quarta-feira, 18 de junho de 2014

Verdades do Cogumelo

Publicado no Correio Braziliense (17/6/2014)

“Tem um cara muito estranho querendo falar com você”, avisa a secretária, discretamente apontando para a sala ao lado. Curiosa, ela indaga quem é o sujeito. Digo o nome dele e de sua banda: Blanch Van Gogh, cantor e letrista do Cogumelo Plutão. Não adianta nada. Tento cantarolar, em vão, os versos de “Esperando na janela”, o maior – e único – hit da banda brasiliense. A secretária sai de cena um pouco desapontada e sigo ao encontro de Blanch. 

Mesmo que ela se lembrasse da fisionomia do cantor, seria impossível reconhecê-lo, ali, sentado à mesa: acima do peso, rosto inchado, o cabelo todo ensebado e desgrenhado, não dá para imaginá-lo rolando no chão e entoando o tal hit da janela, como ele fez no clipe da música em 2000.

Gente boa, Blanch estende a mão e vai direto ao assunto: 14 anos depois dos poucos minutos de fama e do misterioso desparecimento de sua banda – que sumiu do mapa sem qualquer aviso oficial –, ele está retomando, finalmente, o Cogumelo Plutão. “Quero começar pelo Paraná porque nosso último show foi aqui no estado. Precisamos fechar esse ciclo e iniciar um novo”, justifica. Empolgado, ele adianta que, em julho, sai o álbum de músicas inéditas (“Amor à Primeira Vista”) e que a turnê, composta por 40 shows, começa em agosto. Ainda não há datas confirmadas.

O sumiço do Cogumelo Plutão, ele conta, foi culpa de um aneurisma. Por causa disso, Blanch foi se tratar nos Estados Unidos, onde teria passado dois anos “entre a vida e a morte”. Enquanto ele vai explicando sua epopeia, a voz sempre calma e serena, algumas histórias inacreditáveis surgem nos relatos. “Nos EUA, fiquei muito tempo numa cadeira de rodas e escrevi um livro que se tornou best-seller lá. Desde então, sou citado em todos os lugares por intelectuais e artistas europeus”, garante, já emendando outro detalhe surreal de sua biografia: “Não sei se você sabe, mas, na Europa, sou considerado um dos maiores artistas plásticos contemporâneos”, avisa, com um generoso sorriso.

Com o hit da janela, vertido a diversos estilos musicais por uma penca de artistas, do sertanejo “universitário” de Cesar Menotti & Fabiano à balada soporífera de Angélica, Blanch diz ter embolsado “bem mais do que R$ 2 milhões” com os direitos autorais. São dele, também, as músicas “Beijar na boca” e “Uma vez mais”, que explodiram, respectivamente, com Claudia Leitte e Ivo Pessoa. “Sou o décimo maior arrecadador de direitos autorais do país”, gaba-se, do outro lado da mesa.

Só grandes amigos

Aproveitando tantas notícias bombásticas, resolvo perguntar sobre o seu amigão Renato Russo. “É verdade que você era namorado dele?”, questiono. Blanch abre um sorrisão malicioso. “Plantaram essa notícia de que eu era namorado do Renato em 1992. Fomos grandes amigos, mas não namorei o Renato. Mesmo porque o Renato não namorava ninguém, não era fiel a ninguém. Se eu tivesse namorado ele, não teria vergonha em dizer”, revela.

A vivência com Renato Russo foi fundamental para que Blanch se dedicasse, de corpo e alma, ao seu Cogumelo Plutão. “Ele me enchia para fazer a banda. No nosso primeiro show, em São Paulo, o Renato estava lá com a gente, cantando e me incentivando. Conheci um Renato diferente, sabe? Não esse aí, o estereotipado do cinema. Cheio de necrófilos em volta... Sabe uma coisa que ele sempre me dizia? ‘Acredite em si mesmo’”, recorda-se. Tão próximo do líder da Legião Urbana, Blanch afirma que acabou servindo de inspiração para algumas canções, como “Vento no litoral".

“Lembro-me que, um dia, eu ia encontrar o Renato no apartamento dele, mas ele simplesmente ficou trancado lá com um namorado. Depois, quando foi à minha casa, eu não o recebi e fiquei com a minha namorada. Quando nos encontramos, ele olhou para mim e começou a dizer: ‘Já que você não está aqui’. E isso, como a gente sabe, virou um clássico. Eu o influenciava e ele me influenciava também. Pense em nós como dois grandes artistas, que se influenciaram mutuamente, tal como os pintores expressionistas”, compara, modestamente.

16 inéditas

“Agora, vou te contar uma coisa”, ele avisa. E faz uma pausa abrupta, forçando um tom dramático à fala. Ele não parece um cara ansioso, nervoso. Mas as unhas roídas, acumulando uma fina camada negra de sujeira, parecem denunciar o contrário.

O que pode ser mais surpreendente do que ele ser um dos maiores artistas plásticos contemporâneos na Europa? Ou, então, ter escrito um best-seller nos EUA, que lhe garantiu a glória e o reconhecimento de artistas e intelectuais europeus? Com Blanch, tudo é possível. “Tenho 16 músicas inéditas, gravadas, do Renato Russo. Oito são músicas só dele e as outras oito são composições nossas”, revela, citando, como exemplo, duas canções: “Camisinha Amarela” e “Plus-Ultra”.

Pouco caso

Em 2006, Blanch diz ter avisado a gravadora EMI da existência do material inédito e, em seguida, teria entrado em contato com o escritório que administra o legado de Renato Russo. A tentativa de aproximação, ele vai resumindo, foi frustrante. “Fui destratado por uma das funcionárias e nunca quiseram saber de mim. Então, por lei, não posso mexer nesse material. Imagino que isso não tenha chegado ao conhecimento do Giuliano Manfredini, que é filho do Renato e é um garoto que eu respeito muito”, reclama.

“Tudo o que eu queria era que o Giuliano tomasse conhecimento dessa situação e me autorizasse a usar o material”, sinaliza o cantor. Pergunto, então, sobre a qualidade do material. O amigão de Renato Russo se aproxima da mesa, finca os cotovelos (eis a cartada matadora de Johnny Moss!? a mão danada de Doyle Brunson!?), e responde calmo, porém firme: “Posso te afirmar que são as melhores músicas que o Renato compôs”, anuncia.

Quando Blanch vai embora, penso no espanto da secretária (“tem um cara muito estranho querendo falar com você”), imagino o concorrido vernissage de Blanch Van Gogh no Museu de Arte Moderna de Paris – boa parte do público, basicamente formado por empresários do sertanejo “universitário”, levando o best-seller dele a tiracolo – e acompanho uma centena de intelectuais europeus rolando no chão e entoando as 16 músicas inéditas de Renato Russo – infelizmente, todas elas são executadas ao mesmo tempo, sendo impossível discernir uma de outra. É um enredo rocambolesco e aloprado de um filme surrealista. Na última cena, o vento, em zoom, vai levando tudo embora.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Conversa com O Vampiro

Publicado no Correio Braziliense (11/1/2014)

Dalton Trevisan abre a porta de sua casa: uma fresta de apenas quinze centímetros. Espaço suficiente para um cachorrinho Basset desertar e correr três metros em direção ao portão de ferro que dá na calçada. Cautelosamente exposto, Dalton Trevisan espia pela fresta: protegido de qualquer fotógrafo espertalhão que aparecer, ali, em busca de um raro flagrante. Ele está vestindo alguma coisa azul, é só o que dá para perceber daqui, com a porta entreaberta. Mudo, Dalton Trevisan contempla a performance de seu guardião impávido e colossal, latindo bravamente na frente de um casal desconhecido. E nada não diz.

“Somos seus leitores.Viemos te dar um presente, Dalton”, eu explico, exibindo, na mão direita, um embrulho colorido.

O escritor permanece quieto, provavelmente pensando em como se livrar da visita inesperada. Se fosse um dia de semana, talvez ele indicasse a livraria do Chain, a poucos metros de sua residência. Deixaríamos o presente com uma das atendentes, e ele pegaria depois. Mas é domingo, seis horas da tarde. A livraria não está aberta e nem há pessoas nas ruas, com exceção de um ou outro curitibano perambulando na calçada e dos motoristas que cruzam, em alta velocidade, a esquina onde ele reside.

“Espere só um momento”, o escritor responde,finalmente. Em seguida, bate a porta da casa e desaparece lá para dentro, escoltado pelo fiel cachorrinho. Aconteça o que acontecer, a partir de agora, é preciso ter todo o cuidado do mundo: é o que tento dizer para a minha namorada, apertando forte a sua mão. Afinal, Dalton Trevisan está mal-humorado.

Quem dedurou o estado de humor do recluso contista curitibano foi uma atendente da livraria do Chain, local onde Dalton Trevisan troca mensagens com sua editora e, pelo menos até recentemente, autografava os livros deixados pelos seus leitores. Por isso mesmo, no sábado, passei pela livraria e entreguei sete obras à balconista. Para a minha surpresa, ela recusou a encomenda dos autógrafos.

“Olha, infelizmente, eu não posso ficar com os seus livros. O Dalton não está assinando mais nada”, avisou. Segundo a funcionária, há poucos dias apareceu um leitor e comprou todos os livros disponíveis do contista curitibano. Aproveitando a visita, o cliente pediu que as atendentes coletassem a assinatura do escritor em todas as obras adquiridas.

“Quando o Dalton veio, não assinou nenhum dos livros e disse que não iria mais autografar nada. Ele está de mau humor. Daqui a uns dias, ele volta ao normal”, contou.

Tentar um encontro com o Vampiro de Curitiba, ali na livraria, não é a estratégia mais aconselhada, a menos que o leitor tenha tempo de sobra.“Ele vem quase todos os dias, mas sempre em horários diferentes. Às vezes, às 9h, às 11h, à tarde. Nunca dá para saber”.

Oscilações de humor


Aos 88 anos, Dalton Trevisan continua misterioso. Dos jornalistas e fotógrafos mantém uma distância quase paranoica: aperta o passo, em fuga, quando é abordado para entrevistas. Ignora os eventos literários, não comparece às homenagens que lhe são prestadas, nunca deu as caras para receber os prêmios acumulados em sua trajetória. Quieto, cultiva um ritmo de produção assustador. Desde a estreia com “Novelas Nada Exemplares” (1959), ele já publicou mais de quarenta obras. Só no ano passado foram duas: “Novos Contos Eróticos” (Record) e “Até Você,Capitu?”(L&PM Pocket).

Mesmo com o alerta da vendedora, de que Dalton Trevisan não está em seu melhor humor, resolvo insistir na aproximação. E passo um sábado inteiro, em vão, na porta da casa do escritor, esperando que ele saia para seus passeios diários.

A casa de esquina, onde mora Dalton Trevisan, é grande e antiga, com muros altos e cinzentos. Há um ar macabro naquela residência. Três janelões, na frente da casa, dão para a rua Ubaldino do Amaral, mas estão sempre fechados e protegidos por cortinas. Lá de dentro não se escuta som algum: é tudo estranhamente silencioso demais. Há um sótão sinistro, com vista para a frente da residência, e um puxadinho, no fundo, onde Dalton Trevisan passa as manhãs escrevendo. Ele escreve diariamente e, em seguida, sai flanando pelas ruas do centro de Curitiba. Nas longas caminhadas, aproveita para coletar gírias e observar os bêbados, malditos, maltrapilhos, prostitutas e viciados, que, depois, serão retratados em seus contos.

Mas Dalton Trevisan não é o único observador em Curitiba. Quem passa pela casa do escritor sempre dá uma espiada lá para dentro. Jovens trepam nos grandes muros cinzentos. Namorados erguem suas companheiras na calçada, próximo ao muro. Senhores e senhoras interrompem a caminhada e, por alguns segundos, contemplam o quintal e o bosque pelo portão de ferro. Todas as tentativas são frustradas. E os curiosos sempre saem rindo da missão malfadada.

Naquele sábado, Dalton Trevisan permaneceu trancafiado em sua reclusão. No dia seguinte, com a fé no calor do domingo curitibano, aguardo o contista sair para o almoço, a partir das onze horas da manhã. E nada. Ele deve ter almoçado alguma coisa em casa.

Os curiosos continuam se pendurando nos muros, sem vestígios do contista. E já prevendo o fracasso da aproximação com Dalton Trevisan, um final de semana desperdiçado em vão, resolvo chamá-lo à porta.Toda a paciência tem limites. São seis horas da tarde. Se ele não saiu até agora, num bendito domingo de Sol, não sairá mais. O portão é tudo o que resta. Um minuto de palmas.

Estridentes, fazem eco na entrada da casa. Anunciado três vezes ao portão, o primeiro nome do Vampiro de Curitiba. Como previsto, sem resposta alguma. Então, vem o cachorro. A fresta de quinze centímetros. Dalton Trevisan vestindo algo azul. Menciono o presente. E ele pede que esperemos.

Roupão azul

Tomo um susto danado quando Dalton Trevisan, quem diria, abre um dos janelões de quase três metros de altura, que dão para a rua Ubaldino do Amaral, logo ao nosso lado.
Saímos do portão de entrada e vamos à janela: Dalton Trevisan está na nossa frente, totalmente exposto, exibindo um sorriso gentil.

“A que devo estes presentes?”, pergunta, com a voz grave e amistosa.

Dalton Trevisan está vestindo um roupão azul. Seu cabelo, úmido, está cuidadosamente penteado para trás. Ele deve ter saído do banho há poucos minutos.

“Você gosta de goiabada cascão?”, e já vou estendendo o embrulho colorido.

“E quem não gosta?”, responde, aceitando o presente, sem economizar no sorriso.

“Tem ainda algumas gomas árabes, rahat. Espero que você goste. Poderia assinar os nossos livros?”, indago, entregando um exemplar de sua última obra,“Novos Contos Eróticos”.

Dalton Trevisan pega o livro e sai um pouco da janela. Lá dentro, numa antiga mesa de madeira, ele apoia a obra e assina seu nome, rapidamente, sem dedicatória.

Ao entregar o livro autografado, Dalton Trevisan estende à janela dois exemplares de suas obras:“35 Noites de Paixão” e “Até Você, Capitu?”

“Estes são para vocês”, ele avisa.

Em seguida, minha namorada pede uma assinatura na obra que acaba de ganhar de presente. Dalton Trevisan está tirando o plástico do livro quando uma voz esganiçada chega por trás de nós, quase berrando:

“Ai, posso tirar uma foto?”

Maldito celular

Num pulo, Dalton Trevisan se esconde atrás da cortina. É inacreditável. Depois de tanto tempo à espera, uma infeliz curitibana cinquentona, caminhando com roupa de ginástica, põe todo o encontro em xeque, apontando um maldito celular para o rosto do Vampiro. Viro-me rapidamente para a desconhecida. Não, não, sem fotos, sem fotos, eu digo, quase gritando, enquanto ela pede desculpas e sai de cena, caminhando rápido, nem um pouco constrangida.

Escondido atrás da janela, Dalton Trevisan faz um sinal com a mão direita e pergunta se ela foi embora. Nós o tranquilizamos. Respondemos que sim, ela já foi. Está tudo bem, pode voltar. Dalton Trevisan dá uma espiada pela fresta da janela e surge novamente, estendendo o livro assinado à minha namorada. O susto já passou. Ele realmente parece aliviado.

“Dalton, existe lirismo na sua literatura?”, questiono.

“Basta abrir o livro e você vai ver”, responde, com um sorriso generoso.

“E qual sua opinião sobre esses críticos literários que, desde a década de sessenta, insistem em dizer que você continua se repetindo?”

“Eu não leio os críticos”, diz, rapidamente, sem abrir mão do sorrisão camarada.

O escritor olha em nossos olhos. Um casal embasbacado, feliz da vida pela façanha dominical. É tudo muito inesperado: Dalton Trevisan, de cabelo molhadão e de roupão azul, sorrindo na janela, atendendo seus leitores. Mau humor ali? Jamais.

“Agora, eu já falei demais. Obrigado pelos presentes. Tchau para vocês”, despede-se o Vampirão, fechando a janela.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Rei do arrocha

Publicado no jornal O Diário (6/12/13)

Não sei o nome do cara. Sei que se mudou para o apartamento do lado há pelo menos cinco meses, e transformou a minha vida num inferno. O desgraçado faz parte de uma dessas duplas sertanejas - o que mais tem nessa cidade são duplas sertanejas. Todo sábado de manhã ele abre a goela, junto com outro desgraçado, berrando, em agudos estridentes, coisas do Michel Teló e do Fernando & Sorocaba.

A falta de técnicas e sua voz empostada é o que menos incomoda – nenhum desses pelegos sabe cantar com o mínimo de decência. Sou pianista profissional há quatro décadas, nunca vi a música brasileira tão decadente. Com o sertanejo universitário, os bares cancelaram as minhas temporadas. Quer dizer, me obrigaram a tocar essa escória, e eu recusei, claro.

Um dia, ele bateu na minha porta. Explicou que era o vizinho do apartamento do lado, e que me ouviu, ao teclado, executando uma “baladinha tão tocante”. Aquilo me irritou de uma forma estranha. A “baladinha tão tocante” que o imbecil me ouviu tocando era “Dammi I Colori”, uma das minhas árias favoritas da “Tosca”, ópera do Puccini, compositor clássico italiano. Ultimamente, sempre que eu voltava de uma entrevista de emprego, ligava o teclado e tocava alguma ária do Puccini. Eu tocava num teclado ordinário, porque o meu piano elétrico Yamaha, o piano que meu pai parcelou em quase dois anos e me deu de presente no Natal de 1995 – o único presente de Natal da minha vida –, o piano elétrico eu tive que vender. Mas isso eu não falei para o sertanejo. Quem falou, naquela hora, foi ele. Disse que a banda de apoio acabava de perder o tecladista. Ele estava à procura de um instrumentista à altura do antigo. “Você tem o perfil ideal para tocar sertanejo com a gente”, disparou, antes de me convidar ao seu apartamento. Só podia ser brincadeira.

Respondi que estava ocupado, mas ele insistiu à beça. Concordei em passar rapidamente por lá, dali a uma hora. No horário combinado, bati à porta dele. O sertanejo me recebeu com um sorrisão - além de tudo, tinha um jeitão afeminado. Disse, novamente, que nunca ouviu uma “baladinha tão tocante” quanto àquela música que eu estava tocando. A ignorância dele começava a me irritar profundamente.

“Só César Menotti & Fabiano conseguem fazer baladas tão boas assim”. Tenho que me controlar, pensei. Mas ele insistiu no assunto. Ele falava muita porcaria. “Música clássica me dá sono. Bom mesmo é o arrocha”, continuou.

O sertanejo tirou o violão do tripé, que estava ao lado o sofá. Falou que iria cantar uma música própria. Eu conhecia aquela música. Era aquela do “arrocha, arrocha, arrocha”. Todo o dia ele ensaiava aquela música, empostando a voz nos agudos do refrão: “arrocha, arrocha, arrocha”. Ele e outros pelegos me tiraram do mundo da música. Ele e os malditos do “arrocha, arrocha, arrocha”. Ele estava concentrado, cantava com os olhos fechados, empolgadíssimo com a pronúncia de cada verso. Ninguém tinha me visto entrar naquele apartamento. Levantei da cadeira, peguei o tripé. E, de uma só vez, meti a base de ferro do tripé no rosto do “arrocha, arrocha, arrocha”. Certeiro: o suficiente para derrubá-lo de queixo no chão. Aí começou a diversão. Com força, continuei a enfiar o tripé no meio da fuça dele. Foi uma, duas, três, dez, trinta vezes, e já ia metendo nas costas, pernas, barriga, meti até perder a força nos braços: o rosto dele era um lodo de sangue, sem dentes na arcada dentária. Notei que a perna direita tinha uns espasmos engraçados. Voltei com o tripé e carimbei, sem dó, a cara dele por mais uns trinta minutos. “Arrocha, arrocha, arrocha”. Eu, sim, sou o rei do arrocha.  

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Arrocha (conto)

O japonês me liga uma vez por semana.
Sem falta quase sempre na quinta.
Exige vestido, decote e salto alto de vinte centímetros.
Batom não aceita além do vermelho.
Já me disse que é professor, promotor, escritor: um treco assim.
Só o nome, não, nunca disse.
Pra mim, ele é o Ulisses.
Nunca quis tomar cerveja comigo.
Chega apressado, senta no sofá e tira a roupa:
Cueca preta, magrelo, amarelo.
Gosta do rádio ligado bem alto.
Em algum sertanejo da Nativa FM.
“Arrocha, arrocha, arrocha.”
Aproveito e tiro a roupa.
Só de calcinha, sutiã e, claro, o saltinho de vinte centímetros.
A pedido dele, danço uma música inteira.
Rebolando, sempre olhando para a parede.
Jamais para ele.
Daí deito no carpete azul marinho.
De bruços.
“Arrocha, arrocha, arrocha.”
Com os pezinhos para cima, ainda no salto alto.
Gemendo, peço que venha.
Ele junta meus pezinhos com as mãos, coloca o pintinho lá no meio.
E esfrega, esfrega, esfrega, esfrega.
Não é raro soltar um gritinho de prazer agudo.
É tudo muito rápido.
Saciado, é a vez dele.
Não deixa que eu me lave nem fale nada.
Quieta, sempre, sem um pio.
Eu levanto, enquanto ele, tremendo, deita no carpete.
De bruços.
Pernas para cima.
Pede que eu aumente o som da Nativa FM.
“Arrocha, arrocha, arrocha.”
Tiro o saltinho e cuspo forte naqueles 20 e poucos centímetros de madeira.
Um treco assim, ó, desse tamanho, consegue imaginar?
Tem tarado pra tudo em Maringá.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

"Verve na língua", entrevista com Fabrício Corsaletti

Texto publicado no Correio Braziliense (9/11/13)

Fabrício Corsaletti responde o e-mail rapidamente. Pelo iPhone, com palavras abreviadas e um erro de digitação lá no meio da mensagem, topa a entrevista e sugere o local da conversa. “Vamos a um bar na Rua Augusta, às 10h30. Me ligue uma hora antes, que te passo o endereço”.

Agendado, o botecão, para a manhã de uma árdua segunda-feira em São Paulo: vida de poeta é mesmo uma coisa fabulosa. O convite à cerveja, embora tão cedo, não soa estranho. É na mesa do bar que Corsaletti costuma atender os repórteres: entrevistas regadas a cevada e acepipes. Quando lançou Esquimó (Companhia das Letras, 2010), seu mais recente livro de poesia, um jornal paulista estampou uma foto dele confortavelmente sentado num de seus botecos favoritos da capital: ao lado da cerveja de 600 ml, o olhar sóbrio encarava o fotógrafo e o leitor.

Conforme o combinado, ligo para Corsaletti, às 9h30: o bar, em cima da hora, vai por água abaixo. E do outro lado da linha telefônica, naquela segunda ensolarada, ele passa o endereço de uma padaria, localizada a poucas quadras do apartamento onde mora, na mesma Augusta. “É muito cedo para a gente beber, né?”

Aos 34 anos, Corsaletti é apontado pelos críticos Manuel da Costa Pinto e Alcides Villaça como um dos grandes novos nomes da poesia brasileira. Ele teve seus primeiros quatro livros de poesia reunidos no volume Estudos para o seu corpo (Companhia das Letras, 2007) e publicou, ainda, duas
obras com versos direcionados ao público infantil, além de um livro de contos e um romance.

Leitor de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guillaume Appolinaire, Fernando Pessoa e William Faulkner, Corsaletti reúne boas doses de humor, lirismo e tristeza, em poemas quase sempre concisos, bem resolvidos em uma página. A anáfora e a repetição, exploradas a partir de seu segundo livro de poesia, O sobrevivente (2003), foram aos poucos dominando sua escrita,
que rendeu passagens invejáveis nas páginas do Esquimó”.

Nascido em Santo Anastácio, no interior de São Paulo, ele está radicado há 16 anos na capital, onde
trabalha como cronista da Folha de S. Paulo, escrevendo a cada duas semanas aos domingos.

Seu horário, flexível, é bem diferente dos demais paulistanos, que, afoitos, sobem a Augusta equilibrando pilhas de documentos e correm desesperados para alcançar o ônibus no ponto da próxima esquina: tardes e manhãs livres, todas dedicadas à produção literária.

Sentado próximo à janela, encontro Corsaletti numa padaria charmosa e vazia, tomando uns goles de um café espresso. “Você é um boêmio, Corsaletti?” Ele ri. “Não, não. Raramente bebo antes das 18h.” À garçonete, ele pede outro espresso. Numa conversa sem álcool, fala sobre o processo criativo de seus poemas, defende a importância da inspiração e anuncia que o próximo livro de poesia será esteticamente parecido com o Esquimó.

Muitos de seus poemas exploram o humor. Não é o mesmo de Machado de Assis, que é fino. Nem é semelhante ao do João Gilberto Noll, que é grotesco. Como você avalia o humor na sua obra?

Aprecio o humor na literatura, mas não gosto quando ele está em primeiro plano. Gosto quando escritores combinam, por exemplo, um texto sério com um humor negro. É mais ou menos como eu gosto da poesia junto com a prosa. Gosto do humor do Big Bang Theory, mas não suporto o humor desses stand-ups. Gosto do humor que há na poesia da Angélica Freitas, no Drummond, no Vinicius de Moraes. Nos meus primeiros livros, há pouco humor. Acho que fiquei mais bem-humorado, sei lá, porque fui envelhecendo. Mas não sei avaliar o humor da minha literatura. Não sei em que tipo ele se enquadra.

Quando você começa a escrever um poema sempre sabe como irá terminá-lo?

Não. Nunca sei como vou terminar um poema. Também não sei como será a forma do poema. Não sei se o poema terá rimas, se será versificado...

Essa falta descontrole sobre o seu próprio texto não te apavora?

Não, jamais. Sei que isso faz parte do jogo.

Você acredita em inspiração?

Sei que essa palavra está muito batida, mas acredito, sim. A poesia se faz da palavra, mas a emoção faz você chegar à palavra certa. Escrevi muita coisa com raiva, escrevi muita coisa com paixão: a escrita toma forma a partir desses estados. Não acredito na ideia de inspiração de que haja uma musa, e que essa musa fala ao poeta, sabe?

E Eva Green, que você homenageou nos versos de “Plano”, é uma dessas suas musas?

Claro! Quem nunca se apaixonou pela Eva Green? A escolha do nome dela, nesse poema, não foi nada por acaso. Não pode ser apenas subtraído e substituído pelo nome de outra mulher. Eva Green carrega um significado próprio, uma sonoridade. Eva faz alusão à Bíblia; Green, ao verde. Não foi uma escolha gratuita.

Você é dependente da opinião de amigos?

Sou dependente, sim. Às vezes, meus amigos apontam umas coisas muito ruins nos meus poemas, coisas que eu nem tinha reparado, como cacofonias, e aceito as mudanças. Em outros momentos, quando discordo das críticas deles, não mudo nada. No “Penúltimo Poema sobre Meus Pais”, do Esquimó, meu amigo Alberto Martins mandou que eu separasse o poema em duas partes: para dar uma mudança no tom. A Companhia das Letras, no entanto, nunca modificou meus poemas.

Os jornais foram generosos no lançamento do Esquimó.Você ficou surpreso com o espaço que
a mídia te deu?

Olha, não fiquei surpreso. Mas confesso que não esperava que fosse assim, tão bem recebido.

E quanto ao material inédito, o que você já tem pronto?

Já tenho 50 poemas, cheguei a publicar alguns na Folha de S. Paulo, mas ainda não senti que o novo livro está pronto. Está faltando alguma coisa. Alguns poemas, que eu já havia escrito e até gostava, agora já não gosto mais. Dá para sentir que o novo livro não terá uma mudança radical com relação ao Esquimó: são livros esteticamente parecidos.

Você utiliza muitas anáforas nos seus versos, principalmente no último livro. Por quê?

Eu nunca fui atrás das repetições, porém eu gosto muito. Sempre gostei daqueles versos do Alberto Caeiro, de “O Luar Através dos Altos Ramos”: “O luar através dos altos ramos / dizem os poetas todos que ele é mais / que o luar através dos altos ramos / mas para mim, que não sei o que penso / o que o luar através dos altos ramos”. Li esse poema quando tinha 16 anos. A minha paixão pelas repetições vem desse poema.

Achei que tivesse sido por influência do Bob Dylan. Por falar no Dylan, você chegou a traduzir
algumas canções dele, né ? Como foi sua tentativa de verter o Dylan para o português?

Tentei traduzir duas músicas: Isis e uma outra. Fiquei completamente perdido. Não sabia se ia atrás das rimas, ou se ia atrás das imagens. Para piorar, meu inglês é insuficiente: foi muito difícil traduzir o Dylan. Talvez seja uma missão para o Augusto de Campos, mas não sei se ele gosta. O que eu gosto mesmo, sabe, é das minhas coisas.

“Seu Nome”, um belo poema de amor, é o seu poema mais conhecido. Até rendeu boas visualizações no YouTube, num vídeo divulgado pela Companhia das Letras. Como você escreveu o poema?

Levei umas duas semanas para escrevê-lo. Precisei fechar as sequências, evitar as repetições e troquei a ordem dos versos. “Seu Nome” reúne muita coisa que eu queria abordar. Não é, porém, o meu favorito: é o poema a que sou mais grato.

Num dos versos do “Seu Nome”, você citou o Chico Buarque, seu colega da Companhia das Letras: “Não entendo por que Chico Buarque nunca compôs uma música com o seu nome”. Você chegou a mandar seu livro ao Chico?

Mandei um exemplar pela editora, mas ele nunca me respondeu.

Você tem belos poemas sobre o amor. Por que não escreveu nada sobre sexo?

Acho muito difícil escrever sobre sexo. Quero que funcione não no meio termo. A beleza física me dá
vontade de escrever poemas líricos. O tesão não me dá vontade de escrever: me dá vontade de trepar. Gosto dos versos eróticos do Catulo e do Drummond, embora O amor natural não seja um grande livro: é um livro médio, com uma variação de tom.

Alguns leitores dizem que seus poemas chegam a ser fofos. O que acha disso?

Odeio quando me dizem isso. Fico triste de saber.

Você acha que seus livros vão resistir ao tempo?

Acho que não vão resistir, não. Talvez uns dois ou três poemas resistam em antologias futuras. Quem sabe?

Além de Bob Dylan, que som você gosta de escutar? Gosta de Philip Glass, Arvo Pärt?

Não conheço esses dois. Em casa, só ouço Bob Dylan, Johnny Cash e muita música popular. Mas ultimamente tenho preferido o silêncio. Não fico procurando CDs, nem converso sobre as novidades da música. Não consigo mentalizar todos os lançamentos. Sinto que estou cada vez mais isolado com um único objetivo: ler melhor. Ainda nem terminei todo o Faulkner... Escrever dá muito trabalho.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dalton, velho sátiro

Publicado no Diário do Norte do Paraná - 31/10/13

Dalton Trevisan é um poeta, e pouca gente sabe disso. Em toda a sua trajetória literária, apenas uma minoria crítica, composta por resenhistas de jornais, notou sua verve lírica. Quando Alfredo Bosi escreveu sobre a literatura do contista curitibano, apontou para as misérias morais de Curitiba, a presença do grotesco, do sádico e do macabro. Nada de lirismo.

Na avaliação de outro grande crítico literário, Massaud Moisés, o lirismo também foi escanteado. Moisés apontou para o grotesco, a província e aos aspectos do cotidiano. Novamente, o lirismo passou em branco.

Antônio Houaiss timidamente acenou para a poesia de Dalton Trevisan, numa orelha de "O Pássaro de Cinco Asas" (1974). Resumidamente, ele afirma que Dalton Trevisan "enlaça poesia e náusea". Sem citar exemplos de passagens que justificassem seu posicionamento, sua observação se perde, infelizmente, em linhas demasiadamente genéricas e superficiais.

Se para Houaiss a poesia de Dalton Trevisan está associada à náusea, para o jornalista curitibano Luiz Geraldo Mazza (1988), em crítica publicada no jornal Correio de Notícias, a poesia do contista paranaense está relacionada à maneira peculiar de retratar a capital do Paraná: menos glamourosa que a dos cartões-postais, com seus botecos triviais e pontos turísticos ignorados no dia-a-dia. Numa resenha publicada em 1972 no Suplemento Literário de Minas Gerais, Ralph Niebuhr dedicou um olhar menos superficial aos elementos líricos do contista paranaense, avaliando a relação com a morbidez da trama das histórias.

Em sua leitura, Niebuhr afirma que, embora o impulso lírico explicitamente faça parte do artesanato literário do autor paranaense, quase nunca é o elemento dominante de sua prosa. E aponta o conto "Ponto de Crochê", do livro "Novelas Nada Exemplares" (1959), como a história em que os elementos líricos, juntamente com o tom mórbido da trama, chegam a dominar o conto: "O elemento lírico é, quase sempre, usado como uma técnica para dar ênfase à condição basicamente triste dos personagens de Dalton Trevisan, e por extensão, de todo ser humano".

No meio acadêmico, não há publicações, até o momento, sobre o lirismo na obra de Dalton Trevisan. O único estudo que se aproxima desta questão é a obra de Vera Marquêa ("O Vampiro Habita A Linguagem: Uma Leitura da Obra de Dalton Trevisan"), publicada recentemente. Marquêa afirma que Dalton Trevisan se apropria de um "corte poético" na década de noventa, com a publicação de "Ah, É" (1994) e "234" (1997). Contos como "a cigarra anuncia o incêndio de uma rosa vermelhííísima" – metáfora da chegada da primavera –, "uma nuvenzinha branca enxuga no arame do varal" – o dia amanhecendo –, e "bolem na vidraça uns dedos tiritantes de frio" – a chuva –, abordam a natureza sob uma nova perspectiva, dentro da produção do contista, segundo a pesquisadora.

Ao apontar os elementos poéticos de Dalton Trevisan, críticos e pesquisadores estabeleceram, portanto, relações com a natureza, com o grotesco e até com a forma de retratar a Curitiba provinciana. E só. Não há nada que relacione, por exemplo, o lirismo ao erotismo nas histórias de Dalton Trevisan.

Se até agora foi um tremendo vacilo ninguém ter se dedicado, com firmeza, aos aspectos líricos em Dalton Trevisan, o lançamento de "Novos Contos Eróticos" é o fim da linha para esse pouco caso de acadêmicos e resenhistas. Não notar a poesia nesta obra, é um erro imperdoável e injustificável.

O livro é um apanhado de 30 contos de Dalton Trevisan, extraídos de obras recentes – principalmente de "Macho Não Ganha Flor" (2006), "O Maníaco do Olho Verde" (2008) e "Violetas e Pavões" (2009).

No conto "O Noivo Perneta", Dalton Trevisan aborda a história de um rapaz que perde a perna pouco antes de se casar com a mulher amada. Carregado de humor e de referências ao texto bíblico, o conto traz as marcas do estilo do escritor curitibano, como a elipse de conjunções/locuções conjuntivas e a preferência por verbos na forma nominal. Quando o narrador (noivo perneta) recorda as suas relações sexuais, passa a descrever as partes íntimas da mulher amada. Em vez de descambar num texto vulgar e pornográfico, Dalton Trevisan investe numa série de elementos poéticos, compondo ilhas de poesia durante o conto.

"O seu corpo uma ilha descoberta pelo sedento náufrago. Sem marca na areia de pé estranho - rósea e perfumada. Golfo e promontório. Baía e península. Caverna dos Nove Tesouros do Pirata da Perna de Pau. Na límpida fonte nadam hipocambo e lambari de rabo dourado. Búzio com cantiquinho de corruíra madrugadora. Passagem secreta para gruta encantada. Dunas calipígias movediças. Ninho escondido de penas de beija-flores. Em voo rasante garça-azul de bico sanguíneo."

As metáforas incomuns, retomadas nas ilhas de poesia, garantem o tom satírico do conto "O Noivo Perneta". E essa mesma apropriação se repete em outras tantas histórias de "Novos Contos Eróticos". Mas lançar mão da poesia e do humor precisamente na hora H, em que as cenas estão ficando calientes, não é uma fórmula limitada do autor curitibano. Em "Duas Normalistas", a poesia divide as linhas com – e por que não dizê-los? – termos como "xota", "bucetinha" e "pau colosso". Não é um erotismo barato, feito para chocar. É o novo Dalton Trevisan, livre para escrever o que – e como – quiser. Ler "Novos Contos Eróticos", com o verbo solto, é uma experiência radicalmente diferente do que se aventurar nas páginas de "Contos Eróticos", livro publicado em 1984. Bem mais pudicas aquelas narrações oitentistas. Não há presença de palavrões e a carga lírica, naqueles contos, é regulada, distribuída concisamente entre as narrativas.

Ler "Novos Contos Eróticos" é constatar que Dalton Trevisan ficou, sim, extremamente poético e mais erótico. "Violetas e Pavões", "Lábios Vermelhos de Paixão" e "Mariskha" são prova disso. Sacana, o contista vai lançando mão de metáforas e outros recursos poéticos – sempre com humor – até o momento em que o conto está submerso em poesia – uma poesia que, de tão rebuscada, propositalmente ganha ares parnasianos. O Vampiro de Curitiba, severo crítico do simbolismo e do bairrismo de Emiliano Perneta – chegou a chamá-lo de "poeta medíocre" –, vem compondo, em sua trajetória literária, uma articulação profundamente irônica. Quem diria, virou parnasiano. Danado zombador da enrolação literária. Dalton Trevisan, o famoso recluso contista curitibano, é um tremendo poeta satírico.

NOVOS CONTOS ERÓTICOS
Autor Dalton Trevisan
Editora Record
Preço R$ 30 (206 páginas)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O silêncio de Raduan Nassar

Publicado no Correio Braziliense,  em 21/9/2013

Para um escritor recluso, Raduan Nassar é muito vacilão. Até dezembro do ano passado, qualquer um podia descobrir seu telefone e endereço com uma ligeira fuçada no Google: a bendita da internet, alcagueta impiedosa dos discretos literatos. Pessimista, não acreditei no achado.Mais provável, do outro lado da linha, um homônimo anônimo. Liguei umas duas ou três vezes, deu ocupado. E só fui tentar novamente após algumas semanas, nem crendo naquilo, num meio-dia de algum dia da semana.
 — Por favor, o Raduan Nassar.
— É ele, quem fala?
—Mas é o Raduan, do Lavoura arcaica?
— Raduan é o autor; Lavoura, a obra. Quem é?
Apressei a fala. Acho que até gaguejei um pouco tentando me identificar: aluno do Mestrado em Estudos Literários, em Maringá, e aspirante a escritor. Elogio Lavoura arcaica, digo que é bom pacas, que a prosa poética é invejável. Ouço um“obrigado”, seco e ligeiro, do outro lado da linha. Após o elogio, pergunto se ele teve de enfrentar um processo doloroso para encerrar sua curta trajetória literária, de apenas três obras. A resposta vem rápida, à queima-roupa.

“Não é nada doloroso parar de escrever”, revelou o escritor. “Mas eu preciso desligar agora, tá? Estou
muito ocupado”, avisou.

Não dei trégua. Com Raduan Nassar do outro lado da linha telefônica, pedi um conselho. Para mim, para
outros jovens escritores. Ele soltou uma risada meio sem graça, acompanhada de um grunhido sinistro: mescla de ironia e desprezo.“Conselho? Essa palavra até me assusta”, respondeu.

Aproveito o silêncio dele, aproveito que ainda não bateu o telefone na minha cara e indago sobre seu estilo próprio, sua preciosa prosa poética.“Como você fez para se livrar das influências, como alcançou um estilo próprio?”, pergunto. “Cada escritor tem um jeito: vá escrevendo. Se você ainda não encontrou seu estilo próprio, não se preocupe.Você tem quantos anos? Só 24?Você é jovem, ainda vai encontrar o seu caminho. Mas agora eu preciso desligar. Estou realmente muito ocupado. Tudo de bom para você”, diz, cordialmente, batendo o telefone na minha cara.

Em Sampa

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor”, escreveu Raduan Nassar, lá pelas tantas, no Lavoura arcaica. E me pego rindo dessa frase quando cruzo a roleta do metrô, levando um exemplar da obra nas mãos.Tempo, no meu caso, prevejo que seja mínimo — se Raduan Nassar descer ao portão do prédio ou, numa inimaginável possibilidade, se permitir que eu, um insignificante leitor desconhecido, suba
ao seu apartamento. Meu maior tesouro, na frente de Raduan Nassar, são as perguntas certeiras: estratégias para prendê-lo, para assegurar algum tempo.

Às três da tarde, o maldito sol de São Paulo não perdoa os poucos pedestres de Pinheiros. Depois de uma boa caminhada,confiro o número e o nome da rua no papel amassado que levo no bolso. Aperto a campainha e pergunto de Raduan Nassar ao porteiro do prédio. “Ele mora aqui, sim. Aguenta aí que vou interfonar para ele”,diz o sujeito,solícito.Depois de um minuto, o porteiro me pergunta de onde eu sou. “Sou um leitor dele, do Paraná”, explico. E aguardo. O sujeito abre o portão e aponta para o interfone: “O Raduan quer falar com você.”
— O que você quer de mim, pergunta o escritor.
—Vim do Paraná para te conhecer. Estou no Mestrado de Literatura.Você pode assinar o meu Lavoura arcaica?
Raduan Nassar solta um resmungo incompreensível do outro lado da linha. E só depois de algum tempo ele diz. “Olha, estou muito ocupado. Muito ocupado mesmo. Eu vou assinar o seu livro, mas será tudo bem rapidinho, tá bom?” Digo que sim, está tudo bom, já vou subir, e o porteiro me avisa, apontando o caminho do elevador, que é no quinto andar. Entro no elevador. “O tempo é o maior tesouro de que um homem
pode dispor”. O cara do meu lado olha o meu exemplar de Lavoura arcaica e adianta que o escritor é gente fina. "Todo fim de semana aparece alguém aqui no prédio. As pessoas aproveitam que estão em
São Paulo e vêm conhecer o Raduan. Às vezes ele atende, às vezes não”, comenta o vizinho.

Com um sorriso no rosto, Raduan abre, silenciosamente, a porta de seu apartamento. Chego agradecendo, “obrigado mesmo por me receber”, esse tipo de coisa. Elogio novamente Lavoura arcaica. Ele me encara, não é um sujeito grande. Mede um pouco mais de 1,60 metros, está vestindo uma camiseta branca, calça bege e sapatos. Prestes a completar 78 anos, em 27 de novembro deste ano, ele está bem conservado. “Você perdeu o seu tempo lendo esse livro”, diz o autor, arrancando uma boa risada nossa, e já vai me apresentando a seu filho, que puxa uma cadeira e senta na sala. “Ali, vamos ali na mesa para eu assinar o livro para você. Estou muito ocupado. Será tudo muito rápido, tudo bem?”

Livros encalhados

Frente a frente com Raduan, falo das minhas desconfianças. “Duvido de que você nunca mais escreveu
um outro livro”, provoco. Ele garante que não. “Eu abandonei a literatura há mais de 30 anos. Nunca mais
escrevi uma linha, nunca mais vou voltar a escrever”, responde, abrindo o livro para iniciar a dedicatória.
“Onde você quer que eu assine?”, pergunta o autor. Peço que assine em qualquer lugar, onde preferir.

Enquanto ele olha a edição, indago sobre Lavoura arcaica. Quando a obra foi lançada, em 1975, ninguém
deu a mínima importância. Os livros ficaram encalhados na casa de Raduan, e ele só virou um ícone da lite-
ratura em 1989, quando foi reeditado pela Companhia das Letras. Pergunto, enquanto Raduan observa aquela edição, se daqui a 50 anos as pessoas ainda vão ouvir falar de Lavoura arcaica.

O escritor abre um sorriso atrás da mesa. Seu filho também sorri. E fecha o livro nas mãos.“A literatura é
imprevisível. Mas acho que daqui a 50 anos ninguém vai mais saber do Lavoura arcaica”, diz, enquanto todos rimos. Mas seu filho, que até agora estava curvado em seu próprio silêncio, rebate a resposta paterna: “Ah, vão saber, sim”, diz. Raduan continua sorrindo, pergunta qual é o meu nome inteiro e já vai rascunhando num pequeno papel, para observar o esqueleto da grafia que, depois, será levada ao livro.

Na pequena sala, não há vestígio algum de literatura. Não há livros nas estantes, não há livros espalhados
pelo chão, aquela não parece a casa de um escritor. A fala de Raduan, concisa e lacônica, também não se parece com a voz de um escritor. Alguns escritores falam por meio da poesia, recorrem a metáforas paridas na hora, comentam, empolgados, os detalhes do processo criativo de determinadas obras: vivem e respiram a literatura diariamente. Não é o caso de Raduan. Não há metáforas em suas falas, nem poesia vazando daquele verbo, mas há o silêncio. Não chega a ser triste nem melancólico, mas é um pouco desconfiado. Tem contundência aquele silêncio.Tem textura aquele silêncio. É o mesmo silêncio que enche, aos berros estridentes, a literatura dele. E aproveito que ele está novamente em silêncio para perguntar sobre seu estilo próprio.

Embora inovadora no Brasil, a prosa fortemente lírica queRaduan se apropriou já fazia sucesso, há anos, em Portugal.Indago se Raul Brandão e os outros autores portugueses influenciaram, de alguma forma, a sua literatura. Aresposta é rápida.“Nunca li Raul Brandão nem os outros autores portugueses para escrever Lavoura arcaica.”

Com Chico Buarque

Pela primeira vez, começo a notar os papéis que estão à minha frente, na mesa de Raduan. São recortes de jornais de várias épocas, não dá para saber exatamente sobre o quê. Leio algo sobre Chico Buarque e Raduan Nassar juntos, em algum evento de literatura. Pergunto sobre esse encontro. “Mostre para ele, filho”, ordena, calmamente e com um sorriso, Raduan.

Então o filho de Raduan ergue a pilha de jornais e tira uma página lá do meio. Meio amarelada pelo tempo, a capa do caderno de cultura de um jornal carioca traz a foto de Chico Buarque e Raduan, lado a lado, sorridentes: dois velhos amigos das letras.

“Eu e o Chico fizemos três leituras. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ele lia trechos do meu livro, Menina a caminho, e eu lia trechos do Estorvo, o primeiro livro do Chico. Para mim, esse é o melhor livro dele. O último ele me mandou, mas não cheguei a ler”, diz Raduan, voltando-se para o seu silêncio e para a dedicatória.

“E o que você acha da literatura brasileira contemporânea?”, pergunto. “A literatura brasileira já não é mais a mesma, está diferente. Não sei dos novos escritores”, diz Raduan, emendando uma pergunta para mim. “Você me disse que está fazendo mestrado. Então, você terá de fazer uma tese, não é?” Digo que sim. Revelo que minha tese será sobre a obra de Dalton Trevisan. Mas que não descarto, num Doutorado, estudar Lavoura arcaica.

Raduan Nassar dá outro sorriso.“Você vai  gastar seu tempo à tôa”, ironiza. E novamente o filho rebate, rindo, a fala do pai.“Faça, sim.Você vai ganhar muito, se fizer”, incentiva o filho. “Aqui está”, diz o escritor, me passando o livro sobre a mesa.“Para Alexandre Gaioto, muito cordialmente, com um abraço do Raduan Nassar”, escreveu o autor, com letras miúdas, típicas de pessoas tímidas e reservadas.

Agradeço a dedicatória, enquanto o escritor se levanta da cadeira e estende a mão.“E, daqui a 50 anos, Raduan, como você vai querer ser lembrado?”, indago. E, pela primeira vez na nossa conversa, ele se
apropria da poesia para soltar a resposta.“Como alguém que sai desse mundo cantando”, diz Raduan, com um sorriso nos lábios, iluminando a sala vazia de literatura.

Ao lado do filho, Raduan me acompanha até a porta. É hora de ir embora. Agradeço a rápida conversa, agradeço a recepção cordial em seu apartamento.“E volte a escrever, poxa”, eu peço. São as minhas últimas palavras: um incentivo à sua prosa poética. Com um sorriso amigável, o escritor nada não diz. Espera eu entrar no elevador e só então fecha a porta, submerso num silêncio de cristaleiras.