quarta-feira, 16 de março de 2011

O carnaval de Júlio

Júlio largou a enxada, pediu descanso no carnaval ao pai, quebrou o porquinho e, pela primeira vez na cidade, foi fundo em tudo. Pinga. Cerveja. Presidente. E uma ou outra dose de uísque. No Bar do Moacir, um cavalheiro de 16 anos. Pagou cerveja, seduziu as mulheres, ficou bem falado. No Meu Pato, tratamento de rei. Se deu bem com a mesa do lado. Tema da conversa, criticou Deus, aquele puto safado, e ganhou inimigos. Jurado de morte por três cristãos, Júlio deixou o bar com um copo no bolso, cuidando atrás que não lhe golpeassem com cadeiras ou garrafas. Dormiu em frente ao inferninho, do outro lado da rua, onde lhe acordaram os carros, as motos e dois policiais. Assustado, de ressaca, perdeu a fala, tirou os documentos e amaldiçoou Deus novamente - a carteira esquecida na mesa dos religiosos. Sem maconha, pedra, nada além de um copo, Júlio partiu rumo à delegacia, antes de levar chutes nas costas, no estômago e receber a dupla enchente de catarradas em seu rosto. Liberado no dia seguinte, após escrever o nome em sete papéis diferentes, Júlio foi largado próximo da UEM, onde pediu dinheiro e desafiou desconhecidos na mesa de sinuca. Derrotados todos os rivais, fez a limpa na grana e torrou quase tudo ali mesmo, em cervejas no Manhattan. Na alta madrugada, desceu a rua em direção ao Bar Sem Nome, onde a noite nunca acaba, alguém prometeu, desafiou desconhecidos, criticou Deus à vontade, aquele puto safado ladrão de carteiras, fez a limpa na grana e torrou tudo em cerveja. Na saída, Júlio ainda conseguiu carona de um dos derrotados até à rodovia, bem próximo da fazenda, onde, no fundo, sua mãe, pai e quatro irmãos seguem a rotina num barraco de madeira. Cantando na rodovia, notou seus passos tortos cada vez mais engraçados. Olhou, como nunca antes, a plantação de soja à luz da lua. Amaldiçoasse mil vezes que fosse, dali o sustento de quantas bocas em Maringá? Abraçado à soja, Júlio dormiu orgulhoso das noitadas. Às sete horas da manhã, Abílio manchou de sangue a plantação dirigindo a colheitadeira.

5 comentários:

Michel Gomes disse...

Porra, eu tinha gostado do Julio. Aposto que o conhaque era presidente; Podia ter poupado ele, Gaioto!

Belo conto. Poético. Gostei.

Abraços.

MetAArte disse...

Mas é claro que o conhaque era Presidente! E é claro que o Julio era gente boa (também torcia por um final melhor...), mas de gente boa e boas intenções o céu tá de saco cheio!! Porra!!!! (Marciano Lopes)

MetAArte disse...

Mas é claro que o conhaque era Presidente! E é claro que Julio é gente boa (também torcia por um final melhor), mas de gente boa e boas intenções o céu tá de saco cheio!! Porra!!!! (Marciano)

Anônimo disse...

Huahuahuahua.....

Plantou e foi colhido!!!!


Excelente!


Roberto Silva

Gabriel disse...

As melhores personagens morrem no final. Conto bacana!