quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Desgraça

Quando mudamos para essa casa, nossa família estava em luto. O acidente envolvendo um caminhão e o nosso carro resultou na morte de Amélia, minha irmã mais nova, e matou um pouco de todos nós também.
A nova casa era grande o suficiente para minha mãe, meu pai e eu enterrarmos as lembranças nos cômodos, ainda vazios de móveis e alegria. No primeiro dia, com a bagunça dos objetos todos espalhados, minha mãe me chamou ao portão e apontou para uma garota loira que caminhava no meio da rua, empurrando um garoto sentado em uma cadeira de rodas. Daquele momento em diante, eu estava proibido de fazer amizade com a “doidinha” – o termo era de minha mãe.
Durante as refeições, os únicos momentos em que nós três nos reuníamos, ninguém fazia comentários sobre Amélia. Lágrimas, apenas as discretas, no banheiro, com o chuveiro ligado. Na prece das refeições, eu segurava, pela primeira vez, a palma de minha mãe durante a oração, pois eu assumia o posto de Amélia, bem ali, entre os nossos pais.
Eu tinha quatorze anos, e minha missão era viver sem considerar a existência daquela inofensiva vizinha de aproximadamente trinta anos. Pela manhã, ela ajudava sua mãe nas tarefas domésticas. À tarde, no sábado, saía para caminhar com seu filho de oito anos, sentado na cadeira de rodas, vítima de paralisia cerebral. Quando passava em frente à nossa casa, encostava a cadeira próxima à calçada e, enquanto tentava espiar os novos vizinhos, disfarçava, mexendo nos embrulhos e na sacola com bolacha Maizena. Apenas quando o filho se retorcia na cadeira de rodas, abrindo a boca, torcendo o pescoço, com os olhos fechados firmemente, a doidinha levantava do meio-fio e voltava a empurrar a cadeira, agora em direção ao portão entreaberto.
Nos fins de semana, eles recebiam inúmeros parentes e amigos da mesma igreja. Todos frequentavam a Catedral. Para minha surpresa, descobri que a doidinha possuía uma irmã gêmea, que a visitava pelo menos uma vez por mês, aqui no bairro.
As irmãs não viviam juntas. A outra morava em Cruzeiro do Oeste, uma pequena cidade aqui perto, junto com a família de um dos tios. Ela era um pouco mais velha, seu cabelo não era tão loiro quanto ao cabelo da doidinha. Era desbotado, entre o cinza e o bege. Caminhavam juntas, pelo meio da rua, porque os terrenos à venda, cheios de grama, pedras e pedreiros, impossibilitam o trajeto dos transeuntes. Ao mesmo tempo empurrando o carrinho, elas pareciam felizes, despreocupadas com a ausência do pai da criança ou com a chuva que já começava naquele sábado. Foi quando ouvi, pela primeira vez, a voz da doidinha, que apontava para o ceu:
“É chuva, vai molhar tudo lá, ó. Depois vem arco-íris”, disse, dirigindo-se à irmã.
Em seguida, foram embora, esquecendo de fechar o portão, que permaneceu escancarado até a chegada da mãe das doidinhas, por volta das oito horas da noite. Fiquei com medo, porque Maringá está cada vez mais violenta e, afinal, elas estavam sozinhas, desprotegidas e começava a anoitecer.
Ao contrário da previsão, não choveu nem teve arco-íris. Ao encontrar a casa toda escura, à noite, exposta aos ladrões, a velha começou a gritar de dentro do carro, antes mesmo de estacioná-lo na garagem. Furiosa, arrancava dos pulmões uma voz grave e xingava Leonora – era esse o nome da doidinha.
“Vagabunda”, “louca”, “biscate”, “safada” e “irresponsável” eram emitidos na medida em que tapas arrebentavam seu rosto cadavérico e seu corpo magro, como eu bem ouvia do meu quarto. A doidinha preferia o silêncio, mesmo assim, não controlava os gemidos que lhe fugiam das entranhas.
Durante cinco dias, não saiu de casa. A irmã foi embora, sorrindo, entre acenos e resmungos. Na minha semana de férias, troquei minhas diversões com os amigos, para escutar cada passo da doidinha. Eu sabia quando ela iria lavar e secar a roupa, ajeitar a cozinha, a louça, limpar os banheiros e o quintal. E imaginava cada cena com diversos detalhes. Ela deveria vestir um pijama branco, surrado, com detalhes vermelhos e amarelos, mangas arregaçadas, velha pantufa de elefante nos pés.
Numa manhã, acordei com mais uma surra. Desta vez, tão perto que permaneci imóvel, debaixo da coberta, um pouco assustado. Provavelmente escorada contra o muro que separa nossas casas, que fica na frente do meu quarto, a doidinha soluçava, pedindo perdão, repetidamente. Era a única coisa que ela dizia baixinho:
“Perdão.”
Com uma cinta, ou algo do tipo, talvez uma vara, a velha dava a sua lição, berrando, esfregando a cara da doidinha no muro, e ameaçando de “estourar suas costas e o seu coro cabeludo, sua sem vergonha”. O motivo? Furtar um pacote de Maizena da despensa, escondê-lo no armário e devorá-lo sozinha.
Exausta, a velha ordenou calmamente:
“Agache, diabo negro do inferno. De joelhos, agora.”
“Perdão.”
“De joelhos, cadela! De joelhos!”
“Perdão, perdão.”
“Tira a blusa, vai! Tira a calça, sem vergonha!”
Eu só ouvia o riso baixinho da velha. Colado no muro, não entendia mais nada, porque, de repente, um hino de louvor começou a tocar no rádio deles, no volume máximo que as caixas de som suportavam. O coral repetia exaustivamente “Cristo vai voltar, Cristo vai voltar”, enquanto meu pau ficava duro, latejando, com uma fome que eu nunca sentira.
A música só parou por volta das onze da manhã – quase duas horas depois –, porque o tio chegou com o filho da doidinha e tocou a campainha para a velha ajudá-lo a descarregar a criança do carro.
Tentei avisar meus pais, naquela noite, mas os dois perderam o interesse pelos detalhes, ao notar minha empolgação, como se a alegria, naquela casa, estivesse exilada em outro continente, por tempo indeterminado. Talvez imaginassem que aquilo não passasse de uma história para ser contada durante a refeição, apenas para quebrar o silêncio constrangedor entre as nossas garfadas e os pedidos para alcançar o sal. Minha mãe andava, de fato, esquecendo-se de acrescentar sal à comida, e meu pai verbalizou sua crítica, finalmente, com delicadeza:
“Querida, está faltando um pouquinho de sal.”
O suficiente para minha mãe desabar em lágrimas e arremessar um dos copos de cristal na parede, no centro de um imenso pôster do Guernica, que ficava no local onde todas as mães dos meus amigos penduravam alguma imagem da Santa Ceia ou de Maria segurando Jesus no colo. Meu pai, imóvel, ignorou a reação dela, limpando a boca com o guardanapo. Minha mãe, que foi direto para o quarto, não nos acompanhou no jantar menos saboroso de nossas vidas. Era o início da separação dos dois, que seria concretizada só dez meses mais tarde.
A minha aula voltara há duas semanas e eu morria de curiosidades de Leonora. Eu só chegava à noite, porque saía do colégio para auxiliar meu pai no trabalho, e não conseguia acompanhar suas sessões diárias de espancamento. Na casa dela, o silêncio era predominante naquele horário, quando o filho, Emanuel, chegava no carro do tio.
No meio da aula de História, enquanto o professor lecionava sobre as conquistas territoriais de Napoleão pela Europa e, empolgado, subia na mesa para pronunciar algumas palavras atribuídas ao imperador francês, concluí que eu não conseguia mais pensar naquela estranha figura, como uma simples doidinha.
Era Leonora quem aparecia quando eu me masturbava nos banheiros de casa, do colégio e do clube. Era Leonora ajoelhada, amordaçada, olhando nos meus olhos, agarrando-se em mim com dedicação, voracidade, fome. Eu andava tão excitado, que esfreguei meu pau no muro áspero, o mesmo muro infame que nos separava, por longos e prazerosos vinte minutos. Deixei os vestígios de porra escorrendo muro abaixo até alcançarem o piso de cerâmica do quintal, onde a chuva limparia, pouco depois, minha pequena farra solitária em homenagem à Leonora.
Eu estava decidido a ter um encontro com ela. Pouco me importava a ordem de minha mãe. Quem era ela para impedir uma aproximação qualquer? Qual a razão daquele conselho absurdo, patético? Se eu não conseguia infringir pelo menos essa ordem, o que seria de mim daqui a trinta anos? Eu teria um encontro, precisava contemplar Leonora de perto, a um palmo de distância, queria sentir aquela mulher que eu possuía apenas em sonhos efêmeros.
Pedia a meu pai, listas de produtos para eu providenciar no mercado da esquina, apenas para ficar frente a frente com a casa dela. Cada vez que o barulhento portão funcionava, eu me aproximava da janela do quarto de meus pais para, em vão, observar o automóvel deles entrando e saindo da garagem, sem que Leonora fizesse a sua parte na história: empurrar o portão e fincar o espesso cadeado.
A ideia de Leonora estar vivendo em outra casa, junto com outro parente, era plausível. Afinal, na última vez em que Emanuel partiu no banco de trás do carro do tio, não voltou para casa. E, na verdade, poucos têm paciência para cuidar da doidinha e sabem dominar seus furtos, seus ataques à despensa, castigando quando necessário. Provavelmente, a família organizara um rodízio entre os integrantes. Pela lógica, era o momento das merecidas férias da velha.
Num sábado à tarde, com um céu imprevisível, carregado de nuvens, fui caminhar em volta do Parque do Ingá. Sai de casa tão consternado, depois de estudar para uma prova de gramática, que esqueci de disparar o alarme e tive que voltar. Afinal, “Maringá é uma cidade violenta. E o roubado é o maior culpado em um roubo”, repetia minha mãe, em minha consciência.
Voltava lentamente, reparando em meus cadarços frouxos e flácidos, exatamente como meu pau era antes de Leonora ser onipresente em minhas aventuras eróticas. Frouxo sim, mas não morto. Temporariamente desativado, imaturo, infeliz.
O meu controle para abrir o portão ou acionar o alarme nunca funciona na primeira tentativa. É preciso um toque na parede, nas pernas, nas grades, é preciso ser agressivo. Enquanto eu tentava ressuscitar o aparelho, a velha começou lá do fundo, ameaçando sua vítima:
“Não saia daí, sua vagabunda! Você quer engatinhar? Você é cachorra por acaso?”
Quase arrebentei o controle na grade, o portão mal abriu, eu já corria para o fundo de casa. Leonora rosnava frases ininteligíveis, eu colava meu ouvido na parede. A velha ria baixinho. Puxei uma cadeira da mesa da cozinha e me pendurei no muro. De focinheira e vestidinho azul, prostrada, cadela faminta almoçando numa bacia amarela, em frente à velha, que achava tudo muito divertido.
“Cata a bolinha, cata!”, ordenou, arremessando uma bola de meia, atrás do tanque – prontamente devolvida aos pés da dona, que voltava a sorrir.
Quando notou meu olhar assustado, Leonora apontou em minha direção. Eu recuei, mas não soltei as mãos, evitando cair e fazer barulho. A velha enlouqueceu. Chutou a bacia com restos de arroz, feijão preto, salada, e exigiu respeito.
“Com qual dedo, sua sem vergonha?”
Os olhos castanhos me encontraram novamente. Desta vez, desviaram.
“Vou te ensinar a não apontar dedo. Eu te dou comida, te deixava passear e você me trata assim? Sua ingrata! Sua cadela! Você é uma cadela!”
Quando ela deixou o indicador ereto, a velha mudou de ideia. Sorrindo, que ela fosse para o quarto, como estava. Que ficasse esperando, porque já voltaria. Leonora engatinhou até a porta, olhou para a velha, abaixou a cabeça e seguiu.
A velha também entrou, mas saiu logo. Para minha sorte, pela porta da frente, deixando o portão aberto, como ela mesma condenava. Não vou negar que eu senti medo. Ela voltaria em breve, era promessa.
A sala não tinha televisão. Na parede, bem acima da mesa de refeições, um quadro do menino Jesus sorrindo no colo de Maria. Atravessando a sala, vi o corredor com as portas dos quartos. Era o do meio, tinha marcas de sangue até lá.
Leonora deitada nua, na cama, sozinha, ao notar minha presença, meu olhar deslumbrado, levantou-se calmamente, pôs os pés numa sandália de couro desgastado e andou em minha direção. Parou a dois metros, sem desviar os olhos azuis. Estávamos tão próximos, que pude ouvir seu coração bater fraco, sem harmonia. Meu pau estava rijo, sólido, seus olhos notaram o relevo na minha calça jeans. Esticou a mão esquerda – a mesma que minha mãe me estendia durante as orações –, e pude senti-la fria, enrugada, puro osso, acariciando meu corpo. Arcada dentária em colapso, eu tremia tanto, amedrontado, com as mãos encharcadas de suor, que o relevo desapareceu: Um pênis morto de medo.
Guiou-me até a janela cheia de grades do quarto, dando mais um passo para o meu lado. Desvencilhou sua mão da minha parte momentaneamente póstuma, e apontou para o céu vermelho e misterioso de Maringá:
“É chuva, vai molhar tudo lá, ó. Depois vem arco-íris.”
Fechou abruptamente a janela, após a previsão, e me levou até a entrada, indicando a minha casa. Naquela última noite, a surra foi tamanha que meus pais estranharam os gritos, as ameaças e os repetitivos pedidos de perdão, com uma voz baixa, que quase ninguém escutaria se estivesse conversando, com a família reunida.
“Essa velha é louca, deveríamos fazer alguma coisa”, aconselhou minha mãe.
Leonora morreu cerca de dois meses mais tarde, na cama, trajando o mesmo vestidinho azul. Quem viu, disse que morreu sorrindo, semblante em paz, alegre. A família fez um enterro simples, no Prever, na capela popular. Nós não fomos, mas meu pai enviou uma coroa de flores no nome da família. O laudo médico não indicou nada fora do comum.
Respeitando a jornada de trabalho de todos, ela morreu dormindo, na noite de sábado para domingo, não foi um estorvo para ninguém. A guarda do filho de Leonora, o Emanuel, ficou para a velha, que nunca mais foi vista no bairro. As contas para pagar estão acumuladas na caixa de correio, seu nome está no Serasa, os parentes tocam nossa campainha, confusos, em busca de explicações.
As garotas que eu conheci nesses meus trinta anos, interpretavam, na cama, oncinhas, estudantes, diabinhas, mas nenhuma delas topou encarnar o cachorro, de quatro, com uma bacia na frente, como eu sempre detalhava. A cor do vestidinho não importa, eu dizia, fica por sua conta, surpreenda-me, provoca-me. E quem disse que elas voltavam?
Abandonado, não há maior prazer do que enfiar um curto vestidinho, correr para o muro, de focinheira no rosto, e iniciar uma relação solitária, ali mesmo, correndo o risco de ser flagrado pelos pedestres, profanando a parede com o meu pau, segurando-o com a mesma mão que eu oferecia à minha mãe, durante as orações em volta da mesa de jantar. Bendito é o homem que, destemido, engravidou a doidinha, e permaneceu no anonimato para sempre.

4 comentários:

Rafael Zanatta disse...

Um dos teus melhores.

Muito sórdido, com riqueza na natureza podre que todos nós temos, consciente/revelado ou inconscientemente/escondido, em nosso ser.

Em especial, adorei o final. Li o conto inteiro com a voz de um adolescente na minha mente e no fim percebi que se tratava de um homem. Foi bacana a mudança.

Um abraço, sem pau duro (hahaha).

Ana Cláudia Covo disse...

Bom muito bom, me deixou bem chocada! auhuhauhauhauhauhhua

E o texto nem é tão grande assim, seu exagerado!
Mas volte a mudar de assunto \o/
uma bjoca :*

Wilame Prado disse...

Com este conto, você provou para mim, Gaioto, que sabe trabalhar em diferentes vertentes literárias. Até então, conhecia apenas aquele seu estilo mais enxuto de mandar as frase curtas e marcantes, cheirando poesia. Gosto muito do contão veio de guerra, com parágrafos e mais parágrafos, e descrições, enfim. Parabéns. Pensa em publicação já? Eu queria publicar, mas é foda né?

garanhaoselvagem14 disse...

porra Alexandre, muito bom esse conto!

abraço por trás