segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dedé

Bem moço eu era.
Assim, lembro quase de tudo.
Da cara dele com todos os detalhes:
Com espinhas, feio, orelhas de abano.
O amigo do papai mais presente que o papai.
No domingo quem fazia o churrasco?
Temperando a carne?
Suando na churrasqueira sem camisa?
Nunca entendi direito como entrou lá em casa.
Se pela minha mãe.
Se pelo meu pai.
Gostava de me pegar no colo.
De fazer cosquinha na minha barriga.
E assoprar com tudo no meu umbigo enquanto eu me debatia.
Mamãe sempre sorrindo, dizendo: “Para, Baiano!”
Eu já era moço.
O último a ser pego no esconde-esconde.
O rei dos esconderijos inusitados.
Vencendo a brincadeira na vizinhança.
Sei que um dia.
Numa tarde, aliás.
Era tarde e papai não estava.
Era tarde e mamãe dormia.
Baiano apareceu no meu quarto e mostrou uma galinha.
“Conhece a Dedé?”
Bem moço eu era.
Mas gostava de galinha.
Baiano olhava pra mim e sorria.
Peraí.
Ou sou eu que to imaginando ele sorrir?
“Qué brincar com a Dedé?”
Deixei o carrinho na cama e corri atrás da galinha.
Acho que gritava.
Gritava como criança feliz.
“Dedé! Dedé! Dedé!”
O Baiano sempre afastava a galinha.
Quando eu chegava mais perto dela, ele aparecia.
Pegava ela no colo e levava pra mais longe.
Foi assim que acabamos no banheiro da empregada.
Era um lugar pequeno com pia e vaso sanitário.
Só a empregada usava.
Atrás do vaso, a galinha me olhava.
Assustada.
Onde tava o Baiano?
Bem atrás de mim.
Parou do meu lado e disse:
“Vem”.
Entramos.
Ele fechou a porta.
Apagou a luz.
E só deixou eu brincar com a Dedé, depois de brincar com o troço dele.

7 comentários:

Ana Paula disse...

Parabéns Alexandre, rss.. adorei!

Ana Paula disse...

Parabéns Alexandre, rss..
Baiano é do bem!!
Adorei!!

Fabio disse...

ah, Dedé, seu maroto!

Anônimo disse...

"Com espinhas, feio, orelhas de abano."

hauahauahuahauahauahauahuhuah

Celso

Anônimo disse...

Seria Dedé co-autora neste abuso?

Cecília disse...

hahaha, que gentil seu comentário, coisa linda de se ler! Seu blog ta add aqui des de quando vi que existia, a escrita é simplesmente formidável, dá até vontade de esconder o meu.

Anônimo disse...

Muito bem construído o poema. Parabéns!