sábado, 7 de março de 2009

Foge, Silvia! Foge!

“Para aqui, porra. Policial gostoso. Mostra o cacetete! Vem, gostoso”, gritou a Silvia. No silêncio da Avenida Brasil, a viatura escuta o pedido da nova garota. E volta.
Era a primeira semana dela, Abílio.
A porta da Principal Calçados está sempre coberta por folhas de jornais. O cheiro de tinta é forte - acabaram de pintá-la hoje –, mas o cheiro de merda é ainda pior. Alguém cagou em uma caixa de sapatos e deixou ali mesmo, no meio da rua. Silvia senta em cima do jornal. O inferno do vestidinho branco. O jeans é melhor, não suja tanto. As sacolas de supermercado não são nada confortáveis, rasgam logo, não duram a noite. As páginas ficam por lá, aguardando os funcionários da loja, no dia seguinte.
Na bolsa, traz presente do Edvaldo, O Diário. Na segunda, Silvia trouxe até pirulito.
“Pra mexer com a língua e dar um aceno, sabe?”
Quase três anos no açougue, as crianças na escolinha particular, o pai morto-vivo no hospital há seis meses.
Nunca negou cliente. Até faz hora extra, de manhã e à tarde, atrás do Instituto de Educação. Só não quis com o Louquinho. Suado, bobo da ideia, olho virado, exibindo as economias. De dia, na Tiradentes, perseguindo os vestidos que passam. Ás vezes é certo correr. Fica meio esquisito, pode ser violento com pau na mão. Ou faca. Na Santos Dumont, uma moradora do Edifício Atlantis chegou a largar sacola e celular com medo dele. Diz que vai caçar tubarão em Marte. Policial nenhum prende.
Entra na quitanda, compra miojo, ganha café. Onde ele cozinha? Ninguém precisa de panela quando não tem miolo.
“Estou sem casa. Mataram ele com arpão, nas costas. Hoje, não vou mais para Marte”, costuma dizer. Durante três meses, ela me contava que atendeu um nobre empresário, que até virou nome de bairro, em Londrina. Sempre oferecendo pozinho.
“Mas dessas coisas eu não gosto, não, viu?”. Tão meiga.
Disse que falou em casamento. O sonho de todas nós, Abílio.
“Detalhava meu vestido, alugaria em São Paulo, chamaria o padre Júlio, eu escolho os padrinhos. Quem sabe, se tudo desse certo, andaríamos de Limusine por Maringá, pela Tiradentes lotada. E seria na Catedral, entrando com Bandolins, faríamos fotos entre as árvores - se não chovesse, claro.”
E como ela não ia acreditar?
“Falava sério, cuspiu na aliança. Era o diabo, aquela mulher. E tão cheiroso, romântico, recitava poema. Trouxe um livro do Vinícius de Moraes no carro. Não culpo eles, não. Mulher não dá carinho, não dá nada, nem conversa, e quer coisa fiel? Não fosse o maldito ataque cardíaco. Saiu em todos os jornais, com foto e tudo.”
Eu falei para ela do comandante Antônio. Direito, sempre pagou certinho. Contei do dia em que, enfezado, fez o diabo. Também, o João Paulo foi inventar um programa, reclamou lá na frente. O melhor vestido vermelho. O rapaz tirou foto pro jornal. Mas nem saiu, não. Acho que eles devem trocar por dinheiro ou só para sacanear, né? Mas quem viu, viu. Comandante puto, chamando de viado, travesti, tudo misturado. Prendeu na hora. O João voltou com dente a menos e roxo no corpo.
Mexer com policial é complicado. Sempre tem um que bebe um pouco e já vem para cima da gente, aqui na Avenida Brasil mesmo, dizendo que é a voz da autoridade. O negócio é abrir a perna, que passem a mão e deem uma beliscada. Nunca se sabe muito bem quem está dentro do carro, nem o estado de humor. Freguês, policial ou não, sem humor bom é terrível. Você tenta fazer uma piada, fala sobre o tempo, e o silêncio aterrorizante do seu lado.
Com a Silvia foi horrível. Segunda feira é fria, nunca tem movimento. A Larissa, e você sabe disso, Abílio, nem vem de segunda. Ela é diferente. A Silvia é trabalhadeira, é raçuda.
Mas ninguém pode cutucar a onça com vara curta, né?
Era a primeira semana dela, ali na Avenida Brasil. A Silvia estava feliz porque estava na rua. Abandonara o namorado violento, o segurança ladrão, iria mudar de vida, iria trabalhar na PrincipaL Calçados. Logo aqui, bem atrás da gente. Ela treinava em voz alta:
“Pois não, posso ajudá-lo, moço? Os chinelos ficaram lindos!”.
Engraçado, né? Lembrei da sua frase, Abílio: “Longe é um lugar que não existe”.
Ainda pagaria a mensalidade atrasada da escolinha dos meninos. Eu já gostava dela. Bom humor, sonhadora. Não sei como ela foi virar mulher da vida.
Quando eu vi a confusão, desesperei.
“Foge Silvia! Foge!”, gritei.
Era o comandante de Curitiba, trabalhando na cidade. Promovido recentemente. Veio só passar a semana.
Freada brusca, ouvindo CBN, desceram com a mão na arma.
Amarildo, o motorista, ligou a lanterna e alumiou a cara da Silvia.
Ninguém naquela segunda. Ninguém mesmo.
“Ela é nova no pedaço, Curitiba”, avisou o Amarildo.
“Fica na sua, negão. Perguntei? Quantos anos você tem, putinha?”
Cachorro acuado, Silvia não dizia nada. Olhava para o chão, parecia muito longe. Irreconhecível. Resmungou alguma coisa que só o Curitiba ouviu.
“Ah, então você gosta de dar? É porque o veado do seu pai está na merda, né? Quantos filhos você tem? Hem? Quantos filhos? Responde, vadia!”
Ela começou a chorar, sentou no chão, esfregou a cabeça na parede, dizia alto:
“Ai, meu Jesus. Ai, menino da tábua.”
Ele deu mais um ou dois passos.
“Para de mentir. Você dá, porque você gosta. Porque você é uma P-U-T-A! Quanto você cobra o anal, hem? E se alguém tiver o pau grosso como o meu? É mais caro?”
E foi tirando o dinheiro. Cinco, dez e várias notas de um real eram arremessadas e caíam sob a cara da garota, que já abraçava as pernas e tremia.
Ai, que dor no peito, Abílio. Eu tentei te ligar. Mil desculpas. Você trocou o telefone? Como não te encontrei? Está em Maringá, né? Não fique bravo. Eu deveria ter ligado para a polícia?
Não consegui sentir cheiro de cachaça.
O Curitiba se aproximou ainda mais dela, exigiu que o motorista ficasse ao seu lado, e começaram a cuspir nela. A interminável chuva de catarro. Já com as bocas secas, puxaram o cabelo, chutaram e levaram ela no carro.
Tremendo toda, eu, atrás da árvore.
Atendi um garoto, depois de tudo. Era recém casado, Astra azul, banco de couro, ar condicionado. Igual àquele que você tinha.
Até o louquinho estava lá, do outro lado da rua, mostrando as economias, querendo sexo. Ele gritava que me amava mais do que tudo, me chamava para viajar para Marte, que a nave estava partindo e eles não partiriam sem mim.
Nem Deus sabe onde a Silvia foi parar.
Sinto muito, Abílio.
Sempre sua,
Marta.

9 comentários:

willa Albuquerque disse...

Eu amei essa carta!
:}


Beijos!

Fernando disse...

Alexandre Gaioto descrevendo uma Maringá sombria e malévola!

Continue com o seu trabalho! Está indo muito bem.

Abraço!

ARCANO disse...

Voce esta escrevendo cada vez melhor!
Como pode? *-*

garanhaoselvagem14 disse...

AHUhauAHUAhuaHAUhaUHauaHAUahuaHAU
Caixa de sapato na Principal Calçados, me lembra algo. Muito bom. Isso que eu chamo de um conto regionalista.

Ana Maria disse...

você é o futuro da literatura paranaense!

Michel Queiroz disse...

Desse jeito um romance vai pintar rapidinho, bicho!

Tem novidade no brógui!

Vamo fazer o AUÊ!!

Abraço

Solano disse...

Gostei Gaioto parabéns... passa no meu blog.

abraço

f.mungo disse...

acho que trombei essa vadia, outra noite aqui em londrina, esquina da leste-oeste, garota londrina.....

Anônimo disse...

Minha nooooooossa!!! Adoro teus textos, cara!!! Você é incrível mesmo.Abraços da Mariana.