segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cristovão Tezza - entrevista

Sempre quando entra num sebo, Cristovão Tezza faz questão de comprar o mesmo livro: "A Cidade Inventada" (1980). O objetivo? Tirar todos os exemplares de circulação. A obra, publicada pelo curitibano aos 28 anos, reúne 18 contos e é renegada pelo próprio. Há dois anos, em São Paulo, abordei o escritor, após uma palestra, e pedi uma dedicatória num dos raros exemplares que escaparam de suas mãos.
Primeiro, ele ficou surpreso - não é sempre que a gente dá de frente com um fantasma. Em seguida, abriu um sorriso e não escapou do autógrafo no volume que agora figura entre as minhas raras raridades de colecionador.
Que o autor de "A Cidade Inventada" continuasse a escrever, não era nenhuma grande surpresa. Afinal, embora Tezza discorde, seu livro exibe um jovem com fôlego e sede por literatura.
Mas que o responsável pela pequena obra de contos pudesse se transformar num dos grandes nomes vivos da literatura brasileira, daí já era demais: ninguém poderia prever.
"Literatura é arte de maturação muito lenta", define o escritor, em entrevista concedida por e-mail. Nesta quarta-feira (15), às 20h, no salão social do Sesc, Cristovão Tezza volta a Maringá, dessa vez, com o status de celebridade literária.
Autor de cerca de trinta obras, Tezza se aventurou pelo romance, teatro, em publicações acadêmicas e lançou aquele renegado e único exemplar de contos. Dos gêneros literários, o curitibano só não usou a poesia. Aliás, usou e não gostou. "Nunca fui um bom poeta", diz.
Nessa trajetória, ele conseguiu escrever obras como "Trapo", "Uma Noite em Curitiba" e "O Fotógrafo". Com "O Filho Eterno" (2007), o curitibano fixou seu nome na literatura nacional.
O livro, fortemente baseado em aspectos biográficos, venceu os principais prêmios literários do País. Foi contemplado com o Jabuti, os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Portugal-Telecom e o prêmio São Paulo de Literatura, o que resultou em R$ 300 mil no bolso do escritor, que deixou de lecionar Linguística na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Sucesso de crítica e público, a obra será transformada em peça teatral e filme, ambos sem previsões de estreia. Ainda neste mês, a editora Record deve, finalmente, publicar "Um Erro Emocional", encerrando o jejum do escritor e saciando a curiosidade dos leitores. Confira a entrevista de Tezza ao Diário.
O DIÁRIO A rotina de palestras mundo afora prejudicou a composição de "Um Erro Emocional"?
Cristóvão Tezza Tinha tudo para prejudicar, mas eu consegui tirar alguns meses para fechar o livro, finalmente, que eu vinha escrevendo há um bom tempo. Assim, escrevi o livro com as mesmas condições de todos os outros. "Um Erro Emocional" é uma história de amor ¿ ou, mais propriamente, a história de uma aproximação amorosa. É um livro bastante concentrado em poucas situações de tempo e espaço, mas todos os meus temas estão ali.
Agora que você virou uma celebridade literária, sentiu um peso ainda maior ao escrever o novo livro?
Não, não senti esse peso. Eu nunca me senti realmente uma celebridade literária. Já estou meio velho. Seria ótimo se essa festa tivesse acontecido há uns 15 anos.
Você já se aventurou em contos e romance. Por que não a poesia?
Fui poeta quando adolescente. Escrevi pilhas de poesias. Em 1975, escrevi alguns poemas quase bons, quando vivia em Portugal. Mas a prosa logo foi tomando conta da minha vida e abandonei o verso. Nunca fui um bom poeta.
Você vem sendo considerado um dos cinco futuros cânones da literatura brasileira. Qual sua opinião sobre a atual produção literária no Brasil?
Acho que a produção literária brasileira está crescendo muito. Toda a geração que se formou na entressafra dos anos 80 e 90, agora começa a produzir literatura mais madura.
Na sua opinião, quem serão os futuros cinco cânones?
Não acredito em cânones criados "em cima do laço". Literatura é arte de maturação muito lenta. Não tenho ideia do que será referência no futuro.
Milton Hatoum costuma desaconselhar os jovens a publicar seus textos em blogs e sair escrevendo livros. Para ele, é preciso que os jovens leiam os clássicos antes de escrever em blogs. O que acha desse conselho hatoumniano?
Que os jovens leiam clássicos, é fundamental. A literatura não é uma arte ingênua nem se faz por geração espontânea. Quanto ao blogs, acho que cada caso é um caso. Não tenho nada contra as novas linguagens criadas pela internet. Na verdade, a internet ajudou muito a literatura brasileira, que passou a contar com uma divulgação e informação que jamais teve antes.
Quais cinco obras você gostaria de indicar aos novos escritores?
Não sei dizer assim - os clássicos, como diria o Hatoum. Quem escreve sabe achar o caminho.

Publicada no jornal O Diário em 15 de setembro de 2010

Um comentário:

Re disse...

Gaioto, Gaioto... vce vai longe...