublin. John dos Passos até passou por você, em 1956, vivenciando teu calor insuportável e tua poeira de sangue e, nas linhas que dedicou a você, notou a fertilidade dessa tua terra vermelha: "Nela cresce qualquer coisa". Mas as poucas linhas de John dos Passos não são o suficiente para te mitificar. Nessa lacuna, meu fim é te encarar. Sorte tua ou azar?

Não sei se tem me acompanhado, mas, há algum tempo, venho sendo teu mitógrafo. A cada domingo, navego tuas ruas, percorro teus personagens, descubro cenários ignorados pelo cotidiano. O calor dos diabos deve ser o mesmo testemunhado pelo John dos Passos. A poeira vermelha agora tem setenta tons de cinza, resultado dos prédios colossais que brotam nas tuas calçadas. Nas tuas curvas, Maringá, vejo de tudo. O famoso padre-cantor que insiste em te visitar, as velhas que te dançam com dentaduras vacilantes nos bailes da prefeitura, as crianças babonas que te descobrem na palma da mão. A cada passo que você dá, Maringá, eu te acompanho - ou será o contrário?

Meu maior prazer é te percorrer. Tuas ruas são planas, nada de ladeiras e descidas de tirar o fôlego – de passagem por aqui, os 350 mil moradores de Ponta Grossa morrem de inveja. Maringá não é menos andável que Paris, Nova Iorque, Buenos Aires. Você zanza de lá para cá e nunca se cansa. É caminhando que te curto, Maringá. E também é caminhando, debaixo dos 49ºC do sol sempre impiedoso, que eu te odeio.

Na idade mais sacana da vida - quem detesta completar meia nove? -, você, Maringá, é uma senhora serelepe maníaca por remédios - qual outra cidade tem tantas farmácias? Vaidosa, cuida como ninguém da aparência - daí teus milhares de cirurgiões plásticos engalfinhando-se em tantas clínicas. Quase setentinha, você é louca por esportes - dez entre dez maringaenses dão volta no Parque do Ingá, no Willie Davids, no Parque Alfredo Nyffeler ou em outro dos teus cantos verdes. Festeira e danada, você nunca nega a saideira – teus bares jamais regulam horário, e a cerveja, como nas benditas mesas no Divina Dose, surgem sempre geladíssimas. Por isso, pelos porres infinitos, eu me levanto para você, ligeiramente alcoolizado, e brindo tua saúde. Mas na ressaca do dia seguinte, Maringá, os vizinhos me acordam com os berros estridentes das tuas 300 duplas sertânicas – são 312 duplas no País inteiro. Você é sádica, Maringá.

Renego a Maringá da chatíssima igreja-cone, com suas milhares de beatas xiitas empunhando os livros do famoso padre-cantor. Não reconheço a Maringá do capenguinha Joubert de Carvalho - eis a musiquinha mais ordinária e ingênua da história da MPB? Rejeito a Maringá da sétima divisão com time desfalcado. Do cachorro-quente recheado de azia em cada esquina. Essa daí não é minha cidade.

Minha Maringá tem moçoilas desfilando diariamente em vestidíssimos floridos – negras, ruivas, loiras, mestiças, outras magníficas de traços indígenas. Minha Maringá é do Poty ignorado – há dois grandes murais dele espalhados por aqui, já reparou? Minha Maringá é dos índios kaingangs com balaios coloridos. Da mitológica Tia Maria exibindo, na Pernambucanas, o caminho da perdição. Do Juarez Arantes regalando-se com bolos de baunilha e acelerando pelas ruas em seu Del Rey preto antiostentação – quem imagina, ali, um milionário? Das moçoilas sexagenárias oferecendo cervejinha carérrima no Skolzinho, no Stop e no Nara's Bar. Dos hippies, cantores satânicos e do Fábio Evans vendendo poemas na São Paulo. Dos causos caóticos nos corredores do edifício Mauricio Schulman, na Zona 7. Dos artesãos, bêbados, ciganos, malditos e foragidos da polícia bebendo a noite no Posto da Paraná. Da velha freira doidinha que, toda de preto, bate pernas pela cidade e reza em silêncio – para onde vai, toda noite, a freira doidinha?

Minha relação contigo, Maringá, é de ódio e apego, desespero e serenidade, sedução e desilusão, berros e silêncios. Intensa e desequilibrada como toda grande história de amor.

Publicado no Diário (8/5/2016)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Beatas berrantes à espera do milagre

Gritos. Berros. Histeria coletiva. Olhos ensopados de lágrimas. Mãos e braços tremelicantes. Cantorias e palminhas na fila quilométrica. Onde você está mesmo? Prestes a entrar no camarim do Paul McCartney? Não. É um público diferente. Olhe à sua volta. Velhas, muitas velhas. Velhas rezando terço. Velhas enfrentando filas de até cinco horas. Velhas desafinando o punhado de canções religiosas. Velhas com tubo de oxigênio. Velhas zanzando em cadeiras de rodas. Velhas exigindo filas prioritárias – com qual fim, se são todas velhas?

Pode a bomba cair duas vezes no mesmo lugar? Sim, ela cai.

Oito meses depois, aqui estamos, no shopping Catuaí, novamente à espera do padre Marcelo Rossi. Da última vez, tentei de todas as formas me aproximar, sem sucesso, do padre-cantor. Por meio da assessora, descobri que ele só havia atendido a Globo e o SBT. O jornal impresso não era o foco dele. Curioso, isso. No início de tudo, não era só o verbo?

Determinado a falar com o padre, pedi conselhos ao meu amigo Baiano. Engenheiro mecânico e, nas horas vagas, ateu por natureza, ele é um grande leitor de Daniel Dennett, Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Por e-mail, Baiano me encaminhou 39 perguntas que eu deveria fazer ao padre-cantor, como: 1) Por que Deus abriu o Mar Vermelho para que Moisés tirasse os judeus do Egito, mas não abriu os portões dos campos de concentração?; 2) Cristãos dizem que se um bebê morrer, ele vai para o céu. Por que, então, os mesmos cristãos são tão contrários ao aborto, se isso privaria as crianças de irem para o inferno?; 3) Por que Deus mandou o dilúvio para eliminar o mal na Terra, se não funcionou, e o mal voltou logo em seguida? Deus, onipotente e onisciente, já deveria saber que isso aconteceria. Por que, então, ele se deu ao trabalho?; 4) Cristãos adoram dizer o quanto Jesus se sacrificou por nós. Mas, se ele era Deus, então como não sabia que, em três dias, estaria no céu para nos governar? Se ele está lá vivo, o que exatamente ele sacrificou?; 5) Todos somos, realmente, filhos de Deus? Até mesmo Charles Manson, Suzane Von Richthofen, Motoqueiro Atirador de Goiânia, Maníaco da Torre, Luan Santana?

Além das questões religiosas do Baiano, também tenho minha listinha de indagações, mais direcionada às veredas culturais – que revelam, e muito, as peculiaridades de qualquer sujeito. Prefere, o padre-cantor, Lennon ou McCartney? Woody Allen ou Pedro Almodóvar? Sasha Grey ou Sensi Pearl? Essas respostas, infelizmente, você jamais saberá. Porque o assessor de imprensa das Livrarias Curitiba, mesmo sem saber quais perguntas levo na manga, já elimina qualquer possibilidade de diálogo com o padre-cantor. "Infelizmente, o padre Marcelo só vai atender os veículos de comunicação que agendaram previamente a entrevista. Sinto muito, Gaioto."

Churrasqueiro da fé

Sem acesso ao padre, pego minha listinha de perguntas e vou direto ao povo – não é a tal voz de Deus? Às duas em ponto, quase 800 velhas e tiazonas enfileiradas. A primeiríssima, Marina David, 57, chegou às duas da madrugada. Fã do padre-cantor, ela já ganhou a bênção dele no ano passado. "Mas foi rápido demais, porque já estava muito tarde e o padre acelerou o atendimento." Dessa vez, Marina não hesitou em perder um dia de trabalho só para ser a primeirona. "Acho que vou ter mais tempo pra falar com ele, né? A palavra dele me leva à comoção. Ele é diferente dos outros padres. Nem se compara ao padre Fábio de Melo, que é só cantor. O padre Marcelo é mais espiritual: ele acende o fogo da fé."

Gostei de Marina. Talvez ela seja a pessoa certa para responder as perguntas do Baiano. Tiro a listinha do bolso e escolho uma pergunta aleatoriamente. "Cristãos dizem que se um bebê morrer", vou lendo em voz alta, "ele vai para o céu. Por que, então, os mesmos cristãos são tão contrários ao aborto, se isso privaria as crianças de irem para o inferno?"

Sem respostas, Marina até esboça alguma coisa, mas desiste. Acuada, busca ajuda no rosto das amigas. Rapidinho, o batalhão de velhas fiéis te cerca, metralhando uma porção de respostas para todos os lados.

"Porque todos temos direito à vida!"

"Quem vai parar no inferno são os médicos!"

"Isso é coisa de assassino."

"Qual diferença de quem tira a vida de um bebê e de um homem?!"

"Isso é coisa que se pergunte, moço!?"

"Quem faz aborto não tem Jesus no coração."

As respostas são ecléticas, mas sempre fogem à questão. E Marina também sente que são todas insuficientes.

"Vou te contar uma coisa", avisa. "Quando tinha 32 anos, fui mãe solteira. Comi o pão que o Diabo amassou. Tive três filhos. Sem casa, passando fome, frio, morando sabe onde? Debaixo da ponte. Eu e meus três filhos. Todo mundo dormindo no piso bruto. Hoje, tá todo mundo aí: casado, bem de vida. Já pensou se eu tivesse feito aborto? O que seria de mim? E deles?"

Reza e tragédia

Sigo pela multidão. Sentada na banquetinha de plástico, a velha vai despindo, lentamente, o sapatão laranja. Meiona por meiona, lentamente, até a brisa geladinha refrescar cada pezão inchado, decorado por escamações, micoses, frieiras, bicho geográfico e unhas macilentas. Apavorado, você testemunha o silencioso strip-tease dos pezões octogenários. Por sorte, gritos e assovios desviam tua atenção. Seis sujeitos passam por uma área isolada, ao lado da fila. Velhas descalças levitam na pontinha dos pezões. Ainda não é o padre-cantor. Mas é suficiente para estimular a contagiante cantoria de dois versos minimalistas:

"Padre Marcelo, cadê você?

Eu vim aqui só pra te ver!"

(repete infinitas vezes, até a exaustão).

"Quando olho pro padre Marcelo, vejo Jesus em pessoa", comenta a auxiliar de administração Cleuza Martins, 56, interrompendo o grito de guerra. Gozando merecidas férias, ela veio sozinha, na companhia apenas de familiares emoldurados. "Onde a mãe vai, as fotos também vão. Trouxe uma foto de cada filho, ó, todas do dia do casamento. É para a bênção do padre", exibe, toda serelepe.

Quero saber das histórias impossíveis. Milagres, mágicas, esse tipo de coisa. "Tá falando com a pessoa certa. Tenho vários testemunhos. São tantas histórias do Deus do Impossível que você vai dizer: 'essa mulher é doida!'"

Abraçando molduras, ela começa o relato, e, aos poucos, as velhas em volta escancaram ouvidos à trama. "Há dois anos, meu genro, minha filha e meus dois netos saíram de carro, enquanto fiquei em casa com meu netinho de colo. Quando eles viraram a esquina, já senti a voz Dele. Era uma voz grave, falando direto no meu coração. Como eu sabia que era Deus? Porque era, ora. Senti uma coisa ruim e fui pro meu quarto. Comecei a rezar, pedindo misericórdia. E não deu outra. Meu filho tava em alta velocidade e bateu o carro na Nildo Ribeiro. Deu perca total. Você tinha que ver como ficou o carro dele e do outro motorista. Uma cena horrorosa. Felizmente, todos saíram vivinhos."

Diante dos cochichos espirituais, não será ela capaz de responder única pergunta da lista do Baiano? Ela sorri, disposta a esclarecer os mistérios da fé.

"Por que Deus abriu o Mar Vermelho para que Moisés tirasse os judeus do Egito, mas não abriu os portões dos campos de concentração?", questiono.

Com todos os seus testemunhos, Cleuza pensa quatro, cinco, seis vezes. A hesitação é evidente. Talvez, ela lembrasse daquela história do judeu faminto, pai de família e muito religioso que pediu um pouco de comida a um soldado alemão no campo de concentração. O soldado, então, pegou um rato vivo e colocou nas mãos do judeu. Em seguida, apontou uma arma para o judeu e ordenou que ele comesse, ali mesmo, aquele rato, vivo.

"Nos campos de concentração não tinha ninguém de fé! Judeu não tem fé, meu filho", garante Cleuza, antes de acrescentar: "As coisas às vezes acontecem porque precisam acontecer. Os mistérios de Deus são grandes."

Sangue azul
Mais atrás, descubro Thereza Iracema dos Santos, 77. Encarou os 112,6 quilômetros que separam Tapejara de Maringá. E, nos dias em que permaneceu por aqui, fez questão de aproveitar a vasta agenda cultural da cidade. "Ontem, fui ver a palestra do Doutor Bactéria. Hoje, vim no padre Marcelo. Não é uma maravilha?", comenta, feliz da vida. Boa de prosa, conta detalhes bombásticos de seus longínquos ancestrais. "Sou de família italiana. Sabia que sou descendente do Papa Pio 10?" Com as veias cheias de sangue azul, comento que ela deveria ter direito a algum acesso exclusivo que facilitasse o encontro com o padre-cantor. Rapidinho, ela escancara o sorrisão – ela ainda não tinha pensado nisso.

Enquanto Thereza reflete sobre seus direitos, garantidos pela árvore genealógica, puxo conversa com uma loira de olhos chorosos.

"Sou louca pelo padre", desabafa a psicóloga Kelly Moraes, 39. "Já vi ele em Londrina, em fevereiro deste ano, em Curitiba, em março, e agora aqui em Maringá. Só falta ele ir pra minha cidade, Cascavel, que eu vou de novo atrás dele", avisa.

"Com ele, eu arrepio da cabeça aos pés", revela.

Na aliança brilhante, a mais óbvia pergunta.

"O maridão não sente ciúmes?"

"Olha, vou te contar, viu..."

Quantas revelações se escondem num sorriso danado?

"...ele fica um pouco enciumado, sim!"

Seleciono perguntas aleatórias da listinha do Baiano.

"Por que Deus é do sexo masculino?"

"Deus é Deus, ué. Nem homem nem mulher."

"Se o design de Deus é tão inteligente, por que homens têm mamilos?"

"Porque seria horrível nada não ter. Já pensou?"

"Se o Satanás é o Pai da Mentira, como podemos ter certeza de que ele não enganou os cristãos e fez com que eles o adorassem como deus e rejeitassem o legítimo Deus?"

"Impossível: Deus é mais!"

Agradeço a conversa, ainda insatisfeito com as respostas.

Metallica & Jesus

Na fila, uma moçoila chama a atenção. Rosas negras tatuadas no braço direito, frases agigantadas marcadas no punho esquerdo e flores coloridas no punho direito.

"Gosta de rock?", vou sondando.

"Adoro Guns, Cash, Bob Dylan e, principalmente, Metallica. Até fui no show deles ano passado, no Rock in Rio, e fiquei bem pertinho do palco. Gosto de rock e de Deus. Na verdade, não sei o que seria da minha vida sem oração", comenta Alessandra Cussolin, 22.

Diariamente, ela gasta exatamente dez minutos rezando. Dez minutos: tempo para ler quatro ou cinco páginas de um romance de Philip Roth; ouvir "Moment's Notice", executada pelo John Coltrane; ou, ainda, fazer uma torta salgada no liquidificador. Pergunto a Alessandra se ela já pensou em usar esses dez minutos diários para fazer outras coisas, em vez de rezar. "De forma alguma. Eu não tenho outra coisa melhor para fazer nesse tempo", comenta, no exato momento em que começa o berreiro, despertando palmas de aleluia. Três horas em ponto. O padre-cantor vai começar a maratona de autógrafos.

"Quer dar uma olhada no padre?", oferece o assessor de imprensa. "Só não pode fazer perguntas, certo?" Certo. Ganho acesso a uma área lateral, longe das filas congestionadas, que dá acesso imediato à saleta onde enfiaram o padre-cantor. Durante o trajeto, minhas velhas amigas me acenam e lançam sorrisos – por dentro me amaldiçoam e torcem pelo pior.

Garrancho da fé

Dentro da saleta, dois grandes caixotes recebem os pedidos de orações dos leitores. É só passar e arremessar lá dentro. Teoricamente, o padre-cantor vai ler um por um e interceder por todos. Pego um bilhetinho. Letra tremida, miúda, sem qualquer pontuação, empanturrada de erros gramaticais:

"Padre marcelo pelo amor de deus não esqueci di mim minha filha tem muita depreção principalmente no trabalho."

Epa, quem não tem depressão no meio do trabalho? Pego outro bilhetinho.

Garrancho quase incompreensível, com letras agigantadas e tremelicantes, em linhas grávidas de novos erros gramaticais.

"Padre marcelo estou escrevendo porque fiquei com medo eu já fiz muito medroza porque vivo sozinha ainda tem este velho Leonildo que vive aqui dentro da minha casa enfrentando eu tanto tempo que vivemos separados não tem nada entre nós ele continua aqui brigando entrando no meio esse velho horrivel o velho Leonildo."

Nem com santa paciência dá para encarar essas centenas de bilhetes.

Paraíso

A dez passos de distância, o padre-cantor surge ainda mais magro do que na outra vez. Grandes orelhas de três palmos abertos. Meio corcunda. Abatidão. Toma uma bebida amarela-escura. "É Red Bull light", dedura uma fonte que prefere não se identificar – vai que o padre se enfeza e exclui seu nome da listinha de benção? Está explicado: vem do Red Bull a força estranha que mantém o padre-cantor abraçando e sorrindo para tanta gente. Para comer, a santíssima trindade favorita: castanhas, nozes e damascos. É tudo muito rápido. Não dá para falar quase nada. Crianças babonas a tudo olham assustadas, não compreendem o choro dos pais, a empolgação da avó, o coração disparado saltando goela afora - estivéssemos diante de Paul McCartney não seria a mesmíssima coisa? Duas modelos sensuais, moreníssimas, distribuem sorrisos e indicam a saída aos leitores fiéis. Ao lado das morenas angelicais, testemunhando cada curva abençoada, estou finalmente no paraíso.

Publicado  no Diário (18/4/2016)