terça-feira, 19 de junho de 2012

O dia em que quase conheci Paul McCartney

O plano era perfeito. Invadir um dos mais luxuosos e seguros hotéis de São Paulo naquele 21 de novembro de 2010, no primeiro show de Macca em Sampa, ficar de butuca no hall como se fosse um hóspede qualquer e aguardar o começo da passagem de som, horas antes da apresentação, momento em que o ex-Beatle sairia da toca.
No Rio Grande do Sul, dias antes, foi assim que Macca deixou o hotel: no meio do público, separado apenas por um cordão de segurança, caminhando em carne e osso.

Como eu, outros fãs dos Beatles se engalfinhavam pelo hotel aguardando um possível encontro com o ídolo, mas em condições mais confortáveis. Eles haviam desembolsado uma grana pelo quarto, não poderiam ser expulsos a qualquer momento.
Eu era apenas um penetra. Tinha um médico setentão com óculos de John Lennon, um dentista quarentão acompanhado pelo pai e outras figuras não menos folclóricas.

Nesses hotéis de bacana, é de bom tom beber alguma coisa. E foi aí, lá pelo meio-dia, que deixei os beatlemaníacos no hall e dei um pulo na piscina. Fazia um sol daqueles, quem sabe eu não encontrava Macca dando um mergulho ou bebendo uma caipirinha acompanhado de belas mulheres? Achei estranho a movimentação por lá.

Reconheci o careca gordo, segurança pessoal de Macca, de um documentário que vi certa vez. Ele perambulava de bermuda, camiseta branca e chinelão de dedo, encarando todos os hóspedes, como se fizesse um mapeamento das pessoas naquele perímetro. Sempre acompanhado por mais dois pelegos bombadões, com cara de poucos amigos.

À beira da piscina, com uma vista privilegiada do restaurante do hotel, monitoro a refeição do guitarrista e do tecladista de Macca. A qualquer momento, o próprio pode aparecer. Foi quando o garçom trouxe minha caipirinha, e olhei para o outro lado do restaurante, que notei um sujeito franzino, pequeno, um paciente terminal recém fugido da UTI.

Era Lou Reed, há poucos metros com uma loira meio hippie, deslumbrante ao seu modo. Fui à mesa dele, troquei uma rápida ideia, disse que voltaria quando terminasse a refeição, para um autógrafo.

Ele foi cordial. Na minha mesa, a capirinha já ia pela metade quando outro integrante da banda de McCartney deu as caras no restaurante, e os mal-encarados bombadões pareciam menos simpáticos a cada integrante que surgia.

A notícia de que Paul McCartney havia deixado o hotel na manhã passada e, escoltado por apenas um segurança, foi andar de bicicleta com a namorada pelas ruas de São Paulo, era uma coisa que perturbava todos os beatlemaníacos. Por que diabos nós não estávamos lá? Se Macca fez aquilo, certamente aprontaria alguma coisa no dia seguinte.

E por isso nós estávamos lá. Esperto, olhando para todos os lados, sempre vigiado pelos seguranças pessoais de Macca, vi Lou Reed deixando a mesa. Apertei o passo e provoquei. Entreguei um CD dos Beatles para ele assinar. Lou Reed fez uma cara de nojo.

Por pouco não cuspiu na minha cara. Perdi minha raridade. Ele reclamou alguma coisa, virou as costas e se eu não mostrasse um outro papel, em branco, ele não teria feito uma dedicatória cordial em meu nome.

Depois de Lou Reed, os amigos de McCartney foram todos para os quartos. Até os seguranças desapareceram. Só voltaram horas mais tarde. Todos os integrantes deixaram o hotel pelo hall, cruzando a nossa frente.

Na rua, dezenas de fãs se aglomeravam, barrados pelo batalhão de seguranças do hotel. Foram eles quem avisaram: McCartney sairia pela garagem, escoltado pela polícia. Fomos posicionados na saída da garagem, dentro do hotel, num ponto de vista privilegiado em relação aos demais fãs que não estavam hospedados.

Cercado por batedores da polícia, Macca estava no banco de trás do carro, usava óculos escuros, e acenou para mim a cerca de três metros de distância.

Naqueles segundos, minhas pernas bambearam forte. Não tive forças para correr atrás do carro na beatlemania ensandecida. Jovens, tiozões, famílias inteiras sentavam no chão e choravam, satisfeitos com o aceno.

O médico setentão saiu em disparada atrás do carro com um violão. O dentista quarentão perseguiu o ídolo que já dobrava a esquina com um baixo nas costas. Comecei a rir descontroladamente.

Peguei um táxi e fui para o show. Naquela noite, o ex-Beatle fez uma das melhores apresentações de sua carreira, como ele mesmo confessou no site oficial. Nunca chorei tanto num show de rock.

Nunca, na minha vida, a música tocou tão alto, com aquela força incomum, sobrenatural. No dia em que eu quase conheci Paul McCartney, ganhei um aceno personalizado, há três metros, o aceno de um Beatle, bem na minha frente, e acabei irritando Lou Reed. Valeu a aventura.

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Publicado no jornal O Diário em 19 de junho de 2012.

2 comentários:

Marco Hruschka disse...

Ótima crônica, meu caro Alexandre. Vocabulário descontraído, linguajar leve, e conteúdo instigante! Abraços!

Sabrina Andrade disse...

O plano era perfeito.