sexta-feira, 2 de abril de 2010

Tchau bebê

O nome?
Confesso que nem tinha escolhido.
Eu tão moça.
Não saberia cuidar de criança nenhuma.
Cê imagina?
Como tratar com carinho?
E a escola?
Com que dinheiro comprar fralda leite roupinha?
Tava apavorada.
Quem me conhece viu.
A barriga crescendo.
O medo.
O desespero.
Tudo piorou quando fiquei sozinha.
Assim.
Nunca soube quem era o pai.
Podia ser o Baiano.
Podia ser o Antônio.
Podia ser o Bode.
Nunca fui mulher de um homem só.
Sempre tinha mais de um ovo na minha cestinha.
Não gosto de ficar sozinha.
Aí perdi o emprego.
Me despediram das Lojas Americanas.
Entrei fundo na bebida.
Era cachaça todo o santo dia.
Cachaça no Bar do Moacir.
Cerveja no Bar do Moacir.
E torcida de pimenta e queijo.
A primeira a chegar bem cedo.
Seis da tarde.
A última a sair.
E depois não acabava.
Ia direto pro Meu Pato.
Já ia meio bêba.
Sempre saindo do Meu Pato às quatro ou cinco da manhã.
Carregada.
Por quem?
Baiano.
Bode.
Antônio.
Daí cê já viu né?
Depois do bar nada recordo.
Liguei uma vez pro Baiano.
Tô vomitando demais eu disse.
Acho que tô grávida.
Sabe o que ele fez?
Desligou na minha cara.
Fiz o teste.
Positivo.
Eu grávida e desempregada.
Comprei umas pílulas pra abortar.
De nada funcionou.
Um enfermeiro dum hospital de Sarandi que me vendeu.
Amigo de amiga.
Tomei chá de canela quase todo dia.
Enfiei o controle remoto inteiro dentro de mim.
Com medo coloquei o salto da sandália.
Ô criança mais difícil de sair.
Tudo isso e eu tava sem emprego.
Ninguém quer uma grávida no trabalho.
O jeito foi esperar.
Não fui no médico.
Ninguém veio me visitar.
Ajuda recebi do vizinho.
Nos últimos dias me trouxe umas compras.
Disse que não preciso pagar.
No meio da noite senti aquela dor.
Eu sabia que era a criança.
Foi coisa de desespero.
Abri as pernas com tudo.
De uma vez só.
No lençol mesmo ele surgiu.
Ele.
Puxei o moleque com força.
Sem choro.
Achei que fosse desmaiar.
Nunca mais quero passar a dor de novo.
Que horrível.
Sangue pra todo o lado.
No lençol no rosto e nas pernas do bebê.
Sangue na minha mão.
Deixei o corpo na cama.
Dormi acho que por uma hora.
Acordei.
Peguei o corpinho no colo.
Ele não tinha a minha cara.
Não parecia nenhum dos possíveis pais.
Não tinha rosto de nada.
Fui pra cozinha meio mancando.
Deixei o corpo na mesa de madeira.
Alcancei a faca e cortei o cordão fedido.
Peguei o bebê pela perninha.
Levei para o quintal.
Com a pá cavei um buraco na grama.
Ajoelhei.
Rezei um pai nosso.
Depois uma salve rainha.
E joguei ele dentro da cova.
De costa.
Tchau bebê.
Pensei que todos os meus problemas tavam enterrados.
Mas não.
Começou a doer muito.
Dor de todo o tipo.
De toda a forma.
Facas espetadas em cada parte do meu corpo.
Não aguentei.
E vim pra cá.
Já tô cansada de ficar deitada.
Da comida sem gosto.
Só esperando cêis me darem alta.

3 comentários:

Paty disse...

Absolutamente genial! A.D.O.R.E.I!!! Ela tb tem mais de um ovo na cestinha? kkkkkkk
Aposto minhas fichas q o pai é o Baiano!

Anônimo disse...

Tbém posso afirmar que o pai é o Baiano, a segunda opção seria o Bode.
ahuahauahuhauahau

Celso

Fabio disse...

Bode também foi a situação final dela. Coitado do Brasil. Pobre só se fode nessa merda!