sábado, 2 de janeiro de 2010

Tiro no escuro

Saí do Maçã do Amor bem cedo até.
Com a crise ninguém mais quer gozar.
O movimento tava fraco.
Foi depois do último programa que saí.
Acho que por volta das duas da manhã.
Isso naquele sábado amaldiçoado.
O último cliente era um garoto virjão.
Virjão mesmo.
Lembro bem.
Celso.
Brinquei dizendo que era Celsão o garanhão.
Garanhão selvagem.
Magina?
Fiz o programa e em seguida fui embora.
Peguei minha bolsa lá atrás no puxadinho.
Disse tchau pra Aline loira.
O segurança não tava na porta pra me ver sair.
Matraca é o nome dele doutor.
Tava ameaçando chover eu quase chamei o moto taxi.
Mas resolvi economizar.
Olha que azar.
Aí foi bem na esquina que o carro parou do meu lado.
Uma pampa velha toda arrebentada.
Tem cigarro gostosa?
Dois caras lá dentro me encarando.
Olhei atrás pra ver se o Matraca tava por lá.
E pimba!
O passageiro já abriu a porta e veio na minha direção.
Só um cigarro gostosa.
Não tenho seus noia sai daqui porra!
Brilhou o dente de ouro na luz do poste.
Me meteu uma muqueta no meio da boca.
E desmaiei.
Fui ver tava na caçamba com mão pé e boca com fita adesiva.
O que me bateu era um tal de Bode.
O motorista era um tal de Baiano.
Bode e Baiano.
Nessa foto daí é o Bode mesmo.
Não demorei pra acordar não.
O Maçã do Amor fica ali perto do Prever né?
E eles me levaram pra perto do Cesumar naquele prédio vazio lá.
O Bode saiu do carro e abriu o portão.
Os dois riam sempre alto muito alto.
Dava pra ver de longe que tavam loucos.
Falavam de um assalto que tinham feito de tarde naquele dia.
Não sei se isso ajuda.
Parece que tinha dado tudo certo.
Eu era a comemoração deles.
Entramos no prédio.
Tudo vazio com um cachorro latindo.
Bateram no bicho e ele dormiu.
O Baiano disse que ia pegar a algema e o fogo pra me mutilar.
Bem assim mesmo:
Vou mutilar você sua puta velha do carai.
Me espera com o fogo desgraçada.
Meu Deus doutor como eu chorava.
O Bode veio pra cima.
Assim mesmo puta!
Que assim é mais gostoso!
Tentou me beijar.
Cuspi na cara.
Me meteu uma coronhada aqui desse lado.
Putinha difícil você!
Abriu sorrisão.
Meteu a boca no meu pescoço e arrancou minha blusa.
Eu cai não conseguia equilíbrio.
Mas com o pé amarrado ele não conseguia meter.
Tirou o adesivo do meu pé.
Ao invés do pescoço agora me beijava.
Finalmente tirou o revólver do meu corpo e da minha cabeça.
Foi nesse momento que eu aproveitei.
Me joguei no braço dele.
Caímos rolamos no chão frio da construção.
Não sei como a arma foi parar na minha mão.
Nunca fiz um disparo sequer.
Tava escuro demais.
Um tiro só bastou.
Senti que ele me largou.
Não olhe pra trás.
Corri corri corri.
Alcancei a rua.
Eu tava tonta desesperada ainda não sentia dor nenhuma.
Naquela confusão o maldito arrancou um pedaço da minha bochecha pode?
Só fui sentir dor no dia seguinte.
Por sorte o crente tava passando ali mais a esposa.
Esse mesmo.
Juvenal da Silva Dias.
Esqueço o nome de um ou outro peguete.
Aquele ou outro cliente de sempre.
Mas esse jamais.
Eu não sei o que fazer.
Sei que vocês acharam meus papeis bolsa celular enfim tudo lá com o corpo.
Nem sabia que o cara tava morto.
Foi um tiro no escuro.
E ainda consegui salvar a minha vida.
Não tenho dinheiro para pagar um bom advogado.
Mas nunca na minha vida vou achar justo ser julgada por isso.
Legítima defesa doutor.
Eles mesmos disseram.
Iam me mutilar com fogo e tudo mais.
Não tive culpa de acertar.
E também claro não me arrependo.
Se pudesse metia uma bala no Baiano também.
Eu corro risco de ser presa?
Cêis vão conseguir prender o maldito?

10 comentários:

Mariela disse...

Gostei. Muito bom!

Solano disse...

gostei

Ana Cláudia Covo disse...

Ta criativo hein, Alexandre :)

f.mungo disse...

Gaioto, para de sair com essas meninas, elas vão te pirar cara!!!!!!

Anônimo disse...

virjão?
fala assim do celso não, seu canalha!

Anônimo disse...

Nunca tinha lido nada seu, Alexandre. Fique surpresa, mas gostei muito dos conts.
rsrs.. bjus
Mariane

renato disse...

interessante a inclusão de girias, valendo o postulado pano de fundo sendo este a oriunda maringá... parabéns

Anônimo disse...

Alexandre, você é um grande talento. Parabéns.

Tisley Barbosa

Anônimo disse...

Mtooo bom! Ri demais...
Bode atrás de uma puta, Baiano de escanteio, Celso virjão...
kkkkkkkkkkk

Luigi Ricciardi disse...

Os direitos humanos se preocupam com serial killers e ditadores sanguinários, e a lei condena uma puta pobre que age em legitima defesa ou o mendigo que roubou bolacha pq o filho tem fome.
Linguagem adequada, universo ultra-metropolitano moderno. Belo Conto! Parabéns!