segunda-feira, 1 de junho de 2015

Bares, cervejas, poetas, pontapés é muita fé

Voltei de meu autoexílio parisiense no domingo passado. Desembarquei no aeroporto de Maringá, na calada da noite, e fui surpreendido por centenas de leitores, todos muito amáveis, empunhando faixas e buquês de flores, saudando meu regresso com selfies, beijos e abraços. Estavam lá Madalena Stocco, Graciele Gallé, Cristiano Martinez – rouco de tanto berrar "Gaioto, o nosso Hunter Thompson paranaense!" -, um tal de Ricardo e até mesmo o recluso milionário maringaense Juarez Arantes, que me ofereceu carona em seu confortável Del Rey preto. Os outros tantos nomes, infelizmente, não deu para guardar. Se retorno às tortas linhas, hoje no braços do povo, é só por causa de vocês.

Decidido a levar adiante o plano megalomaníaco de mitificação literária dos cantos maringaenses, resolvi inverter um pouco as coisas e dar um pulo em Sarandi, perambulando pela Avenida Maringá. Curioso: há uma homenagem a Maringá em Sarandi, mas não há Rua Sarandi nem Avenida Sarandi por aqui. Com suas vinte e poucas quadras, é a principal avenida de Sarandi. Impávida e colossal. Tão importante que, além dos comércios, casas e 367 bares, numa extremidade fica a Câmara dos Vereadores - à noite elegantemente iluminada por luzes azuis, verdes e amarelas - e, na outra, o Fórum Estadual. Mal chego na famigerada avenida, às cinco da tarde, corro logo para o primeiro bar - você me conhece bem, dentro deste peito afoito despertam mil e uma revoadas de pássaros bêbados. Entro no botecão: sertanejão de raiz berrando alto nas caixas de som, outra história de algum manso. Doze clientes, espalhados pelas mesas da calçada. Sento num canto, sozinho. Do meu lado, um sujeito gorducho e barbudo, metido numa camisa cavada e numa bermuda macilenta, refestela-se com cerveja geladinha – nos pés agigantados, o chinelinho não dá conta de tantos dedos. Ao seu lado, uma senhora magrela de quarenta e poucos anos, vestidão azul, sorriso banguelão e decotão para afogar as mágoas de um batalhão, berra suas desilusões amorosas.

"Aquele desgraçado arruinou minha vida."

"Bebe, amor, bebe."

"Com o João foi assim. Quase me picou inteirinha com facão desse tamanho..."

"Santo Deus."

"... só porque dei bafão no bailão. Daí foi em cana. Mais que merecido. Agora, livrinho, saiu para a vida e deu pra ficar me seguindo. Onde eu vou ele aparece, cheio de ódio."

"Bafão de cachaça, droga, sabe lá Deus o que mais."

"Sorte minha você aqui comigo."

Uma pampa branca, toda despedaçada, dá uma bruta freada na porta do boteco - não cheira à morte o fedor dos pneus? A mulher se assusta, olhão arregalado. O gorducho, ligeiro, mete a mão na cintura - caçando o velho canivete de guerra? Já de pé, no canto do bar, vou saindo de cena. Outro mau motorista, por sorte não o ex-presidiário maluco.

Na Avenida Maringá, nada de marcar bobeira. Ando vinte e poucos passos, entro noutro boteco – tão parecido, da nobre clientela à bendita trilha sonora, não seria o mesmo? Vou ancorando numa mesa da calçada. No cemitério de vasilhames, um cara diferente. Bebendo sozinho e rabiscando poemetos em guardanapos. Dalton (nome fictício) é bacharel em Letras, tem 27 anos, mora em Maringá e namora uma estudante de Sarandi. "Ela já tá chegando. Como não tenho chave da casa, dei um tempo aqui. Vai uma cerveja?", convida Dalton.

Já no primeiro gole, o bacharel em Letras revela-se um exímio contador de histórias. Baixinho e gorducho, narra tudo com mínimos detalhes. Conduz as cenas e os microcosmos controlando o suspense e a tensão, apropriando-se de verbos certeiros, sem tropeçar na adjetivação afetada. Escrever bem não é pensar bem? Eis o nosso bacharel-escritor, ligeiramente alcoolizado, contando suas aventuras em Sarandi.

Tiro, porrada e bomba
"A mãe da minha namorada berrava alto lá embaixo, na garagem da sobreloja, aqui na Avenida Maringá. Achei que era uma brincadeira, sei lá. Eu e minha namorada estávamos no topo da escada, levando um monte de compras. Às sete da noite, numa sexta-feira, tinha um monte de gente na rua, caminhão de lixo, ciclista, motorista, vi que não era brincadeira: quando me dei conta, tinha um negão, alto e forte, segurando a mãe da minha namorada contra a parede, prestes a esganá-la. E o portão continuava escancarado. Até hoje não sei como fiz aquilo. Eu tinha tomado uma e outra cerveja, é verdade. Daí soltei as compras e corri escada abaixo. Chegando numa altura boa, dei um pulo e carimbei meu All Star na boca do pelego. Foi uma bruta porrada. No chão, depois, tive certeza que eu tava lascado: porque o negão era bombadão e certamente ia me dar uma surra. Por sorte, ele levantou meio tonto. E passei a meter socos e pontapés, na bunda e nas costas e na cabeça e na boca do ladrão", vai contando Dalton, o nosso boêmio heroico. Olhos esbugalhados - já viu bom escritor sem? -, toma uma cerveja e continua a epopeia.

"Foi tudo muito rápido. Peguei o sujeito pela gola da camisa e, do nada, já tava jogando e chutando ele para fora da garagem. Bicho, você não acredita: cheguei na calçada e notei mais quatro negões do bando, prestes a invadir a casa", comenta, tomando outra golada de cerveja. "Como tava todo mundo surpreso e o sujeito tava todo arrebentado, fugiram correndo até entrar num carro vermelho. Espantei cinco bandidos de uma vez só", gaba-se, com razão, o nosso Dalton. Já estamos na segunda garrafa, e ele vai dizendo que, depois disso, fez questão de comprar um revólver. "Da próxima vez, não vai ser só o meu All Star marcando a cara do vagabundo", prevê, com uma boa risada.

Gostei do Dalton e parece que ele também foi com a minha cara. Exigimos outra cerveja de Litrão – a grande sede de viver. À vontade, Dalton conta que, antes de seu namoro, nunca havia perambulado por Sarandi. "Nem sabia que tinha uma Avenida Maringá, nessa cidade." Em três anos de convivência - com a cidade e sua digníssima -, o bacharel em Letras e metido a poeta se meteu em outra confusão. O local? A mesma Avenida Maringá, em frente a casa da amada.

"A gente tinha acabado de voltar do lançamento de livro de um amigo meu, em Maringá. Estávamos meio bêbados. Quando estacionei o carro, notei dois ciclistas se aproximando. Dois branquelos de boné. Um deles, é Gaioto, né?, o seu nome? Então, um deles, Gaioto, me encarou de uma forma muito estranha. Como traduzir? Dois olhos vermelhos sedentos pela morte. Daí os ciclistas pararam a uns cinquenta metros, no meio da Avenida Maringá, e nos encararam novamente. A rua tava vazia. Não tinha carro passando, nem gente nas calçadas. E minha namorada já estava do lado de fora do carro, abrindo o portão da garagem. Notei, então, que um deles se aproximava: magrelo e alto. Saí do carro, acionei o alarme, e minha namorada começou a dizer 'não deixe o carro aí, estacione aqui dentro na garagem', claro que não dava tempo para nada. Puxei ela com força para dentro da garagem, gritei que trancasse o portão, uma duas, três vezes, até que ela fechou. Por sorte, Gaioto, o portão fechou no mesmo momento em que o cara imbicava a bicicleta: foi o que nos salvou", relata, bebericando outro copão.

"Subimos na casa dela e, de lá, ouvimos os gritos de socorro. Voz de mulher. Minha namorada queria descer e abrir o portão e ver o que diabos acontecia na avenida. Claro que eu não deixei. E se são os dois sacanas? Como da janela a gente não via nada, ligamos para a polícia. Os gritos só pararam quando os dois ciclistas saíram pedalando tranquilamente pela rua. Uns poucos carros foram estacionando, os motoristas ligando para a ambulância. A polícia, lá debaixo, fez duas ou três perguntas. Depois, vi na TV, o serial killer de bicicleta esfaqueou uma mulher aleatoriamente no meio da rua. Não quis carteira, dinheiro, nada: o simples prazer de esfaquear alguém. A mulher morreu dias depois. Deixou família e filhos? Vai saber. Quando me dou conta de que poderia ter sido eu, Gaioto, é uma sensação bem assustadora", revela Dalton.

Já estamos ligeiramente alcoolizados. A noite vai chegando. Divido as cervejas com Dalton e sigo pela Avenida Maringá. Na Praça Ipiranga, uma morena de uns 14 anos, no máximo, passa por mim com shortinho jeans apertado, cabelo liso, blusinha curtinha exibindo barriga e decote, e grita para um grupo de amigos, reunidos num banco perto da igreja, "cadê o meu baseado, pô?!".

"Aqui na Praça da igreja, no meio da quadra de esportes, sempre tem uns índios. Tipo uma vez por ano. Mas é muito índio mesmo, uns quatrocentos. Fica todo mundo dormindo em rede, cabana, esquentando panela e cuidando das crianças", diz um empresário.

Da praça da igreja e dos índios sazonais, sigo para a Praça dos Três Poderes, bem iluminada e bonita a seu modo. "Essa praça tem muita história", dedura a empresária Irene Rinaldi. "Você sabia que, bem aqui, antigamente era um cemitério? Como a cidade cresceu e chegou até esse ponto, tiraram todos os mortos, um por um, e foram levando para outro canto. Por isso que a gente se acostumou a tropeçar em esqueleto de morto e pisar no cabelo de defunto", comenta, com uma boa gargalhada. É na praça dos Três Poderes que os naturebas mais dispostos se arriscam em esportes radicais, como a caminhada e a corrida diária. Quem não aguenta o tranco, tipo a diarista Ivanilda Sousa, 40, refocila-se num banquinho. "Só consegui uma volta, muita dor na coluna." Vinda de São Paulo, Ivanilda mora há duas décadas em Sarandi.

Pergunto, a quem passa, como seria a Avenida Maringá dos sonhos. "Cheia de boas padarias", sugere um empresário quarentão. "Com um shopping bem grande, com boliche e cinema", exige o jovem Natanael Eduardo, 12. "Repleta de bons bares", clama a estudante Mariene. Mas, rapidamente, todos nós caímos na realidade. E a realidade, vista assim, parece, para alguns, um tanto injusta. "Se em Sarandi tem a Avenida Maringá, porque em Maringá não tem uma Avenida Sarandi? Isso tá errado", reclama Carolina de Andrey, 20. "Seria bonito se Maringá desse pra gente essa homenagem, né?", sugere a diarista Ivanilda Sousa, 40.

Na esquina da praça, uma esfiharia ajeitadinha. Mesinhas de madeira e acepipes caprichados: Big Esfihas. Com torre de chope, porções, pizzas e, claro, sertanejo na trilha. "Confesso que não esperava um público tão grande. Apostei no diferencial e abri um bar ajeitadinho. Coloquei tudo o que aprendi, em 7 anos, numa esfiharia", comenta o empresário Jean Oliveira, 22. "Os moradores de Sarandi, por falta de opção, acabam gastando parte do salário em Maringá. Há muito espaço para investir aqui", avalia.

Saio da esfiharia. Passo por um igreja com fiéis bem à vontade, vestindo calça jeans e camiseta. Quarenta passos à frente surge outra igreja, com religiosos em trajes elegantes: todo mundo usando ternos sóbrios e vestidões longos, sem decote nem outras gracinhas. Calmo demais, vou em frente. Autoelétrica. Pizzaria. Cheiro da calabresa frita. Lanche do Baixinho. Loja de veículos. Farmácias. Casa do Norte. Quiosque de cachorrão. Borracheiro. Rações e aquários. Empório mineiro. Pássaros. Padaria. Dentista. De longe, escuto o barulho. Show de dupla sertaneja? Revival de Milionário & José Rico? Que nada. Outra igreja. Agitadona, essa, sim, eu me regalo. Na fachada, a foto agigantada de um pastor com chapéu de cowboy – como não entrar ali?

No meio do palco, um sujeito branquelo e careca parece possuído pelo sertanejo "universitário". Gorducho e suando um bocado, ele berra seu louvor no ritmo do arrocha. A letra da canção fala qualquer coisa sobre satanás e diabo, mandando as duas entidades demoníacas "para lá, para lá, para lá", ordena o pastor, enquanto bate pernas desengonçadamente de um lado para outro do palco, frenético, fazendo uma coreografia destrambelhada com as mãos, o eterno sorrisão escancarado nos grandes lábios. A igreja está lotada. Duzentos a trezentos fiéis. Velhos, crianças, moças, adultos, muitos chegaram e ainda chegam de bicicleta – dezenas acumuladas num canto. "Gente, quem entrou aqui chateado com a vida e agora tá mais feliz?", pergunta o pastor, enquanto os fiéis vão tomando lugar em cadeiras de plástico. "Olha, a gente tem que dançar mesmo. Porque o céu vai ser uma festa eterna. Isso aqui, minha gente, isso aqui é só o aquecimento. No céu vai ter muito mais", promete o sujeito, aos berros, iniciando outro arrocho celestial. Nessas horas, dou graças a Deus por ser ateu convicto e condenado, ai de mim, ao mais pérfido dos infernos do velho Dante.

Publicado no Diário (31/5/2015) 

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