domingo, 14 de março de 2010

Anúncio da desgraça

Avenida Cerro Azul.
Meia noite.
Voltando pra casa cansado depois de sair com os amigos.
Todos queriam ver meu novo carrão.
Quase três anos economizando.
Rebaixado neon DVD som no porta malas calota zerada.
Tinha deixado minha mina na casa dela do lado do cemitério.
Na Cerro Azul nunca tem puta.
Pelo menos nunca vi.
Ninguém ali anda de boa.
Não de noite.
É tenso.
Achei estranho quando vi a garota na calçada.
Se fosse noutro lugar eu não parava.
Mas quem acudiria se fosse algo sério?
Com tanto tarado nas ruas à toa?
Ela chorava como se tivesse morrido alguém.
Toda suja de maquiagem.
Vestido de noitada sabe?
Decotado curtinho bem caro.
Coisa de burguês.
Não sou virjão.
Um cão como eu sei farejar.
Aquilo tinha pedigri.
Encostei o carro sem desligar.
Sempre é preciso ficar esperto.
Baixei meio vidro e fiquei com um olho no retrovisor.
Perguntei o que tinha acontecido.
Ela se jogou na porta chorando ainda mais e disse que tinha brigado com o namorado.
Uma carona?
Eu já tava abrindo a porta.
Quem não faria isso?
Eu tinha só boas intenções.
Disse que morava perto da UEM.
Ainda tinha um pouco de gasolina.
Quase quinze litros.
Quando eu me preparava para abrir avistei o primeiro negão lá atrás.
O cara era grande tava sem camisa e tinha um bastão na mão.
Ele surgiu da esquina mesmo.
O bastão rodava no seu corpo.
Ia pro lado esquerdo.
Depois pro direito.
Do meu lado outro figura já vinha cruzando a Cerro Azul.
Um anão preto.
O mais assustador deles.
Sem nenhuma arma.
Mas vinha decidido ao meu encontro.
Talvez o chefe da gangue?
Pra fechar veio o outro.
Saído do terreno baldio quase cinquenta metros à minha frente.
Sorrindo alucinado.
Barbudão.
Obeso.
Gordo.
O pior sorriso que alguém te pode dar.
Todos os dentes brilhando:
O anúncio da tua desgraça.
Me dei conta que a puta já tava tentando abrir a porta por dentro.
Cê tá fudido mermão!
Deus eu pensei.
No desespero fui ligar o carro mas ele já tava ligado.
Dei um soco na piranha e mordi a mão dela.
O do bastão conseguiu acertar a minha traseira.
Acelerei como nunca.
Quase dá tempo pro anão também se jogar no carro.
Eu vou pro inferno com o cê desgraçado!
Não vai não!
Pisei no freio firme.
Ela não caía de jeito nenhum.
Ali no redondo lá embaixo mordi a mão dela pra valer até sangrar.
Só depois disso ela soltou.
E caiu na rua abraçando a mão.
Acelerei.
Que caralho.
Que caralho.
Quando terminei o redondo olhei pra trás.
O preto me apontava o bastão.
A puta chorava com a mão no peito.
E o anão me encarava de um jeito estranho.
Como se soubesse que nos encontraríamos em breve pelas ruas de Maringá.

Um comentário:

Ana Luiza Verzola disse...

Sempre fazendo com que eu tenha uma visão nítida de cada palavra usada.
Bom, muito bom! :)